“A LUTA PELA IGUALDADE E A INCLUSÃO É DESAFIADORA”

Desde setembro de 2013 que Armando Baltazar é o primeiro membro da comunidade surda a ser eleito para um cargo público, como número dois da lista do Partido Socialista à Assembleia Municipal de Valongo. Em entrevista ao AUDIÊNCIA, admite que a sua presença tornou a Assembleia Municipal de Valongo “mais rica, mais heterogénea, mais diversificada, com um elemento “diferente” e que só com uma língua diferente tem acesso à plena comunicação”. “E por arrastamento Valongo também ficou mais aberto ao tema da inclusão”, garante.

 

 

Quem é Armando Baltazar?

Considero-me um dos líderes da comunidade surda portuguesa, uma pessoa surda pós-locutiva, que tem orgulho em ser surdo. Assumi isto como uma responsabilidade significativa e uma oportunidade de fazer uma diferença real. Como líder fui, sou e serei sempre um forte defensor apaixonado pelos direitos e necessidades das pessoas surdas, promovendo a inclusão e a acessibilidade em todos os aspetos da vida. É essencial ter uma compreensão profunda da cultura surda e das experiências vividas por seus membros. Isso inclui o conhecimento da Língua Gestual Portuguesa (LGP) e a capacidade de comunicar fluentemente com a comunidade surda. A comunicação foi, e é, a chave para construir confiança e estabelecer conexões significativas. Sempre me esforcei por ter uma postura de exemplo de empatia e respeito. É importante ouvir ativamente as preocupações e sugestões da comunidade, garantindo que todas as vozes sejam ouvidas e valorizadas. A colaboração com outras organizações e líderes desta comunidade que amo com fervor e carinho, também é crucial para alcançar objetivos comuns e fortalecer a rede de apoio. A educação e a conscientização são pilares fundamentais do trabalho de um líder. Isso envolve a promoção de programas educacionais que ensinem a LGP e a cultura surda para a sociedade em geral, bem como a defesa de políticas públicas que garantam direitos iguais e oportunidades para as pessoas surdas. Por fim, como líder mantenho sempre uma postura de forte resiliência e persistência. A luta pela igualdade e a inclusão é desafiadora, mas com determinação e paixão, é possível alcançar mudanças significativas e duradouras.

 

Há quantos anos esta na associação de surdos do Porto?

Comecei a conviver com a Comunidade Surda tinha 15 anos. A “minha” comunidade era então uma comunidade totalmente discriminada, subalternizada, humilhada mesmo, e fiz promessa a mim mesmo de que enquanto viver a minha vida será totalmente dedicada a pugnar por todas as condições que possibilitem às pessoas surdas o acesso à cidadania plena numa verdadeira inclusão… Por isso desde aí tenho sido um dos elementos que vem liderando a comunidade surda portuguesa. Comecei no então Grupo Desportivo Surdos-Mudos do Porto que, posteriormente, consegui mudar para a Associação Portuguesa de Surdos-Porto em 1974 e, em 1995, nova mudança para a atual Associação de Surdos do Porto. Aliás a história da ASPorto começou em 1933, como Grupo Recreativo Surdos-Mudos do Porto. Em 1951 mudou de designação para Grupo Desportivo Surdos-Mudos do Porto e, posteriormente, como referido no parágrafo anterior. Uma história de 92 anos…

 

O que significa ouvir para si?

Para mim “ouvir” pode ter um significado muito diferente do que para uma pessoa ouvinte. Em vez de captar sons através dos ouvidos, posso “ouvir” através de outros sentidos e formas de comunicação. Por exemplo, a leitura labial, a língua gestual, as expressões faciais e as vibrações. A comunicação visual é fundamental. A língua gestual, é uma forma rica e completa de comunicação que não depende da audição. Assim, “ouvir” pode significar estar atento às pistas visuais e tácteis, e utilizar essas informações para me conectar com o mundo e com as pessoas ao meu redor.

 

Quais seriam as medidas mais importantes e imediatas para as pessoas surdas portuguesas que possibilitem a melhoria das suas condições de vida?

