A Taberninha do Manel localiza-se na zona ribeirinha de Vila Nova de Gaia e é conhecida pelos seus inúmeros petiscos. Manuel Carvalho, o proprietário, conversou com AUDIÊNCIA sobre os seus sonhos e sobre a essência deste restaurante.

 

Manuel Carvalho, pode falar-me um pouco sobre o seu percurso de vida?
O meu percurso de vida não foi fácil. Eu e os meus irmãos fomos criados sem pai e foi uma vida dura. Reconheço que foi bom, porque foi uma aprendizagem ao longo da minha vida, mas sempre com muita dificuldade. Contudo, felizmente as coisas mudaram de uma forma incrível e isso deve-se também ao facto de estarmos no bom caminho, a nível de trabalho, por causa do turismo, mas é preciso continuar nesta senda do êxito.

 

Qual é a história da Taberninha do Manel?
A ideia para a Taberninha surgiu depois de eu ter tido uma experiência, que foi uma aprendizagem, com dois sócios, sendo que ao fim de seis meses fui encostado à parede e ou ficava ou largava. A casa em questão era mais pequena do que esta e estava localizada num centro comercial, mas foi sempre uma casa que teve muito sucesso. Aliás, se eu abro uma casa é para trabalhar e é para ganhar dinheiro, pois no fundo é isso o que procuramos, porque nós temos de ter qualidade de vida, mas para termos qualidade de vida temos de trabalhar, temos de trabalhar muito e mais do que os outros. O restaurante era a Taberninha 3 e eu achei que a Taberninha era um bom ponto de referência para ser a Taberninha do Manel eu achei que era mais pessoal. Eu abri as portas da Taberninha do Manel há 32 anos e a minha vida nessa altura deu um salto qualitativo, porque eu imaginava que este local era um sítio com futuro ao nível do turismo. Posso dizer-lhe que foi um trabalho árduo, porque houve muitos investimentos e o dinheiro também não era muito, mas valeu a pena e passados estes anos estamos satisfeitos e felizes com a viragem que se deu na minha vida e dos meus. Como sabe a Taberninha do Manel mudou, agora temos um primeiro andar e ampliamos o espaço, que por si só já é pequeno e já estamos com muita dificuldade e já não temos capacidade de resposta. Eu digo isto muitas vezes e acredito que este ano vai ser melhor e que para o ano também vai ser. Eu acho que, neste momento, a Taberninha do Manel é uma marca.

 

O que distingue esta Taberninha de tantas outras?
A Taberninha do Manel é muito pessoal e tem o nosso cunho. Taberninhas e Restaurantes há muitos, mas a minha Taberninha é diferente, na medida em que tem o nosso cunho pessoal, porque nós temos prazer naquilo que fazemos e ao termos prazer naquilo que fazemos inevitavelmente vamos ter êxito e é essa a base da sustentabilidade. Eu sempre tive a casa cheia e posso dizer-lhe que cheguei de férias há sensivelmente uma semana e já estou completamente esgotado, eu já não tenho capacidade para estar aqui, eu gosto, mas já é uma grande empresa e quer queiramos quer não, isto não mata, mas magoa, tanto que está provado cientificamente pela Universidade de Ponta Delgada, que eu adoro, que as pessoas que trabalham na área da restauração têm mais probabilidade de alcançar um estado de esgotamento, e eu, neste momento, estou esgotado.

 

Tomei conhecimento que já não é o Manuel que está à frente da Taberninha, a que se deve esta mudança?
Neste momento é o meu filho, André Carvalho, que está a tomar conta da Taberninha do Manel. O André tem todo o vínculo ao pai, tem conhecimentos e aperfeiçoou-os em Manhattan, em Nova Iorque, onde não se brinca. Eu daqui a nada tenho 70 anos e esta casa tem muita gente, tem muitos funcionários e trabalha sob pressão, pelo que já não há capacidade. Não existem pessoas qualificadas e o meu grande problema é esse. Eu acho que as pessoas não sabem o que é o turismo e quais são as suas exigências. O meu filho também anda aí esgotado, eu reconheço que também é muita carga para ele, e eu digo muitas vezes que o dinheiro não é tudo na vida e eu neste momento quero paz e sossego. O André é realmente o elo de ligação entre mim e a Taberninha e dá a cara por tudo, tal como eu, mas continuamos a ter um problema grave, não há pessoal, nem a pagar bem.

