Mário Moura é considerado um grande impulsionador dos museus ribeiragrandenses. Do seu vasto currículo e percurso académico destaca-se o mestrado em Museologia e Património e o doutoramento em História, assim como o cargo de diretor da Casa da Cultura da Ribeira Grande (1986-1999) e de chefe de Divisão Cultural da Câmara Municipal da Ribeira Grande (1999-2010).

Nas comemorações dos 10 anos da Casa do Arcano o AUDIÊNCIA conversou com Mário Moura para perceber o trabalho por trás de toda a história da Casa do Arcano.

Em primeiro lugar, pergunto quem é o Mário, onde nasceu e cresceu?

Mário de meu padrinho de batismo. Irmão mais velho de meu pai Álvaro. Fernando de meu avô. Pai de meu pai. Oliveira de meu avô. Pai de minha mãe Maria Luísa. Moura do meu bisavô Manuel Simões Moura. Avô de meu pai. Nasci em casa da minha avó Deodata, na rua do Alcaide, freguesia da Conceição, na Ribeira Grande, dizem-me, não tenho provas além do que me dizem, que no mesmo quarto em que meu pai e o pai dele haviam nascido. Foi no Domingo de Páscoa do ano de 1957, que calhou a 21 de Abril. Faltava pouco para as 8 da manhã, mas na Cédula de Nascimento, consta 8 e meia, uma mentirinha piedosa para minha mãe não perder o dia.

Já todos sabemos que tem um vasto percurso académico. Pode falar-nos sobre ele?

Fiz a 4.ª classe na Escola Central da Ribeira Grande. O ensino secundário foi repartido entre a Horta, Ponta Delgada e Bristol, Rhode Island. O ensino superior, por seu turno, ocorreu na Universidade de Sorbonne, Paris, o Bacharelato no Rhode Island College, em Providence, Estados Unidos da América do Norte, onde fui ‘Teacher’s Aide,’ o Mestrado na Universidade Nova de Lisboa e o Doutoramento na Universidade dos Açores, em Ponta Delgada, onde lecionei cadeiras do 4.º Ano.

Porque é que voltou para São Miguel?

No dia em que se celebra Santo António, no ano de 1983, cheguei à Ilha. Com uma Bolsa de Estudos da Brown University, vinha apenas matar saudades da Ilha, antes de ingressar no Mestrado em Luso-Brazilian Studies. Porém, fui ficando e fiquei.

Qual a sua relação com a Ribeira Grande?

Ao ir ficando, ficando até ficar, qual captivo, apaixonei-me pela captora. Presentemente? É uma relação serena, como sucede às velhas relações. Não deixa, porém, de subsistir na cabeça de alguns a ideia de que se fiquei é porque não tive servia noutros lados.

De onde nasce o interesse por Museologia?

Por puro acaso. Depois, por absoluta necessidade. Se tivesse ido para a Brown, teria feito estudos na área dos Estudos Luso-Brasileiros. Se tivesse ficado na Universidade dos Açores, teria seguido certamente outros. Em 1985, concorri à Universidade dos Açores e à Casa da Cultura da Ribeira Grande, tendo ficado em primeiro lugar nos dois concursos. Porque fiquei na Casa da Cultura? Soube o resultado primeiro. E aceitei. O projeto era aliciante. Desafiador. Todavia, nem a Casa da Cultura nem o cargo de Diretor estavam definidos. Resultado: passei 13 anos, até ser Chefe de Divisão, a ‘fazer de General, a ganhar como Sargento-Ajudante.’

Estando na Casa da Cultura há pouco mais de um mês, veio à Ribeira Grande, o Professor Doutor José Enes, primeiro Reitor da Universidade dos Açores, seu grande impulsionador e ao tempo, Diretor do Departamento de História: ‘Caro Dr., o lugar não era para si, mas é seu.’ Achei tão nobre aquele gesto de humildade, respondi: ‘fico aqui na Casa da Cultura da minha terra.’ Obviamente, se tivesse ido para a Universidade, teria seguido outra linha de investigação. Um ano ou dois depois, fui convidado a dar aulas e dei aulas acumulando com as minhas funções na Casa da Cultura. Ora, o projeto da Casa da Cultura da Ribeira Grande implicava uma parte museológica e esta parte implicava o estudo da História, da Arqueologia, entre outras áreas do conhecimento.

