Ainda ouço as suas roucas vozes e o arrastar dos seus pés no asfalto da Cambridge Street, a rua aqui ao lado, que tinha uma linda pequena igreja dedicada a Nossa Senhora da Saúde, sede da paróquia do mesmo nome, e que a Diocese de Fall River resolveu encerrar ao culto, há pouco menos de vinte anos. Era neste templo que faziam a sua última paragem antes de regressar à santa casa de onde haviam iniciado a longa jornada da sexta-feira santa. Continuam a fazer esta romaria, a qual tem uma grande participação da comunidade. Já houve um ano que contou com mais de trezentos e cinquenta romeiros.

Os romeiros de Fall River sairam pela primeira vez à rua na sexta-feira santa de 1984 e serviram de motivo para que em outras localidades com presença açoriana nas Américas se seguisse o exemplo. Temos os casos de Toronto e das Bermudas a juntar à lista de cidades e vilas dispersas pela da Nova Inglaterra, como New Bedford, Taunton, Pawtucket e Bristol. Romarias de um dia só, mas não deixam de ter o seu significado para quem nelas participa, sendo ao mesmo tempo uma das maiores manifestações de fé que o povo micaelense tem para mostrar a outras gentes.

     Mas nada é como viver a tradição no local onde ela nasceu. Por isso é que se organizou em Toronto o grupo de romeiros emigrantes, que com irmãos do Canadá, Estados Unidos e Bermudas percorre a ilha de São Miguel na Quaresma. Além disso, ainda há muita gente que continua a ir à Ilha Verde para participar na romaria da sua freguesia. Foi numa destas idas à ilha que nasceu a ideia de se criar na América uma romaria de semana inteira, tão grande como aquelas que se faz em São Miguel. É aqui que aparece Peter Camara, romeiro de Fall River desde 1984, quando ainda era criança, seguindo os passos do pai e do tio, naturais de Santa Bárbara, Além-Capelas. Peter e José Câmara, seu tio, foram à ilha em 2011 e incorporam-se no rancho de Santa Bárbara. De regresso à América, entre as conversas que trocaram surgiu a ideia. Em solo americano desenharam o trajecto. Tiveram uma audiência com o Bispo de Fall River, Dom George Coleman, apresentando-lhe o projecto, que foi bem aceite. Depois contactaram as autoridades das cidades e vilas, por onde a romaria haveria de passar, e de todas receberam o melhor apoio. Peter Camara, com um ar da sua graça, contou a alguém que em alguns departamentos policiais os chefes lhe pediram que rezasse por eles.

     Com sucesso os “Câmaras de Santa Bárbara”, tio e sobrinho, conseguiram formar um rancho de romeiros de 15 elementos, o qual saiu à rua em Março de 2012, percorrendo em oito dias uma distância de cerca de 150 milhas. Fizeram parte deste rancho dois ribeiragrandenses bastante conhecidos: José Piques Faria e Álvaro Rego, que voltaram a participar nos anos seguintes. Mas 2018 foi o último ano para José. A idade e as forças já não permitem continuação. Álvaro continua, e com a graça de Deus ainda participará este ano. É tão dedicado às romarias, que até já foi o mestre desta, e de outras, várias vezes.

     A partir de então, ano após ano, os romeiros da Nova Inglaterra deixam o conforto das suas casas, e caminham em oração por uma semana inteira, tal como se faz em São Miguel. Na Ilha Verde arredonda-se o percurso em pouco mais de 250 quilómetros. Na América diz-se que o trajecto tem aproximadamente 150 milhas. Um pouco menos do que a distância açoriana. Mas se levarmos em conta as tempestades e o frio da Nova Inglaterra ficamos sem saber qual é o maior sacrifício. Em 2018, na semana em que a romaria estava na rua, esta zona do país foi atacada por uma vaga de frio, que sem o vento os termómetros registavam dez graus negativos. Expostos ao vento sentia-se, em certas zonas, trinta abaixo de zero! As condições meteorológicas não ajudam ao crescimento em massa do número de elementos da grande romaria.

     Mas há boas notícias, e temos esperança. Entrando na quaresma, surgiu-nos a vontade de conversar com os romeiros. Várias circunstâncias impediram uma conversa com Peter Camara, e outros impedimentos travaram-nos contacto com o nosso amigo Álvaro Rego. Porém, surgiu uma oportunidade de conversar com o mestre da grande romaria deste ano. Não só acedeu ao nosso pedido de encontro, como também trouxe consigo o contra-mestre. Derek Arruda e Jeffrey Clementino, respectivamente. O mestre tem 31 anos de idade, e o contra-mestre 27. É uma prova que a juventude está metida na romaria, e é para continuar. Ambos nasceram na América. Os pais de Derek vieram de Santa Bárbara, concelho de Ponta Delgada, e a família Clementino da Lomba da Maia. Disseram-nos que o romeiro mais idoso deste ano está com quase 70 anos de idade, e o mais moço, o cruzeiro, tem doze.

