Sendo consensual que a gestão da Caixa Geral de Depósitos esteve quase sempre nas mãos da direita e as administrações tiveram mãos livres para fazerem o que queriam, inclusive os maus negócios que muito contribuíram para o estado em que a instituição se encontra, mas cujos custos têm sido pagos pelos contribuintes e pelo País, torna-se, no mínimo caricata, a inusitada preocupação agora demonstrada pelos responsáveis políticos ligados ao PSD e CDS, tentando lavar as mãos como Pilatos.

Um estudo levado a cabo pelo economista Eugénio Rosa sobre o tema informa-nos do seguinte: «Estes negócios explicam muito do crédito em risco e em incumprimento no banco público. Em conjunto, são mais de 15 mil milhões de euros, mais de 22% do total da carteira de créditos da CGD.

As anteriores administrações não desenvolveram nem aplicavam uma política de análise rigorosa de risco na concessão de crédito». Mas as responsabilidades políticas também são apontadas, «com a ausência de orientações claras dos governos em relação à política de crédito».

O autor do estudo dá também ênfase a exemplos da responsabilidade do anterior governo na fragilização da situação financeira da Caixa, pois, após a privatização das seguradoras do grupo CGD, foi assinado um contrato de exclusividade por 20 anos com os novos donos da Fidelidade que o economista considera ruinoso, já que as comissões acordadas são menos de metade dos valores praticados no mercado e, de acordo com a estimativa feita, tendo por base os dados de 2015, este negócio vai representar um prejuízo de, pelo menos, 880 milhões de euros nos 20 anos de duração do contrato, sendo mesmo previsível que ultrapasse os mil milhões.

Acresce o facto de que mais cortes nos trabalhadores não garantem retorno dos lucros, diz-nos Eugénio Rosa, desmentindo a tese que vem justificando a redução de agências e trabalhadores do banco público. O retorno aos lucros, só é possível com a aposta na orientação da actividade da CGD para as necessidades de financiamento da economia.

Alguns casos tornados públicos mostram a utilização de recursos da CGD para negócios sem qualquer interesse para a economia nacional: os empréstimos de 500 milhões de euros a um grupo de accionistas do BCP, no âmbito da luta pelo controlo do banco, em 2008 e o financiamento da venda de parte da Efacec por parte do grupo Mello e da Têxtil Manuel Gonçalves por 200 milhões de euros.

A evolução recente do crédito concedido assim o demonstra, sendo o segmento das micro, pequenas e médias empresas o único em que o crédito novo supera as amortizações, ou seja, em que o negócio bancário vem crescendo.
O Ministério das Finanças, liderado por Maria Luís Albuquerque do anterior governo, teve guardado durante seis meses dois pareceres da Inspecção-Geral das Finanças relativos a relatórios trimestrais da Comissão de Auditoria da Caixa Geral de Depósitos de 2014, que mostravam um agravamento das imparidades do banco público, pareceres só despachados pelo secretário de Estado das Finanças, Manuel Rodrigues, quinze dias antes das eleições legislativas de 2015.

Será certamente por estas e outras razões que o aproveitamento político deste caso pelo PSD e pelo CDS tem sido bastante criticado, inclusivamente pelos respectivos acólitos.

Eugénio Rosa faz uma análise muito crítica à opção de entregar a gestão do banco público a equipas ditas independentes e profissionais, pois, realmente, as administrações só se mostraram independentes dos interesses da economia nacional e do País, já que muitos dos que se sentaram nas cadeiras do conselho de administração da instituição favoreceram negócios especulativos e são vários os cartões do PSD, do PS e do CDS que figuram nas carteiras dos gestores que por lá passaram nos últimos anos.

Para o PCP, face a sucessivas campanhas em parte animadas por erradas decisões adoptadas pelo governo, a questão central que continua a colocar-se é denunciar e pôr fim à operação que o PSD, o CDS e o grande capital desenvolvem contra a Caixa Geral de Depósitos visando a sua privatização.

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