Considera-se um curioso?

Um curioso que nunca se farta de o ser. Não descanso enquanto não tenho resposta e parto logo para outra e outra. Por vezes, farto, o meu pai chegava-me a mandar calar por alguns instantes. Houve, até, professores que me chamaram de parte: queres sabotar as minhas aulas! Lembro-me bem de uma vez, no tempo do marcelismo, de ter levado uma chapada por perguntar algo para mim banal e proibido ou desaconselhado então. Foi remédio santo: comecei a interessar-me pelo ‘reviralho’.

É considerado o impulsionador dos museus da Ribeira Grande.

Ora essa! Então é sempre verdade que me querem dar um nome de rua! Não quero nada disso, mas, a persistirem, dêem-me ao menos uma voltada para o mar. Posso brincar? A vida é demasiado séria para ser levada demasiado a sério. Certo?

Neste sentido, foi o primeiro Chefe de Divisão de Cultura.

Deu imenso trabalho. E gozo. Houve que montar toda uma estrutura (legal, funcional) com pouquíssimos meios. A 28 de Janeiro tomei posse como Chefe de Divisão da Cultura. Permaneci até 14 de Outubro de 2009. Fiquei, no entanto, até 10 de Novembro de 2010. Foi no meu tempo que toda a estrutura atualmente existente foi montada.

Que relação têm a Museologia e Antropologia para si?

Fiz logo em 1986 uma proposta neste sentido, que foi testada e apresentada em Congresso da APOM e do ICOM. Foi bem acolhida e acarinhada.

Falemos do Museu do Arcano, o principal motivo por que aqui estamos. Foi uma conquista? O que se recorda da altura em que não passava de um sonho?

Tudo o que direi tem uma base de prova. Terei todo o gosto em partilhá-la. Quem discorde, por favor, esteja à vontade de mo provar a discordância. É necessário referir que todas as publicações minhas sobre a vida e obra do Arcano, não saíram do erário público autárquico. A maioria das deslocações, estadias e estudos até ao início da fase final, pouco ou nada custaram igualmente ao erário público autárquico.

Para responder com justiça a esta pergunta, vou enquadrar (ter em mente) um exercício de reflexão e de memória histórica que tenha em conta vários tempos: Do Círculo dos Amigos da Ribeira Grande; da Presidência de António Augusto da Mota Moniz (1960-1969); da Presidência de Amadeu Frias Coutinho (1969-1971); da Presidência de Fernando Monteiro (1971-1974); da Presidência de Artur de Sousa Martins (1977-1985); da Presidência do Engenheiro Hermano de Ataíde Mota (1986-1993); da Presidência do Dr. António Pedro Rebelo Costa (1993-2005); da Presidência do Dr. Ricardo Moniz da Silva (2005-2013); da Presidência do Dr. Alexandre Branco Gaudêncio (2013).

Nestes tempos, devem ter-se em conta os tempos da Casa da Cultura da Ribeira Grande e posteriormente da Divisão de Cultura. Ora, o Tempo da geração do Círculo dos Amigos da Ribeira Grande, que abrange as presidências até 1974, é justo mencionar: o Padre Edmundo Pacheco; os irmãos Moreira da Silva (Ezequiel e Armindo – tocados pelo pai, o Ezequiel Moreira da Silva – o Senhor Vila Cidade); a D. Maria Mota; o Silva Júnior, o Sr. Manuel Ferreira, etc.. Esta é a geração que pensou na cidade próxima que há muito era desejada e prometida, pelo que, pensava no Museu, na Biblioteca, no Arquivo, no Centro Cultural. Em suma, numa cidade a valer. Havia vontade mas pouco dinheiro.

Já no tempo de Artur Martins, da geração da Comissão Instaladora da Casa da Cultura da Ribeira Grande, além dos anteriores, fizeram parte dela Rui de Sousa Martins, Néstor de Sousa, Piedade Lalanda, Luísa Constantina. Entre outros. Isto até 1986: queriam um Arcano restaurado, conservado e com uma museografia mais acessível. Se possível, com os quadros fora do móvel, expostos cronologicamente. Seria possível: não. Porquê? A Cronologia do Arcano é a do diálogo do Novo Testamento a justificar o Velho.

