“Portugal não será o Chile de Europa”, era a frase que a seguir ao 25 de abril de 1974, se encontrava pintada/grafitada nas paredes do país. Afortunadamente Portugal não foi o Chile de Europa apesar dos carluccis e os kissingers (em letra minúscula ambos) vagar como abutres o processo revolucionário, um dos mais importantes momentos históricos do Portugal moderno!
Não são necessários cartazes/outdoors de dimensões gigantescas para anunciar que Portugal não será o Bangladesh, nem a India, nem o Paquistão…as alusões a estes países, com os quais Portugal mantêm relações diplomáticas (**), envergonham o País e os portugueses…provavelmente o sr. chega, não consegue dormir, e para conciliar o sono, decide contar um, dois, três ou mais salazares…
Na morte de pessoas ilustres.
A morte do Dr. Pinto Balsemão, amplamente destacada na imprensa e com as respetivas homenagens – que não discutimos – ofuscou, sem duvida a partida de um outro homem ilustre e exemplar, o Dr. Álvaro Laborinho Lúcio (1941-2025). Tive sempre por ele um profundo respeito e admiração, nunca julgando que um dia estaríamos juntos num coloquio, debatendo Teatro e Justiça, no auditório da Junta de Paranhos.
Foi no ano de 2007; os meus alunos finalistas de teatro da ESAP/Escola Superior Artística do Porto, haviam encenado comigo uma versão de um pequeno relato de Bertolt Brecht (1889- 1956), O Circulo de Giz de Ausburgo, relato que se encontra nas Histórias de Almanaque (***), a esse relato, juntei diálogos da peça O Circulo de Giz Caucasiano, peça extensa que explora o mesmo tema central do relato; a quem pertencem as coisas?
No final da representação realizamos um colóquio com participação do público e, me surpreendeu, o muito que o Dr. Laborinho Lúcio, sabia de teatro, de Brecht e particularmente daquilo que chamamos, o Teatro Épico. Foi interessante a forma na qual analisou a minha encenação, destacando os momentos épicos da representação. Mais tarde, numa viagem na Ponta Delgada/Açores, voltei-me a cruzar com ele na residência, eu estava realizando um pequeno seminário sobre teatro, e há poucos meses antes da sua morte nos voltamos a encontrar no Teatro Carlos Alberto/Porto. Julgo que muito de nós não sabíamos do seu estado de saúde.
Destaco aqui fragmentos de uma entrevista para o DN- 2/setembro/2019-na qual Laborinho Lúcio confessa a sua paixão pelo teatro, vale a pena ler na íntegra; O que lhe despertou tanto a atenção para desistir da diplomacia?
O cinema, o teatro e a justiça começam a interessar-me, mas a justiça no seu todo – até o lado espetacular da justiça. Eu gostava sobretudo de estudar teatro.
Como é que se interessa pelo estudo de teatro?
Acabei por repetir um ano, para poder ter os exames para entrar em Direito e nessa altura já estava em Coimbra. Começava-se a discutir a figura do encenador, se não seria ele o verdadeiro artista, diminuindo a importância do ator. Havia um grupo de teatro em Coimbra – o CITAC – que já fazia muito teatro moderno e isso foi um grande deslumbramento para mim. Aliás, o meu desejo tinha sido ter ido para o teatro, mas acabei por ir para a justiça porque, apesar de tudo, era mais seguro e a família também ficava mais tranquila. “A partir do momento em que o juiz diz ‘acabou o julgamento, agora vou refletir’, é solidão brutal”
Nas palavras de Sónia Ramos (ex-Deputada do PSD, Autarca em Estremoz):
Laborinho Lúcio. Perdemos um Homem bom. Um Homem raro.
Também partiu o meu vizinho geográfico Adolfo Gutkin (1936-2025) (*v), argentino, teatrista, encenador, dramaturgo e docente, a sua presença em Portugal antes do 25 de Abril foi fundamental nos grupos nos quais participou como encenador e criador teatral.
Faz e desfaz…
A ciclovia da avenida da República de Gaia, inaugurada em agosto de 2024…já foi abaixo, o novo autarca decidiu elimina-la…independentemente das razões, dos prós e contra…pergunto onde está a responsabilidade autárquica dos gastos públicos?
Paradoxalmente no Dia das Bruxas, o ex-PR. Cavaco Silva se reúne com a sua equipa ministerial…tem piada, poucas saudades temos deste senhor. Oxalá que a reforma – preocupado como ele estava- tenha chegado para pagar a despesa!
Notas: (*) frase curta e apelativa, muito usada em publicidade ou propaganda política; palavra de ordem- Do inglês slogan.
(**) se as relações diplomáticas com o Bangladesh, são recentes, no entanto, é necessário analisar a história desde a ida de Vasco de Gama (séc. XV), que abriu caminho a esses territórios. As relações diplomáticas com o Paquistão já cumpriram 75 anos e o restabelecimento com a India foi há 50 anos!
(***) Adolfo Gutkin- Em 1969 resolve viajar para Lisboa, aceitando o convite para dirigir nesse ano o Cénico de Direito, o grupo de teatro da Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa. Aí encenou Volpone, de Ben Johnson (1572-1637), obtendo o Prémio da Associação Portuguesa de Críticos de Teatro e o Prémio da Casa da Imprensa. Nesse ano, de regresso a Buenos Aires, põe em cena uma nova versão de Cemitério de Automóveis, de Fernando Arrabal, no Teatro IFT e no Teatro Solis de Montevideu. (Wikipedia)
(*v) Os textos incluídos por Bertolt Brecht, em “Histórias de almanaque”, foram escritos ao longo de muitos anos e dão, a princípio, dão a impressão de uma heterogeneidade irredutível: poemas, narrativas que têm como protagonistas figuras históricas (Giordano Bruno, Francis Bacon, César ou Sócrates), relatos que se desenrolam em tempos remotos (a Guerra dos Trinta Anos) ou na idade contemporânea (os últimos combates da Segunda Guerra Mundial), aforismos e provérbios (como os expressos pelo senhor Keuner), etc. No entanto, um motivo central confere unidade e coerência ao volume: o comportamento dos personagens e as situações dramáticas servem de veículo para o ensinamento moral, a destruição de mitos, a crítica de preconceitos e a iluminação de áreas obscuras da história e da sociedade humanas. Historias de almanaque | Amazon.com.br
– Álvaro José Brilhante Laborinho Lúcio (Nazaré- 1941– Coimbra – 2025), foi um jurista, professor universitário, secretário de estado e ministro da Justiça, deputado à Assembleia da República e escritor português. Na juventude, Laborinho Lúcio foi ator amador, tendo participado na criação do Grupo de Teatro da Nazaré. (wikipedia)


