A caixa do correio eletrónico do orientador da secção rececionou até ao momento 5 (cinco!) enigmas participantes no concurso de problemas policiários “Mãos à Escrita! – 2026”, sendo de prever que nos próximos dias venham a surgir outros originais, apesar do prazo de envio problemas se estender até final de março de 2026. Mas o importante mesmo é que os potenciais concorrentes deitem “mãos à escrita” logo que sintam a inspiração surgir, tendo sempre presente que o produtor deve ter a preocupação de colocar no texto todos os elementos de que o solucionista precisa para resolver cabalmente o enigma, colocando-os o mais disfarçadamente possível, camuflando-os com pistas que se verifica serem falsas e com outros elementos inócuos, em relação aos quais o solucionista tem de fazer uma cuidadosa triagem. E esta mesma preocupação deve estar presente na escrita de qualquer género de enigma, seja ele de “carácter técnico”, de “estilo dedutivo”, de “eliminatórias”, de “decifração criptográfica” ou de qualquer outro género de tipologia policiária.
Esta preocupação, habitualmente muito reclamada pelo nosso saudoso confrade Gustavo Barosa (Zé Viseu), que reiteradamente dizia que o bom produtor é aquele que não “mente” ao solucionista, evita fundamentalmente que a “chave” proposta permita a abertura de portas para soluções diversas, frustrando assim o labor dos que se debatem com o enigma. Não foi esse o caso das produções que venceram o concurso “Mãos à Escrita!” nos anos 2019 e 2022, da autoria de Daniel Falcão e Bernie Leceiro, respetivamente, que consideramos como dois bons exemplos dessa preocupação com o trabalho dos solucionistas, recordando-os, também por isso, nas edições d´O Desafio dos Enigmas de 10 de novembro e 1 de dezembro, com o compromisso de apresentar as respetivas soluções de autor no jornal AUDIÊNCIA GP de 20 de novembro e 10 de dezembro.
CRIME LEAKS
de Daniel Falcão
enigma vencedor do concurso “Mãos à Escrita! – 2019”
Gustavo Santos está sentado, numa solarenga manhã de domingo, na esplanada do Café-Restaurante Sítio do Costume. Continua a rodar a colher dentro da chávena defronte de si, enquanto observa com alguma curiosidade a primeira página do jornal Matutino, pousado sobre a mesa.
Nos últimos dias, as notícias daquele teor têm surgido a conta-gotas. Dia após dia iam sendo libertados fragmentos de relatórios criminais. “Crime Leaks”, assim era apelidada pelos meios noticiosos estas fugas de informação. Mais um “leak” a juntar-se a vários outros, o que levava muitos a perguntarem sobre qual seria o próximo, numa época em que tudo vinha a público, mesmo as informações mais privadas.
Gustavo Santos abre o jornal e lê atentamente a mais recente fuga de informação que aparece reproduzida na terceira página. O texto em causa divulga informações, que deviam ser confidenciais, sobre o homicídio de Manuel José Carvalho, ocorrido em finais de dezembro de 2018.
Pela leitura do texto publicado, ficava-se a saber que a vítima fora encontrada no seu escritório pelo companheiro. Este afirmara que, assim que deparou com o corpo, imediatamente ligara às autoridades. Os agentes destacados para o local não tiveram dificuldade em concluir, pelas peças partidas, pelos móveis deslocados e pelos papéis espalhados pelo chão, que ali ocorrera uma violenta disputa. Disputa que teria terminado com a vítima a ser fortemente golpeada na cabeça com o pisa-papéis, encontrado mesmo ao lado do corpo.
Alexandre Miguel Duarte, assim se chamava o companheiro da vítima, declarara que naquela noite saíra com uns amigos comuns, mas que o Manuel ficara em casa, pois tinha agendado receber uns clientes, situação que ocorria com alguma frequência. Acrescentara ainda que, ao chegar a casa, pouco depois da meia-noite, se apercebera que o companheiro ainda estaria no escritório, pois a luz estava acesa. Decidira não interromper e subira para o quarto, situado no primeiro andar, adormecendo mal se deitara na cama. Seriam umas cinco horas da manhã quando acordou e reparou que o Manuel ainda não se deitara. O que achou estranho. Desceu as escadas, bateu à porta do escritório e, como a luz continuava acesa e não teve qualquer resposta, abriu a porta e entrou. Foi nessa altura que deparou com o escritório todo desarrumado e com o corpo do companheiro.
Segundo o relatório policial, a vítima tinha próximo da sua mão esquerda uma magnífica espátula para abrir cartas, com cabo em madrepérola e lâmina em tartaruga natural. Desta vez, a espátula teria servido para marcar o soalho com o que parecia ser um número: 942. Qual seria o seu significado? Era algo que ainda estava por esclarecer. Se é que significava alguma coisa.
O agente responsável chegou a questionar o companheiro da vítima, ainda no local, sobre quem seria a pessoa ou pessoas com quem Manuel José Carvalho tinha agendado reunir. Num primeiro instante, o inquirido manifestou desconhecimento. Logo depois acrescentou que, nos últimos dias, havia alguns assuntos que ocupavam muito do tempo do companheiro, envolvendo dois clientes: Francisco João Sá e Isidro Diogo Baganha. Suspeitava que a reunião teria sido marcada com algum deles, mas não sabia qual.
As últimas informações disponíveis sobre este caso referiam que o companheiro da vítima, segundo as suas próprias declarações, saíra de casa pouco depois das oito horas, tendo chegado ao local do encontro, a cerca de uma dezena de quilómetros, cerca de meia hora depois, pois era muito cuidadoso na condução.
Gustavo Santos leu e releu os elementos agora divulgados e começava a ter uma ideia do que sucedera na noite do crime.
DESAFIO AO LEITOR:
E o leitor também tem alguma teoria? Em caso afirmativo, desenvolva essa teoria, sustentando-a com os factos disponíveis.
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PS – Os leitores que se dispuserem a “alinhavar” uma proposta de solução a este enigma, devem enviá-la para o endereço eletrónico [email protected], até ao próximo dia 19 de novembro. Será atribuído um prémio de mérito ao leitor que apresentar a proposta mais original.