A partir de 1986, com a minha tomada de posse, já na Presidência do engenheiro Hermano de Ataíde Mota, que fizera parte da geração dos Amigos da Ribeira Grande, cheguei à conclusão de que era necessário falar da autora e da obra, da terra, época e contexto. E conhecer as condições de conservação e restauro da mesma. Informalmente, duas pessoas estavam disso inicialmente incumbidas pelo Círculo dos Amigos e pela Comissão posterior: Hugo Moreira, a parte histórica, Padre Edmundo Pacheco, parte bíblico-religiosa. Na prática, pouco ou nada adiantaram. Havia falta de verbas. Além do mais, o municipalismo democrático arrancava com muito por fazer: saneamento básico e outras estruturas. Mas, apoiaram-me sempre na pesquisa. Estou grato ao Sr. Luís Agnelo e esposa Borges, descendentes do irmão de Madre Margarida, por me franquearem a sua casa a fim de pesquisar a documentação da família. Fiz questão de que fossem convidados de honra no dia da inauguração da Casa do Arcano. Pela mesma razão, fico igualmente grato ao Provedor da Confraria do Santíssimo Sacramento da igreja Matriz da Ribeira Grande, Professor Ferdinando José Ferreira, meu antigo professor.

Qual era a ideia central do Museu do Arcano? Conhecer tudo o que fosse relevante: a sua vida, a da família, a da Ribeira Grande, da Ilha, a sua obra. Para tal era necessário pesquisar em arquivos; bibliotecas; bibliografias várias, arqueologia (na casa onde morou, antes de ingressar, na casa onde foi morar depois de sair do mosteiro, no mosteiro, na própria igreja Matriz).

Além das poucas verbas, quais os problemas que tive de enfrentar: alergias ao pó, falta de pessoal, impreparação do existente. Era necessário também semear a ideia e para isso foi desenvolvida uma estratégia. Qual? Mostras; exposições itinerantes, na ilha e na diáspora; conferências, etc. publicações; um livro de visitas na igreja Matriz. Adquirir a casa. Foi logo na Presidência do Engenheiro Hermano Mota, graças ao então vereador José Luís Pontes, que de forma expedita conseguiu 5 000 contos da Secretaria do Turismo (Dr. Tomás Duarte), tempo dos Governos do Sr. João Bosco Mota Amaral. Porém, pelo facto de existirem diversos herdeiros dispersos, a casa só passou para o nome da igreja no tempo do Dr. Ricardo Silva. Entretanto, já no tempo de Dr. António Pedro, o vice-Presidente, Filomeno Gouveia, conseguiu uma verba para consolidar a cobertura da casa.

Outro foco de atenção, além da casa e do estudo arquivístico, era a arqueologia. Primeiro, com a prata da casa, avançámos, os meus colaboradores eram voluntários ou gente da Casa da Cultura. Ao mesmo tempo que se tentava puxar pela DRAC, pelo Dr. Victor Duarte, o faialense meu antigo colega de curso, a fim de esta legislar sobre intervenções deste tipo. Entretanto, um avanço, recuperei uma proposta do engenheiro Fernando Monteiro e conseguiu-se a vinda do Dr. Manuel de Sousa Oliveira. Foi um tempo de aprendizagem. Depois dele, continuámos, finalmente, ainda sem legislação regional, conseguimos a vinda de técnicos do IPPAR. Era necessário o concurso de alguém capaz de efetuar uma intervenção rápida e de emergência. Já membro da APA (Associação Portuguesa de Arqueologia), o Dr. Luís Raposo indicou-me o caminho a seguir. Conseguiu-se que o dono, da obra, o Ministério da Justiça, que iria construir o Palácio da Justiça, custeasse as despesas. Quais? As inerentes a uma escavação de emergência, a publicação de relatórios, a criação de um laboratório e de um arquivo arqueológico. O laboratório foi montado, uma técnica de restauro de cerâmica ensinou interessados locais e foram restauradas peças. O estudo osteológico foi efetuado por uma antropóloga física, Eugénia Cunha, da Universidade de Coimbra. Também teve o apoio da Professora Manuela Lima, da Universidade dos Açores. Foi autorizado pelo Ministro da República. Vieram os arqueólogos Clementino Amaro e Vanessa Venade, mais um técnico de arqueologia. O que foi feito. Para tal, continuei a dispor da colaboração dos poucos funcionários da Casa da Cultura e depois de 1999 dos da Divisão de Cultura.

