“ESTAMOS A FAZER A MAIOR OBRA PÚBLICA QUE EXISTE EM VALADARES”

Prestes a completar 13 anos de presidência da Associação Humanitária de Bombeiros Voluntários de Valadares, António Silva apela a que todos os que duvidem do trabalho sério que está a ser realizado pela instituição, que a visitem e tirem as suas próprias conclusões. “Nós não compramos ambulâncias para conforto e devaneio ao passeio dos senhores diretores, nem tão pouco dos senhores bombeiros. Nós investimos em instalações, investimos em equipamento para proteger toda a comunidade”, afirma o presidente, lembrando ainda que o anterior executivo camarário prometeu uma “carta de conforto” que nunca chegou.

 

Ser presidente desta nau não é tarefa para qualquer um. 

Antes e acima de tudo, é tarefa só de quem cá está, não é? Muito embora, e hoje em dia está em voga com as redes sociais, que todos têm muitas ideias, essencialmente muitas críticas. Mas efetivamente, ser presidente da Associação Humanitária de Bombeiros Voluntários de Valadares, além de ser um cargo muitíssimo estimulante, também é verdade que é um cargo de muitíssima responsabilidade. Atualmente, continuamos a ter um grande corpo de voluntariado, mas nunca esquecer que mais de 80% dos serviços da Associação são garantidos por uma equipa de profissionais. Hoje, muito embora a nossa missão principal seja a detenção de um corpo de bombeiros, a verdade é que temos muitos outros serviços, nomeadamente uma clínica, um serviço de apoio ao domicílio, um posto de combustível, e até algumas habitações que arrendamos a preço altamente baixo para a época do mercado, para ter bombeiros nas nossas proximidades. Ou seja, muitos pregam a habitação social, muitos pregam a habitação de serviço, nos bombeiros de Valadares nós, mais do que pregar, fazemos, realizamos, construímos. E nesse patamar também da construção, temos em mão, quase a finalizar, a construção do edifício social, que no essencial, neste edifício de cerca de 5 mil metros quadrados de área coberta, vamos fechar ainda mais o acompanhamento, o carinho e o socorro à comunidade, particularmente através da nossa Policlínica e mais ainda através da nossa ERPI. Por isso, tentamos socorrer a pessoa humana, não só no ato imediato da doença e levá-la para o hospital, mas também cuidar deles a tempo inteiro.

 

Quem chega a Valadares confronta-se com umas instalações enormes e com um espaço variado. Entretanto, apesar da sua forte intervenção social da Associação Humanitária de Bombeiros Voluntários de Valadares, e apesar de muitas bocas, nomeadamente com responsabilidades autárquicas, elogiarem o trabalho da instituição, a verdade é que os compromissos com a instituição nem sempre são levados a sério. Nomeadamente, os apoios prometidos, por exemplo, a Câmara Municipal de Vila Nova de Gaia, ter-lhe-á, no passado, prometido e criou-lhe um bico de obra.

