Apesar da pandemia da COVID-19 ter “atrapalhado” alguns dos planos culturais programados, Alcino Lopes, presidente da União de Freguesias de Gulpilhares e Valadares, admite que este ano foi “o ano em que há mais investimento e mais capacidade de intervir”. Com uma excelente saúde financeira e uma taxa de execução do orçamento de quase 100 por cento, o presidente explica como consegue estes valores, num ano em que o apoio social foi predominante e se presume que continue a ser. Apesar de ainda ter mais um mandato possível, Alcino Lopes confidenciou ao AUDIÊNCIA que não sabe ainda o futuro, mas que gostaria de deixar a vida autárquica, na qual está há 40 anos.

 

 

 

Vivemos tempos de pandemia jamais vividos. Como tem sido a situação aqui em Gulpilhares e Valadares?

A situação de pandemia, em termos doença, não temos muita perceção de quem estava com o vírus ou não, até porque é muito estranho que nós que lidamos com a população não tenhamos conhecimento de quem é quem. É uma coisa estúpida por causa da situação criada da proteção de dados, chega-se a esse ponto. Obviamente acho que é um erro, as Juntas deviam estar a par do que se está a passar, e não estão, o que quer dizer que não contam connosco como parceiros, e se é uma questão de proteção de dados, nós temos aqui dados de muitas pessoas e não os andamos a divulgar. A pandemia a nós afetou-nos um pouco mais em termos de apoio social. Houve um período muito intenso em que as pessoas ficaram desempregadas, de layoff ou por outra situação qualquer, andaram a passar mal e tivemos de socorrer muita gente a nível alimentar, ao nível do apoio ao pagamento da energia, do gás, de farmácia, portanto, são áreas que estão contidas num acordo que temos com o município, e que valorizamos imenso e disponibilizamos dinheiro suficiente para atender a toda a gente. Todos os casos que nos são reportados de apoio social, desde que estejam incluídos nos parâmetros definidos, nós apoiamos. As nossas duas assistentes sociais fazem essa avaliação, portanto, ninguém fica sem ser apoiado. Claro que se vier uma segunda vaga, não sei como vai ser porque já despendemos muito dinheiro, uma grande parte do município, e, neste momento, já está a ser a Junta a financiar o projeto. De qualquer forma, vamos fazer tudo para que as pessoas que nos solicitarem apoio não fiquem defraudadas porque o nosso propósito é ajudar todos os que precisem.

 

Normalmente, a freguesia já devia ter um número de pessoas que ajudava. Esse número duplicou com a pandemia?

Claro que o número aumentou muito. Mas nós também temos uma parceria com as paróquias de Gulpilhares e de Valadares, e as Conferências Vicentinas são muito importantes na distribuição de bens alimentares provenientes do Banco Alimentar e do Banco Europeu. Portanto, aí há um papel importantíssimo das Conferências Vicentinas, mas nós este ano tivemos que entrar também na área da alimentação, em que entregamos cabazes com valor substancial e também fomos entregar a pessoas que estavam confinadas, que sabíamos na altura que estavam, mas, se calhar, fomos entregar a outras que nem supúnhamos estarem em confinamento. E aí houve, de facto, um grave erro governamental de não nos atribuírem essa possibilidade de saber quem está infetado para que não infete os nossos funcionários.

 

E neste momento, mantém o apoio ainda?

Ao nível alimentar baixaram os pedidos, mas ao nível das Conferências Vicentinas continuam com muita força a intervir.

 

Se a situação piorar, a União de Freguesias está preparada para isso?

No apoio social, não vamos deixar ficar ninguém mal. Vamos fazer um esforço para responder a toda a gente, desde que se enquadre na plataforma que temos. Porque cada pessoa só tem possibilidade de receber 600 euros por ano, senão eram sempre os mesmos a receber. A Câmara tem uma verba que ficou devidamente definida para as Juntas, e estamos disponíveis para encaixar mais dinheiro se necessário. Não vamos defraudar ninguém, mas claro que sabemos que há pessoas oportunistas e temos de estar atentos a isso.

 

Toda esta situação, alterou de que forma o orçamento da Junta de Freguesia? Que projetos ficaram para trás que não queria que tivesse acontecido?

