Inesperadamente, no início do ano, a Câmara Municipal de Gaia decidiu suspender a construção do Skate Park que estava numa fase avançada na orla marítima da freguesia de Canidelo, comunicando de imediato essa decisão ao empreiteiro. Ao que parece, a interrupção da obra teve a ver com a discordância quanto ao local escolhido pelo interior inquilino da Casa da Presidência para aquela estrutura desportiva, reclamada em 2024 por um movimento designado por Sk8Gaia, que lançou uma petição pública onde se solicitava a construção de um parque de Skate, já que, segundo o movimento, a autarquia não tinha “nenhuma estrutura com as mínimas condições para a pratica deste desporto”, o que levava “as crianças e os jovens a procurar, por eles próprios, locais alternativos”, apontando-se como exemplos “parques de estacionamento de hipermercados e fábricas abandonadas com destroços, espaços sem quaisquer apoios ou condições de segurança para a prática do Skate”.
A razão principal do desacordo quanto ao sítio escolhido para a construção daquela estrutura tem a ver com “dificuldades nos acessos e as perturbações que iriam ser provocadas aos moradores”, segundo alega o vice-presidente da autarquia, Firmino Pereira. E, por isso, “para não prejudicar o dia a dia de quem mora nas redondezas, está a avaliar-se outros cenários”, reforçando que a frente marítima é muito frequentada, com o principal pico a ser atingido na época balnear, pelo que a instalação daquele equipamento desportivo iria afetar o dia a dia dos residentes. Mas, ao que dizem, a verdadeira razão desta decisão deve-se fundamentalmente a protestos de alguns (poucos!) moradores. Mas, pergunto eu: será que a suspensão da obra estará a merecer uma cuidada análise jurídica e financeira?! Isto porque os trabalhos estavam adiantados e há “custos” relacionados com a obra, assim como os encargos do empreiteiro, o que poderá representar uma despesa próxima de 418 mil euros.
Será esta a melhor forma de gerir o erário público (pagar duas vezes o mesmo equipamento!)?! E será que a construção maciça e contínua que decorre naquela zona também não perturba o quotidiano dos residentes?! Ou será que um Skate Park, pensado para os jovens e para o espaço público, que funciona apenas no período diurno é que passa a ser um problema?! Porquê parar a obra se ela está quase pronta e pode ser uma mais-valia para a cidade?! Os parques de Skate desempenham um papel fundamental no desenvolvimento urbano e social moderno. Com o Skate consolidado como modalidade olímpica, em 2026, a sua capacidade de captar praticantes aumenta exponencialmente! E, por outro lado, os parques de Skate oferecem um espaço seguro para a prática de uma atividade física de alta intensidade, que melhora o equilíbrio, a coordenação motora e a resistência cardiovascular.
Ao contrário de desportos coletivos tradicionais, o Skate permite uma prática individualizada num ambiente social. Na verdade, estes espaços funcionam como centros comunitários ao ar livre. Eles reúnem pessoas de diferentes idades, origens socioeconómicas e géneros, promovendo a tolerância e o respeito mútuo. A cultura do Skate é, aliás, conhecida pelo apoio entre praticantes, onde veteranos frequentemente ensinam principiantes. A existência de parques apropriados reduz o conflito entre skaters e peões em zonas pedonais, jardins, praças ou monumentos. Ao fornecer infraestruturas dedicadas, as cidades protegem o património público e garantem que os praticantes não se expõem a perigos no trânsito automóvel. O Skate é uma atividade de “tentativa e erro”, aprendendo manobras que exigem persistência e superação do medo da queda. E este processo ajuda a desenvolver a resiliência mental e a autoconfiança, competências transferíveis para a vida académica e profissional.
O exercício físico não deve ser um luxo, devendo estar integrado no chão da cidade. E não só quando oferece passeios confortáveis, ciclovias seguras, parques acessíveis, zonas verdes com espaços de treino, perto de casa, mas também quando a cidade se transforma num ginásio ao ar livre. Ou, no caso concreto, quando transforma um espaço público da cidade num Parque de Skate! E este não é apenas “o” primeiro Skate Park de Gaia, uma antiga reivindicação de muitos jovens gaienses. Esta estrutura desportiva foi pensada para acolher outras valências, além das destinadas à prática do Skate, compreendendo também dois campos de Basket e um conjunto de equipamentos para o exercício físico, o que representa uma ótima forma de integração, sociabilização e dinamização da sociedade, que se regenera com jovens mentalmente saudáveis e felizes por se poderem expressar de forma livre em infraestruturas de qualidade sem correrem o perigo de se magoarem fisicamente.
Como seria de esperar, este assunto gerou, claro, mais um foco de polémica entre o vereador João Paulo Correia e o executivo municipal. Inconformado, o socialista opõe-se à mudança de local: “Quem visitar a obra concordará com a localização e perceberá que ela beneficia com as acessibilidades”, diz o vereador, que alude também aos possíveis custos que serão imputados à autarquia, na medida em que a construção já estava numa fase bastante adiantada, acreditando que a suspensão da obra poderá levar a indemnizações ao empreiteiro e uma eventual deslocalização implicará nova despesa, no mínimo, de igual valor: “Estamos perante uma decisão com custos elevados para a Câmara e impõe-se mais explicações do presidente, que continua obcecado em cortar, desmontar, eliminar e suspender”, diz o vereador socialista. E, neste caso, sublinho eu, “suspender” parece custar 418 mil euros!…


