OS RAPAZES DA RUA

As aventuras que não foram vividas nos tempos de infância e juventude por vezes aparecem oportunas em nossos sonhos algumas décadas depois. Por incrível que possa parecer, depois dos cinquenta anos de idade estas vivências tornam-se mais frequentes. Também não deixa de ser curioso o facto de que antes sonhávamos com o futuro, e agora com o passado. Já tentámos compreender a razão destas viagens no tempo, e a única explicação encontrada traduz-se numa só palavra: Saudade. Sim, o tal sentimento que só português sofre por gosto, sem se aperceber. A dor que umas vezes nos consola e outras nos faz sofrer; e que o fado, por mais que a cante nunca a poderá descrever completamente.

Vem isto a propósito de duas viagens noturnas realizadas na segunda semana de Novembro, das quais me lembro de ter percorrido, a pé, algumas ruas da Matriz da Ribeira Grande, com especial destaque para a Gonçalo Bezerra, que era aquela onde eu transitava pelo menos umas seis vezes por dia no auge da minha juventude.  Reconheci as casas e as pessoas adultas. Bons vizinhos. Não tenho, nem nunca terei, razão de queixa de nenhum deles. Mesmo recordando os famosos ajuntamentos de porta, em que as “comadres” cochichavam, e com a nossa aproximação as suas vozes iam baixando, calando-se completamente quando estávamos a passar mesmo à sua frente, voltando a subir o seu volume à maneira em que nos afastávamos. Nem bons-dias, nem boas-tardes, muito menos boas-noites. Rebeldia da minha parte? Sim, nesta altura eu teria idade compreendida entre 19 e 21, e confesso que sempre gostei de pagar com a mesma moeda, fazendo com que chegassem ao ponto de dizer que era um malcriado, e que não saía nem ao meu pai, nem ao meu irmão.

Dois anos de América, e um regresso em férias de quinze dias deu vontade de abraçar toda a gente, e de dar bons-dias quantas vezes fossem necessárias. Que se lixem as comadres fazendo enredos pelas portas. Felizmente, este costume parece desvanecido na atualidade, levando-nos a crer que agora as pessoas preocupam-se mais com a sua vida do que com a vida dos outros. Bom sinal! Além disso, a televisão tem mais canais, e o Santo Facebook é adorado e glorificado vinte e quatro horas por dia. A nova porta de enredos para quem gosta de os fazer.

Voltando às viagens noturnas, como ia dizendo, vi gente adulta, mas não me lembro de ter visto ninguém pela minha idade, porque eu entrei nesta aventura colocado nos meus dezasseis ou dezassete anos. Com tudo isso, ao recordar cenas em determinados espaços foram reveladas as feições dos amigos que comigo nelas participaram.

A verdade é que não há precisão nenhuma de fazer estas viagens noturnas ao passado. Porque não tenho remorsos de nada, e nada mudaria daquilo que fiz ou do que deixei de fazer. As memórias vivem comigo, e connosco mora a saudade.

Ainda no outro dia podíamos contar quantas viaturas automóveis passavam por dia pelas ruas Gonçalo Bezerra, São Vicente e Ponte Nova, se bem que eram classificadas como artérias primárias da Vila-Cidade.

Nos anos sessenta e primeiros de setenta estas ruas transbordavam rapaziada que sempre estava ocupada com as suas brincadeiras. Aonde havia galos não se metiam galinhas, e vice-versa. As raparigas brincavam à roda, ou à corda, e tinham mais outras brincadeiras, cantando bonitas canções tradicionais, sem se aperceber que faziam espetáculos de puro folclore.

Os rapazes, por sua vez, tinham os seus jogos e entretimentos seguindo o calendário anual. Havia a época do pião, a outra do pateiro, a do berlinde, etc. Além disso, tinham as brincadeiras de todo o ano, como as Apanhadas, a Cabra-Cega, as Escondidas, e muitas mais.

Não deixa de ser curioso o facto de termos conhecido e praticado os jogos que nasceram por influências americanas. Alguns chegaram à ilha pelos retornados da grande depressão dos finais da década de vinte do século passado, como é o caso do Jogo do  Queimado, ou Jogo dos Quatro Cantos, que mesmo com as alterações visíveis podemos ver que se trata de uma rebento do Basebol. O canto da loja do Mestre António Fona era um local privilegiado para este jogo, porque se tratava de um perfeito cruzamento, com cinco cantos, por causa do estreito da rua São Vicente. Porquê cinco cantos em vez de quatro? Porque cada equipa tinha cinco jogadores. Cinco recebiam a bola em cada uma das saídas do cruzamento, e um ficava no centro, com a responsabilidade de passar a bola ao lançador da outra equipa, e de apanhar com ela os adversários em deslocação de um canto para outro. Aqueles que os cantos corriam, sendo apanhados pela bola, ficavam “queimados”. Neste jogo, em vez de se usar um taco, a bola era lançada de soco, ou de palmada, podendo seguir qualquer direção, logo que fosse longe do centro, para dar mais tempo a percorrer os cinco cantos.

