“DE GAIA, COMO É PÚBLICO, NUNCA TIVE GRANDE APOIO INSTITUCIONAL”

Natural de Vila Nova de Gaia, Miguel Bandeirinha, fadista já consagrado a nível nacional, continua sem o reconhecimento da cidade que o viu nascer. Agora, com a nova equipa camarária, espera que isso possa ser alterado, mas não esconde a mágoa por estes anos todos em que foi “esquecido”. Contudo, a sua carreira não parou e foram vários os momentos marcantes, como o último concerto em Mafamude, por conta própria, que encheu a sala de fado e emoção”.

 

Acaba de vir de um espetáculo em Mafamude. Como correu?

Correu muito bem, foi um espetáculo com o nome “A folha que canta do chão ao céu”, no Auditório Paroquial de Mafamude, teve uma adesão muito boa, com sala praticamente esgotada, o público saiu delirante, gostou da partilha, houve fado.

 

Foi acompanhado por três músicos…

Sim fui acompanhado pelo Lino Lobão, meu produtor também dos meus trabalhos discográficos, e que tem um estúdio em Vila Nova de Gaia. Também fui acompanhado por Nelson Ferreira, que também faz parte da equipa de produção do Quarta Vaga Produções do Lino, e fui acompanhado pelo José Pedro Melo, na guitarra portuguesa, que é um músico de Ponte da Barca, mas que tem estado pelo Porto e tem sido uma agradável surpresa.

 

Teve também dois espetadores especiais neste espetáculo, a mãe e o pai, que atravessa um período difícil de recuperação.

Sim, tive e faço questão de os ter sempre. O meu pai, José Bandeirinha, não é por estar numa cadeira de rodas devido ao AVC, mas com possibilidades de vir a melhorar, e não tem estado presente nas minhas iniciativas. Mas sempre que for possível estará presente e acho que o torna vivo e emotivo. Se bem que ele no espetáculo chorou imenso quando viu um dos momentos que ninguém contava, que foi quando convidei a minha mãe, Estela Bandeirinha, para cantar comigo um dos temas que ela mais gosta.

 

Transformou a Estela em estrela?

Ela sempre foi a estrela que guia e ilumina a nossa vida, mas no concerto muita gente já sabia o talento que ela tem a cantar, e ficaram bastante surpreendidos quando a viram a cantar comigo.

 

Estamos a falar da mãe, e também é um devoto da mãe celestial.

Sim, sou um devoto da mãe celestial, sou um devoto de Nossa Senhora completamente assumido dessa devoção. Além de devoção, acho que é paixão, costumo dizer que sou apaixonado por Nossa Senhora. A minha mãe terrena costuma dizer que tenho três paixões na minha vida, que é Nossa Senhora, Amália e ela. Mas ela diz que tanto a Nossa Senhora como a Amália estão acima dela, o que é mentira. Nossa Senhora é algo inexplicável, é um colo que quero sempre ter a meu lado, é o colo a quem encomendo os meus amigos, as pessoas que estão comigo, as pessoas que estão à minha volta, quer gostem ou não de mim, acho que todos merecem ser amparados por ela.

 

Se tivesse de dedicar um dos seus fados a Nossa Senhora, qual seria?

Sem ser música mariana, um tema que lhe dedicava seria um poema que é cantado no fado cravo, que é “Deste-me um beijo e vivi”. Esse tema é uma oração, posso dedicar-lhe a ela, a Nossa Senhora, como posso dedicar a Deus. Mas vamos dedicar ao sagrado, porque é realmente dali que vem o beijo que, nos momentos em que estamos a desmoronar, a ir abaixo, esse beijo, esse amparo, essa força que vamos buscar, é que nos faz renascer e viver de novo.

 

E à mãe terrena?

À mãe terrena seria um fado que ela gosta muito que é “Recorda-te de mim”. Ela diz que é o fado que canto melhor.

 

A sua carreira já tem alguns anos, recorde-nos quando começou.

A minha carreira, mais profissionalmente, começou em 2010. Já canto desde os 6 anos, mas é desde 2010 que a minha carreira começa de forma mais profissional. Foi quando começaram os projetos, que comecei a aparecer nos meios de comunicação.

