A atriz Clara Nogueira, nossa convidada de hoje para mais uma reflexão sobre o teatro profissional em Gaia, profissionalizou-se em 1983, deixando para trás o curso de medicina. Começou por integrar o elenco do TEAR, participando em todos os espetáculos produzidos até 1990 por aquele grupo dirigido pelo encenador Castro Guedes. Seguiram-se espetáculos encenados por Moura Pinheiro, Fernanda Lapa e Rogério de Carvalho, entre muitos outros, tendo por palco os mais diversos espaços do Grande Porto.

Entre as produções em que participou, registamos a sua excelente prestação em “O Cerejal” de Tchékov, “O Avarento” de Molière ou “Cais Oeste” de Bernard-Marie Koltés, entre outras. A pandemia do Covid-19 “apanhou-a” no meio da frequência do mestrado em interpretação na ESMAE-Escola Superior de Música e Artes do Espetáculo e dos ensaios finais de “O Crime de Aldeia Velha”, que viu canceladas as suas apresentações no Teatro Constantino Nery e na Assembleia da República, no âmbito da comemorações do centenário de nascimento de Bernardo Santareno.

A cidade de Gaia tem sido “palco” do seu trabalho de atriz, na dobragem de filmes e séries de animação nos Estúdios da Som Norte e nos espetáculos “As Relações de Clara” de Dea Loher (no Auditório Municipal) e “Sexo em Paz” de Dario Fo e Franca Rame (na Associação Recreativa de Canidelo). Por último, recorde-se a sua colaboração como membro do júri de várias edições do “CALE-Se” – festival internacional de teatro amador, entretanto extinto. Oiçamo-la:

 

Num concelho com tantas e tão grandes tradições a nível amador, como se explica a pouca expressão do teatro profissional?

Nesta altura, apetece-me recordar que vivemos num tempo em que predomina o imediato, o mais fácil. Queremos tudo rapidamente, com o menor esforço. Queremos ser informados e entretidos. Queremos estar com todos sem ter que estar com alguém. E queremos viver assim? O teatro é tempo, é prazer e pensamento. São as pessoas. É um espaço de diálogo, de aproximação, de interrogação e de partilha. E se hoje vivemos um tempo de emergência e de mudança, o teatro não deixará de ser a sala de reflexão para descobrirmos novos caminhos e novos futuros. O teatro interroga e aproxima. Sabemos que a revolução digital e as redes sociais fazem parte de uma nova modernidade e são ferramentas da mudança. Apesar disso, vale a pena lembrar que a mudança são as pessoas. E só acontece quando as pessoas se juntam… como acontece no teatro. Dramaturgos, atores e público, juntos numa sala à volta de uma ideia, da forma dramática, da representação e da teatralidade. E o teatro que ao longo da história soube resistir à ópera, ao cinema e à televisão, reinventa-se, evolui e resiste a tudo. Assim chegamos a Gaia onde existe uma determinada cultura de exigência, competências, talento e, apesar de tudo, apesar do imediatismo e do virtual, existe a paixão pelo teatro. E o que falta? Falta uma visão concertada relativamente ao teatro. Faltam investimentos e apoios do setor privado e das instituições públicas. Falta mercado e uma certa escala. E, quando estamos fechados em casa todos os dias, falta capacidade de comprar um bilhete.

 

Além de ser um poderoso instrumento de inclusão e de cidadania, o teatro pode representar uma importante oportunidade de geração de novas formas de criação de valor económico, não te parece?

É extraordinário verificar como, com a crise pandémica e o estado de emergência social, os defensores do mercado inteligente, aqueles que defendiam a desregulamentação, os evangelistas da criatividade financeira e os profetas do neoliberalismo, se transformaram em ativistas apaixonados de Keynes [John Maynard Keynes, economista britânico, precursor do conceito da macroeconomia e um dos pensadores mais importantes do século XX]. Aqueles que defendiam um Estado mínimo passaram agora a defender um Estado indispensável. Agora que somos todos keynesianos, importa recuperar o essencial do modelo, que, por entre outros aspetos, consistia na articulação do capitalismo com o pleno emprego, tendo em consideração o horizonte da incerteza e a imprevisibilidade quanto à evolução do mundo. Em oposição ao liberalismo e à teoria marxista, foi esta visão que o conduziu à defesa da participação do Estado na economia, ao aumento do investimento público, a uma nova perspetiva sobre o défice, e, também, a uma constante valorização da cultura em oposição às teorias economicistas que condicionavam o investimento na arte e na cultura à sua rentabilidade imediata, conduzindo a um inevitável declínio civilizacional. Para Keynes, o Estado tinha tanta obrigação de garantir o pleno emprego como de, num ambiente de liberdade absoluta, promover os valores da criatividade e da cultura. Numa altura em que dirigia o Arts Council, disse “… o teatro, a sala de concertos e os museus constituem uma componente dinâmica da educação de todos”. Dito de outra forma, e como tenho repetido vezes sem conta: quem não investe na educação e na cultura, investe na incompetência, na incompreensão e na ignorância. Quanto à pergunta, o teatro enquanto espaço de criação artística e ferramenta de divulgação da cultura – porque é assim que o entendo – representa um valor económico incontornável e um elemento de promoção da cidadania. A propósito e para terminar, regresso a Keynes: “… a verdadeira dificuldade não está em aceitar ideias novas, mas escapar das antigas”.