 

A Taberninha do Manel mantém vivas as tradições e os petiscos do Norte. Quais são as especialidades deste estabelecimento?
Os petiscos do Norte são as especialidades da Taberninha, como por exemplo, os salgados, como os rissóis e os bolinhos de bacalhau, os rojões, o bacalhau com natas, o Bacalhau à Brás, as saladas, o pica pau, o chouriço assado, a francesinha, os camarões, o costeletão, o polvo e o presunto de porco preto com cura de 26 meses. Nós temos uma série incrível de produtos diferentes que não se encontram noutros locais e alguns dos nossos pratos são servidos com carnes nobres, com carne baronesa e com carnes maturadas, que são muito mais caras, mas são muito melhores, porque sabem verdadeiramente a carne. Portanto, nós temos um leque enorme de produtos de qualidade e procuramos ser diferentes. A Taberninha do Manel prima pela qualidade e pelo bom atendimento, estas são algumas das coisas que a distinguem. Eu tenho de admitir que às vezes gostava de fazer um prato com uma mescla de produtos, mas o meu filho não me deixa porque iria fugir à gastronomia portuguesa. No que respeita o turismo, eu posso dizer-lhe que temos tido grupos todos os dias e que já não reservamos mesas porque não temos capacidade de resposta e já temos aproximadamente 150 lugares.

 

 

A Taberninha do Manel recebeu o Troféu Gastronomia & Lazer 2017, na XIII Gala AUDIÊNCIA. O que significou este prémio?
Eu fiquei bastante surpreendido. Toda a gente sabia que o Manel ia ser premiado, menos eu. Quando eu estava na plateia e fui arrastado por várias pessoas para ir ao palco, porque não me apetecia ir, uma vez que estava cansado por ter chegado há pouco tempo de São Tomé e Príncipe. Confesso que fiquei admirado e pasmado quando subi ao palco do Teatro Ribeiragrandense e que não sabia o que dizer. Todavia eu fiquei muito feliz, fiquei muito satisfeito e foi, para mim, um prazer enorme receber este prémio.

 

O Manuel tem-se dedicado ao colecionismo, quer falar-me um pouco sobre isso?
Eu comecei a dedicar-me ao colecionismo há cerca de dois meses, mas durante um mês estive parado, porque estive de férias. Mas fui vendo na internet locais que conheço e feiras e a verdade é que estou a comprar tudo. Eu neste momento não tenho capacidade para guardar tantas coisas. Eu tenho adquirido coisas incríveis, tais como mobília; máquinas de escrever antiquíssimas, com mais de 100 anos, que são autênticas relíquias; e rádios antigos, entre outros. Eu vou dizer-lhe, em primeira mão, que vou montar dois hostels de alta qualidade, um à beira rio e outro em General Torres. Neste momento estou apenas à espera da licença da Câmara Municipal de Gaia, o que demorou muito devido à situação arqueológica. Por conseguinte, mais tarde ou mais cedo vamos começar a erguer as coisas. Acontece que eu estou a comprar mobiliário de acordo com a história do local, uma vez que o meu objetivo é colocar coisas antigas nos apartamentos, desde frigoríficos a objetos antigos. Eu acho importante a existência de um equilíbrio de cores e de mobiliário, e é isso que eu e as outras pessoas que estão no projeto procuramos alcançar. Eu posso revelar que já colecionei autênticas fortunas e que tenho muitos objetos da época romântica, à qual eu acho muita piada, principalmente mesinhas de cabeceira. Os apartamentos que nós temos estão credenciados com pessoas que estão ligadas a esse setor e que são responsáveis pela limpeza, pela manutenção e por fazerem a gerência dos apartamentos, portanto posteriormente será uma pessoa só propositadamente para isso.

 

Quais são os seus sonhos?
O meu sonho é ter uma casa de artesanato, eu não tenho nenhum curso nem qualquer conhecimento de antiguidades, isso foi algo que eu adquiri. E as antiguidades devem ser adquiridas com sensibilidade. Nós vamos vendo as coisas e vamo-nos tornando conhecedores através do diálogo e hoje estou preparado, se me apetecer, porque é muito subjetivo o que eu quero fazer. Eu comprei uma quintinha em Ponte de Lima, mas preferia ter algo mais perto. O sonho comanda a vida e eu quero ter uma quinta, um cavalo, umas galinhas, uns porcos, porque eu acho que isso também é um equilíbrio para o nosso organismo, mas também quero dedicar-me a outras coisas e passear.

 

Quais são as perspetivas para o futuro? Vai haver uma expansão da Taberninha do Manel?
O edifício que vai ser de turismo local tem um restaurante no rés-do-chão e eu vou comprá-lo ao meu cunhado. Nós já não temos capacidade de gerir isto, porque temos demasiados clientes e às vezes temos filas de espera de 1 hora e a minha ideia é depois explorar ou dar este espaço à exploração, com outro nome, não Taberninha do Manel e num setor diferente, porque tem de ser algo diferente, o problema é que não existem pessoas qualificadas.

 

BI:
Manuel Carvalho tem 68 anos, é natural da cidade do Porto e fundou a Taberninha do Manel há 32 anos. Este restaurante, que atualmente emprega cerca de 22 funcionários, começou por ser um local que servia petiscos, mas ao longo do tempo foi-se modernizando sem perder a essência do Norte e da gastronomia portuguesa.
Social Media Auto Publish Powered By : XYZScripts.com