     Em 2015 a grande romaria teve um rancho de 27 irmãos. Depois da esfrega do ano gelado (2018), em 2019 o rancho foi apenas composto por doze, e este ano a grande romaria conta com o mesmo número de irmãos. Doze! Simbologia viva dos doze apóstolos de Cristo. Mas temos a certeza que o número de irmãos aumentará nos próximos anos.

     O caminho a percorrer pelos romeiros da Nova Inglaterra este ano, tal como nos anos anteriores, situa-se dentro da área diocesana de Fall River, estado de Massachusetts. O rancho sairá no sábado, 28 de Março, pelas 5:30, da igreja de São Bernardo, em Assonet. Dirigindo-se para sul, visitará East Freeton, entrará em New Bedford, dará um salto a Acushnet, voltando à cidade baleeira para pernoitar. No domingo visitará os restantes templos de New Bedford, irá a Fairhaven e pernoitará em Dartmouth. No terceiro dia visitará Westport, dirigindo-se a Fall River, onde pernoitará. Na terça-feira, 31 de Março passará grande parte do dia na cidade dos teares, dirigindo-se depois para Somerset, onde passará a noite. O quinto dia será despendido entre as vilas de Swansea e Seekonk. Na quinta-feira, 2 de Abril, o rancho chegará a Attleboro pelas 6:45. Passará o dia nesta cidade, acabando por pernoitar no Santuário de La Salette. O jantar deste dia é especial porque os romeiros sentam-se à mesa com os seus familiares. Chamam à quinta-feira o “Dia da Família”. No sétimo dia, novamente rumo ao sul. Depois de visitar Dighton entrarão em Taunton, onde permanecerão até às cinco da madrugada de sábado, altura em que se dirigirão para Raynham, East Taunton e Assonet, ponto de partida e meta-final.

     A conversa de pouco mais de vinte minutos com os dois rapazes foi muito sadia em termos de espiritualidade. Senti que neles havia um pouco daquela fé tão rara na juventude nos dias de hoje, e ao mesmo tempo reconheci o meu íntimo, de pecador. Nunca me chamaram de “senhor”, mas sim de “irmão”, porque Senhor é só um. Irmão. Irmão Alfredo! Foi de ficar sem jeito. Mas, pronto. Assim seja!

     À despedida fiquei deveras sensibilizado. O mestre Derek abriu o blusão ao peito e, de entre a roupa tirou um terço que ao pescoço trazia. Virou-se para mim: – Irmão Alfredo, este terço já contou milhares de Avé-Marias e centenas de Pai-Nossos. É para si. Fique sabendo que na nossa romaria deste ano os nossos irmãos vão rezar um terço por si, pelas suas intenções e pelos seus familiares. Fiquei sem palavras, mas agradeci, dizendo qualquer coisa que as circunstâncias não me deixaram memorizar. Agora, o que não me sai da cabeça é que terei de repôr, nas minhas rezas, um terço por cada irmão da Romaria da Nova Inglaterra. Sou homem para isso, e muito mais. Haja saúde e a graça de Deus.

     Depois do Mestre Derek ter-me enviado algumas fotografias pelo correio electrónico, dois dias mais tarde, eu pedi-lhe que me mandasse uma de si, explicando-lhe a publicação desta crónica noticiosa no jornal Audiência. Eis a sua resposta:

Good Morning, Alfredo!

As for the picture, it’s not about any one individual or title of ‘Mestre’. There is only one ‘Mestre’ and His name is Jesus. For that reason I don’t feel as if my solo picture needs to be included, it’s not about me, it’s about a group of ‘Irmãos’ taking a week out of their lives to profess their faith, to bring the light of Christ that is in them and let it shine in this very dark world. We do this not for our names but for His, to bring Glory, Honor, and Praise to the King of the Universe.

God bless you, Alfredo, and all that you do in His name.

Derek

     Faço votos de boa romaria aos irmãos Romeiros da Nova Inglaterra, e a todos os outros de São Miguel, das Américas e de toda a parte onde esta tradição micaelense chegou. Que o Senhor oiça as suas preces e lhes conceda a Sua graça, conforme os pedidos e desejos de cada um. Assim seja!

Romeiro, por esta estrada

A tua fé te conduz.

Fazes desta caminhada

Teu Calvário e tua cruz.

Um por todos, todos por um

É o lema da romaria

Penitente, que faz jejum,

E caminha todo o dia,

Canta alto, em voz comum

Padre-Nosso, Avé-Maria!

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