Uma das muitas crónicas do padrinho da Califorlândia, que guardo nos meus arquivos em ficheiro especial, fala de um cenário dos princípios da década de cinquenta do século passado, tendo como pano de fundo a Ribeira Grande, no qual sobressai um Luís Raposo, “com o seu porte corpulento, mastigando um charuto e alardeando aquele ar de importância típico no emigrante que volta à terra de origem, com dólares escoando nas algibeiras”, dizendo estar “convencido que Luís Raposo não o fazia por vaidade, mas seguindo apenas atitudes e costumes da época.” Foi esta a apresentação do personagem a quem esta crónica é dedicada, feita por Ferreira Moreno, no jornal Portuguese Times, edição de 13 de Junho de 2012, na qual ele menciona um trabalho do afilhado de Fall River publicado em livro. Acrescentando ainda àquele cenário, disse que o indivíduo ainda deu mais nas vistas na Ribeira Grande e arredores “devido à sua persistência no emprego de um gravador de fita magnética, que ia captando música regional (filarmónicas locais) e música religiosa (solenidades litúrgicas), mais os sonoros repiques da Igreja Matriz (…)”. Mal sabia que mais tarde, na Califórnia, se havia de servir de uma cópia destas mesmas gravações. Sim, por muitos anos a sua máquina de atendimento telefónico, ou gravador de mensagens, tinha por música de fundo o repique dos sinos da Matriz, executados pelo sineiro que toda a gente falava em meados do século vinte: o José Custódio, mais conhecido pela alcunha de “Pombim”.

A casa número 88 da Rua Sousa e Silva tem uma placa no seu frontal, que ali foi colocada pela Câmara Municipal da Ribeira Grande em 1980, em forma de homenagem a um  indivíduo do sexo masculino que ali nasceu a 19 de Fevereiro de 1900. Trata-se de Luís do Rego Raposo, filho de Maria do Rosário e de José do Rego Raposo, que mais tarde teve como padrinho do Crisma o Prior Evaristo Carreiro Gouveia.

Com 19 anos de idade, pelos vistos ao terminar a Primeira Guerra Mundial, emigrou para os Estados Unidos da América e fixou residência em Portsmouth, vila vizinha da cidade de Newport, na ilha Aquidneck, no Estado de Rhode Island. Enamorou-se de Maria de Jesus Vieira de Melo, também natural da Ribeira Grande, e com ela  contraiu matrimónio, aos 15 de Novembro de 1924, em New Bedford, Massachusetts. Maria morava nesta cidade mas, ao que parece, não foi esta a razão do casamento ter sido efetuado na cidade baleeira. Pelas palavras do próprio Luís Raposo, apontadas no jornal Sakonnet Times, de 20 de Novembro de 1969, por ocasião do seu 45º aniversário matrimonial, o que o levou a casar-se em New Bedford foi o facto de, naquela cidade, mais precisamente na paróquia de São João Baptista, estar a servir a Santa Igreja o Cónego Cristiano de Jesus Borges. Diz o mesmo jornal que a noiva era empregada na escola ‘Saint Joseph’, em Middletown, quando se conheceram. Aponta ainda que Luís disse que foram casar a New Bedford, explicando-se desta forma: “Casámos em São João Baptista porque o Padre Cristiano de Jesus Borges era o pároco nesta igreja e foi ele quem casou os meus pais, nos Açores.” O novo casal passou a residir em Portsmouth, RI. No ano seguinte, mais precisamente aos 17 de Junho de 1925, nasceu-lhes a primeira filha, Ana Natália Raposo. E Luís disse ao mesmo repórter do dito jornal: “Levámos a menina ao Padre Borges para ser baptizada.” Portanto, o Cónego Cristiano de Jesus ainda estava em New Bedford em 1925.

