A nossa última crónica (Romarias à Senhora da Saúde) despertou certa curiosidade por parte de alguns leitores, no que dizia respeito ao uso da pedra-ume pelos nossos antepassados e o seu fabrico em São Miguel nos finais do século XVI.

Pelo menos três pessoas contactaram-nos, dando-nos a perceber que as coisas quando deixam de ser usadas rapidamente caiem no esquecimento.

Para reforçar esta maneira de pensar, bastará dizer que duas destas pessoas são, em pouco mais de uma década  mais velhas do que nós. A outra, mais nova, afirmou-nos que ouvira algumas vezes familiares mais idosos falar na bendita pedra, que se chamava “húmida”, e não “ume”.

Voltando os ventos às duas primeiras pessoas: Fulano nos disse que se escreve “ume” em vez de “hume”; ao passo que Sicrano defendeu o nome de “Uma” em vez de “ume”, concluindo que “chama-se pedra-uma porque não há nenhuma igual a ela”.

Assim seja! Para nós, nem “uma”, nem “duas”!

Ficamos assim. Há que respeitar toda a gente, e graças a Deus, vivemos em democracia.

Neste assunto eu já me meti em 2008, mas vejo que tenho necessidade de abordá-lo novamente, tentando esquivar-me dos pontos que não me dizem respeito, porque assim diz o ditado: “Não se meta o sapateiro a fazer panelas, nem o paneleiro a fazer sapatos”.

 

   Uso da pedra hume no passado e no presente

Actualmente aquela pedra cristalizada, que até parece ser gelo, tem os nomes de alume e alúmen. Há quem a chame de pedra de alúmen, que para nós é a forma mais correcta, sendo derivada do Latim (petra alumen).

O alúmen é composto pelos sulfatos de alumínio e potássio, cuja fórmula química é Kal(SO4)2.

Nos nossos dias tem mais utilidade do que nunca, sendo processado de mil e uma diferentes maneiras, e servindo de ingrediente a numerosos produtos, muitos dos quais usamos diariamente. É esta a razão da pedra-ume nunca mais ter sido vista pelos nossos olhos.

Adicionado ou transformado ainda com outros produtos, ainda serve no curtimento de couro, filtragem ou purificação de água, etc, etc. E por incrível que pareça tem diversas aplicações em produtos cosméticos, como desodorante, “after-shave”, entre outras.

 

É mais do que sabido que o alumínio é o metal mais abundante na Terra e sabemos também que é o mais usado a seguir ao ferro (aço). Mas o seu uso, como o metal que conhecemos, só foi iniciado recentemente, pois apesar de ser abundante nunca é encontrado só, sendo por isso extremamente difícil separá-lo das rochas que o contém sem os processos hoje utilizados.

Antigamente, mesmo na Grécia antiga, e em Roma, já se empregava a pedra-ume em tinturaria, medicina, curtumes de peles, etc.

Quando pertencíamos à idade infantil (nos anos de 1960), presenciámos muitas vezes algumas das suas utilidades, tanto na medicina caseira, como nos curtumes de peles, na higiene doméstica, ou simplesmente para estancar sangue.

Chegámos também a observar a aplicação da dita pedra nos cortumes das peles de coelho, que a nossa mãe preparava, para depois costurá-las e fazer delas uns casaquinhos, que chegámos a vestir em criança, provocando algum desdém, para não dizer inveja, na vizinhança.

Se fosse nos nossos dias, diriam que se tratava de crueldade para com os animais, mesmo sabendo que os pobres bichinhos não eram postos a dormir por causa da sua roupa, mas sim para servir de alimento. O aproveitamento da pele estava em segundo plano, como forma de nada se desperdiçar. Além disso, recordamos que a nossa progenitora era, para além de boa costureira, uma artista com linhas e agulhas. Só não exercia plenamente a sua profissão por causa dos seus deveres domésticos. Mas, ainda assim, para não ferir amizades, acabou por satisfazer duas ou três encomendas dos casaquinhos de criança.

Outros lugares em que reparámos o seu uso constante foram as  tendas dos barbeiros. Na Ribeira Grande, claro!

Para além de parar hemorragias, servia de desinfectante e de “after-shave”, deixando as caras dos barbeados quase novinhas em folha. Nisto recordamos precisamente: a tenda do Senhor Américo (aquele senhor “bem posto” que usava gravata e andava de bicicleta); e a do senhor Lino Cavaco, situada também na Rua Direita; mais a outra, dos Cebolas, na Cascata; e outras mais.

Só nunca vimos a pedra-ume ser usada na barbearia do Mestre João, ali, em frente ao jardim. Talvêz por ser um barbeiro mais novo e actualizado. Mestre João usava álcool de barba e “água-de-cheiro”. A rapaziada saía da sua tenda pronta a seduzir qualquer rapariga que aparecesse no caminho!

 

A pedra-ume no Brasil

Em 2008, após algumas pesquisas que fizemos para o estudo deste assunto, ficámos a saber que pelo fato da pedra-ume estar tão ligada à medicina, alguém deu o seu nome a uma planta encontrada na Amazónia, conhecida no mundo científico por Myrcia salicifolia.

 

Ligados a ela surgiram no Brasil os topónimos de Serra da Pedra Ume, no Estado do Ceará, Gruta da Pedra Ume, entre outros. Esta planta é usada para numerosos medicamentos e até há quem a chame de insulina vegetal. Remédio santo no tratamento de diabetes, sendo adicionada a diversos suplementos alimentares, baixando a taxa de açúcar e colesterol.

Até aqui estamos entendidos. Se Deus não acode, isto não parava por aqui, e este jornal não teria espaço suficiente para esta publicação. Prometemos na próxima crónica falar do fabrico da pedra-ume nos Açores, para dar este assunto por encerrado. Até lá:

 

A navalha de bom gume

Corta a barba de raspão.

Mas a santa pedra-ume

Livra-nos da infeção.

 

Quando usava pedra-ume

Tinha as peles sempre finas.

Agora uso perfume

Para atrair as meninas.

 

Pedra-uma, pedra-duas,

Pedra-três e pedra quatro.

Tanto as minhas como as tuas

Já não fazem mais teatro.

 

Quem tiver a pedra-ume

Não deve andar à pedrada

Porque é o mau costume

De muita besta quadrada.

 

Haja saúde!

 

Fall River, Massachusetts, 31 de agosto de 2022

Alfredo da Ponte

 

Notas:

As fotografias aqui reproduzidas e alteradas nos seus formatos foram colhidas da internet em 2008. As duas primeiras são de um site de uma companhia francesa fabricante de produtos cosméticos. As outras duas pertencem a diferentes empresas brasileiras: uma de medicamentos, e outra de suplementos nutritivos.