ANAWAN ROCK

Segundo várias fontes o sítio onde se encontra a Pedra de Anawan (Anawan Rock) em Rehoboth, Massachusetts, é um dos poucos lugares históricos que ainda se encontram intactos.

   Faz parte do conhecido Triângulo de Bridgewater, e centenas de visitantes afirmam ter sentido sensações estranhas ao aproximar-se da dita pedra.

   A curiosidade fez-me visitar o local, em 19 de julho do ano corrente; e o rochedo, em si, no meio do mato, convidou-me a fazer-lhe uma escalada. Sim, subi até ao topo, contra a vontade da esposa, que nem reparou por onde me meti, porque a densidade da floresta nem permite uma boa visão do rochedo, que tem cerca de vinte e cinco metros de altura, coberta com alguma vegetação.

   No topo da rocha reparo no abismo do lado oposto, e com o qual foi fácil imaginar como os indígenas ali se protegeram na última batalha da Guerra do Rei Filipe.

   Ouvindo os gritos da mulher a chamar, talvez por estar só, ou um pouco apavorada, desci a pedra, e nesta altura reparei que a inclinação não estava nas medidas das minhas possibilidades para a ter escalado. Mas tinha que a descer, e desci, usando precauções, e uma delas foi manter o traseiro bem rente ao chão para me sentir seguro. Alguma força me ajudou, tenho a certeza.

   Por alguma razão, as fotografias que ali tirei não fazem justiça àquilo que eu vi, nem descrevem a beleza do local, e, muito menos, aquilo que ele representa moralmente para quem ama a pátria onde vive, e tenta compreender o que ela foi para se ter transformado naquilo que é.

   Para os leitores mais descuidados ou esquecidos, recordamos que, naquele local, aos 28 de agosto de 1676 os soldados do capitão inglês Benjamin Church capturaram o chefe guerreiro Anawan e os seus homens, pondo finalmente termo à guerra do Rei Filipe.

   Rei Filipe foi o nome que os ingleses usaram na pessoa de Metacom (ou Metacomet), que era o grão-chefe da confederação Wampanoag, segundo filho varão do grão-chefe Massasoit, que praticamente dera as boas-vindas aos colonos europeus e participou na primeira Ação de Graças (Thanksgiving) em Plymouth, Massachusetts.

   Seu irmão mais velho, Wamsutta, que havia seguido a chefia do pai, segundo várias opiniões, foi assassinado pelos ingleses, por envenenamento, ainda no primeiro ano do seu mandato. Era casado com a chefe da tribo Pocasset, Weetamo – uma mulher líder, tesa da verga.

   Wamsutta morto, Metacom toma a chefia do povo Wampanoag. Porém, os abusos verificados pela rápida colonização inglesa, misturados com a morte de Wamsutta, fizeram com que Metacomet tentasse travar a expansão britânica. No entanto, encontrou bastantes obstáculos, até da parte do seu povo. Mas contando com a colaboração da sua cunhada, Weetamoe, levou em frente a sua causa.

   Várias batalhas se registaram entre índios e colonos nesta região do sudeste de Massachusetts e alguma parte de Rhode Island, com alguns repiques ainda mais longe, como Connecticut e Maine, passando por New Hampshire.

   A guerra, tendo começado em junho de 1675, nesta área do sudeste de Massachusetts e Rhode Island foi dada como terminada um ano depois, embora a resistência, nas partes mais distantes tenha durado até abril de 1678.

   Aos 6 de agosto de 1676, à noite, em terreno onde hoje se chama Somerset, Massachusetts, Weetamoo deu ordem de retirada às suas tropas, devido a vantagem superior do exército inglês. Ao atravessar o Rio Taunton, na direção de Fall River, morreu afofada. Seu corpo foi encontrado na manhã seguinte. Os ingleses cortaram-lhe a cabeça, e colocando-a na ponta de um pau, levaram-na para Taunton, como marco de vitória.

   Seis dias depois, aos 12 de agosto do mesmo ano, o Grão-Chefe Metacomet é também capturado em Mount Hope (Monte Esperança), onde hoje é terra de Bristol, Rhode Island; e a sua cabeça foi levada para a colónia de Plymouth, Massachusetts, onde esteve em exposição em praça pública por cerca de vinte anos.

   O resto é história, e é muito triste lembrar o que os ingleses fizeram aos verdadeiros donos destas terras.

   Naquele mês de agosto de 1676 – um século antes do nascimento dos Estados Unidos, com a declaração da independência das treze colónias, acabou a Guerra do Rei Filipe, com a rendição de Anawan, o último resistente à causa de Metacom.

   Os ingleses prometeram-lhe salvar a vida, mas depois da rendição da sua tropa, teve a mesma sorte do seu Grão-Chefe, e da cunhada deste, e de outros tantos líderes nativos do novíssimo continente.

   Dos índios sobreviventes a esta e às outras batalhas da Guerra do Rei Filipe, uma parte foi massacrada, e outra foi vendida para a escravatura. Uma outra pequena quantidade de indígenas que escapou à morte e à escravatura foi colocada em pequenos espaços reservados, a modos de não interferir com os colonos e com os seus assuntos.

   Actualmente, segundo os resultados dos últimos censos populacionais, estima-se que há um total de aproximadamente quatro mil e quinhentos descendentes diretos dos sobreviventes do povo Wampanoag, em Massachusetts, divididos em duas tribos activas: cerca de 3,200 na tribo Mashpee, e pouco mais de 900 em Gay Head. Ocupam no Estado 320 acres de terra em duas diferentes longitudes, aonde por decreto do governo federal, passado em 2015, podem exercer todos os seus direitos de soberania tribal.

   Activistas do mesmo povo têm revivido as suas tradições orais, como música, danças, rutuais e cerimónias, e em 2018 a língua do povo Wampanoag começou a ser lecionada em curso na Escola Secundária de Mashpee.

Segundo dizem os entendidos, a palavra Wampanoag deriva de Wapanos, como foi registado no mapa de Adriaen Block, em 1614. Os índios traduzem-na como: Povos da Primeira Luz.

   Aproveitamos para recordar que os Romanos Deram o nome de Lusitânia ao espaço do território continental português, que era terra de última luz, por o sol ali se pôr mais tarde, na Europa. Portanto, faz sentido Wampanoag ser da primeira luz, nesta zona da América do Norte.

   E hoje ficamos por aqui, porque a crónica já vai longa, e toda esta conversa surgiu por causa de uma pedra, no meio do mato, que uns dizem ser mal-assombrada, e outros que está prenhe de bons espíritos – aqueles a quem a terra pertence.

   Perdoar os Ingleses? Nem eles, nem Donald Trump. Puta que os pariu!…

Fall River, Massachusetts, 20 de julho de 2025

Alfredo da Ponte