Ora bem, isso é a verdade absoluta. Eu não gosto de rotular uma instituição, quer seja uma Junta, quer seja uma Câmara, que cumpre ou não cumpre, até porque a vida é feita de continuidade. A verdade é que a Câmara anterior nos havia prometido uma carta de conforto que seria o garanto para o empréstimo já contratualizado com a instituição Montepio, de 850 mil euros, e a mesma Câmara Municipal de então veio depois alegar que não podia passar essa carta de conforto porque era ilegal. Não fui eu que inventei essa modalidade da carta de conforto. Fui eu que, na base dessa oferta da Câmara, fui negociar com a banca e ato validado sempre, como é obrigatório estatutariamente, em Assembleia Geral. Ao não vir essa carta de conforto, o crédito aprovado e a taxa de excelência caíram. Estamos a falar, se fazer uma obra de mais de 7 milhões de euros, obviamente se cai em 850 mil euros, provoca um aperto de tesouraria que se reflete em toda a nossa vida, porque aquilo que é contratualizado e que obriga o NIF e a honra da Associação tem que se cumprir e depois vão caindo pequenas coisas como, às vezes, o próprio fardamento ou os EPIs ou a manutenção atempada de uma viatura ou a troca de uma viatura já cansada por uma outra viatura nova. Além disto, efetivamente, a Câmara anterior havia prometido como subsidiação direta de 1 milhão e 500 mil euros e, entretanto, deu apenas 450 mil euros, sendo que a Câmara atual já completou com mais um apoio de 150 mil e mais 100 mil. Ainda estamos muito longe dos 1 milhão e 500 mil e, mais do que tudo, ainda estamos muitíssimo longe da grandeza desta obra, porque estamos a falar de uma obra de 7 milhões de euros. E eu chamo a atenção, particularmente, não só das entidades públicas como da comunidade em geral. A direção da Associação Humanitária de Bombeiros e Voluntários de Valadares não está a fazer uma ERP, um estabelecimento residencial para pessoas idosas e uma policlínica, para conforto dos seus diretores. Nós não compramos ambulâncias para conforto e devaneio ao passeio dos senhores diretores, nem tão pouco dos senhores bombeiros. Nós investimos em instalações, investimos em equipamento para proteger toda a comunidade. Daí que o erário público e quem o gere, mas também a comunidade civil, devia olhar para isto e apoiar seriamente, porque, sem sombra de dúvidas, nós hoje não estamos a pedir para uma obra que queremos fazer daqui a não sei quantos anos. Nós estamos a pedir para uma obra que está feita, que está quase concluída, mas que, infelizmente, temos uma dívida de 2 milhões e 700 mil, que só por muita confiança, muito respeito, muita empatia, da empresa que está em construção e a direção da associação, ainda foi possível manter, mas não é uma situação que se possa manter por muito tempo. Temos de honrar os nossos compromissos, temos de ir à banca, temos de ir à comunidade pedir, e, por favor, se alguém tem dúvidas, antes de falar, venham ver, nós não estamos a fazer uma obra de vaidade. Nós estamos a fazer a maior obra pública que existe em Valadares, e fruto também da obra que fazemos, é bom que se entenda, quer a comunidade, quer a Câmara, que ainda fomos nós, associação, que doamos para domínio público um pouco mais de 1600 metros quadrados de território, ao passo que quase todas as instituições têm casas cedidas por um município, ou terrenos cedidos por um município, esta associação é proprietária e comprou todas as suas propriedades, todos os seus terrenos, e ainda doou para domínio público mais de 1640 metros quadrados para alargar vias e passeios à volta das nossas edificações.

 

E este trabalho também tem de ser salientado pelo facto de, apesar dos enormes compromissos e responsabilidades que a instituição tem, os corpos sociais, a começar pelo presidente, recebem zero da instituição.

Sim, no nosso caso é verdade. Nós ainda conseguimos fazer com que o nosso nome não sejam palavras em vão, porque a nossa associação chama-se Associação Humanitária de Bombeiros Voluntários. E é preciso que se entenda bem, associação de bombeiros e não associação dos bombeiros. É uma associação de bombeiros que também tem outras coisas, e que a sua génese é voluntária. Começando pela direção dos 13 anos que cá estou enquanto presidente, e todos os meus colegas que me acompanharam durante todo este tempo, nenhum diretor, incluído eu, algum dia recebeu um euro, nem para combustível, nem para quilómetros. Que isto seja claríssimo. Relativamente ao próprio Comando, dos três elementos do Comando enquanto Comandantes, aqui nesta casa também são voluntários. Sendo que o Comandante já era profissional, afeta a emergência, continua a ter e a deter essa profissão que tinha, afeto à emergência, enquanto funcionário. Mas o Comandamento, também nesta casa, é feito de forma voluntária, e verdadeiramente voluntária.

 

A Associação Humanitária de Bombeiros Voluntários de Valadares, que tem uma área de atuação própria, que se fixa por Valadares, Gulpilhares, Canelas, Vilar do Paraíso e Madalena, mas isso não impede que a sua atuação vá muito para além. Nomeadamente, por exemplo, estou aqui a ver dados do mês de abril, tenham ido ocorrer incidências em Santa Marinha, São Pedro da Afurada, Canidelo, Mafamude, Vilar do Andorinho, Pedroso, Arcozelo, e até fora do concelho. Portanto, isto digamos que é uma autêntica corporação municipal, para já não dizer intermunicipal, porque indo fora do concelho, e até o número em abril, só de urgências foram oito fora do concelho, o que é muito significativo. Ou seja, é uma estrutura pesada, mas dinâmica.

