A fadista e escultora Cristina Maria tem em exposição “Saudade”, na Casa do Bacalhau, dando continuidade à homenagem ao fado que se iniciou em 2013. Desta feita, a 7 de agosto ficou patente ao público as esculturas que, para além do fado, agora também fazem referência às tradições e referências açorianas, como é o caso da viola da terra, esculpida com basalto ribeiragrandense.

 

 

Cristina Maria Ferreira da Silva nasceu e cresceu na freguesia de Bajouca, distrito de Leiria. Anos mais tarde estudou e trabalhou na Batalha, também distrito de Leiria, onde afirmou a sua formação e profissão enquanto canteira e também fadista. Anos mais tarde, por sentir necessidade de ser mais criativa nas obras que reproduzia, começou a trabalhar outras pedras que não o calcário.

 

 O relacionamento entre a Cantaria Artística e a escultura

A Cantaria Artística é a arte de trabalhar ou talhar blocos de rocha. Em Portugal, esta é uma arte conhecida por estar inserida em diversos monumentos, como é o caso do Mosteiro da Batalha. Esta é a formação base da escultora que, inclusive, deu aulas de Cantaria Artística na Escola Profissional de Artes e Ofícios Tradicionais da Batalha. No entanto, sendo esta “uma profissão em que a parte criativa é mais camuflada porque a Cantaria Artística, no fundo, é a reprodução de qualquer coisa que já existe”, há um determinado momento em que a escultora sente necessidade de “algo mais”.

É com este sentimento que Cristina Maria decide evoluir e começar a experimentar outros materiais porque, até então, apenas trabalhava o calcário. Ao início experimentou trabalhar o mármore com diferentes técnicas e diferentes ferramentas. Esta foi uma “paixão imediata”, como disse ao AUDIÊNCIA, que teve início em 2004. No entanto, o primeiro amor nunca se esquece e continua a trabalhar a Cantaria Artística – ainda recentemente fez o brasão da Casa do Bacalhau.

“O meu Mestre de Cantaria dizia que um Mestre Canteiro pode vir sempre a ser um escultor de sucesso, mas um escultor de sucesso dificilmente poderá ser um Mestre Canteiro.” Isto porque, como explica, “a linguagem é inversa: quem vem da cantaria já reconhece a linguagem das pedras e um determinado número de regras de como trabalhar a pedra. A partir daí, se desenvolver a técnica e os conhecimentos e imprimir a criatividade, pode ser um grande escultor”. Por outro lado, “se um grande escultor quiser fazer uma rosácea ou uma obra de um monumento, com toda a certeza que terá que contratar um Mestre Canteiro. O talhar da cantaria artística, que é uma arte tradicional, é completamente diferente”.

 

 A paixão pelos Açores

Há cerca de 20 anos que Cristina Maria conheceu os Açores. Esta aproximação deve-se à sua passagem enquanto professora pela Escola Profissional de Artes e Ofícios Tradicionais da Batalha que, na altura, fez um protocolo com o Governo Regional dos Açores, fruto do qual a escultora veio dar um curso de Cantaria Artística na Escola Profissional das Capelas. Foi nesta vigem que teve o primeiro contacto com o basalto.

“Continuei a viajar para os Açores, nomeadamente para São Miguel. Fiz várias visitas de estudo com os nossos alunos, fizemos vários intercâmbios… quando precisava de me refugiar, era para aqui que vinha”, confessa Cristina Maria.

Mais tarde, há cerca de dois anos, surgiu uma “ligação cultural” ligada ao fado com a Casa do Bacalhau, ocasião em que um dos sócios deste estabelecimento, Carlos Almeida, lançou o desafio à artista para fazer o brasão da Casa do Bacalhau e, ainda, para trazer esta exposição aos Açores, mais propriamente à própria Casa do Bacalhau.

 

Fazer escultura e cantar o fado

“A escultura e o fado nasceram comigo. Quer a arte de cantar, quer a arte da escultura”, confidencia-nos a artista que relaciona o começo da sua atividade enquanto fadista profissional com os seus primeiros passos na escultura, há cerca de 15 anos.

Em 2008 grava o primeiro dos seus quatro discos e, após este momento, “as obras começam a aparecer juntamente com as minhas apresentações de fado: nos espetáculos fazia-me acompanhar de uma ou duas esculturas”, sendo a primeira vez que se apresentou neste formato em Israel, onde “o resultado foi muito positivo”.

 

 O início da exposição em 2013

Cristina Maria conta ainda: “desde 2010 é que [este formato] passou a ser uma constante. Grande parte dos meus espetáculos (e não as noites de fado) fazem-se acompanhar das esculturas em homenagem ao fado. Em 2010 tinha cerca de três ou quatro obras de homenagem ao fado, tendo prestado logo homenagem a Amália Rodrigues e depois em 2012 é que comecei a alargar a exposição e arranco com as esculturas do «Meu Fado» em 2013, que é o início desta minha homenagem a Amália Rodrigues. Era para ser de um ano, mas já dura há sete. O sucesso e o reconhecimento da obra têm sido notórios. Este ano, ainda mais sentido fazia por causa da comemoração do centenário de Amália Rodrigues.”