 

Como explicas então que ainda haja pessoas, nomeadamente alguns autarcas, que olham de lado para o investimento público nas artes e na cultura?

A cultura tem uma relação difícil com o curto prazo. Somos atropelados pelo imediatismo todos os dias e temos alguma dificuldade em compreender que a cultura e as artes são um elemento essencial da nossa comunidade, da nossa identidade e da nossa economia. É preciso aceitar que precisamos da cultura. Precisamos da cultura para combater a vulgaridade, a estupidificação, a depressão e… o confinamento. Recordo o ambiente que vivemos durante o estado de emergência onde predominavam as conversas sobre as séries que as plataformas digitais ofereciam, o cinema que víamos, as músicas que ouvíamos, os livros que estávamos a ler, as visitas virtuais a museus, as representações teatrais, as óperas e muitos outros conteúdos de natureza cultural distribuídos gratuitamente na internet e nas redes sociais. Por outro lado, vale a pena lembrar que o cruzamento da revolução digital com a globalização veio evidenciar a importância da diferença. É a cultura que nos distingue de

outros territórios, de outros países e do mercado internacional. Gostar de Portugal e a paixão de ser português passa muito por desenvolver um ambiente de exigência, um plano de inovação estratégica para a cultura e uma política de apoio aos artistas e criadores de conteúdos. Se não o fizermos, deixamos morrer as artes e a cultura… o que não se explica, nem se aceita a hesitação ou timidez do investimento público no melhor de nós. Recordo uma das ideias de Fernando Pessoa [Alberto Caeiro]: “…eu sou do tamanho do que vejo e não do tamanho da minha altura”.

 

A uma escala municipal, dirias que falta um plano estratégico que tenha em conta as várias expressões artísticas e a definição de uma nova moldura cultural e criativa?

De uma forma geral, falta um pensamento para a cultura. Uma visão. É preciso saber onde queremos estar daqui a 10 anos, o que queremos ser. De regresso a Gaia, não sei se terá sido desenhado um qualquer plano estratégico que considere as diferentes expressões artísticas de forma concertada, integrada e transversal. Dito de outra forma, não sei o que está para além daquilo que vem refletido na agenda cultural da autarquia ou por detrás da realização de eventos com maior ou menor dimensão ou com maior ou menor impacto. Apesar disso, não desconheço o esforço que tem vindo a ser desenvolvido na reabilitação do património histórico e cultural, nem desconsidero a multiplicação de iniciativas da Câmara Municipal de Vila Nova de Gaia. Sobressai, por exemplo, o Passaporte Cultural [criado em 2007, por um executivo liderado por Luís Filipe Menezes] que resulta de uma parceria com a Universidade do Porto para promover a visita aos diversos equipamentos a preços reduzidos no acesso às diferentes iniciativas culturais. Reconheço o empenhamento, mas faltará ambição. A tal cultura de exigência. Vila Nova de Gaia deve ter muito mais do que a melhor vista do Porto e é preciso afirmar um determinado roteiro para além das visitas às Caves de vinho do Porto, onde se contam as histórias dos produtores, uma narrativa com cerca de 250 anos, e onde se prova o vinho do Porto. A propósito das Caves de vinho do Porto, em 2019, num mundo pré-pandemia, registaram-se 1,3 milhões de visitantes o que corresponde a um crescimento de 8,8% relativamente ao ano anterior. Se acrescentarmos 50 cêntimos ao preço de cada visita ou 1 euro ao preço de cada prova, quando recuperarmos uma certa normalidade, arriscamos constituir uma receita relevante para investimento exclusivo na cultura e na indústria criativa de Gaia… porque quando se pensa a cultura, projetam-se futuros. Fica a provocação (e mais um imposto indireto).

 

A terminar, fala-me de ti: quais são os projetos em que estás neste momento envolvida e quais são os teus sonhos ou desejos que ainda estão por realizar?

Com o aparecimento da pandemia, em meados de março, foi interrompido e adiado o espetáculo “O Crime de Aldeia Velha”, da Seiva Trupe, e também o espetáculo do Ensemble “As Três Irmãs”, cujos ensaios estavam previstos para o início de maio. Estes dois trabalhos foram reagendados, o primeiro para janeiro de 2021 e o segundo para este mês de novembro. Estes tempos de espera têm-me permitido dedicar ao estudo de três monólogos, que pretendo fazer com a Filomena Gigante, bem como à repescagem do meu projeto de mestrado, dando-lhe novos condimentos e sabores. Sonhos e desejos? A concretização dos projetos que referi.

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