Toda a burocracia, imensa, ficou a cargo do Dr. Hermano Teodoro, que em 2000/2001 ainda se encontrava afeto à Secção de Contabilidade da autarquia. O espólio das escavações e as estruturas (alicerces) do mosteiro iriam fazer parte de um local visitável. Os azulejos recolhidos foram por mim estudados. O arqueólogo Professor Doutor Élvio de Sousa identificou as primeiras formas de açúcar nos Açores.

Quanto ao estudo Histórico, iniciou-se logo em 1986. Contei com o apoio da Otília Botelho e da Graça Sousa, naquilo que puderem. O levantamento dos quadros, seguindo os princípios do levantamento urbanístico e recomendações da arqueologia, foi feito sob a minha orientação pelo colega da secção de obras, o Emanuel Viveiros. Previamente, convencionara uma ordem e uma numeração, que ainda hoje se mantém. A abertura e o encerramento do móvel, cauteloso a princípio, só foi possível graças à colaboração de mestres de carpintaria e marceneiros, entre os quais destaco o mestre Carlos Sousa. Quem abria e fechava naqueles primeiros tempos era o contínuo da Casa da Cultura, Constantino Pacheco e o sacristão da igreja, Manuel da Ponte.

No que diz respeito ao estudo religioso, no levantamento das legendas, fui eu e a Otília. Para identificá-las, juntaram-se-me o Padre Edmundo, o Padre Dr. Hermínio e o Padre Cónego José Garcia. O levantamento, dos quadros e das legendas dos quadros, mais o início do estudo da História, levou ao levantamento fotográfico e às primeiras análises laboratoriais sérias e credíveis. A minha sugestão, foi no tempo do Engenheiro Hermano Mota e foram efetuados pelo Instituto José de Figueiredo pela engenheira Maria Luísa Ribeiro e pelo fotógrafo Manuel João Palma. Existem relatórios destas análises e uma coleção de fotografias a cores e a preto e branco (1987-88).

E proceder ao levantamento da Casa, futuro Museu, já então sugerido por nós, pelo que o nosso colega das obras, Manuel António Alves, fez o seu levantamento. Tínhamos já o levantamento da obra, da casa, dos materiais. Era chegada a altura de tentar descobrir o segredo da massa das figuras. Com os resultados das análises, coadjuvados por uma Professora de Trabalhos Oficinais e por uma artesã, a Alda Simas, conseguiu-se alguma coisa. A Ideia era fazer figuras/réplicas e fazer dinheiro para custear obras e outros custos.

Em simultâneo era preciso dar a conhecer o que estava a ser feito, daí a política de visitas guiadas (centenas e centenas), de exposições (escritas e orais), a participação em Congressos, em programas televisivos, rádio e jornais. Era preciso saber mais de museologia, pelo que fui aceite como membro da APOM (Associação Portuguesa de Museologia) e do ICOM (International Council of Museums). Aí apresentei por diversas vezes o trabalho em curso.