Quisemos confirmar este facto, por ter já lido algo biográfico sobre o Cónego Cristiano, que apontava para o seu regresso aos Açores em 1920. Por isso, tratamos de arranjar documentação, conseguindo obter dois certificados em 2008. Tivemos sorte porque a paróquia portuguesa mais antiga da América foi extinta um ano depois. O edifício ainda lá está, em 334 County Street, New Bedford, Massachusetts. Sim, senhor! O cónego Cristiano de Jesus Borges administrou ambos os sacramentos: o casamento de Luís Raposo com Maria Vieira, realizado aos 15 de Novembro de 1924; e o baptismo de Ana Nathalia Raposo, em 5 de Julho de 1925. Das duas uma: ou Ana foi fruto de uma gravidez de sete meses, ou Luís e Maria tiveram de se casar à pressa. Mas esta questão já sai um pouco do assunto que tratamos. Fizeram: está feito! Não fizeram: Tivessem feito!

Dois anos depois (1927), no mesmo dia daquele mês (17 de Junho), nasceram duas gémeas: Maria da Conceição de Melo Raposo e Margarida Maria de Melo Raposo. Assim, todos os anos no dia 17 de Junho, em casa do Sr. Luís Raposo celebravam-se três aniversários. Maria e Margarida já foram baptizadas em Newport, e por isso se deduz que Cónego Cristiano já havia regressado à Ribeira Grande.

Em 1944 Ana Natália Raposo contraiu o sacramento do matrimónio com Raimundo Pereira, ou Raymond  Perry. A data escolhida foi o dia 17 de Junho. A partir de então, para além de as três irmãs festejarem os seus anos, naquele dia também se celebrava um aniversário de casamento.

Luís, como todos os imigrantes que entram neste grande país para vencer na vida, teve que sujeitar-se a todas as condições e adaptar-se a todas as circunstâncias. Trabalhou no Vanderbild Farm; chegou a vender peixe, fruta e outros artigos. Mas o seu melhor emprego, segundo nos disse a filha Maria, foi o de carcereiro.

Em 1949 Ana Natália tinha 24 anos e as irmãs gémeas 22. Foi neste ano que o Sr. Luís criou o programa radiofónico “Voz dos Açores”, a partir da estação WRJM, localizada em 204 Thames Street, Newport, Rhode Island, com meia hora semanal, aos Domingos, ao meio-dia. Nas nossas suposições, Luís Raposo ter-se-ia estreado na comunicação social no ano anterior, participando em alguma rubrica daquela emissora, ou começando em fase experimental em algum outro programa. Baseio-me naquilo que li no historial da estação emissora WADK, que afirma que um “programa português com Luís Raposo começou em Março de 1948.” Além disso, seria muito normal conhecer a casa antes de nela entrar, e o negócio antes de o explorar. Um ponto de vista. Por isso, vamos aos factos.

A primeira emissão da “Voz dos Açores” foi para o ar em 27 de Março de 1949. Um programa patriótico, cheio de saudade, e que entreteve muita gente durante três décadas, aos fins-de-semana. Nos documentos em português, o nome varia entre “Voz” e “A Voz”. Na língua inglesa, lê-se sempre “The Voice of The Azores”. O próprio director do programa usava as duas variantes, dependendo das situações.

Ao princípio funcionava todo ao vivo, e colaboravam com instrumentos musicais as seguintes pessoas: Jacinto Pavão, Jaime Farias, Luís Dinis e George Kalil. Maria e Margarida cantavam; Dona Ana Pereira lia e traduzia as notícias, para além de trabalhar nos anúncios e tratar de toda a correspondência. Alguns anos depois, os filhos de Maria, José Luís da Costa (22-09-1952) e Miguel Manuel da Costa (23-02-1955), que cantavam no côro da Igreja, passaram também a cantar na rádio. O programa tinha por correspondente em São Miguel o jornalista J. Silva Júnior.

Em Julho de 1951, a estação emissora mudou-se de Newport para Middletown, para a Reservoir Road, e Milton Mitler comprou-a em Novembro de 1953. Mudaram-se as letras de identificação para WADK, nome que ainda hoje se mantém, servindo as últimas três (ADK) de abreviatura ao nome da ilha (Aquidneck).

