Vinho, licores, aguardentes, gin e creme de whiskey são alguns dos produtos produzidos e comercializados na Fábrica de Licores Eduardo Ferreira & Filhos Lda., onde o produto com qualidade é o objetivo dos que ali trabalham e criam.

Entre os objetivos da empresa está a produção de mais plantas de café e também de cana-de-açúcar, para poder fazer-se frente aos desafios que se aproximam.

A Fábrica de Licores Eduardo Ferreira & Filhos Lda. foi fundada nos anos 90, mas o seu pai já tinha atividade e experiência com bebidas alcoólicas.

O meu pai era um dos maiores produtores de vinho aqui na Ribeira Grande. Quando vim dos Estados Unidos da América é que comecei com as aguardentes. Depois começámos a trabalhar com os licores.

Os licores é que deram o nome à fábrica.

Sim, ainda que primeiro tenha saído a aguardente Mulher do Capote, a origem da nossa empresa. Mais tarde começamos a criar condições para fabricar licores e aí começámos a trabalhar numa pequena fábrica em casa de meu pai. Mais tarde construí esta.

Como é que surgiu a compra dos licores do Ezequiel?

Nós já estávamos enraizados no mercado e já era sócio do Ezequiel. Na altura, os maiores acionistas chegaram à conclusão que seria uma boa ideia eu ficar com a fábrica porque aquilo não tinha viabilidade nos termos em que estava. Em qualquer negócio o patrão tem de perceber profundamente sobre o que faz e tem de dar o exemplo aos trabalhadores, acho que as coisas funcionam assim. Trabalhamos como uma família. Todos os licores são fabricados por mim e pelo meu filho, que é ‘co-expertise’ nos licores. Hoje em dia temos tecnologia que não tínhamos antigamente. Se antes trabalhávamos com panelas de 25 litros, hoje em dia trabalhamos com panelas de 2500 litros. A capacidade é diferente… as vendas são diferentes e a qualidade sempre a mesma.

É tudo feito numa maior escala.

Numa maior escala, mas mantendo a qualidade. Produzir mais não quer dizer que a qualidade seja inferior, pelo contrário. Com a tecnologia mais avançada, temos mais controlo de qualidade. Temos um engenheiro de controlo de qualidade que nos ajuda. Todos os lotes que fazemos aqui são controlados, nada sai sem ser analisado, todas as garrafas que entram no mercado têm um código industrial, o dia em que entra a fruta também é documentado… temos tudo documentado aqui. Não falha nada. Fazemos milhares de análises por ano. Somos muito cuidadosos com aquilo que produzimos e o resultado disso chama-se qualidade. O segredo da casa é esse: a qualidade. Há qualidade em tudo o que compramos. Por vezes as pessoas pensam que a fruta de menor qualidade é a que vai para a fábrica, mas não. O que é bom é que vai para a fábrica.

Há números relativos ao ano passado?

Para números teríamos que consultar os registos… O que lhe posso dizer é que temos um produto novo, o rum, grogue ou aguardente de cana, que é um produto bem apreciado pelos cabo-verdianos. Não só exportamos para o continente português, mas também por intermédio de um armazenista no continente, que exporta o nosso produto. Estamos a falar de um volume bastante engraçado. Posso dizer que só com este produto já atingimos uma forte parcela das nossas vendas totais. Agora com a introdução da cana-de-açúcar nos Açores, vamos duplicar a nossa produção (que é ainda pequena para o que pretendemos). O meu objetivo é, nos próximos anos, colocar os Açores como potencial produtor de cana-de-açúcar, podendo ultrapassar a Madeira nesta produção. Tudo isto trará mais riqueza para a Região e mais postos de trabalho.

Para isto acontecer é necessário que os Açores estejam em pé de igualdade perante as outras regiões ultraperiféricas da União Europeia. De realçar que as Martinica, Guadalupe, Canárias e Madeira têm apoios especiais que nos não temos. Por exemplo, meia tonelada de cana-de-açúcar no Brasil custa 30 euros. Aqui nos Açores custa 300 euros. Há apoios comunitários especiais para isso, mas ainda não temos nada. Ou seja, todo o investimento que estamos a fazer são verbas da Fábrica de Licores Eduardo Ferreira & Filhos, Lda.. Estamos numa situação bastante desfavorável comparando com outras ilhas ultraperiféricas.

O que é que produzem para consumo?

Há alguns anos a firma Ezequiel Moreira da Silva & Filhos é que introduziu o maracujá nos Açores. Em todos esses anos que passaram fomos seguindo a forma mais correta de produzir maracujá. Atualmente temos produtores que nos fornecem, mas também toda ela é controlada, além de que só trabalhamos com produtos açorianos. A única fruta que vem de fora é a ginja. Também podemos produzir ginja nos Açores, mas numa certa altitude. A pitanga, por exemplo, não é oriunda dos Açores. A origem da pitanga é o Brasil. No entanto lá a pitanga é um arbusto e nos Açores são árvores enormes. A pitanga dá-se melhor cá do que lá. Já temos mais de 100 árvores a produzir pitangas de primeira qualidade com o dobro ou triplo do tamanho. Este é um produto novo que vamos lançar no mercado em breve: licor de pitanga. Mas, atenção, essas frutas são 100% biológicas.