No final da Presidência do engenheiro Hermano Mota e inícios da Presidência do Dr. António Pedro Costa, iniciei o Mestrado em Museologia e Património na Universidade Nova de Lisboa, em que o centro de estudos, quer na carga curricular, quer na tese, foi o Arcano Místico e a Madre Margarida Isabel do Apocalipse. Fui convidado pelo organizador do Mestrado, Professor Doutor Henrique Coutinho Gouveia, após uma visita à ainda Casa da Cultura. Só o consegui, todavia, graças aos apoios da autarquia, por parte do Engenheiro Hermano Mota, e da Direção Regional da Cultura, por parte do Dr. Victor Duarte. O seu trabalho, na sombra, merece ser reavaliado. Eu e mais dois outros colegas Terceirenses, a Helena Ormonde e o Henrique Parreira, fomos os primeiros a ter um Mestrado em Museologia e Património. Cheguei a ir como tratador de gado, uma ou outra vez, porque, às vezes não conseguia entrar num avião. Mas fui e consegui uma Bolsa da Gulbenkian para estudar museus na Catalunha. E para aprofundar a arqueologia, colaborei nas escavações da Casa do Infante, no Porto, e em Mértola. Os trabalhos curriculares, iriam ser apresentados em 1993, 1994 e passados a livro em 1999. Entretanto, em 1997, defendera a tese. Os meus colegas da Casa da Cultura, o Carlos Arruda e a Otília, depois de lhes ter ensinado o uso do psicrómetro, a prosseguirem as leituras de Humidade Relativa, temperatura junto e ao redor do Arcano, bem como no espaço exterior. Desses dados e de outros, apresentei o trabalho de questões de Conservação e de Restauro. Em 1994, o Centro de Restauro dos Açores, na pessoa da sua Diretora, Dr.ª Paula Romão, que fora meses antes minha professora no Mestrado, estudou do ponto de vista da Conservação o Arcano. Era preciso saber acerca do seu estado e avançar para a sua conservação. O fotógrafo, Guedes da Silva, daquele Centro de Restauro, procedeu a novo levantamento dos quadros do Arcano. Em 1995, foi a vez da Universidade dos Açores entrar, Departamento de Ciências Agrárias, através da peritagem de Leovegilda Rodrigues, Graça Silveira e Alfredo Borba. Mais uma vez queríamos saber a composição das figuras do Arcano.

Ainda no tempo do Dr. António Pedro deu-se início ao contrato com o arquitcto José Manuel Fernandes. Havia-lhe entregue o trabalho sobre a casa do Arcano, com o levantamento da casa, dados arquivísticos, históricos até arqueológicos. Data daí a colaboração com o Gilberto Bernardo, que, mediante a informação coligida, materializou, em desenho, as diversas evoluções da casa. Entretanto, em 1999 sou nomeado após concurso, como Chefe de Divisão. Já então havia mais disponibilidade financeira. As verbas da União Europeia vieram ajudar. Depois da recuperação do Teatro Ribeiragrandense e das Poças, entre outras prioridades, era a vez do Arcano. A Divisão iria contar anos depois com mais dois técnicos superiores. Os primeiros.

Segue-se a vereação do Dr. Ricardo Silva. Que fazer? Voltar a contactar o arquiteto, que havia proposto anteriormente. Passar a casa para o nome da Igreja e da Autarquia, estabelecer protocolos. Mas, como alcançar a conservação e o restauro do móvel? Propus três coisas antes de ir de férias, que foram, em tempos diferentes, aceites: Candidatura a Classificação do Arcano, que nos traria benefícios também financeiros, veio dar em Tesouro Regional; Candidatura RPM, que nos iria proporcionar contactos com todos os museus e instituições nacionais afins e uma publicação cultural que veio a ser a Ponte, onde divulgaríamos tudo isso. Na Candidatura ao Tesouro Regional e na à Rede Portuguesa dos Museus, trabalhei a duas mãos com o Dr. Hermano Teodoro.

 Além do que já fora investigado e publicado, havia que atacar todo uma série de formulários, estabelecer contactos. Quanto à Ponte, que propusera, propus que o primeiro número fosse inteiramente dedicado ao Arcano e a Madre Margarida. A ideia era reunir tudo o que já fora feito. Seria útil. Selecionei e pedi textos e imagens. O Dr. Hermano fez o cronograma. Sobretudo, na revisão de textos e contactos com o paginador, juntou-se-nos a nossa colega e colaboradora de Divisão, Dr. Ana Cristina Moscatel. E, claro, o técnico gráfico, também colega, o Emanuel Pinto.

Ora, o projeto arquitetónico, diálogo entre mim e o arquiteto José Manuel Fernandes, avançou de novo, desta vez de forma decisiva. Pelo facto de o Arcano ser candidato a classificação, fomos contemplados com verba para atacar a conservação e o restauro. Entre dois possíveis candidatos, a conselho nosso que se baseou em conselho de peritos, foi escolhido o Dr. Paulo Brasil, feito contrato em Janeiro, que iniciou o seu trabalho a 20 de Abril de 2009. 

