Há alguns anos escrevi, e foi publicado neste jornal, um resumo da história do Grotto de Lourdes da cidade de Lowell, em Massachusetts. Recordamos que o seu nascimento veio de uma iniciativa privada por parte do Orfanato Franco-Americano, que era operado pelas Irmãs da Caridade de Quebéc, conhecidas também por: Soeurs Grises, Irmãs Cinzentas ou Grey Nuns.
Por ocasião do quinquagésimo aniversário das aparições em França, as freiras do orfanato, associando-se à efeméride, resolveram decorar o quintal, ou jardim, com uma réplica da gruta de Lourdes, e adicionaram um carreiro de meditação e penitência, com as estações da Via-Sacra, mandando vir de França algumas imagens, e colocando em cima do monte da gruta das aparições um Senhor, de humanas dimenções, cruxificado.
A Gruta, em si, com as suas imagens e altares, ficou concluída em 1911, e o trilho da via-sacra, com a particularidade das legendas dos passos serem escritas em francês, um ano depois.
Com o passar do tempo o orfanato cresceu, e acabou transformando-se numa escola em 1964, a Franco American School of Lowell Inc., que ainda nos finais do século XX mantinha anualmente um número de alunos superior a 300, com listas de espera.
Em 2008 a organização, que sempre foi operada pelas Irmãs Cinzentas de Quebéque, ao comemorar o seu centenário regozijou-se de optimismo e tudo parecia estar bem. Porém, oito anos depois, em fevereiro de 2016, o Conselho de Administração anunciou que aquele seria o último ano lectivo naquela instituição. Aliás, a crise nas escolas católicas, por esta altura alastrou-se de tal maneira, que a maioria teve de fechar as suas portas.
Em Dezembro do mesmo ano já havia comprador para a propriedade, e no ano seguinte a venda foi efectuada pela quantia de 2,3 milhões de dólares, com a condição de preservar o Grotto e a Via-Sacra, de modo a que ambos pudessem ter acesso aberto ao público, visto tratar-se de duas obras de inestimável valor para os “Lowellenses” e não só. Foram dois pilares de vida religiosa na cidade.
Presentemente, o edifício que servia de escola está transformado em repartições de escritórios e habitação, e a mansão está conservada na sua traça original. Quanto ao Grotto e às estações, foram restaurados e re-localizados. Encontram-se ao lado do canal, num extremo do parque de estacionamento.
As estações da Via-Sacra, dispostas na traseira do Grotto, com as suas legendas em francês estão em ordem, estendendo-se ao longo de um carreiro que o circunda. Em ambos os lados da montanha de pedra há escadaria de acesso ao Calvário, que é no topo, onde se ergue uma enorme cruz, que é visível além do rio Merrimack. Todo este espaço está sob vigilância 24 horas por dia.
Numa viagem à origem dos Grotos de Lourdes, recordamos o leitor mais descuidado que tudo começou com as aparições que se deram na gruta de Massabielle, perto de Lourdes, entre 11 de fevereiro e 16 de julho de 1858, as quais foram reconhecidas pela Igreja Católica em 1862.
Nos relatos oficiais da região, exigidas pelo governo francês, e pela Igreja Católoca, foram 18 as aparições da Virgem Maria à jovem Bernadette Soubirous, que a descreveu vestida de branco, com uma faixa azul na cintura, e uma rosa dourada em cada pé.
O resto é uma história que merece ser mais detalhada, e que aqui não temos espaço, a não ser para concluir que ali nasceu o Santuário de Lourdes, também é conhecido por suas fontes de água, que muitos acreditam serem curativa, ou milagrosa, de acordo com o Vatican News.
Numa das voltinhas de fim-de-semana, no passado quente mês de julho, o automóvel transportou-nos até à vila de Litchfield, no Condado do mesmo nome, Estado de Connecticut. Como já tinhamos conhecimento da existência de um Santuário de Nossa Senhora de Lourdes, com um Groto e um “caminho da cruz”, naquela zona, não pensámos duas vezes, e fomos visitá-lo. Ficámos com o coração cheio e a alma radiante.
Situado a média altitude do relevo daquela zona, rodeado da mais variada vegetação, nas colinas do noroeste do Estado de Connecticut, o santuário oferece todos os requisitos para uma santa aproximação a Deus e a nós mesmos. Por isso atrai anualmente milhares de turistas e peregrinos. A Gruta, uma réplica da original de França, como não podia deixar de ser, é o centro do santuário, com uma bancada à sua frente, ao ar livre, a qual tem capacidade para mais de mil pessoas, aonde diáriamente, de maio a meados de outubro, os fiéis participam nas celebrações eucarísticas, para além de outros serviços e cerimónias religiosas. Foi criado pelos Padres Missionários Montfort em 1958.
