“ESCREVI COM LIGAÇÃO DIRETA AO CORAÇÃO”

O Salão Nobre da Santa Casa da Misericórdia de Vila Nova de Gaia acolheu, no passado dia 30 de abril, a apresentação do livro “O Teu Melhor – Como Viver com Espondilite Anquilosante”, da autoria de Ana Encarnação. Perante mais de quatro dezenas de participantes, entre utentes, colaboradores e mesários da instituição, a autora partilhou um testemunho marcado pela coragem, pela aceitação da doença e pela vontade de transformar a dor em esperança para os outros.

 

 

Foi num ambiente de proximidade, reflexão e emoção que decorreu a apresentação da obra “O Teu Melhor – Como Viver com Espondilite Anquilosante”, livro onde Ana Encarnação relata o percurso vivido desde que, aos 25 anos, foi diagnosticada com espondilite anquilosante, uma doença autoimune, crónica e incurável.

Natural de Setúbal, nascida em 1985, licenciada em Comunicação Social, no ramo de Jornalismo, e mestre em Ciências Empresariais, a autora tem desenvolvido atividade nas áreas do jornalismo, da economia, do yoga, da meditação e do desenvolvimento pessoal. Na obra agora apresentada na Santa Casa da Misericórdia de Vila Nova de Gaiam Ana Encarnação abriu as portas da sua experiência pessoal, refletindo sobre os desafios físicos, emocionais e mentais, associados à convivência diária com a doença.

A sessão foi moderada por Manuel Moreira, provedor da instituição, que começou por destacar a importância de iniciativas culturais e humanas, como esta, para a ligação da Misericórdia à comunidade. “É sempre com muito gosto que nós acolhemos, aqui, no salão nobre da Santa Casa da Misericórdia de Vila Nova de Gaia, iniciativas e eventos que valorizam a nossa instituição, que a dignificam e que a projetam também neste interface entre nós e a comunidade onde estamos envolvidos”, afirmou.

O responsável salientou ainda o simbolismo da deslocação da autora a Vila Nova de Gaia para partilhar o seu testemunho, sublinhando a força demonstrada perante a doença. “Ana Encarnação descobriu que sofria de uma doença autoimune e viu o mundo dela desmoronar-se, mas não desistiu e está aqui bem viva para comunicar e partilhar connosco esta sua experiência de vida”, referiu.

Ao abordar o conteúdo da obra, Manuel Moreira descreveu o livro como um retrato profundo das mudanças impostas pela doença. “Precisar de lidar com a dor diária, com o cansaço, a fadiga, as mudanças no corpo, as mudanças na rotina e alimentação e a incerteza de como será o futuro, é essa a descoberta”, frisou.

Num tom mais reflexivo, o provedor deixou ainda uma mensagem sobre a importância da dignidade humana e da união entre as pessoas. “A vida é única e nós somos seres irrepetíveis e por isso queremos e merecemos procurar dignificar-nos como pessoas, porque só assim também podemos partilhar e dignificar os demais connosco”, ressaltou, acrescentando que “juntos somos tudo. Somos a vida que se transmite para as novas gerações”.

Durante a sua intervenção, Ana Encarnação explicou a origem do título do livro e o significado que pretende transmitir aos leitores. “Porque é que eu escolhi este nome para a obra? Porque nós conseguimos sempre dar o nosso melhor, independentemente daquilo que esteja a acontecer nas nossas vidas. Esta doença foi-me diagnosticada aos 25 anos”, recordou.

A autora destacou que a obra não se dirige apenas a pessoas com espondilite anquilosante, mas a todos aqueles que enfrentam algum tipo de sofrimento. “Este livro não é só para quem sofre de espondilite anquilosante. Este livro é para todas as pessoas. Porque nós somos todos iguais e todos diferentes. Todos sentimos dor, seja ela física, mental ou emocional”, evidenciou.

Num discurso profundamente pessoal, Ana Encarnação falou das dificuldades vividas ao longo dos últimos 16 anos, mas também da necessidade de encontrar força nas pequenas conquistas do quotidiano. “Há sonhos que ficam por realizar, porque não nos são possíveis, mas eu acredito muito que devemos agarrarmo-nos às coisas que são boas. Nós temos todos coisas boas nas nossas vidas, independentemente daquilo que estejamos a passar”, enalteceu.

A autora revelou ainda que o projeto nasceu inicialmente através de uma página de Facebook criada numa fase particularmente difícil da sua vida. “Numa altura em que estava internada no hospital decidi escrever aquilo que estava a sentir em pequenos textos e percebi que obtinha respostas e as pessoas diziam: ‘parece que escreveste mesmo para mim’. Comecei a pensar, então se calhar todos somos iguais”, contou.

Segundo explicou, o verdadeiro sucesso do livro reside na possibilidade de tocar a vida de alguém. “Sempre disse que o sucesso do livro era se tocasse num coração e pudesse ajudar alguém a ultrapassar seja que dor estivesse a passar e eu já tive o meu sucesso”, afirmou emocionada.

Ana Encarnação definiu ainda a obra como um exercício de sinceridade absoluta. “Este livro é a minha história. Eu escrevi com ligação direta ao coração, de uma forma simples, tudo o que estava cá dentro”, declarou.

A apresentação do livro esteve a cargo de Carla Soares, colaboradora das Residências Seniores Conde das Devesas da Santa Casa da Misericórdia de Vila Nova de Gaia, que destacou a dimensão humana da publicação. “Este não é apenas um livro sobre uma doença. É um livro sobre a vida real, sobre aquilo que muitas vezes não se vê, mas que se sente todos os dias”, referiu, explicando que a obra ajuda não apenas a compreender a espondilite anquilosante, mas sobretudo “a perceber melhor a pessoa por trás dela”.

Carla Soares considerou ainda que o testemunho da autora representa uma mensagem de esperança construída na realidade do quotidiano. “Mostra que é possível continuar a ter objetivos, sonhos e qualidade de vida, mesmo com desafios”, revelou, acrescentando que “o nosso melhor não é igual todos os dias, mas continua a ser suficiente”.

Já no encerramento da sessão, Manuel Moreira voltou a elogiar a sensibilidade da escrita de Ana Encarnação. “A forma de escrever da Ana Encarnação é absolutamente envolvente e sensível. Conseguiu transpor para o papel sentimentos que muitas vezes são difíceis de explicar a quem nos rodeia”, salientou o provedor, descrevendo ainda a leitura da obra como “um abraço cheio de força e ternura”, considerando tratar-se de “um testemunho de vida para muitas vidas como a dela”, capaz de ajudar quem enfrenta situações semelhantes a encontrar esperança e coragem para continuar.

Na ocasião, Ana Encarnação anunciou também o lançamento do seu segundo livro, “Todos os Dias, Um Recomeço”, cuja apresentação está marcada para o próximo dia 30 de maio, na Feira do Livro de Lisboa.