 

 A homenagem ao fado enquanto “Saudade”

Muitas das peças apresentadas por Cristina Maria são “abordagens disformes”, ou seja, mais abstratas e menos realistas. A artista acredita que isso é aquilo que “cria maior atração e curiosidade: por se desenvolver de forma criativa”.

Nesta exposição existem derivadas peças que complementam o fado enquanto influência na vida da cantora. Os corações de viana, as guitarras portuguesas de Coimbra e Lisboa entre outros instrumentos musicais como o contrabaixo, o saxofone e a viola de fado, retratos de fadistas e até a reprodução da desgarrada fazem parte desta homenagem na qual é notória e relembrada a influência de Amália Rodrigues e Carlos Paredes na vida da artista, sendo as peças “Que estranha forma de vida” e “Verdes anos” a materialização do respeito que tem pelos respetivos artistas.

“A minha exposição de homenagem ao fado é aquilo que me inspira e me influencia no fado. Não sou ninguém para falar do fado ou da história do fado. Eu sei daquilo que sinto e daquilo que canto, e tendo a expressá-lo na minha escultura. O que conta a história são as minhas influências e aquilo de que gosto.”, completa a fadista.

 

As influências açorianas na vida da artista

Os projetos da artista têm de contar uma história, fazendo ligação ao sítio onde vão ser apresentados, seja a nível “da música ou das matérias”, Cristina Maria faz questão de envolver as tradições ou os materiais do espaço onde se vai apresentar.

“O caso da [escultura da] viola da terra é isso mesmo: trazer uma exposição de homenagem ao fado à ilha de São Miguel e ter a sorte de poder tirar bom partido da matéria-prima [basalto], indo buscar a viola da terra.”

A escultora não deixa de tecer elogios a este instrumento tradicional açoriano e afirma que “para quem não conhecer a miúde os instrumentos, se fechar os olhos, é quase como que ouvir a guitarra portuguesa, e se quisermos podemos fazer-nos acompanhar de um fado com a viola da terra. Há esta ligação cultural que é o casamento perfeito.”

Outro exemplo dado pela artista neste âmbito, é o facto de ter-se feito acompanhar por um grupo de cante alentejano nos seus espetáculos de Vale do Tejo para Sul. Embora dê “o dobro do trabalho, o prazer e o gozo que dá na concretização é muito mais gratificante porque nós sentimos que não é um espetáculo só por ser um espetáculo, mas que conseguimos envolver toda a gente”.

Antes da época do confinamento ter início, o objetivo de Cristina Maria era vir aos Açores durante cerca de três semanas para iniciar o projeto da viola da terra. No entanto, vendo-se cá confinada, acabou por ter mais tempo e fazer mais peças, como o Coração de Viana que também está em exposição na Casa do Bacalhau.

Durante cerca de três semanas a artista trabalhou o basalto da Ribeira Grande na pedreira do Grupo Marques. Para a escultora, “não é muito tempo”, e tudo tem que ver com “o nosso estado de alma e com o processo criativo do momento, assim como a resistência física” necessária para desenvolver este tipo de trabalho.

Ainda que a altura não seja propícia para fazer grandes projetos, Cristina Maria confessa ser uma “artista insaciável que tem de estar sempre a fazer e a criar coisas”. No que toca à música, e questionada sobre a possibilidade de gravar algum tema tradicional açoriano, a fadista coloca outra questão: “e porque não um CD?”. No futuro existe a hipótese de “fazer um disco só com músicas de cá”, já que, como confessa, “já me sinto daqui”.

Esta paixão pelas artes a que se dedica fazem-na ser uma mulher de convicções que afirma saber o que é prioritário e importante para si. Como tal, a sua prioridade não é ser conhecida mas sim “criar esta empatia e esta cumplicidade com as pessoas que vêm aos meus espetáculos e que conhecem as minhas obras”.

Exemplo disso foi o que aconteceu na Casa do Bacalhau a 7 de agosto quando apresentou a sua exposição ao público: à medida que ia apresentando as peças da sua autoria, intercalava com o fado, acompanhada na guitarra portuguesa por Luís Ramos e na viola de fado por Ricardo Melo, sendo que este último músico solou e brilhou na viola da terra quando se apresentou a homónima esculpida no “basalto negro”, interpretando a “Saudade”.

Quatro CDs depois (“O outro lado”, “Percursos”, “A voz das mãos” e “Livremente”), assim como várias participações em exposições e ainda as suas “inFATUM”, “Fado” & “Pedras DÀlma” e agora a “Saudade”, Cristina Maria promete que enquanto tiver saúde vai continuar a trabalhar e a expressar-se, “quer através do fado, quer através da escultura”.

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