UMA IDEIA PARA PORTUGAL

A História só sabe o que já aconteceu. Ignora o futuro e o condicional. Não lhe podem pedir previsões, nem mesmo aquelas que nos séculos XIX e XX se deduziam das pretensas leis do devir histórico, como as propostas pelo materialismo dialético. Se algum historiador ousa falar do que está para vir, só pode fazê-lo em nome da sabedoria que lhe vem de conhecer o passado. Na verdade, é a sabedoria que lhe faz dizer: «Não há nada de novo debaixo do Sol». (Eclesiastes 1,9). Lampedusa, n’O Leopardo diz o mesmo, aliando à sabedoria um certo cinismo: «Para que as coisas permaneçam iguais, tudo deve mudar.» Na verdade, não podemos cultivar ilusões. O mundo será sempre o mesmo: com hegemonia americana, europeia ou chinesa, com globalização ou sem ela, com revoluções ou governos estáveis, com guerras ou com a paz, teremos sempre de contar com o sofrimento, a desigualdade social, a luta pela vida, a morte.

Neste sentido, se me perguntam o que espero para Portugal nos próximos anos, devolveria a pergunta aos economistas e sociólogos. Sem ilusões, é claro. Em tempos de crise, como a actual, as suas previsões podem traduzir probabilidades, mas também a intenção oculta de influenciar a opinião pública para tranquilizar os investidores, beneficiar o funcionamento normal da máquina financeira ou favorecer os sectores públicos a que estão ligados. Raramente revelarão informações seguras, ou seja estatísticas exactas, completas e significativas. A manipulação estatística é uma arma poderosa. O seu potencial político retira às previsões económicas e sociais a exacta credibilidade. A política é a arte de neutralizar os prognósticos. Além disso, as previsões «científicas» ignoram o inesperado, como aconteceu no 11 de Setembro.

Identidade nacional

É verdade que a História também serve para verificar recorrências, algumas delas relacionadas com os fenómenos da identidade. A continuidade da ocupação humana num certo território e da associação dos seus habitantes sob a orientação do mesmo poder político durante séculos pode propiciar a emergência de fenómenos análogos; mesmo que sejam determinados por estruturas de tempo longo, isto é, de alteração lenta, não constitutivos da Nação, não podemos deixar de os observar atentamente.

Que se pode, então, esperar do futuro próximo de Portugal, em virtude dos factores identitários ou estruturais? Esquecendo os numerosos “retratos” miticos de Portugal e dos portugueses produzidos desde o tempo de Camões, voltemos aos indicadores sociais e económicos. Notemos a diferença entre o Portugal atlântico e o interior, o densamente povoado e o desertificado, o citadino e o que resta do rural. Noutro registo, o Portugal dos ricos, separado por um largo fosso do dos pobres (ou antes, dos fracos, dos desempregados) dos crentes e dos não crentes, dos instruídos e dos ignorantes. Características maiores: uma minoria capaz de profissionalização e uma maioria que, mesmo com diplomas, não consegue sustentar uma produção tecnologicamente competitiva e rentável. Um país feito de bocados que nada consegue unir. Acontece não só nas estruturas sócio-económicas, mas também na produção cultural, cuja «norma» é a «descontinuidade de saltos geracionais» (Eduardo Lourenço, citado por Miguel Real), e a esterilidade institucional das obras geniais (Fernão Lopes, Nuno Gonçalves, António Vieira, Fernando Pessoa, Amadeo de Souza-Cardoso, Antero de Quental …). Daí o «irrealismo», acentuado por Eduardo Lourenço, tanto no discurso patriótico alimentado pela epopeia dos Descobrimentos e assumido pelo Estado Novo, como do pessimismo decadentista dos Vencidos da Vida, ambos resultantes do complexo de inferioridade nacional.-