CONCLUSÃO DO SEGUNDO CONTO DE “UM CASO POLICIAL NO NATAL”

Voltamos hoje ao segundo conto do concurso “Um Caso Policial no Natal”, com a publicação da sua segunda parte e conclusão. Recordamos que na passada edição o seu principal personagem, João Marcelino, tinha sido confrontado com um incidente ocorrido com o seu amigo Xico Bala, funcionário de um importante hotel do Porto, que havia passado algumas horas com uma mulher casada num dos apartamentos daquela unidade hoteleira e esta agora acusa-o de ele ter roubado a sua carteira, ameaçando-o de apresentar queixa à gerência, o que pode determinar a perda do emprego. João Marcelino ficou muito preocupado com a situação do amigo, mas…

“(…)

Olhei para o relógio, bolas 23:50, a minha bonequinha já deve ter saído. Liguei. No meu melhor inglês aprendido com os turistas na Ribeira a quem pedíamos moedas para saltar da ponte D. Luís, fiquei ainda mais transtornado. Natasha chorava copiosamente. O chimpanzé Francis que cresceu com ela nos circos por esse mundo fora, desaparecera misteriosamente do Coliseu no final da sua atuação ainda na 1ª parte do espetáculo. Só deram por falta dele no final e quando estavam a proceder às arrumações e alimentação dos animais. Estava desolada e inconsolável. Entre soluços pedia desculpa por não poder estar comigo, mas iriam passar a noite em buscas na cidade. Francis, extremamente afável e simpático poderia ficar agressivo fora do seu ambiente. Caramba, primeiro o Xico, agora Natasha, que noite!”

“Um Caso Policial no Natal” – SEGUNDO CONTO

O FANTASMA DO HOTEL INFANTE SAGRES, de Bernie Leceiro

II – PARTE (conclusão)

Voltei para junto de Xico Bala, mas o meu pensamento estava na mansarda do Hotel Infante Sagres, em Francis e no conforto dos lençóis de cama do Hotel Aliados que eu estava a perder, veio-me à lembrança o clássico de Os Crimes da Rua Morgue de Edgar Allan Poe por muitos considerado como a primeira obra policial de sempre e cuja leitura eu sempre recomendava na FNAC a quem se queria iniciar na leitura deste género literário. Seria possível os dois acontecimentos dessa noite estarem relacionados?

Liguei novamente à Natasha, uma vez mais com o meu melhor English accent:

– My love, qual é o alimento preferido de Francis?

– Paw Paw, respondeu.

– What?!?

– Asimina Triloba, é uma fruta exótica, mas normalmente só come quando estamos em digressão no continente americano.

Desliguei, combinando encontro para mais logo na ajuda da busca por Francis e marco o número de Nanda, uma moça roliça com banca de fruta “estranha” no 1ºandar do Bolhão, de quem ganhei confiança e intimidade à custa da minha fama no mercado de “abichanado”. Num final de tarde partilhamos o exíguo espaço para troca de roupa existente no mercado, quando ela estava atrasada para ir ao dentista e eu para a FNAC… o resto não vale a pena contar… Nanda faltou à consulta e eu quase fui despedido por faltar mais uma vez sem avisar.

– Olá Nanda, é Carlinhos – no mercado sou assim conhecido, uma espécie de nome artístico para a personagem que encarno – sabes o que é a fruta Pau-Pau?

– Olá torrãozinho, em que está agora tu a pensar meu maluco?

– A minha irmã Vanessa acha que está grávida e tem esse desejo, acho que viu a story de uma influencer no Instagram… preciso dessa fruta agora … ela está doida … não deixa ninguém descansar – improvisei.

– Já sei o que é! acho que tenho na câmara frigorifica do mercado, é a “banana do homem pobre” tenho uma cliente “fozeira” que é doida por isso. Diz que lhe conserva a pele, é chanfrada, está toda encarquilhada com a cara a cair aos bocados! Encontramo-nos no mercado daqui a meia-hora. Mas, olha lá meu “conguito”, vai-te sair caro…

Abreviando, à hora marcada encontrei-me com a Nanda junto à porta da rua Fernandes Tomás, na companhia do Xico a quem apresentei como o namorado da minha irmã, não fosse ela ter ideias aquela hora da noite que me desviassem do pretendido, peguei na fruta, despachei Nanda com um beijo bem rápido e dirigimo-nos apressadamente para o Hotel Infante Sagres, sem antes passar no Coliseu a apanhar a chorosa Natasha. Se tudo batesse certo, rapidamente iriamos saciar a fome e descobrir a identidade do famoso fantasma.

Descemos as ruas Passos Manuel e Dr. Magalhães Lemos, atravessamos a aquela hora deserta Avenida dos Aliados e percorrendo apressados a rua Elísio de Melo chegamos ao nosso destino. Com o coração aos saltos subimos os 12 lanços da escada de serviço do hotel. Na minha retaguarda seguiam Xico e Natasha assustadíssimos e eu sem saber muito bem o que nos aguardaria e como reagiríamos. Aliciado pelo intenso aroma da fruta Paw Paw, que eu, entretanto descascara e partira num tupperware que Xico fora apanhar na cozinha, do fundo do escuro corredor surge o fantasma, nada mais nada menos que Francis. Com um velho abajur a enfeitar a cabeça, a mala da dama debaixo do braço e a beiça pintada de um vermelho Chanel, oriundo de algum batom abandonado no interior da mala, que enfeitava um imenso sorriso como a dar-nos as boas-vindas.

O malandro tinha entrado no pátio interior pelo acesso de serviço do lado da rua do Almada, subiu por um tubo de queda do alçado tardoz do hotel e entrou por uma estreita janela sempre aberta de uma velha casa de banho fora de serviço ao fundo do corredor e onde se tinha refugiado.

 Natasha estava radiante, Francis deliciado com a sua fruta favorita e Xico Bala eternamente agradecido, salvara o emprego e poderia manter os seus esquemas amorosos.

04:40, a noite estava salva e o Natal de 2014 também. Este que foi o último ano em que o famoso circo de Natal do Coliseu teve a atuação de animais em pista. A tradição mantém-se desde 1941, ano da inauguração do Coliseu, o Circo que é uma das principais e mais concorridas atrações de Natal da cidade do Porto.

AVALIAÇÃO-PONTUAÇÃO

Os nossos leitores têm a partir de agora 30 (trinta) dias para proceder à avaliação deste segundo conto a concurso e ao envio da pontuação atribuída, entre 5 a 10 pontos (em função da qualidade e originalidade), através do email salvadorsantos949@gmail.com. Recorda-se que o conto vencedor do concurso será o que conseguir alcançar a média de pontuação mais elevada após a publicação de todos os trabalhos, sendo possível (e muito desejada!) a participação dos autores no “lote de jurados”, estando, porém, impedidos de pontuar os seus originais (escritos em nome próprio ou sob a forma de pseudónimo), de maneira a não “fazerem juízo em causa própria”.