Outro jogo com influências americanas que muito se brincava era o “cá-móne”. Este veio dos filmes de cowboys, no tempo em que as mentalidades e os conhecimentos da época designavam de “ator” o personagem principal, ao passo que os outros, mesmo que fossem representantes da lei, eram os “assassinos”, não esquecendo a “rapariga”, porque as películas daquele tipo acabavam quase sempre desta forma: “o ator matou os assassinos todos, depois deu um ‘chupão’ na rapariga, e o filme acabou”. Entenda-se que “chupão” era sinónimo de um demorado beijo na boca.

Em alguns filmes o ator tinha amigos; e havia sempre aquela parte em que o ator e os amigos atacavam os assassinos. Entre os tiroteios as pessoas envolvidas escondiam-se para se protegerem das balas, ou para prepararem ciladas. O ator quando descobria um assassino escondido, apontava-lhe a pistola e dizia: “Come on!” – e daqui nasceu o jogo do “cá-móne”. Era a expressão que mais se ouvia nestes filmes, e também fácil de fixar. Antes das ondas Western já se brincava às escondidas. Por isso foi fácil juntar-lhe a caça-ao-homem do tipo faroeste. Esta brincadeira organizava-se em qualquer parte que tivesse obstáculos para as escondidas. Mas na ribeira, ali para os lados da Mãe d’Água, era como se estivéssemos fazendo um filme. Quem tinha pistola podia usá-la; quem não tinha, usava dois dedos (o médio e o indicador juntos). Formavam-se duas equipas e alternadamente uma atacava a outra. Quando se descobria um adversário dizia-se “cá-móne”, e aquele já era considerado um homem morto. Se o adversário (o assassino) era visto à distância, o “ator”, ou o “amigo” teria de acrescentar o nome dele quando lhe dizia “cá-móne”. Se o atingido não fosse identificado corretamente quem morria era o primeiro atirador. Belos tempos, em que os exercícios físicos e mentais brincavam de mãos dadas!

À lista destas brincadeiras dos rapazes da rua, por hoje  resta-me acrescentar mais uma. Sim, só mais uma por hoje, porque vejo esta caneta escorrer tanta tinta, e eu não tenho nenhum mata-borrão por perto. É de mau gosto, e está longe de ser inédita. Mas os rapazes da rua pensavam e faziam sem medir consequências. Na ribeira também brincávamos à pedrada, protegendo-nos detrás de pedras enormes, ouvindo pedrinhas zunir, perto da cabeça. Em regras gerais, o distanciamento entre atiradores e alvos era entre quinze e vinte e cinco metros, aproximadamente. Objetivo principal: rachar uma cabeça. Oh, esqueci-me que não posso dizer isso aqui! Queríamos dizer que o objetivo principal era “pisar” alguém. Por isso, mal alguém ficasse ferido a brincadeira acabava, e perdia o aleijado, ou a sua equipa.

Num certo dia a cambada de São Vicente e Ponte Nova decidiu ir à ribeira buscar pedras lisas para fazer guerra contra a cambada da rua do Moinho do Vale, que era liderada por um indivíduo grandalhão, de nome desconhecido mas alcunhado de “Adora”. Chegando ao campo de batalha fomos informados que o inimigo também estava bem armado, porque havia sido informado sobre o ataque. Assim, a guerra começou sem aviso de cornetas. Pedra para cá, pedra para lá. Cerca de uma dúzia de soldados de cada lado. Barulho, palavrões, pedras, pedrinhas, e no meio desta algazarra ouviu-se dois sons diferentes e simultâneos que não agradaram ninguém. Desgraça, meu Deus, duas vidraças partidas!…

A rua ficou completamente deserta em menos de cinco segundos. Todos desapareceram sem deixar rasto. Até hoje estamos por saber quem partiu os vidros de duas janelas de moradia na Rua da Salvação.

Mais tarde tivemos conhecimento de que houve envolvimento policial nos caso das vidraças partidas. Mas como tudo aconteceu num abrir e fechar de olhos, que até nem houve tempo para ninguém levar com uma pedra na cabeça, todos os rapazes eram culpados, e por isso ninguém abriu o bico. Foi uma guerra sem vencedores nem vencidos.

Continuaremos na próxima edição a lembrar os tempos felizes dos rapazes da rua. Rapazes da Rua, no bom sentido. Não haja comparação com os Filhos de Ninguém. Porque nas nossas ruas os rapazes para além de serem bons, eram também  filhos de boa gente. Porém, convém não esquecer que “o diabo nunca quis nada com eles”, e que eles (os rapazes) são “o poder do diabo”. Credo, em cruz! Salvo seja!…

 

 

Viva o sol e viva a lua,

E outros astros também.

Viva mais a minha rua

Só pelas “fémas” que tem.

 

Se passas na minha rua

Levas logo uma pedrada.

Mas se eu passar na tua

de lá trago namorada.