Muitíssimo dinâmica. Antes de eu aqui chegar, havia uma filosofia que só se aceitava os serviços se pudesse ser. Hoje a lógica é, já há muitos anos, é primeiro, vamos fazê-lo, depois temos que encontrar os meios e as forças para os fazer. Por isso, como disse, nós vamos a várias freguesias do concelho, vamos muito para além do próprio concelho, particularmente na época dos fogos rurais, e naquilo que concerne a transportes de doentes não urgentes, até vamos internacionalmente. Infelizmente, apesar de socorrermos tanto e em várias freguesias, uma vez por outra, as coisas acontecem em catadupa, em simultâneo, e também falhamos, às vezes, num socorro que não conseguimos fazer em Valadares, ou num outro socorro em Gulpilhares que chegámos ligeiramente atrasados. Agora, é preciso que se entenda o seguinte. Primeiro, os acidentes, os incêndios e a doença não acontece programada e uma em cada hora para nós podermos socorrer todos. Tantas e tantas vezes acontecem todas em simultâneo e nós não conseguimos, por muito que nos esforcemos, não temos recursos humanos, nem temos recursos materiais para chegar a todo o sítio. Às vezes esquecemos que por trás de uma ambulância ou de uma farda de bombeiros há seres humanos, há pessoas que também têm direito às suas horas de descanso, que também têm direito à assistência na família, que também têm direito a férias. Às vezes a comunidade é cruel e pouco grata. Ainda recentemente houve aqui um pequeno incêndio numa barraca em que uma das pessoas da comunidade veio para as redes sociais criticar que os bombeiros estavam tão perto e demoraram 20 minutos a chegar. Além de ter sido mentira que não demorávamos 20 minutos, o que esse popular ou qualquer outro popular devia primeiro agradecer porque os bombeiros foram lá. Porque os bombeiros são tão obrigados a apagar fogos quanto esse popular. Nós somos uma associação privada que nos movemos por vontades próprias, por altruísmo, por vontade de ajudar. E esses que criticam deviam ser os primeiros a pegar e também fazerem melhor que nós. Os bombeiros, enquanto missão, somos os únicos que não tememos concorrência. Tomáramos nós que haja muita concorrência, que lá vão outros primeiros a apagar o fogo, que lá vão outros primeiros a fazer o acidente, e não temos obrigação de ser os únicos nem de ser os primeiros. Uma noção só, para garantirmos só o atendimento telefónico, e não esqueçam que é preciso garantir telefone 24 horas por dia, 7 dias por semana, ininterruptamente, só para essa função precisamos de 5 funcionários. Façam favor de fazer contas quanto custa ter 5 funcionários só para atender o telefone.

 

Apesar das dinâmicas próprias e aproveitando essas estruturas, os bombeiros não se colocam fora da sociedade, antes pelo contrário, e abrem as portas para a realização de várias iniciativas nas suas instalações, ajudando a comunidade local e das freguesias circunvizinhas. Sente da comunidade, e nomeadamente daqueles de responsabilidade autárquica, porque no caso de Valadares, aquela “carta de conforto”, para que voluntários se sintam cada vez mais entusiasmados em continuar com este serviço à comunidade? 

Verdadeiramente não sinto esse conforto, nem esse empurrão, nem essa química para nos ajudar a crescer e a estar mais fortes na comunidade. Aqui uma ressalva para a freguesia de Gulpilhares, que, efetivamente, o seu presidente tem sido muitíssimo atento àquilo que são as nossas premissas, e também simultaneamente àquilo que são as necessidades reais da comunidade gulpilharense. E em Gulpilhares, e com a Junta de Freguesia de Gulpilhares, efetivamente, temos feito um trabalho bastante acima da média, onde desde já há alguns meses, montamos uma unidade local de proteção civil, com instalações cedidas pela Junta e com algum apoio financeiro da Junta, nós temos permanentemente uma ambulância com uma equipa pré-hospitalar para que o socorro seja mais pronto, mais presente. Também fruto dessas dinâmicas, efetivamente na freguesia de Gulpilhares, a Junta encontra sempre um local, um modo, um meio, de, em todos os seus eventos, ajudar a promover a imagem institucional dos bombeiros. E é fruto dessa promoção que vem a notoriedade e que vêm os apoios. Nós temos de fazer muitíssimas atividades, para que a comunidade se sinta envolvida e acarinhada, e, simultaneamente, queira ser nossa associada. Quando muitas das vezes o cidadão comum pensa que tem direito a ser socorrido sempre e de forma graciosa pelos bombeiros, a verdade é que não tem esse direito. E uma grande parte da capacidade de socorro que esta Associação tem advém desta sua ligação à comunidade e sua associação. Nós podemos mesmo dizer que os apoios das Câmaras e das Juntas em termos de subsidiação regular para a atividade de bombeiros é inferior ao valor que recebemos dos sócios. Por isso, quando se faz socorro através desta Associação, é mesmo um socorro associativo em que os sócios, fruto da sua cota de associado, estão a estimular, a promover e a garantir.

 

Como é que classifica a vontade da atual Câmara Municipal, nomeadamente do presidente, Luís Filipe Menezes, de haver uma interação mais próxima entre os sapadores e os voluntários? 