 

Para quem já não se recorda, como se deu esta passagem?

De 2010 para 2011 surge um convite do “Manobras”, que era um projeto que a Câmara Municipal do Porto tinha, juntamente com algumas instituições de dinamização cultural, e então eles fizeram um projeto que era o ‘Poesias Sonoras, Fado em Tempo Real’ e depois, durante dois anos, chamaram artistas emergentes e consagrados da região Norte para fazer parte desse projeto que consistia em levar concertos de fado aos pontos históricos, aos miradouros históricos da cidade do Porto e criar um coro de fado e oficinas de escrita e sessões de fado pela cidade, o que acabou por ser bastante interessante. A partir daí, depois surgem as entrevistas em rádio, em televisão, participei em programas da RTP, e em 2012 e 2013 vêm as primeiras digressões, na Alemanha, Luxemburgo, etc. Lancei o primeiro disco em 2012, no Auditório Paroquial de Mafamude, onde esteve a Anita Guerreiro a amadrinhar o meu disco, depois vem o Got Talent Portugal, em 2015, onde fui semi-finalista, depois vem o The Voice, em 2022. E depois surgem muitas coisas, sou galardoado pelo Jornal AUDIÊNCIA com o Troféu Artes & Letras, logo a seguir a Filipe La Féria.

 

Uma das propostas do novo presidente da Câmara Municipal de Vila Nova de Gaia, Luís Filipe Menezes, é uma grande aposta no fado em colaboração com a Casa da Música do Porto. O que desejava que acontecesse, em termos de fado e fadistas de Gaia, neste mandato?

Vou falar por mim, cada um fala por si, e há colegas que não se podem queixar muito quanto às iniciativas do fado em Gaia, porque, diretamente ligadas à Câmara, nunca foi muito usada a prata da casa. Faz já 9 anos que tive o primeiro e último contrato direto com a Câmara de Gaia, que foi numa situação de Erasmus que o pelouro da Juventude teve e fui atuar num barco para os estudantes de Erasmus, em 2009. Foi no tempo do Delfim de Sousa, enquanto vereador. Depois, de Gaia, como é público, nunca tive grande apoio institucional, e digo publicamente como já disse a quem tinha de dizer. Felizmente, a minha carreira foi tendo asas e foi voando noutras cidades, nos Açores, por exemplo, a Ribeira Grande recebeu-me, numa altura pós pandemia, onde me disponibiliza o Teatro Ribeiragrandense para fazer a reabertura e depois aqui propriamente na minha cidade não tive nada, a não ser feito por mim, porque todos os anos, faço questão de apresentar um a dois concertos em Gaia, em nome próprio, sem apoio nenhum. Por isso, gostava realmente que a Câmara pudesse apoiar os artistas de Gaia, pudesse dinamizar mais a posição do fado porque o fado está muito na moda, seja no Porto, mas também em Gaia. E porque não a criação, que sempre foi uma das minhas ideias, de uma associação ligada ao fado em Gaia.

 

Mas isso já não compete à Câmara…

Não. Isso já compete aos fadistas.

 

Então, como sobrevive?

Já vivi exclusivamente da música, antes da pandemia, porque, ao contrário da espera em Gaia, tenho vários municípios a quem tenho de agradecer. Não aos municípios diretamente, mas às freguesias também, nomeadamente de Braga por exemplo que é um dos municípios e Juntas de Freguesia que fazem questão de, anualmente, me dar uma série de espetáculos no verão. Agradecer também ao município de Paços de Ferreira, de Felgueiras e a freguesia de Aião, que todos os anos faço uma série de eventos certos ali. Mas de que sobrevivo? Tenho o meu trabalho numa empresa internacional neste momento na parte de gestão de recursos e atendimento, e depois tenho a parte da música.