Muito se fez, mas muito há a fazer. Não apenas em Portugal, mas, também, na Europa e no Mundo. O principal será a mudança de mentalidades que permita se avance em direção ao conceito do desenho universal ou desenho para todos. Visa a conceção de objetos, equipamentos e estruturas do meio físico destinados a ser utilizados pela generalidade das pessoas, sem recurso a projetos adaptados ou especializados, e o seu objetivo é o de simplificar a vida de todos, qualquer que seja a idade, estatura ou capacidade, tornando os produtos, estruturas, a comunicação/informação e o meio edificado utilizáveis pelo maior número de pessoas possível, a baixo custo ou sem custos extras, para que todas as pessoas e não só as que têm necessidades especiais, mesmo que temporárias, possam integrar-se totalmente numa sociedade inclusiva. Atualmente, constato nos poderes públicos e nas forças políticas, vontade de se avançar mais e mais. Sabe-se bem que a escassez de disponibilidades financeiras é um óbice a tal. Mas estou confiante que as gerações futuras de pessoas surdas, já irão viver num mundo mais inclusivo, mais igualitário e com menos barreiras.

 

Quantos anos tinha quando ficou surdo?

Eu fiquei surdo porque tinha de ficar, ou seja, foi a sina, o fado, que o destino deu à minha vida. As pessoas por vezes, associam certos números a certas superstições. Mesmo não sendo supersticioso tenho de referir que a minha surdez surgiu no próprio dia em que fiz treze anos de idade. A partir daí o meu número preferido é o…13. Quanto ao lidar com a minha surdez, profunda e bilateral, mentalizei-me fortemente para “eu não posso aprender a ouvir, a Sociedade poderá aprender a LGP, por isso o problema é “deles” (ouvintes) que se esforcem para comunicar comigo da forma que melhor entenderem”. Claro que eu também me esforço.

 

Consegue ler nos lábios das pessoas?

Sim, embora pouco. Por exemplo a minha esposa, surda total desde a nascença, possuir uma capacidade excelente da leitura labial. Sempre tive alguma dificuldade, digo mesmo “preguiça” em me esforçar e ler os lábios dos meus interlocutores. Felizmente que existem intérpretes de LGP, incluindo um dos meus filhos e uma neta.

 

Qual é a importância dos tradutores da língua gestual nas televisões. Nos telejornais, Palestras e outros eventos?

Os tradutores/intérpretes de língua gestual desempenham um papel essencial na promoção da inclusão e acessibilidade para a comunidade surda. A sua presença em televisões, telejornais, palestras e outros eventos garante que as pessoas surdas, falantes de língua gestual, tenham acesso à informação e possam participar plenamente na sociedade.

 

Há quantos anos é deputado municipal de Valongo? Como tem sido essa sua experiência? Foi difícil aceitar a sua presença, numa sociedade que muitas vezes não recebe bem e se esquece da empatia, colocar-nos no lugar do outro?

A minha vida tem sido corrida a um ritmo vertiginoso… para além das ocupações profissionais, associativas, familiares, sociais ainda consigo tempo para a política. Sim desde setembro de 2013 que sou o primeiro membro da comunidade surda a ser eleito para um cargo público, como número dois da lista do Partido Socialista à Assembleia Municipal de Valongo. A oportunidade surgiu aquando da pré-candidatura. Solicitei uma reunião ao atual Presidente da Câmara de Valongo, José Manuel Ribeiro, um político já meu conhecido há anos e dono de uma forte sensibilidade e contínua atenção pelo tema da inclusão, na qual lhe transmiti a minha preocupação pela necessidade de criar condições para tornar Valongo um Concelho mais solidário e inclusivo, propondo-me colaborar com ele talvez como Provedor do Cidadão com Necessidades Especiais. No entanto José Manuel Ribeiro considerou que a minha disponibilidade e conhecimentos seriam mais adequados num órgão deliberativo e assim se consumou a minha eleição como deputado municipal. E o que mostra mais a sensibilidade e a dignidade, pessoais e políticas, de José Manuel Ribeiro é que quando me formulou o convite nada me pediu em troca, apenas referiu: “Baltazar pugna pelas tuas ideias e ideais… sê tu próprio”. O apoio público formulado pelo então Secretário-Geral do PS, José António Seguro, uns dias antes das eleições autárquicas também me transmitiu força e confiança. Ambos, José Manuel Ribeiro e António José Seguro, mostram uma nova forma da classe política olhar para as pessoas portadoras de deficiência, nomeadamente para a Comunidade Surda. Aliás, creio mesmo que no momento da minha eleição a Assembleia Municipal ficou mais rica, mais heterogénea, mais diversificada, com um elemento “diferente” e que só com uma língua diferente tem acesso à plena comunicação. E por arrastamento Valongo também ficou mais aberto ao tema da inclusão, pois venho detetado uma crescente preocupação por este tema em inúmeros quadrantes públicos e/ou privados. Como referi numa entrevista há tempos, repito que “Apesar da minha surdez, ou por motivo da minha surdez…, sempre perspetivei o conceito de cidadania fortemente “ligado” à noção de direitos, especialmente os direitos políticos, que permitem ao indivíduo intervir na direção dos negócios públicos do Estado, participando de modo direto ou indireto na formação tanto do governo, como das autarquias e na sua administração, seja ao votar (indireto), seja ao concorrer a um cargo público (direto). Assim,  tento dignificar ao máximo o cargo para que fui eleito, através da procura incessante da criação de condições para tornar Valongo um Concelho mais solidário e inclusivo, não apenas para as Pessoas Surdas e/ou com deficiências e incapacidades, mas para todos os munícipes, naquilo que eu considero ser a verdadeira inclusão: em princípios ainda considerados incomuns, tais como a aceitação das diferenças individuais, a valorização de cada pessoa, a convivência dentro da diversidade humana, a aprendizagem através da cooperação. Considero que o objetivo da política é uma coisa fácil e que pode proporcionar felicidade a quem a exerce com dignidade. Basta ter em atenção a necessidades e os anseios de quem nos elegeu e pugnar pela satisfação dos mesmos.