A obra da Casa da Freira do Arcano fora inicialmente lançada, mas, por várias razões (necessidade de reformular o projeto face à realidade da obra e a quesitos do tribunal de contas) a obra tardou. O que, face à data prevista para a inauguração, viria a reduzir a necessária maturação do projeto de museografia, que acabou, a meu pedido, a ser uma colaboração entre o museólogo, eu, que fiz o programa museológico e a recolha de elementos, e o arquiteto da museografia, Filipe Carneiro. Três maquetas foram feitas, com o suporte do nosso trabalho, pelo Gilberto Bernardo: da casa antiga, o mosteiro e a planta da Ribeira Grande com os locais a visitar. Foi excelente a parceria. A Casa foi aberta ao público a 7 de Setembro de 2009. Em Abril o Arcano (antes da casa concluída, do restauro e da museografia), havia sido classificado Tesouro Regional. O primeiro. A responsável pela obra pela parte da Câmara, foi a arquiteta Catarina Vieira, a operacional na Casa do Arcano, foi a Dr. Mónica Medeiros, recentemente contratada pela Divisão.

Que balanço consegue fazer, em poucas palavas?

O estudo histórico, os diálogos com os arquitetos e os conservadores, com o Gilberto Bernardo, que concretizou três importantes maquetes, decorreram de uma forma exemplar. Houve tempo para amadurecer ideias, para experimentá-las. Quanto ao vídeo sobre a vídeo e obra, em meu entender, as filmagens ficaram excelentes, as colaborações (eu, Susana Costa, Tomás Borba Vieira) ressentem-se um pouco pelo facto de não ter havido diálogo. Penso. O arranque final, classificação que abriu portas ao apoio (financiamento) para a Conservação, beneficiou da união perfeita de esforços ao nível político: o Presidente Carlos César, meu antigo colega do Liceu, o Deputado Regional, Dr. José de Sousa Rego, meu amigo de sempre, a Diretora Regional da Cultura, Gabriela Canavilhas, que fora aluna do deputado, e o Presidente da Câmara, Ricardo Silva, vizinho de rua. Não fora o empenhamento deles e o Arcano, apesar da parte técnico-científica, não seria Classificado Tesouro Regional. Que abriu portas a todo o resto.

O que correu mal?

Antes de tudo, obrigado a todos, colegas e amigos, que colaboraram nesta caminhada, e ao Dr. Ricardo Silva que atracou o barco no molhe do porto. Coisas que poderiam ter corrido melhor? Existem sempre. Apenas como balanço para o futuro. O prazo para a abertura, o atraso da obra da Casa e o tempo que levou a contratar o arquiteto da museografia, não deu tempo ao tempo que seria desejável para esta primeira exposição. Havia que marcar data, de outro modo, seria pior. Admito. Outro óbice? Talvez, como sugeri e insisti por diversas vezes, tivesse beneficiado se tivesse havido uma equipa de obra permanente constituída por todos os responsáveis intervenientes. Resultado: Esta foi a primeira exposição possível dadas as circunstâncias. Segundo o meu projeto, era (ainda é) necessário dialogar com os percursos exteriores e (casa dela, igreja, e locais por onde passou), a casa do Arcano deveria ser um espaço de estudo da Ribeira Grande naquele período. Disse-o no trabalho que apresentei na Universidade Nova no Mestrado, repeti-o com alguma distância, na autocrítica que apresentei já no decurso do Doutoramento na Universidade dos Açores. Há que reorganizar o Laboratório Arqueológico e o Arquivo Arqueológico. Prosseguir no estudo dos materiais. Trata-se de uma das maires espólios existentes nas nossas ilhas dos Açores. Expô-los. Enfim, pensar e adaptar às novas exigências. Um museu ou abre-se e adapta-se ou morre.

Há algumas distinções que marcam a História.