Nós também estamos a sofrer com tudo isto, há receitas que eram importantes e que deixaram de existir, por exemplo, o Senhor da Pedra não se realizou, e só aí foram cerca de 12 mil euros que se perderam. Temos um complexo desportivo de exploração comercial que gera, por ano, cerca de 40 mil euros e este ano vai ter 5 mil. É uma quebra enorme de receita e claro que esses valores são importantes para nós, mas mesmo assim não estamos a cortar o que quer que seja nos apoios. A Junta demonstra, nos últimos anos, uma saúde financeira que é muito meritória, portanto, nada vai ficar por resolver. Agora, vamos ter menos receitas correntes, lógico que sim. Há uma coisa que até apuramos neste período da crise, em que fizemos uma avaliação das pessoas que se enterravam, e é menor que o ano passado, mesmo durante o período intenso da pandemia, tínhamos menos pessoas a serem enterradas do que no ano passado. Mas isso vale o que vale, porque embora todos os dias se fale da pandemia, a Gripe A matou milhares de pessoas e ninguém comentou. Aliás, a gripe mata muitos idosos.

 

Mas em termos de projetos que tinha planeado para este ano, ficou algo por fazer?

Não, porque o dinheiro que sai para o efeito social não tem nada a ver com o investimento. Temos dinheiro preparado para investir e dinheiro para as despesas correntes, portanto, não há nada que não tenhamos feito. O nosso projeto estava devidamente delineado e não temos nenhum bloqueio de investimento. Nós perdemos dinheiro de receita, mas também deixamos de gastar em algumas coisas, porque financiávamos as festas e isso este ano não aconteceu. Entre o que é receita e despesa, eventualmente, perdemos mais receita do que a despesa, mas está a ser um ano tranquilo.

 

Apesar de toda esta situação, que balanço faria deste mandato?

É o ano em que estamos a ter mais investimento, também direcionado pelo município. Destes três anos, desde a eleição última, acho que este é o ano em que estamos a ter mais capacidade de intervir. Uma das coisas que aqui faltava em Gulpilhares e Valadares era intervenção em arrumamentos que estão depauperados há décadas e isso foi conseguido através de um acordo com a Câmara, demos uma sapatada na rede viária. Melhorou-se imenso arruamentos que estavam depauperados há 15 ou 20 anos, e isso foi muito meritório porque se há coisa que incomoda a população é as ruas. Quando há um buraco toda a gente protesta, muitas vezes com razão, outras vezes sem razão, porque o buraco aparece muitas vezes sem nós sabermos porque se não passarmos lá, e as pessoas não reportarem, nós não adivinhamos. E os portugueses têm o mau vício de não terem o cuidado de alertar para as situações, criticam à posteriori o facto de não arranjarmos sem pensarem se sabíamos ou não. Portanto, o ano está a ser tranquilo, à parte da pandemia, e o investimento foi feito e continua a ser feito. Ainda temos coisas importantes a fazer, estamos sempre à espera que a Câmara ajude, porque a Câmara é, de facto, o elemento forte do desenvolvimento das autarquias locais. A Câmara prontificou-se, por exemplo, a fazer uma renovação do interior do auditório, que já tem mais de 20 anos, e julgo que o senhor presidente da Câmara vai honrar a sua palavra, ele tem esse predicado, quando promete tenta realmente cumprir. Também temos o outro projeto que não é assim muito vultuoso, mas também necessita de investimento, e a Câmara prontificou-se a fazê-lo, que é renovar o edifício sede da Junta de Valadares, que é antiquíssimo, se calhar centenário, e está muito mau em termos de interior.

 

E acredita que essas obras ainda vão acontecer neste mandato?

Acho que sim, pelo menos das reuniões que tivemos com o presidente da Câmara tudo indica que sim. Também há outro projeto muito interessante que o presidente da Câmara teve a ideia, ainda não está plasmado num projeto final, que é o arranjo da praceta em frente à Igreja de Valadares. Há já um estudo avançado que se for para a frente vai transformar aquele espaço. Esperemos que isso aconteça, mas, brevemente, também saberemos pois pedi uma reunião ao presidente da Câmara para avaliar estas coisas, embora a pandemia também tenha atrapalhado um bocadinho a dinâmica municipal, porque as pessoas acabam por se esgotar às vezes a tratar de coisas pequeninas e depois o tempo falta para outras coisas. Mas estou convencido que tudo vai correr bem.

