A desejada mudança no desenvolvimento das artes performativas só pode ser operada com uma profunda transformação no investimento do Estado na criação artística, através de um modelo de apoio mais robusto e sustentado, assente em contratos-programa tripartidos (Direção Geral das Artes/Estruturas/Associação Nacional de Municípios), que reforce o apoio financeiro e garanta temporadas mais largas das criações apoiadas e a sua circulação a nível nacional. Para tal torna-se indispensável que os teatros municipais adequam a sua estrutura organizacional e modelo de gestão às necessidades impostas pelos acolhimentos, reforçando os seus quadros técnicos, fixando-os a tempo inteiro e especializando-os nas diversas áreas, desde os serviços administrativos e de palco ao setor de formação de públicos.
Atualmente, além da insistência em fixar sessões únicas ou muito breves, a postura de acolhimento de espetáculos nalguns teatros municipais tende a ser defensiva relativamente a propostas estéticas mais arrojadas, resultante de uma desinformação mais ou menos generalizada sobre a atividade teatral e uma enorme confusão sobre arte e entretenimento. As razões desta postura, radica também no facto dos responsáveis pelos teatros municipais menorizarem a questão de base relativa à informação e formação de públicos, ignorando que a relação com a cultura e a arte passa também pela criação de hábitos de convivência e de fruição, o que resolve boa parte dos níveis de frequência de espectadores.
Parece-me, aliás, que esta visão distorcida sobre a realidade da criação teatral atual e o medo da falta de público, resulta de a maioria dos teatros municipais não ter nos seus quadros diretores artísticos e produtores experimentados e equipas técnicas residentes, originando situações de precariedade extrema, quer para os criadores quer para os públicos. Uma profunda mudança na estrutura organizacional e modelo de gestão dos teatros municipais espalhados pelo país permitiria a criação de um núcleo de produção capaz de estimular o surgimento de estruturas locais de criação, que enriqueceria a oferta na respetiva região e dinamizaria o trabalho de formação de públicos, aumentando a frequência das salas.
A falta de públicos que se tem vindo a registar no teatro é, aliás, uma realidade criada pela inobservância de uma política cultural acertada. As políticas culturais são como as tâmaras. Quem planta as tâmaras não as come, porque a árvore demora mais de 70 anos a dar os primeiros frutos. E investir nas políticas culturais também demora a dar os seus frutos.
Infelizmente pensa-se demasiadas vezes que este investimento tem que dar frutos rápidos. E pior, tentam-se aferir os resultados das políticas culturais com indicadores diretos da atividade realizada e não da eficácia indireta da ação. Confundir o indicador com a coisa indicada é perigoso, já que nem sempre uma sala cheia é sinal de uma eficaz política cultural.
A obsessão com as taxas de ocupação das salas apenas hipoteca a possibilidade de crescimento de públicos. A cadeira vazia numa sala é o garante de uma política cultural que aposta no crescimento. Se por medo de salas meias cheias, apostarmos em temporadas cada vez mais curtas como forma de manter os números de ocupação altos, hipotecamos o futuro. Os resultados imediatos podem parecer perfeitos, mas a longo prazo apenas nos levará a fazer “meio espetáculo para um espectador numa casa de banho” de um teatro municipal e ficarmos contentes com a assombrosa taxa de ocupação de 200%. Importa mudar de paradigma. E isso só se consegue com uma equipa de gestão, com diretor artístico e produtor. A eles compete encontrar meios de dinamização dos espaços que gerem, não tendo em vista taxas de ocupação elevadas, mas sim ganhar um espectador que seja. O que só se consegue com regularidade e previsibilidade da programação ao longo de um período de tempo alargado. E só isto permite a recuperação de parte do investimento feito pelas estruturas!
Só a estupidez, a intolerância, a arrogância e a prepotência, explica a insistência na prática de sessões únicas dos espetáculos. É absurdo que continuemos com esta prática, que não serve a ninguém: tanto a quem produz como a quem apresenta! Por isso as políticas culturais têm que ser pensadas a muito longo prazo e não limitadas às grilhetas dos ciclos eleitorais. Segundo a Prodata, em 1960 realizámos 2.828 espetáculos de teatro a que assistiram 1.153.000 espectadores, uma média de 407 por sessão. E em 2021 foram 9.838 sessões para 962.0000 espectadores, baixando a média por sessão para 67. Ou seja, em 60 anos quase quadruplicámos a oferta, mas alcançámos apenas um sexto dos espectadores por sessão. Sendo evidente que muito mudou nos hábitos de ocupação de tempos livres dos cidadãos desde os anos do arranque da televisão em Portugal até aos anos do streaming, a verdade é que temos feito um investimento forte na criação, tendo vindo, no entanto, a perder público. Por isso, está na hora de centrar as políticas culturais no direito à cultura do cidadão!
E isso passa por alterar definitivamente as políticas culturais, tanto na comunicação e difusão da oferta, como no apoio à criação. Resolvida esta magna questão, estou seguro de que estarão reunidas as condições para que as estruturas artísticas deixem de viver sufocadas e o desenvolvimento das artes performativas seja uma realidade… também aqui, em Gaia!