Eu, ouvindo as palavras do presidente da Câmara, e já as ouvi algumas vezes, ainda recentemente cá esteve num jantar de apoio a esta Associação e às suas missões, e que se fez acompanhar do novo Comandante Municipal dos Sapadores. Acredito sinceramente que aquilo que o presidente da Câmara disse é o que melhor corresponde à necessidade dos gaienses. Quero crer que ele vai ter a perseverança e a firmeza de manter essa coerência, de fazer com que bombeiros sapadores e bombeiros das Associações Humanitárias se complementem, se entendam, que treinem e estudem conjuntamente, porque o socorro não é uma feira de vaidades. O socorro é mesmo, e deve ser visto, como a missão que a comunidade carece, que a comunidade precisa, e a comunidade não está tão preocupada se quem lá chega primeiro, se é o sapador ou se é o voluntário, e se é o voluntário com uma camisa vermelha ou com uma camisa azul. A comunidade quer ser socorrida com prontidão, com qualidade e sem rivalidades. Por isso, todos juntos seremos uma proteção civil maior, daí que eu acredito, muito sinceramente, que o presidente da Câmara, o Dr. Luís Filipe Menezes, vai fazer cumprir aquilo que disse de termos mais bombeiros, melhores bombeiros e tudo a funcionar melhor e mais bem equipados também.

 

Mais e melhores bombeiros, também posso deduzir do protocolo tripartido assinado entre a Escola Profissional de Gaia, a Escola Nacional de Bombeiros e a Associação Humanitária de Bombeiros Voluntários Valadares, com vista à criação de um curso profissional de bombeiro. O que é que o levou a avançar para este protocolo? 

Antes e acima de tudo, o reconhecimento de que algum dos processos usuais de fazer bombeiros estão em declínio, ou, pelo menos, não têm a pujança que deviam ter. Há uns anos, era muitíssimo natural que todas as associações de bombeiros tinham, oriunda da voluntariedade da comunidade, jovens que se queriam fazer bombeiros. Por isso, aprendiam a ser bombeiros de pequeninos dentro das associações. Essa ação voluntária da comunidade querer ser bombeiro, a verdade é que tem decrescido muitíssimo. Quando cá vêm os miúdos das escolas primárias, todos querem ser bombeiros, quando passam para o secundário, já mudaram completamente de ideias, e isso tem feito com que os corpos de bombeiros, que no caso das nossas associações, para se ser bombeiro profissional, tem que ser voluntário primeiro, toda a formação é na base do voluntariado, e temos cada vez menos recursos humanos. Acresce que depois, muitas das vezes, aqueles que já estão formados, acabam por arranjar empregos ou no INEM, com a formação à nossa custa, ou nos Sapadores, com a formação à nossa custa, ou vão emigrar também, porque não são só as outras profissões que emigram para ganhar mais dinheiro, os bombeiros também se emigrarem e também ganham mais dinheiro noutros países do que em Portugal. Por isso, reconhecendo que não temos hoje uma capacidade atrativa da comunidade local para que voluntariamente queiram ser bombeiros, nós fomos abordar isto conjuntamente com a Escola Nacional de Bombeiros e a Escola Profissional de Gaia para fazermos uma via profissionalizante, por isso, estamos a tentar sensibilizar todos os miúdos que acabam o 9º ano para acrescentarmos mais uma visão de saída profissional. Ainda recentemente, tivemos aqui cerca de 50 alunos dos 9º anos da Escola Profissional de Gaia, onde lhes foram apresentadas as instalações, onde lhes foram dadas algumas palestras de sensibilização, no sentido de lhes abrir outra oportunidade, para além daquelas que elas já conheciam, de que, se calhar agora a via profissional seguinte é inscrever-se no 10º ano com via profissionalizante de bombeiro. Sendo claro que, se esses 50 fossem para a formação de bombeiros, acabam o 12º ano e são bombeiros e têm condições de ingressar não só nos bombeiros voluntários de Valadares, como em qualquer outra associação de bombeiros, porque há uma grande carência de mão de obra.

 

Para terminar, duas mensagens finais. Uma para dentro, para a casa, para os associados, para os bombeiros, para os funcionários, e uma segunda para as entidades públicas, Câmara, Juntas, enfim, Governo, se quiser.

Se me permite eu vou pegar e vou pôr as mesmas palavras para ambos. Porque lá fora como cá dentro a coisa é a mesma. Nós precisamos de ter muito orgulho no que estamos a fazer, mas também temos de ter muita consciência para o muito que queremos fazer ainda é preciso esforçarmo-nos um pouco mais. Esforçarmo-nos com trabalho, aqueles que cá estão dentro, esforçarmo-nos com apoio através das nossas quotas e dos nossos donativos, e o mesmo se põe para aqueles que estão fora. Por favor, venham ver, se virem o que aqui se faz, certamente que ficarão com outra consciência e com outra vontade de apoiar o tanto que ainda queremos fazer.