 

Além desses projetos que referiu, há mais algum que considere essencial?

Neste momento, para mim, os três projetos mais emblemáticos são o auditório de Gulpilhares que as cadeiras estão muito desgastadas, já têm mais de 20 anos, e é preciso refrescar o edifício no interior com pinturas e, eventualmente, também intervir ao nível da eficácia em termos energéticos. Depois, a sede da Junta de Valadares, a praceta em frente à Igreja de Valadares e um conjunto de coisas que são necessidades mas isso já faz parte do plano de valorização dos arruamentos, como a rua que passa em frente à Igreja, a Avenida António Coelho Moreira até à A44, que precisava de ser arranjada, a Rua do Castro em Valadares da parte de quem vai para a Madalena, a estrada Salvador Brandão em que os passeios estão miseráveis e precisavam de ser arranjados… há muita coisa para fazer mas quem anda nisto sabe que nunca se consegue fazer tudo. A ambição tem de estar cá, mas já sabemos que não é possível fazer tudo.

 

Mas para este ano está então a conseguir cumprir tudo o que tinha planeado.

Sim. Brevemente acho que o senhor presidente me vai chamar para uma reunião e eu gostaria muito que o Auditório fosse renovado e que fosse concluído antes das eleições, não por causa das eleições, mas porque é uma promessa deste mandato. E a Junta de Valadares também, e o que puder ser mais será, mas não podemos estar a exigir porque também não sabemos as capacidades do município e devemos ser coerentes. Também temos ambições e às vezes não conseguimos chegar lá.

 

E com tudo isto, pensa que Gulpilhares e Valadares fica “em condições”?

Onde as pessoas sofrem mais é nos arruamentos e além dos que falei há ainda outros como a Avenida de Sagres, em Gulpilhares, junto à Rádio Clube Português, que está num estado miserável, ou a Rua Alberto Teixeira da Costa que também está num estado lastimável. Há ruas que têm peso habitacional e de circulação intensa que precisam, mas percebemos que não é possível fazer tudo. Mas a vontade está cá, ainda recentemente, num protocolo com a Câmara, fizemos, entre ruas pequeninas e médias, 19 ruas entre julho e agosto. A Câmara pagou, entregou-nos a responsabilidade de as coordenar e vistoriar, foi um voto que confiança que está a dar a muitas Juntas, não só a esta, e que nós fomos capazes de responder. Foi feito o investimento com certa rapidez e ainda hoje fui visitar uma rua que estava num estado miserável, a Travessa da Carreira Funda, à beira do campo do Valadares, e está pronta já. São investimentos que melhoram muito o meio e as pessoas ficam contentes. Eu acho que as coisas que mais marcam as pessoas é as ruas.

 

E sente que as pessoas estão a notar esse investimento?

Sim, porque nós no dia a dia tínhamos sempre reparos por email sobre certas ruas. São as maiores reclamações e à medida que fomos fazendo fomos esvaziando a contestação. Havia ruas que tinham muitos protestos, mas há ruas para fazer. Há muita coisa para fazer.

 

 

“Não há benefício nenhum com a agregação e é um desgaste enorme para quem está à frente”

 

Esta é também uma zona balnear com as praias que dispõe. Tem noção se, este ano, foram mais concorridas por causa da pandemia?

Não sei dizer porque não tenho ido à praia, passo apenas na avenida, mas não é fácil de saber. Não fazemos esse tipo de avaliação, as Juntas em termos de executivos estão muito limitadas, porque muitas das pessoas que fazem parte do executivo trabalham, não estão a tempo inteiro na Junta. Por isso é que sou muito crítico relativamente à agregação das freguesias.

 

Mas agora já vê com outros olhos a agregação?