Mereceu a 12 de Maio de 2009 a primeira classificação de Tesouro Regional dos Açores. Entrou em conta disso, os estudos históricos e biográficos. Em 2010, uma Menção Honrosa pela APOM (Associação Portuguesa de Museus). Aqui já entraram os relatórios de Conservação e Restauro e a parte de arquitetura. Entrou ainda a biografia que escrevemos com o que sobrou da tese publicada em 21 de Abril de 2010. Em 2012 o Prémio Vilalva pela Fundação Calouste Gulbenkian, com processo iniciado em 2010/11.

Vejamos o que os próprios disseram: ‘(…) De entre mais de 20 candidatos, entre os quais o Banco de Portugal, o Museu Casa do Arcano reuniu o consenso do Júri em todos os critérios de seleção inerentes ao prémio: a excelência do projeto arquitetónico de recuperação do imóvel e o respeito pela traça e características originais do edifício; a qualidade do restauro do móvel Arcano Místico, já classificado como Tesouro Regional [2009]; o rigor e a excelência das publicações científicas que suportaram a recuperação feita e a escolha dos materiais de divulgação; e, ainda, a perfeita inserção no contexto social, especificamente o trabalho com a Paróquia e Confrarias. O Júri foi composto por quatro elementos, três dos quais Professores Catedráticos, entre os quais a Professora Doutora Dalila Rodrigues, uma referência internacional na área da Museologia. Este prémio, (…) contempla uma atribuição de 50.000 € ao vencedor (…).’

A Câmara Municipal da Ribeira Grande também recebeu o Prémio Nacional vasco Vilalva atribuído ao Museu Casa do Arcano, In Ribeira Grande Municipal, Revista Quadrimestral da Câmara Municipal da Ribeira Grande, n.º 26, Agosto de 2013, p. 39.

Em outra publicação da mesma instituição:‘Prémio Vilalva distingue tesouro açoriano (…) Surpreendido pelo carácter insólito e singular deste conjunto praticamente desconhecido do júri, composto por António Lamas, José Sarmento de Matos, José Pedro Martins Barata, Dalila Rodrigues e Rui Esgaio, teve em conta não apenas o projecto museológico, como também toda a investigação e publicações produzidas’.

A Fundação Calouste Gulbenkian, Newsletter, n.º 141, Março 2013, p. 8.

 Foi, pois, um trabalho que reuniu gente da Câmara Municipal da Ribeira Grande, do Centro de Restauro dos Açores, do Instituto José de Figueiredo, da Universidade dos Açores. Aproveitei-me e fui chato com dezenas e dezenas de colegas, professores, amigos e superiores hierárquicos. Que uniu pessoas de vários quadrantes políticos. Um exemplo a seguir. Se esqueci alguém, foi involuntariamente.

Arcano Místico de Madre Margarida

Sabem quem mereceu a 12 de Maio de 2009 a primeira classificação de Tesouro Regional dos Açores? Quem recebeu em 2010 uma Menção Honrosa pela APOM (Associação Portuguesa de Museus)? Quem recebeu em 2012 o Prémio Vilalva atribuído pela Fundação Calouste Gulbenkian?

Quem o fez? E porque o fez?

 A sua criadora

Saberia logo que era com ela que queriam falar se ouvisse alguém chamar por Madre Margarida. Os pais haviam-lhe dado no baptismo o nome de Margarida, mas ao entrar para o mosteiro, já então Margarida Isabel, acrescentou Apocalipse ao nome e ficou sendo Madre Margarida Isabel do Apocalipse. Pelo lado materno, pertencia às famílias mais notáveis da Vila, sendo mesmo aparentada às mais importantes da Ilha: aos Arruda Botelho de Sampaio.

Se fosse viva, teria feito 240 anos em 23 de Fevereiro. Morreu, porém, há 161 anos feitos no dia 6 de Maio passado. Viveu na Ribeira Grande: nasceu na Conceição (paróquia de Nossa Senhora da Conceição) e faleceu na Matriz (paróquia da Matriz de Nossa Senhora da Estrela). Foi freira clarissa no mosteiro do Santo Nome de Jesus da ao tempo vila durante trinta e dois anos. Lá entrou e de lá saiu não tanto por vocação mas mais por obediência: como boa filha, obedecendo aos pais em 1800, como boa súbdita de sua majestade liberal, obedecendo à rainha, em 1832. Sempre obediente, mas já somente à sua consciência, fiel aos votos que proferira, assumiu-se como freira até morrer. Senhora de si quanto ao resto, aos 53 anos, mulher de coragem, refez a sua vida de alto a baixo e viveu de modo independente os últimos 27 anos de vida.