Isso também é importante para o turista.

Sim. Temos todo o gosto em receber todos os turistas e mesmo locais na nossa Fábrica, temos uma quinta com vários frutos para que os turistas possam ter uma experiência diferente, podem, por exemplo, ver uma plantação de café. Estou a falar de café de primeira qualidade, sem químicos também.

Para ter toda esta fábrica a trabalhar desta forma, com quantos trabalhadores conta?

Contamos com cerca de três dezenas de colaboradores.

Qual a altura em que há mais vendas?

Uma das alturas mais altas é o Natal. A altura do turismo também é bastante expressiva, temos aqui uma casa onde recebemos toda a gente de braços abertos e toda a gente fica impressionada com a qualidade e limpeza das nossas instalações. Todos os que saem daqui elogiam-nos.

Para além da aguardente e vinho, vieram muitos mais produtos.

O que nós fizemos foi acompanhar os tempos e apostar em inovação… havia o maracujá na firma do Ezequiel. Temos ananás, por que não produzir licor de ananás? Temos amoras silvestres, por que não produzir licor de amora? Fomos continuando e estamos sempre a criar novos produtos. Trabalhamos com uma gama enorme de produtos. Fomos os primeiros a criar o licor de leite, de arroz doce, por exemplo.

O gin Goshawk também já está muito bem inserido no mercado regional.

Sim, o produto em si é muito bom e os consumidores reconhecem.

E como surgem as geleias e os doces?

O que fazemos é rentabilizar o nosso pessoal o máximo possível, e temos trabalhadores de excelente qualidade. Não fazendo parte do nosso ‘core business’, temos apenas algumas referências para consumo limitado.

A cana do açúcar é um grande projeto que tem em mãos.

Eu não descobri nada. No século XV os Açores já eramos produtores de cana-de -açúcar. Desistiram porque os britânicos deixaram de nos comprar açúcar porque o nosso criava mofo da humidade, por isso foram para a Madeira. Na cana-de-açúcar, por exemplo, temos uma “maquineta” que se chama trapiche, destinada a esmagá-la. O máximo que pode esmagar são cinco ou seis canas de cada vez. Fiz questão de, nos primeiros anos, trabalhar com a máquina, de manhã até à noite, de modo a testar e tirar a prova dos nove.  Logicamente também já tive visitas das nossas autoridades que acham que a máquina é pequena. Mas é com aquela máquina pequena que tudo começou e iremos ganhar estrutura para poder investir numa máquina de meio milhão ou mais. Gosto de investir passo a passo, tendo a certeza.

Se já temos um mercado que existe, então vamos fazer um investimento a sério na cana-de-açúcar, e muita gente vai beneficiar com isso, incluindo os lavradores. Estou a investir em Cabo Verde, um país que passa por longos períodos sem chover. As vacas alimentam-se da cana do açúcar… não são tão gordas como as nossas, mas penso: se algum dia não chover nos Açores, devemos pensar em alternativas, e a cana do açúcar é uma boa alternativa. Não quero tirar proveito disso nem dos lavradores. Não estou a dizer que vou ser a solução de todos os lavradores, mas pode ser uma alternativa para ajudar muita gente… todos os lavradores que fornecerem a fábrica, a comida para o gado é de graça. Acredito que a aposta na cana-de açúcar será uma aposta ganha em várias vertentes.

É preciso investir nos Açores.

Sim, acredito nos Açores. Apesar de ter estado nos Estados Unidos muitos anos, sou um açoriano de gema e na nossa terra temos que querer. Ao longo dos anos tenho investido nos Açores e sinceramente acredito na cana-de-açúcar. Vamos fazer um rum açoriano de alta qualidade. Também temos uma vantagem… toda a fruta que se produz aqui tem um aroma diferente. A tangerina, o ananás, a anona… e a cana do açúcar! Por vezes recebo quem visita a fábrica e apareceu um senhor que queria provar o rum. Conversa puxa conversa, este senhor disse que trabalhava para uma destelaria de rum, e que aquele era um rum excecional.

Ouvir essas coisas dos clientes é bom.

Ficamos satisfeitos e radiantes com o trabalho que estamos a fazer. Recentemente tive cá o diretor do LCBO ([Liquor Control Board of Ontario], que são lojas de licores no Canadá). Na altura veio cá com a SDEA [Sociedade para o Desenvolvimento Empresarial dos Açores]. Quando cá veio, perguntei o que estava à procura, se era de qualidade ou de preço. Então disse-lhe que tinha um ‘Queen of the Islands’ superior ao ‘Baileys’ e ele riu-se. Eu disse-lhe que poderia ser o juiz. Levei-o para o bar e naquele dia tive quatro produtos aprovados para entrar no Canadá. Ele não fazia ideia do que isto era. Somos pequeninos mas somos bons. O segredo é o rico leite que produzimos na região.

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