Nada disso. Estou na mesma. Fomos dos poucos que mantivemos essa posição. Às vezes, algumas pessoas questionam-me e julgam que fui um dos que estive a favor, o que é mentira, porque desde a primeira hora que estive sempre contra, cheguei a ser o único presidente de Junta a dizer que era contra. Na parte final, quando se soube onde ficavam as sedes administrativas, alguns deram a cambalhota e mudaram de opinião, porque acharam que onde ficava a sede administrativa era muito importante quando não é, ficar aqui ou em Valadares é a mesma coisa. É claro que eu prefiro que seja aqui, por razões que não comento, mas muita gente alinhou nesse jogo. Mas é pena que este Governo não cumpra o que andou a dizer. Era para 2017, depois passou para 2021, depois para 2025 e não vai haver nada.

 

Não vê benefício nenhum?

Não. Não há benefício nenhum e é um desgaste enorme para quem está à frente. Se for um presidente de Junta que trabalhe, não consegue fazer tudo. Enquanto estou num sítio não posso estar noutro. É uma estupidez. E não temos quadros técnicos, uma Junta são os membros do executivo, as pessoas da secretaria, o pessoal do cemitério e da limpeza. E o resto? Esta comunidade tem cerca de 23 mil habitantes, e temos concelhos com 3 ou 4 mil habitantes e os presidentes de Câmara têm assessores, têm técnicos superiores e estão numa aldeia com meia dúzia de pessoas e aqui temos de dar o litro.

 

Engloba uma maior gestão do executivo…

Exato. As Juntas não estão profissionalizadas. Para além do Governo, este e os anteriores, nunca olharem para as Juntas decentemente. E este Governo devia ter feito isso porque o Primeiro-Ministro teve engenho para por as Juntas de Lisboa, enquanto era presidente da Câmara, independentes em termos financeiros. Há Juntas que recebem dinheiro do orçamento de Estado, 6 ou 7 milhões de euros, e nós recebemos 185 mil euros para duas freguesias. Portanto, este Primeiro-Ministro que teve o engenho para fazer em Lisboa, porque não fez no resto do país? Não digo em todos os sítios, mas nas grandes cidades podia ter feito.

 

Considera que há uma discriminação nesse sentido?

Eu acho é que o nosso país normalmente é governado de impulso, não fazem as coisas com planeamento. Lisboa devia ter servido de exemplo para as grandes cidades como Porto, Gaia, Braga, e muitos outros sítios.

 

 

Mas acha que era possível voltar atrás neste momento?

É. É sempre possível, se foi possível agregar, também é possível desagregar. Até porque, na altura, a ordem não era para as Juntas, era para as Câmaras, era para extinguir Câmaras pequenas que não fazem sentido, aí é que havia poupança. São João da Madeira é uma freguesia e tem uma Câmara, por exemplo. Se calhar até tem alguma população, mas não tem tanta como Gulpilhares. Acho que nenhum de nós autarca tem o direito de fazer com que isto fique assim. Nós estamos a alterar a história do país, não faz sentido uma comunidade com 10 ou 11 mil habitantes urbana, esteja nestes termos.

 

Sente que a população está do seu lado nesse assunto?

Não sei. Isto acaba também por cair no esquecimento. As pessoas não sabem é que nós temos dificuldade em governar, não sabem o trabalho que se tem. Da nossa parte, tentamos fazer tudo o que é necessário, mas, às vezes, não conseguimos. Às vezes, as coisas não são tão eficazes como gostaríamos, anda aí muita gente na rua a estragar por onde passam.

 

E para o próximo mandato, já tem ideia do que vai fazer?

Já há oito ou 12 anos que estava a empurrar o Eduardo, que já está comigo há mais de 20 anos. Já estou cansado, estou desde 1979. São 41 anos seguidos, seis não como presidente, portanto 35 como presidente de Junta, e isto desgasta muito. Claro que já conheço bem, mas, hoje em dia, as populações são muito reivindicativas, massacram-nos com coisas pequeninas, e isso desgasta. Basta existir o email, há pessoas que escrevem mal e querem dizer alguma coisa em meia dúzia de palavras e, às vezes, nem são explícitos, outros denota-se que não são pessoas bem formadas e acham que temos o dever de fazer tudo e isso desgasta muito. Não há meios, não estamos preparados para responder a tudo. A Câmara também cada vez tem menos gente no espaço público, tem dificuldade de ter calceteiros, não tem pessoas para os jardins, porque hoje ninguém quer ir ganhar 600 euros para uma Câmara ou para uma Junta, e os que aparecem nem sempre estão em condições para os cargos.

