Sempre que passo na gaiense rua Luís de Camões não consigo evitar que os meus olhos se fixem na grande janela que fica por cima da porta principal da Casa-Ateliê de Soares dos Reis. E tal como eu quase todas as pessoas que por lá passam ficam chocadas com o estado de degradação do imóvel.

Mas a maioria desconhece a dimensão da sua história. Não existe sequer uma lápide, uma simples placa que diga que foi ali que o Escultor idealizou e produziu muitas das suas grandes obras, que ali viveu os últimos anos da sua vida e que ali se suicidou, cansado de incompreensão, perseguição e infortúnio. Dois tiros de revólver na cabeça puseram fim à sua existência. Deixou uma frase escrita numa das paredes: “Sou cristão. Porém, nestas condições, a vida para mim é insuportável. Peço perdão a quem ofendi injustamente, mas não perdoo a quem me fez mal”.

Nasceu em Gaia a 14 de Outubro de 1847, faz agora exatamente 170 anos. Deram-lhe o nome de António, como o Santo de Lisboa (seu protetor). O pai tinha uma mercearia e cedo António Soares dos Reis se fez marçano. Mas o rapaz vivia noutro mundo, no universo dos sonhos, onde se constroem as coisas do belo e do espírito. O papel de embrulho das vendas servia para fazer desenhos. Os clientes e os objetos que o rodeavam eram os seus modelos. Passado algum tempo, já não bastava o desenho. Com um canivete e pedaços de madeira fazia bonecos. Ainda não chegava! O miúdo pegou então em bocados de barro que sobravam da vizinha Fábrica da Torrinha e passou a moldar pequenas obras, que cozia ao sol, no quintal da sua casa.

Um cliente da loja do pai de Soares dos Reis reparou no talento do rapaz e falou dele a Francisco de Resende, um seu amigo, professor de Belas Artes. Não havia lugar para dúvidas, o miúdo do merceeiro era um artista em potência, um verdadeiro diamante a lapidar em local próprio: a Escola! Aos 14 anos, o futuro artista matriculava-se na Academia Portuense de Belas Artes e concluiria a sua formação cinco anos depois, obtendo o 1º prémio em Pintura, Arquitetura e Escultura, no trabalho de final de Curso, com a “estátua Viriato”.

Nessa altura ainda assinava como António Soares. No ano seguinte candidatou-se a bolseiro da Escola Imperial e Especial de Belas Artes de Paris. Prova superada! A cidade luz passou a ser o seu berço de crescimento artístico.

Começavam a nascer as suas grandes obras: o “busto Firmino” e o “baixo-relevo Mercúrio adormecendo Argos ao som duma flauta”, são esculturas construídas durante a sua estada em Paris. Segundo ele, a melhor forma de aprender é saber ver. Por isso, não sossega. Depois de terras de França, o seu destino foi Roma, onde encontrou Simões de Almeida e frequentou o ateliê de G. Monteverde. Foi aí que começou a produzir uma das suas mais emblemáticas obras: “Desterrado”. Estávamos em 1871 e Soares dos Reis afirmava-se já como um dos mais prometedores Escultores europeus. Viajou por toda a Itália, voltou a Paris e seguiu depois até Londres. Em 1872 regressou a Portugal, onde começou por executar o “Cristo Morto” para a Igreja de Mafamude.

A cidade do Porto era laboriosa, produtiva. A burguesia portuense tinha dinheiro. Precisava também do lazer, como acontecia em Lisboa e nas grandes cidades europeias. Tinham acabado de ser criadas a Associação Industrial Portuense, a Associação Comercial, o Clube Portuense, a Assembleia Portuense. E as artes? Soares dos Reis achou que era preciso fazer qualquer coisa, agitar a cidade, levar ao conhecimento de todos o que se fazia no domínio das artes. O Porto tinha de ter algo que dignificasse a cultura, onde se discutissem ideias, se conjugassem interesses. Em 1880 foi criado o Centro Artístico Portuense, com o objetivo primeiro de divulgar o desenvolvimento das Belas Artes. Soares dos Reis estava na primeira linha do movimento.

Nesse mesmo ano Soares dos Reis foi admitido como professor na Academia de Belas Artes do Porto, vencendo as provas do concurso com a “academia Narciso” e o “baixo-relevo Morte de Adónis”. Entretanto, não parara de trabalhar. Em 1875 havia modelado a “figura Saudade”. Em 1876 modelara a “estátua do Conde Ferreira” destinada à campa daquele benemérito. Em 1878 recebera com orgulho a notícia da atribuição de uma menção honrosa na Exposição Universal de Paris, onde participara com “O Artista na Infância” e o “busto Domingos de Almeida Ribeiro”. Em 1887 conclui o “monumento a D. Afonso Henriques” e assiste à inauguração do seu “monumento a Brotero”. Em 1888 executa o célebre “busto de senhora inglesa”, que viria a ser recusado pela retratada.

Em 1881 o “Desterrado” participa na Exposição de Madrid. O sucesso é grande. Soares dos Reis conquista o 1º prémio do certame e é agraciado com o Grau de Cavaleiro da ordem de Carlos III. Foi o próprio Rei Afonso XII a condecorá-lo. Algum tempo depois virão as invejas, as maledicências, as calúnias, as intrigas, as ofensas. O Escultor sente-se como que deportado no seu próprio país e refugia-se no seu Ateliê da rua Luís de Camões, em Gaia, onde trabalha e vive. As encomendas sucedem-se e o seu talento é cada vez mais reconhecido internacionalmente, mas o Escultor não se sentia feliz. Adoeceu. As traições iam-no matando aos poucos. Trabalhava no “busto de Fontes Pereira de Melo” quando se suicidou. Tinha apenas 42 anos.

É toda esta riqueza histórica, e muito mais, que se esconde por entre as paredes da Casa-Ateliê de Soares dos Reis, hoje completamente votada ao abandono e à degradação.

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