O acordo comercial abrangente entre União Europeia e Estados Unidos foi anunciado há poucos dias e no nessencial representa o pagamento de uma tarifa de 15% na maioria dos produtos, ou seja, metade da ameaça de Donald Trump que tinha avisado que as importações vindas da União chegariam aos 30%.
Esta mudança de atitude ocasionou grande satisfação a Ursula von der Leyen, contrastando, no entanto, com a reacção negativa da sua colega Sabine Weyand, especialista nesta matéria de negociações.
Com efeito, estamos perante um facto inédito, dado que a União Europeia nunca tinha aceitado assinar um acordo comercial com os Estados Unidos que visasse aumentar tarifas para as exportações europeias, em vez de reduzi-las.
Aliás, o próprio Financial Times refere que a União Europeia cedeu ao «rolo compressor» do presidente norte americano se tivermos em conta que até então os produtos europeus eram taxados em média por 1,4% e houve até negociações anteriores acaloradas em que a UE chegou a aceitar uma proposta de 10%, a qual ficou sem efeito.
Os responsáveis europeus estariam a ter uma abordagem com base no primeiro mandato de Trump como presidente, caracterizada por etapas mais espaçadas e menos arriscadas, mas agora Donald Trump esteve diferente neste capítulo e agiu mais rapidamente em antecipação, ao ponto de em Março já ter anunciado que iria aplicar 25 % de tarifas em aço, alumínio e automóveis.
Em suma e continuando na óptica do Financial Times, em Bruxelas pode haver do lado europeu alívio por evitar a guerra comercial, mas arrependimento por não se ter tomado uma posição mais firme desde o início, exemplo da China e Canadá que responderam em uníssono em contraste com a União Europeia em que 27 países terão atitudes e visões diferentes, acrescido o facto de não se saber ainda se o acordo é multilateral, se deverá ser aprovado por todos os países e qual será a sua fórmula jurídica.
No sector energético, por exemplo, há muitas dúvidas, pois a Comissão Europeia anuncia que vai importar petróleo, gás e carvão dos EUA por 650 mil milhões de euros, mas as instituições do sector perguntam como é que isso vai ser implementado, até porque principalmente o gás, por ser liquefeito, irá ficar muito mais caro.
Mas também houve críticas públicas, tais como, «É um dia sombrio para a Europa aquele em que uma aliança de povos livres, reunidos para afirmar os seus valores e defender os seus interesses, se resigna à submissão», avisou o primeiro-ministro de França, François Bayrou, também o sector energético na Alemanha ficou surpreendido, «Estamos completamente sem palavras», afirmou fonte de um grande grupo de energia alemã, no jornal Handelsblatt e Viktor Orbán, primeiro-ministro da Hungria, emitiu a reacção mais mediática ao afirmar «Não foi Donald Trump que concluiu um acordo com Ursula von der Leyen, foi Donald Trump que enguliu Ursula von der Leyen ao pequeno-almoço».
Podemos concluir pelo exposto, que a União Europeia sofreu uma derrota humilhante e paralisante, aliás, como sempre acontece com os vassalos europeus dos Estados Unidos, mas esta derrota é ainda estranha, por não ser infligida por um inimigo, mas sim por um «aliado» que vai ganhar 1,35 mil milhões de dólares, 600 mil milhões de investimento das empresas europeias nos Estados Unidos e 750 mil milhões de dólares de GNL, gás natural liquefeito norte americano de produção muito mais cara que as referidas empresas comprarão para alimentar o que sobrar da indústria europeia.
Por outro lado, Donald Trump faz mais uma vez concessões à China, a qual, como País soberano e potência económica, seguiu aquilo em que a União Europeia falhou completamente, ou seja, ripostar à tirania de Washington, levando portanto o comum dos mortais a pensar o que a União Europeia poderia ter conseguido se tivesse colaborado com a China para conter a agressão comercial norte americana.
Pelo contrário, a recente cimeira China-União Europeia realizada em Pequim mostrou que a liderança europeia ainda não está pronta para abandonar a sua atitude arrogante de assediar e ameaçar a China, talvez numa tentativa vã de semear discórdia entre Pequim e Moscovo.
O absurdo de tudo isto é no mínimo surpreendente, pois mesmo admitindo que existam discórdias quanto a pormenores do acordo entre a equipa de Trump e a equipa de von der Leyen, dois egocêntricos e narcisistas, ninguém seguramente se importaria com tal facto, mas podendo isso sim questionar von der Leyen sobre se tinha o direito ou os meios financeiros para prometer 1,35 mil milhões de dólares que poucas empresas poderiam disponibilizar na União Europeia.