Dez anos passaram. Chegou o Domingo, 12 de Abril de 1959 e com ele a festa do décimo aniversário do programa radiofónico “Voz dos Açores”. Um só livro/programa restou como recordação daquela festa e pertence à senhora Dona Maria. Está em muito bom estado de conservação e dele só conseguimos fazer algumas fotocópias.

Encadernado em cartolina azul meio escuro, tem o emblema da “Voz dos Açores”, com um açor, ou milhafre, voando sobre nove estrelas dispostas em semicírculo, mais ou menos ao centro da capa. Na parte superior da mesma está gravada a década 1949-1959, seguida do título ou assunto da edição. Abaixo da ave e das estrelas, assinalou-se o local da realização do evento e a respectiva data. A contra-capa é um cartaz publicitário daquele programa radiofónico em língua portuguesa, com direções, números de telefones, sintonia e este slogan: “o programa que traz até si, directamente dos Açores, notícias e música”. O conteúdo é bilingue mas as mensagens principais estão escritas em português. Sem sombras de dúvida, uma emoção alegre saltou-nos do peito quando abrimos o livro pela primeira vez e deparámos com uma linda fotografia da imagem da “Nossa Senhora Fuseira”, ocupando uma página inteira e legendada por estas palavras: “Nossa Senhora da Estrela, padroeira do programa Voz dos Açores”.

Ligado sempre aos movimentos de interesse comunitário, Luís Raposo estava sempre pronto a defender a portugalidade e tudo o que a ela pertence. O jornal Newport Daily News, na sua edição de Sábado, 18 de Abril de 1959, notifica a chegada dos primeiros “refugiados” da Ilha do Faial à Ilha Aquidneck, sublinhando que foram admitidos na América à sombra de um especial decreto de lei federal, passado no ano anterior, sublinhando ainda o mesmo jornal que Luís R. Raposo fez parte do movimento, nesta área da Nova Inglaterra, que originou o “Azorean Refugee Act”.

O historiador Hermano Teodoro, que em paz descanse, nas suas notas biográficas sobre o Prior Manuel de Medeiros Sousa, diz que este, “acabado de chegar à igreja Matriz, aceitou o convite de Luís do Rego Raposo, afilhado do Prior Evaristo Carreiro Gouveia, para ir aos Estados Unidos da América, tendo aqui participado no seu programa radiofónico ‘A Voz dos Açores’, na vila de Milton, perto da cidade de New Port. (…) A intenção de Luís Raposo era a de se arrecadar donativos para a igreja Matriz, coisa que aconteceu. Os donativos deram para as obras do lajeamento da parte norte da igreja e para alfaias religiosas. Diz o homenageado que Luís Raposo foi quem lhe deu as “mãos” para que pudesse pôr a paróquia no bom caminho.”[1]

A programação da Voz dos Açores aumentou em 1951 para hora e meia aos domingos, e em 1952 foi adicionada uma hora de emissão aos sábados. Sendo um sólido ponto de referência da comunidade lusófona da Nova Inglaterra ao longo de três décadas, com a morte de Luís Raposo os 19 de março, de 1979 o programa extinguiu-se no mês seguinte, criando saudades e deixando bonitas recordações. Ferreira Moreno concluiu a sua crónica com estas palavras:

Apesar de carecer de estudos secundários, Luís Raposo falava com a correnteza de pessoa honrada e sincera. Contribuiu devotamente a favor das nossas organizações comunitárias, e demonstrou expansivamente uma arreigada afeição às nossas terras de origem.

Apraz-nos acrescentar, e já em jeito de conclusão, que a Voz dos Açores não só apregoava no ar os tomates de Fulano, as pimentas de Sicrano e os pepinos de beltrano, como também defendia os interesses comunitários, o bom nome de Portugal e o valor da lusa-gente, tanto no país de origem como em qualquer parte do mundo. Haja saúde!

[1]“Prior Manuel de Medeiros Sousa” Verticalidade e Vigor

In: Revista Municipal de Dezembro de 2006 página 17 (Revista da Câmara Municipal da Ribeira Grande, n.5. Dezembro de 2006)

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