Não se conhece outra Madre Margarida que não seja a dos documentos, e a que nos chega, chega-nos algo fragmentada, difusa até contraditória. Com muita cautela, poder-se-ia traçar um retracto provisório: bonita, culta, obediente, corajosa, sensível, inteligente, decidida, influente, cortês e diligente. Mas doente: chegou a sair, em vão, do mosteiro à procura de cura ou alívio para os males que a afligiam.

Sustentava-se do que herdara e do que fazia: recebia uma renda vitalícia em trigo, que herdara por morte da mãe, e vendia panos bordados e flores artificiais.

O que é o Arcano Místico?

Sem se mostrar cem por cento satisfeita com o nome que deu à obra, Margarida chega a admitir outros nomes. Na ausência de explicação para o significado do nome, especula-se que possa remeter para segredo divino revelado através da sua criadora. Seja isso ou outra coisa, é uma História da Salvação na perspectiva cristã católica do século XIX de finais de Trento. Além disso, usa uma linguagem simbólica.

O Arcano Místico, disse-o no testamento e codicilo, trata dos ‘(…) mistérios mais importantes do velho e novo testamento (…)’. Mistérios que ‘(…) compreende [m] as três   Leis que o Senhor Deus deu ao Mundo (…)’. Qual a finalidade? Para os crentes entenderem melhor ‘ (…) o dever, a que estamos obrigados, e a escolha que devemos fazer da Lei da graça que por graça nos foi dada (…).’

O que hoje vemos, é um móvel envidraçado, tendendo para a forma quadrangular, com cerca de dois metros, contendo em três prateleiras noventa e dois quadros. Ao todo terá ‘aproximadamente 3 972 figuras (…)’ (Brasil 2009: 7).

Para além da invulgar monumentalidade da obra, em larguíssima medida, a sua originalidade, reside na composição do material da maioria das suas figuras. Excepto quatro ou cinco do Portal de Belém (74-1(1) (Moura 1999: 232), em barro, o resto constituído à base de farinhas (não se sabe exactamente quais: arroz, trigo), goma-arábica, vidro moído (Ribeiro 1988: s.n.). À excepção de um pigmento com origem na ilha, os pigmentos usados na pintura das estruturas e das figuras são de fora da ilha. As estruturas dos quadros são em vidro, madeira e casca de árvores. Usados em profusão, a compor pormenores, vemos: conchas, musgos, pedacinhos de árvores, entre outros.

A estrutura dos quadros pode agrupar-se em três modelos: o dos teatrinhos, o das casas de boneca e o dos elementos naturais (montes, campos e cursos de água). A iconografia inspira-se em pelo menos três fontes: a Bíblia canónica (católica), os evangelhos apócrifos (aceites pela hierarquia. Exemplo: vida de Maria e de Jesus antes dos 30 anos), e aquilo que Margarida via e ouvia (gravuras, acontecimentos religiosos e civis). Além dos temas que teve de escolher para fazer uma História da Salvação, alguns dos 92 quadros terão resultado da opção pessoal da autora. Parte até provirá da projecção da sua vida na obra (uma freira com um coração numa bandeja ou uma cena de família desfeita como a dela).

Onde se situará o Arcano Místico em termos artísticos? Na produção de arte religiosa conventual. Ideologicamente, terá a ver com o que era admissível à hierarquia da Igreja Católica, Apostólica e Romana da época.

A Casa da Freira do Arcano

O nome diz do nome que a tradição local fixou e diz do que se pretende alcançar no museu. Testemunha da vida e da obra de Madre Margarida e local de instalação do museu. Como o fazer? Integrando objectos (altar/Arcano/testamento) e transformar uma realidade (o espaço significante da casa e seu contexto espacial e temporal externo) no museu. Tratando ainda testemunhos fora do contexto institucional do museu. Só para dar dois exemplos, as termas das Caldeiras, que Margarida frequentou, ou o que resta da memória física do espaço do Mosteiro onde esteve professa durante 32 anos.

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