Novembro é, mais do que todos os outros, um mês apropriado para entrar num cemitério. E eu fui. Um dia de vento e chuva, pois o «Verão de S. Martinho» não costuma ser rigoroso em pontualidade.

E vi-os. Alguns de bigode, outros com óculos. Algumas com aqueles lenços de aldeia nas cabeças; outras com penteados de cabeleireiro, agora já tão inúteis como os lenços. Uns com os nomes da moda, outros com nomes que já foram da moda.

Tão diferentes uns dos outros nas idades, nas fotos, nas datas – sempre duas, sempre só duas – que lemos junto dos nomes.

Mas tão igualados na morte, tão igualmente despidos de tempo e de coisas. Todos eles resumidos, de forma semelhante, em duas datas – sempre duas, sempre só duas.

Tiveram um nome de aqui, protegeram os corpos dentro de roupas como as nossas, pisaram as pedras destas ruas, trouxeram carinho nos corações. Tiveram problemas e alegrias, cantaram, deram prendas. Fizeram o bem e o mal.

Nem todos. Porque li «inocente» em algumas placas. Alguns andaram por aqui tão breves instantes… Não chegaram a sujar-se, não houve tempo suficiente para crescer dentro deles a semente de mal que traziam consigo.

Como sucedeu com aqueles três irmãos, todos pequenos, que morreram no mesmo dia juntamente com a mãe. Imagino que tenha sido um acidente, talvez na estrada. Piedoso acontecimento – digo eu, tentando ver nele um lado bom –, que permitiu que aquela mãe nunca passasse pelo tormento de ver um filho morto; que permitiu àquelas crianças nunca saberem que coisa é viver sem mãe.

Ou como aquela menina que viveu… um dia. Beijaram-na, vestiram-lhe umas roupinhas, baptizaram-na, fizeram-lhe uma fotografia. Flor de um dia… Flor eterna porque inocente.

Pensei que somente a inocência – a inicial ou a conquistada – se reveste realmente de imortalidade. Que outra coisa poderia ser eterna? Porque é ela a beleza interior e, quanto à beleza exterior – aos penteados, aos lenços, aos bigodes… – estamos conversados: pó…

E fiquei a pensar nos outros: nos que viveram muitos dias. Em particular, naquele que juntou, entre a primeira e a última datas, o mesmo número de anos que tenho agora… Pensei nos que viveram tempo suficiente para saberem o que são o bem e o mal e, assim, se tornaram responsáveis pelo seu comportamento. Pensei naqueles que se cobriram de culpas.

A culpa é o oposto da inocência, a culpa destrói a inocência. E, depois disso acontecer, será necessário recuperá-la, se aspirarmos – e aspiramos – a viver sempre.

Talvez a grande tarefa da nossa vida seja tornarmo-nos de novo meninos: chegarmos a ser, por um esforço de vontade, aquilo que eles são pela idade.

Temos algum tempo para isso. Até chegar… a segunda data.

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