 

Então não coloca a hipótese de mais um mandato?

Não… O José Eduardo e o Joaquim Rocha, às vezes, chateiam-me com isto, mas não. Se houvesse desagregação, eu até gostava de fechar com Gulpilhares, que é a minha terra. Não quer dizer que despreze Valadares, pelo contrário, olho para as duas da mesma forma. Mas gostava de fechar isto voltando a ser só de Gulpilhares, se ganhasse claro. Mas tenho tido alguns problemas, estou desgastado, estou um pouco cansado também. São muitos anos. Há limites para tudo. Não é fácil. Da maneira que gerimos, não somos melhores nem piores que os outros, mas aqui, e respeitando o município, não estamos resignados a estar à espera que o município nos dê orientações. Devemos ser a única freguesia que não espera, claro que queremos muito o apoio do município, e o município normalmente valida muito as nossas propostas, mas não somos aquelas pessoas acomodadas, nunca fomos. Fazemos por nós. Não estamos à espera, sei que pelo país há freguesias que estão sempre dependentes do município, mas aqui não é assim, e quando assim é, desgasta mais.

 

Tem oposição na Junta?

Oposição existe sempre, e vai aparecer para o ano. Mas posso dar um exemplo, o partido maior da oposição, quando apresentamos o Relatório e Contas em junho, as palavras foram “não votamos a favor por razões políticas, mas temos que realçar, de facto, o documento que nos é apresentado”. Devia servir de exemplo para muitas freguesias. E, nesse aspeto, foram sérios, porque um executivo que apresenta um grau de execução de contas de 90 e tal por cento, não é para brincar, é porque as coisas aqui são mesmo a sério. A primeira coisa que fiz hoje, quando cá cheguei de manhã, foi validar tudo o que aconteceu no dia anterior. Eu chego ao computador, carrego num botão e temos a nossa situação financeira na mão passados segundos, ao dia. E a maioria não é assim. Nós sabemos as coisas na hora, aqui não se facilita. Pagamos tudo a pronto pagamento, não temos dívidas. Aqui é tudo a pronto pagamento há muitos anos. Quando cheguei a Valadares, havia dívidas. Mas também passado quatro ou cinco meses deixou de ter, fechamos sempre o ano tranquilos. Com a agregação, a dinâmica em Valadares é completamente distinta.

 

Teve de dar mais atenção a Valadares no primeiro mandato?

Claro. Aliás, acho que perdi votos em Gulpilhares por, no primeiro mandato, dar mais atenção a Valadares, a população ficou zangada de eu investir tanto dinheiro em Valadares. Porque Valadares estava tão atrasado que quando entramos na Junta tivemos de gastar 150 toneladas de tapete a frio para tapar buracos. Levamos um camião cheio de 3 toneladas e meia para tapar uma cratera numa rua. Era um terceiro mundo nas finanças, nas ruas… era um caos. Era uma diferença muito grande para Gulpilhares. Por exemplo, quando visitamos o Orfeão, ficamos envergonhados e quando vi o interior fiquei mesmo triste, estava muito degradado e fizemos um projeto para o Orfeão, pagamos o projeto, arranjamos maneira de a Câmara financiar o projeto, e hoje está lá aquela obra. Mas foi preciso vir um paraquedista para perceber que o Orfeão estava naquele estado? Ainda há dias transferimos 50 por cento de um valor de piano para lá, 11.500 euros. Já em Gulpilhares eu conhecia a realidade, enquanto Valadares era tudo novidade e tive de me dedicar. Dei muito mais atenção claro. E depois as pessoas confundem o que é a responsabilidade da Câmara com a responsabilidade da Junta. A Junta não tem a competência de intervir nas ruas, mas temos de suprir isso porque avisar a Câmara não adianta, eles não têm quem mandar vir.

 

Que tipo de apoios dão?