 

Como é a sua experiência na comunicação com outras pessoas no dia a dia? Quais são os principais desafios que enfrenta, como pessoa surda, e como costuma superá-los?

Como já referi, se existe incomunicação entre mim e a sociedade, estou-me marimbando pois eu não posso aprender a ouvir, mas a sociedade pode, deve esforçar-se para comunicar comigo. Infelizmente a barreira da comunicação, arrasta consigo outras barreiras, dependendo de cada pessoa surda. A comunicação no dia a dia pode ser um desafio significativo para pessoas surdas. A experiência varia de pessoa para pessoa, mas alguns desafios comuns incluem a dificuldade em compreender a fala de pessoas que não sabem língua gestual, a falta de intérpretes em situações cotidianas e a barreira de comunicação em ambientes ruidosos ou mal iluminados. Para superar esses desafios, muitas pessoas surdas utilizam uma combinação de estratégias. Por exemplo, podem recorrer a aplicativos de tradução em tempo real, leitura labial, escrita em papel ou em dispositivos móveis, e, claro, a língua gestual. Além disso, a presença de intérpretes de língua gestual em eventos públicos, como telejornais e palestras, é fundamental para garantir a acessibilidade e a inclusão. Eu, com esforço, consigo resolver os problemas mesmo que tenha, muitas vezes, de preencher o livro vermelho das reclamações. Sou como sou: EU uma pessoa surda.

 

A vossa associação recebeu formandos do Curso de Marketing, Publicidade e Relações Publicas do IEFP de Gaia (Álvaro, Eunice Carvalho, Eduarda Coimbra e André Soares com muito carinho. Qual a importância destas visitas?

As visitas de formandos do Curso de Marketing, Publicidade e Relações-Públicas à nossa associação são de grande importância por várias razões. Primeiramente, elas promovem a conscientização sobre a comunidade surda e suas necessidades, permitindo que os futuros profissionais compreendam melhor as barreiras enfrentadas pelas pessoas surdas e a importância da inclusão e acessibilidade. Além disso, essas visitas oferecem uma oportunidade para os formandos aprenderem sobre a Língua Gestual Portuguesa (LGP) e a cultura surda, enriquecendo a sua formação académica e profissional. A interação direta com a comunidade surda ajuda a quebrar estereótipos e preconceitos, promovendo uma sociedade mais inclusiva e respeitosa.

 

Qual é a mensagem que concede aos leitores?

Uma citação de J. Schuylerhong,

“É impossível para aqueles que não conhecem a língua gestual perceberem a sua importância para os Surdos, a sua enorme influência sobre a felicidade moral e social dos que são privados da audição e a sua maravilhosa capacidade de levar o pensamento a intelectos que de outra forma ficariam em perpétua escuridão. Enquanto houver dois Surdos no mundo e eles se encontrarem, haverá o uso da língua gestual.”