Sempre que falamos de desportos mentais, nomeadamente de Policiário, a referência ao nome de Sete de Espadas é incontornável.

Os nossos leitores que só agora, ou muito recentemente, tomaram contacto com esta modalidade desconhecerão provavelmente a sua notável importância na divulgação e consolidação deste nosso passatempo, amplamente reconhecido como um veículo importante no estímulo da leitura e sua interpretação, no desenvolvimento do sentido de análise, do poder de síntese e do espírito observador.

Nascido na Chamusca, distrito de Santarém, em 1 de fevereiro de 1921, faz agora exatamente 97 anos, o Sete de Espadas, que também se assinava como Tharuga Lattas (apelidos de família), iniciou a sua atividade policiária, em 12 de Janeiro de 1947, como orientador de um espaço no Jornal de Sintra, com o título “Mistério e Aventura”, que ele definia em subtítulo como “secção policial”.

A última vez que estivemos com o Sete de Espadas foi há cerca de treze anos, no Fórum da Maia, num convívio organizado pela Tertúlia Policiária do Norte, onde foi homenageado com a Lupa de Honra, troféu com que aquela associação informal se propunha prestigiar anualmente um ilustre membro da família policiária nacional. Comovido, Sete de Espadas agradeceu a simpatia do reconhecimento e começou a desfiar as suas memórias, que nos levaram até aos seus nove anos de idade, altura em que entrou na escola.

Ficámos então a saber que concluiu o ensino primário em apenas dois anos e que quando entrou para o Liceu descobriu num livro policial o nome que adotaria como pseudónimo até aos fim dos seus dias: Sete de Espadas! E foi com esse nome que andou pelos mais variados jornais, revistas e livros, a promover o policiarismo, a literatura policial, o charadismo e as palavras cruzadas, ao longo de quase seis intensas décadas.

Durante todo esse tempo, cultivou amizades inabaláveis, formou e fidelizou leitores nas publicações onde colaborou, conquistou milhares de praticantes para o policiarismo, promoveu o gosto pela escrita e pela leitura junto dos jovens de diferentes gerações, estimulou contistas e romancistas, divulgou os melhores autores e ensaístas do género policial, acompanhou a par-e-passo a carreira de decifradores e produtores de enigmas policiais… ajudou a formar Homens! Nomes grandes da cultura, das artes, das letras, do desporto, da medicina, das forças armadas e… até da política. Alguns chegaram a ministro. Mas Sete de Espadas nunca os “denunciou”.

Se eles usavam pseudónimo, era esse o nome que contava – disse ele. Mas, talvez sem querer, deixou escapar a identidade de alguns policiaristas com posição de relevo na sociedade portuguesa, como Matos Maia (ilustre homem da rádio), Luís Filipe Costa (radialista, jornalista e realizador de cinema), Firmino Miguel (general do Exército e ministro da Defesa dos I e II Governos Provisórios e do I Governo Constitucional de pós-Revolução de 25 Abril de 1974.

Boa parte dos mais destacados praticantes do policiário iniciaram-se nas secções orientadas por Sete de Espadas e todos eles respeitam e honram o seu nome, considerando-o como o maior divulgador de sempre do desporto mental no nosso país. Mas não se pense, porém, que foi fácil o seu trabalho. Houve alturas em que desanimou. Cansou-se da modalidade, afastou-se por algum tempo e esteve dezassete anos sem ler nada… de policial. Mas não resistiu aos apelos dos amigos e ao “bichinho” do policiarismo e voltou com novo fôlego, ainda com mais vontade de ensinar… e de aprender com cada um de nós, sobretudo com os mais novos (sempre os mais novos – o seu universo preferido). E já que falamos nos mais novos, não podemos deixar de recordar os grandes convívios por ele organizados, onde era digno de ser visto o grande número de pais que chegavam junto do Sete de Espadas e lhe confiavam os seus filhos, como se confia a um avô. E eles lá ficavam, num são convívio, junto da tribo policiária.

São já poucos os policiaristas em atividade que acompanharam o Sete de Espadas nas grandes aventuras promovidas pelo Clube de Literatura Policial de boa memória ou nas secções por ele orientadas no jornal Camarada e no Cavaleiro Andante e em tantas outras insertas nas mais diversas publicações, durante os anos 1940/1960. Mas a esmagadora maioria dos atuais praticantes desta modalidade viveram, e jamais esquecerão, aquele que foi o marco decisivo na história do policiário no nosso país. Decorria então o ano de 1975, quando, no dia 13 de março, apareceu nas bancas, em todas as papelarias, quiosques e outros pontos de venda de jornais e revistas, mais uma edição do Mundo de Aventuras – uma revista de histórias aos quadradinhos –, que continha nas suas últimas páginas uma secção denominada “Mistério… Policiário”, assinada por Sete de Espadas. E foi a partir deste preciso momento que se gerou um novo impulso no crescimento desta nossa modalidade, envolvendo toda uma geração de jovens, alguns muito jovens, com menos de 12 anos, que geraram um movimento que nos trouxe até aos dias de hoje.

A partir daquele momento, a literatura policial conheceu uma grande e inusitada procura, traduzida na corrida desenfreada da malta mais nova às livrarias e alfarrabistas em busca dos grandes clássicos do género, o que acabaria por originar o surgimento de novos escritores nos escaparates. Ao mesmo tempo, os convívios policiários passaram a ter um número considerável de participantes, com a malta nova “nascida” da revista Mundo de Aventuras em franca confraternização com os “dinossauros” do policiarismo, tratando-se por pseudónimos escolhidos pelos próprios, com inspiração nas personagens da banda desenhada e da literatura policial ou construídos a partir dos nomes de batismo, nomes que muitas vezes ficavam desconhecidos entre todos. E no centro disto tudo estava um homem simpático de barbas brancas e cabelo ralo, com um sorriso permanente nos lábios: o Sete de Espadas. Ele partiu no dia 10 de dezembro de 2008, deixando uma eterna saudade nos que com ele cresceram… e tentam agora continuar a sua obra.

CONCURSO DE ENIGMAS POLICIAIS

Para além do próximo torneio de decifração, de que daremos notícia numa das próximas edições, informamos que está já em andamento a nossa mais jovem iniciativa: “Mãos à Escrita!” – um concurso de produção de enigmas policiários, aberto a todos os que se queiram “aventurar” na escrita deste género de ficção, sem temática definida, tendo apenas como condição o limite máximo da dimensão do enunciado (duas páginas A4, com o tipo de letra Times New Roman, corpo de letra 12 e espaçamento de 1,5 linhas).

Os textos concorrentes, que terão de ser enviados por e-mail, para o endereço salvadorpereirasantos@hotmail.com, devem incluir a respetiva solução (com o máximo de página e meia A4, com o mesmo espaçamento e idêntico tipo e corpo de letra). O regulamento deste concurso será publicado na próxima edição.

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