As coletividades de Valadares, com este executivo, recebem algumas 10 vezes mais que recebiam com os anteriores. Mas não é o meu género fazer alarido disso, acho que estarmos a entregar verbas avultadas e depois fazer alarde do que fizemos, dá a impressão que fizemos isso com uma segunda intenção. É como os cabazes, vamos levá-los a casa não queremos que ninguém venha cá levantá-los. Às vezes, para libertar o pessoal, sou capaz de os ir entregar à noite a casa das pessoas sem ninguém ver e não paro à porta da pessoa, afasto-me e ligo a dizer onde estou. Porque é chato para quem recebe, é aproveitar da miséria dos outros. E há muitos que se aproveitam, até parece que estão a dar o dinheiro que é deles. Cada freguesia tem a sua dinâmica, mas o que fazemos somos genuínos. E a maioria das coletividades recebem todos os anos, e quando se diz que vão ter, passados uns dias já têm. E acho que nenhuma freguesia dá o que nós damos. Em termos de investimento, este ano, deve andar à volta dos 50 mil euros. A nossa política é ajudar a que as coletividades que têm vontade de investir que o consigam fazer. E a partir daí acho que fazemos o nosso papel. Agora, comparado com antigamente, é uma grande diferença. Por exemplo, a Sociedade Protetora da Criança recebia de Valadares 250 euros, quando recebia. Este ano, recebeu 2.500 euros, são só 10 vezes mais. As Vicentinas de Valadares recebiam também o mesmo, e já receberam 2.500 também, e não é dizer vamos dar, já receberam mesmo. Nós apoiamos muitas instituições e só assim eles conseguem fazer alguma coisa. Há Juntas que dizem que nunca têm dinheiro, mas Gulpilhares e Valadares, neste momento, recebe menos quase 7 mil euros por mês do que recebia em 2013. Algumas Juntas já estão a receber o que recebiam no passado, mas nós não. Estamos a receber menos 7 mil euros, o que no final do ano dá 84 mil euros, eu fazia muito mais com esse dinheiro, mas não andamos a pedir nem a dizer que estamos falidos. E alguns recebem muito mais e não sei o que fazem ao dinheiro. Se recebemos pouco da Câmara e conseguimos fazer as coisas… é preciso gerir bem.

 

Considera que agora Gulpilhares e Valadares estão ao mesmo nível?

Agora com esta correção que se fez de arruamentos melhorou muito, aquela zona poente do caminho de ferro melhorou, fez-se lá muitas intervenções. Ainda agora vou sempre acompanhar a obra que se está a fazer ao pé do campo do Valadares, que também estava num estado péssimo. Claro que ainda faltam algumas coisas, mas a maioria da população está mais ou menos servida. Mas não conseguimos agradar a todos, nem coisa que se pareça. Quando cheguei a Valadares aquilo era o caos, por exemplo, os seguros do pessoal em Valadares custavam cerca de 3 mil euros por ano, eu juntei os de Valadares e Gulpilhares e passou para 1260 euros. Tinha lá duas funcionárias por uma empresa de trabalho temporário, custavam quase 3 mil euros também, passaram a custar metade. A empresa de contabilidade que lá estava levava 600 euros, só esteve lá 3 ou 4 meses e mandamos embora e a contabilidade passou a ser feita cá dentro, não se paga nada a ninguém. O edifício da Junta custava quase 1000 euros de seguro, hoje custa 250 euros. E foi com estas atitudes e noutros parâmetros, que conseguimos equilibrar, senão tínhamos ido à falência. Não gastamos dinheiro à toa, por isso é que o grau de execução do nosso orçamento é de quase 100 por cento, porque é um orçamento realista. Um orçamento inflacionado dá para tudo, pode é não haver dinheiro, mas cabe lá tudo. E o nosso orçamento é muito bem estruturado, feito com rigor. Mas não estamos aqui para ensinar ninguém, cada um faz o que pode e sabe. Outro exemplo são os cemitérios, que são dos poucos patrimónios que estão sob a responsabilidade da Junta. Ao nível da lei em si, as Juntas têm os edifícios sedes, os cemitérios e pouco mais. O espaço público é todo da Câmara, as ruas passeios, jardins, a não ser que se protocole. Portanto, os cemitérios é um dos sítios que temos o dever de ter devidamente adaptado à situação das pessoas e as pessoas já se esqueceram mas quando eu cheguei a Valadares em 2013, não percebo como as pessoas suportavam o estado lastimável em que estava o cemitério. Estava uma vergonha. E naquele mandato gastamos lá muito dinheiro. E é nosso propósito este ano acabarmos com os pavimentos lá dentro, mas mesmo assim ainda nos criticam de só olharmos para o cemitério, mas é um dos grandes patrimónios da comunidade, e quem não souber respeitar quem lá está, não sei quem respeitará. Portanto, queremos que o cemitério fique decente, como está o de Gulpilhares. E fizemos em ambos sem qualquer ajuda da Câmara, aqui se nota a nossa autonomia. Mas eu prometi a mim próprio que antes de sair desta vida o cemitério de Valadares ficava devidamente consolidado em termos de pavimentos, e isso vai acontecer. Acho que brevemente vou fazer um documento, porque, às vezes, as pessoas de Valadares dizem que nós não apoiamos, mas vai haver um dia que vamos por lá tudo plasmado.