À hora que lá chegámos, o local estava quase deserto, por causa das más previsões meteriológicas. Sentímo-nos à vontade. A curiosidade levou-nos ao interior da capela, que não impõe nenhuma restrição a quem nela quer entrar. Por acaso já tinha reparado que ali havia um sacrário, pensando que estaria vacante. Mas, quando me aproximei, notei que tinha a lamparina acesa, e vi que em baixo um letreiro avisava que o Senhor estava ali. Juro que não precisei ler aquilo, porque logo senti a presença do meu melhor amigo. Com isto, soltei, sem pensar, estas palavras: “olá! Estás aqui!…”
Cumprimentei-o, fazendo uma vénia e dobrando o joelho direito, e ali fiquei, por um minuto, a conversar com Ele. Nisto, a esposa, que antes estava ocupada a tirar fotografias, veio a esposa juntar-se a nós.
Acendemos uma vela, e a seguir fomos à margem do pequeno fluxo de água corrente, que veio mesmo a calhar ali, perto da Gruta, porque segundo dizem, no santuário de França a água que corre de suas fontes é milagrosa. A deste ribeiro não tem esta fama, mas ao dispor de toda a gente há neste local recipientes com água benta.
É curioso o facto de a maioria dos santuários dedicados às aparições de Maria disporem de vias-sacras ao ar livre. Já falámos naquela de Lowel, que nasceu em 1912 – precisamente no mesmo ano daquela do santuário de Lourdes, em França, que tem por nome Chemin de Croix des Espéluques, que se estende no monte por pouco mais de mil e quinhentos metros.
Este Caminho do Calvário de Connecticut também está disposto pelo monte, acima do Groto, no qual as quinze estações (sim, para além das catorze habituais, aumentaram a cena da Ressurreição) se estendem por meia milha, ou seja: cerca de oitocentos e cinco metros. As Estatuetas francesas são de humanas dimenções; as americanas, de Connecticut, mais pequenas. Mas ambas têm a particularidade de serem de bronze.
Seguindo o trilho das estações, numa árvore se vê uma tabuleta que avisa a presença de um urso naquele mato. Nada mau! Está no seu meio-ambiente. Mas o animal não apareceu, graças a Deus!
Resta-nos acrescentar, já agora, que não temos conhecimento da existência de um caminho sagrado ao ar livre no santuário de Fátima, em Portugal Continental. Mas que o Santuário Nacional de Our Lady of Fatima, em Niagara Falls, NY, tem as Estações da Santa Cruz, ao ar livre, dispersas e ordenadas pela Avenida dos Santos.
Por sua vez, La Salette, em França, inauguraou as suas Estações da Cruz em 1889, ao passo que as do santuário do mesmo nome, em Attleboro, Massachusetts, surgiram com a inauguração do local nos anos 50 do século XX.
Mais outro exemplo, é o caso do Santuário de Nossa Senhora do Guadalupe, na Cidade e Estado do México, dos Estados Unidos Mexicanos, onde as Estações da Cruz estão metidas em nichos, e localizadas logo após a Igreja do Santuário, seguindo para o Caminho do Rosário. Foram inauguradas a 9 de dezembro de 2004, no dia de festa de San Juan Diego, o vidente das aparições ali ocorridas, em 1531.
Todos estes santuários, e os outros, com grotos ou sem eles, com cruzes e vias sacras, devem ser respeitados, porque visitados já são de si. São espaços de oração, de proximidade com Deus e com os Santos. Milhares de orações, graças, louvores e súplicas neles se efectuam diáriamente. São lugares santos. Sobreviverão se tiverem os donativos suficientes para a sua conservação.
É necessário preservar os legados dos nossos antepassados, mesmo com mudanças que o tempo presente exige, para poder passá-los às gerações futuras.
Hoje ficamos por aqui. Haja saúde!
O trilho Catorze Passos
Lembra a Paixão de Jesus
Que eu em segundos escassos
Nesta quadra aqui compus.
As grutas de Nossa Senhora
Inspiram fé e amor.
São sítios que a gente adora
A Mãe de Nosso Senhor.