 

Os espetáculos em Gaia são pura gratidão a Gaia, porque em termos de rentabilidade são nulos…

São por pura gratidão ao público que me segue, de estar próximo deles, e de uma forma mais simpática e mais barata, porque infelizmente há muito sítio com fado, mas que não é qualquer pessoa que pode ir devido ao custo dos jantares, que não tem nada a ver com o que nos pagam, mas sim com o que cobram. É, por isso, por pura gratidão às pessoas, sim. E não é grande lucro, é praticamente nenhum, porque é tudo por conta própria. E tenho estado presente, em Gaia, de forma gratuita, a convite de um grande amigo que catapulta e apoia o meu trabalho, o padre Almiro Mendes, pároco da freguesia de Canidelo e Afurada. Ele tem, nos últimos anos, tenho sido a voz que canta o hino da Igreja, que é “Ó Pescador, do lago da Galileia” nas festas de S. Pedro da Afurada, tenho sido a voz que canta no final da missa oficial e também no final do sermão, juntamente com o coro que é dirigido pela Lara Rodrigues. E quero-lhe agradecer a ele que, sem dúvida, é uma das pessoas que me dá a possibilidade de estar próximo do mais genuíno da cidade, que são as pessoas, e ainda por cima daquela zona tão típica que é a Afurada.

 

Por isso, quem quiser contratar só o Miguel Bandeirinha responde.

Sim, eu nunca tive grande intermediação, a que tive, funcionou bem em algumas situações, noutras nem por isso, mas agora é tudo diretamente comigo. Podem fazer através do meu email, [email protected], ou pelas redes sociais Facebook em Miguel Bandeirinha ou Miguel Bandeirinha Fado, no Instagram em mbfado e no site www.miguel-bandeirinha.com.

 

O que projeta para o futuro?

O futuro a Deus pertence, mas aquilo que eu puder projetar é dedicar-me cada vez mais à minha carreira, dedicar-me a melhorar a cada dia e poder ser água mole em pedra dura que tanto vai bater que vai furar.

 

Para se dedicar de alma e coração ao fado?

Sim.

 

O que deseja para Vila Nova de Gaia?

Desejo que Vila Nova de Gaia seja um município que aposte em todas as áreas, não só no turismo, mas também na parte cultural. Desejo que o próximo mandato seja de sucesso, que Gaia fique novamente na boca do mundo e marcada por toda a mudança e a juventude que acredito que vá assistir a este renascer. E espero que Vila Nova de Gaia seja, finalmente, casa.

 

E aos seguidores?

Aos meus seguidores desejo-lhes sempre o melhor do mundo e quero desejar-lhes muita saúde, que continuem sempre comigo, sempre ao meu lado, e que possam continuar a fazer de mim artista. E obrigada ao AUDIÊNCIA porque foi, sem dúvida, dos únicos meios de comunicação que sempre me deu voz, quando muitas vezes me quiseram cortar.

 

Declarações de Delfim Sousa, ex-vereador da Câmara de Gaia

“Miguel Bandeirinha é hoje um dos nomes de maior renome no fado tradicional em Portugal, um artista cuja voz ecoa as raízes profundas da identidade do povo português. A sua presença no panorama musical tem sido marcada por uma autenticidade singular, capaz de transportar o ouvinte para o universo íntimo e emotivo do fado, onde a saudade se torna língua materna. Bandeirinha cresceu envolto nas melodias antigas que ouviu em tertúlias familiares, e foi nesse ambiente que descobriu a força expressiva que mais tarde moldaria a sua arte.

A sua discografia, relevante e em contínua expansão, é testemunho de uma maturidade artística invulgar. Cada álbum revela cuidado meticuloso na construção das melodias e dos poemas que interpreta. Embora se inspire nos grandes nomes do fado, tem vindo a afirmar a sua própria voz, compondo letras que refletem a experiência humana na sua forma mais sensível. Os seus poemas dialogam com textos de poetas portugueses, criando um repertório que une tradição e criação contemporânea.

Reconhecido como artista-revelação, Miguel Bandeirinha conquistou o público e a crítica pela capacidade de renovar o fado sem nunca o descaracterizar. A sua voz — intensa e carregada de sentimento — evidencia a herança de um género que continua vivo porque se reinventa. A forma como se entrega às palavras e às melodias faz dele um intérprete de exceção, um artista que merece, sem reservas, um lugar de destaque no fado em Portugal.”