 

Não considera que as pessoas ao não saberem podem achar que não está a ser feito nada?

Sim, mas quem tem de fazer com que se saiba que a Junta dá são as instituições que são subsidiadas. É mais natural que sejam eles do que nós, eles é que deviam mostrar-se gratos e fazer com que chegue à comunidade. Ainda recentemente esteve na Junta o Rancho Regional de Gulpilhares e atribuímos um subsídio de 10 mil euros para tirarem as telhas de fibrocimento. Também ofertamos à Escola Secundária de Valadares, que pelos vistos têm laboratórios com qualidade, mas que não têm produtos para, e este ano demos 6 mil euros para eles comprarem. Mas a Secundária de Valadares tanto é de Valadares como é de Vilar do Paraíso. Nós não fazemos propaganda do que damos às escolas e damos às nossas escolas do 1º ciclo, viagens gratuitas para onde eles quiserem ir e não pagam absolutamente nada. O ano passado gastamos mais de 10 mil euros em gasóleo no autocarro. Nas outras escolas o que acontece é que querem sair e têm de pedir dinheiro aos pais. Aqui não, o autocarro é gratuito, mas para a Junta isso custa dinheiro, o motorista é externo e ninguém faz isso. Normalmente as Juntas não têm autocarro. E temos alturas em que o autocarro não para. Temos 1000 alunos no 1º ciclo e também subsidiamos as associações de pais. Há quantos anos damos os telemóveis às escolas? Agora já há uma ou outra que faz, mas nós damos os telemóveis e pagamos as faturas. Cada escola tem um telemóvel pago pela Junta, há cerca de 10 anos já. Recuando no tempo, quando a Igreja de Gulpilhares foi feita, na primeira fase, eles tinham um orçamento de 60 mil euros e nós demos 50 mil. E já temos dado mais dinheiro para lá, mas se calhar a comunidade nem soube. Sou anti Facebook, já lá estive, mas sai quando percebi os meandros daquilo. Mas percebo que hoje se recorra a essas ferramentas e que seja um veículo de promoção. Mas temos agora um projeto da comunicação. Ao passo que outras Juntas fazem qualquer coisinha e toda a gente fica a saber porque fazem uma publicidade extrema. Por exemplo, verifiquei nas últimas eleições algo que para mim foi uma surpresa, indivíduos que era a segunda vez que iam a eleições, com votações malucas, mas não fizeram nada, deve ser pela comunicação. Outro exemplo, a cerimónia dos alunos de Excelência, se fosse noutra freguesia qualquer, vinham as televisões, vinha tudo por causa de se dar 150 euros. Outras dão um diploma simples e fazem publicidade. E precisamos de mostrar que fazemos coisas importantíssimas para a comunidade. E agora finalizamos a página da Junta, www.gulpilhares-valadares.pt, que não tínhamos, e acho a página mais normal para uma Junta de Freguesia. Foi criada no final de agosto, e se pusermos lá os subsídios que damos acho que é positivo, estamos a dar transparência. Nos últimos 15 dias, demos 32.500 euros em subsídios, por exemplo.

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