Encenador e ator profissional desde 1979, professor de teatro em escolas secundárias e profissionais, sócio fundador e ex-membro da direção do centro de estudos de teatro da Universidade do Porto, cofundador da Academia Contemporânea do Espetáculo em 1991, Jorge Mota é o nosso convidado para mais uma reflexão sobre o estado do teatro profissional em Gaia, cidade onde vive.

Tem colaborado em diversas instituições e companhias de teatro, tendo integrado o “elenco residente” do Teatro Nacional São João desde a sua génese em 2005, onde protagonizou recentemente o espetáculo “A Tragédia de Júlio César” de William Shakespeare, produzido pelo Ao Cabo Teatro. Ao longo da sua carreira de ator, participou em criações de quase todas as estruturas produtoras de teatro da cidade do Porto, tendo encenado algumas delas.

No cinema, integrou o elenco de diversas curtas e longas metragens de alguns dos nossos mais importantes realizadores. Na televisão, tem colaborado em inúmeras séries, sitcoms e telenovelas, a par da sua atividade de intérprete e diretor de dobragens para televisão e cinema. Amante da arte de representação, ousámos desafiá-lo para uma conversa sem filtros.

Na sua opinião, o que falta para que a oferta de espetáculos de teatro profissional tenha uma maior expressão em Gaia?

Bom… em primeiro lugar, e antes de tudo, é fundamental que haja a vontade dos responsáveis municipais em que essa oferta ganhe maior expressão. Se for esse o caso, há que disponibilizar verbas para o efeito, definir objetivos e correspondentes estratégias, e ter espaços capazes para os espetáculos que se  propõem receber, ou produzir. Tendo em conta a proximidade com a cidade do Porto e todas as suas estruturas de produção e exibição, acho que a cidade de Gaia deverá procurar modelos alternativos e complementares. 

Quando fala em modelos alternativos e complementares, refere-se a uma programação que não se encaixe no lado comercial da arte, que priorize a pesquisa, que misture géneros, linguagens, estéticas…?

Sim, esse poderia ser um caminho possível, e de certa forma legítimo, mas não é bem isso o que eu queria dizer. Eu estava a pensar naquilo que existe e está a ser feito, e pensado a nível municipal na cidade do Porto, porque não podemos nunca esquecer a grande próximidade das duas cidades, para não se caír no erro de duplicar modelos e formas.
Gaia, deverá contrapor aos espaços convencionais do Porto (Rivoli, Teatro Campo Alegre, e etc…), espaços alternativos que  possam acolher todo o tipo de espetáculos, desde os mais convencionais aos mais experimentais. O mesmo deverá acontecer relativamente à programação e produção própria de espetáculos de teatro. A uma agenda infindável de espetáculos descartáveis, apenas vistos por um número muito reduzido de cidadãos, Gaia deverá contrapor uma agenda de espetáculos não descartáveis, em cena o tempo suficiente para garantirem que os cidadãos de Gaia, do Porto e de outros lados os possam ver. As produções com dinheiros públicos têm, ou se não têm deviam ter, a obrigação de ter como objetivo chegar ao maior número de cidadãos.

Estamos a falar, portanto, de uma plataforma municipal descentralizada de espaços culturais, que permita uma oferta simultânea de projetos diversificados?

Não, não é bem isso. Não me devo estar a explicar bem. Se calhar devia falar em espaço e não em espaços, porque leva logo para a ideia de recinto ou plataforma onde se agrupam diferentes espaços, cada um com as suas características próprias. A simultâneidade de espetáculos não estava no meu pensamento, nem acho que essa deva ser uma preocupação, embora concorde que deva haver uma oferta diversificada, mas não necessariamente no mesmo recinto. Eu falo de um espaço com a capacidade física de se transformar, em primeiro lugar ao nível do espaço cénico e plateia, e depois até onde for possível. Assim como o Porto tem a Casa da Música, Gaia devia lutar por ter a Casa do Teatro e das Artes Performativas, com a mesma relevância artística e arquitetónica. 

 E a sua programação, quem a desenharia? Um diretor artístico nomeado pela autarquia ou uma estrutura privada, através da concessão do espaço?

Seria desenhada por um diretor artístico nomeado pela autarquia, naturalmente! Estamos a falar de um projeto municipal que pressupõe o envolvimento e a responsabilidade que se requer a um verdadeiro serviço público. Aliás, este projeto só fará sentido e só será viável se tiver o acordo unânime de todos os representantes partidários na sua pertinência e objetivos e, inclusive, no pensar uma linha de orientação para as sua programação, de forma a garantir os objetivos a que se propõe: espetáculos com longas carreiras e respetiva fruição pelo maior número possível de espectadores. Caberia ao diretor artístico, de acordo com a sua sensibilidade, fazer as escolhas desses espetáculos e dos criadores para a produção de projetos próprios.

E o Auditório Municipal, o Teatro Eduardo Brazão e o anunciado futuro Centro Cultural e de Congressos como se articulariam com essa estrutura?

Não vejo como se poderiam articular, a não ser, talvez, na sua complementaridade. São espaços com características e objetivos bem diferentes. Embora entenda que entre os dois espaços existentes, o Auditório Municipal e o Teatro Eduardo Brazão, possa haver toda a vantagem em estarem debaixo da mesma alçada e muito bem articulados, uma vez que têm características e desígnios muito parecidos: o apoio e acolhimento de todas as atividades amadoras do concelho. Mas, no que diz respeito à minha proposta de Casa do Teatro e das Artes Performativas, ela deve ter a maior autonomia possível, sem constrangimentos nem pendências do que acontece nos outros espaços. Os seus objetivos: espetáculos com longas carreiras e esgotados, pressupõem um ritmo e calendarizações muito próprios e muito controlados. Quanto ao Centro Cultural e de Congressos, não sei que diga, porque na verdade não sei nada sobre o seu projeto artístico e arquitetónico. Espero estar enganado, mas soa-me a mais do mesmo. Preferiria, como é lógico, que estivesse a ser concebida uma cena como a que tenho vindo a preconizar.

Na sua ideia, os dois espaços municipais existentes seriam “palcos” para amadores. E as companhias profissionais residentes em Gaia, onde inscreveria a sua atividade?

Acho que é tempo de falarmos claro e de chamar as coisas pelos seus nomes. Há muito tempo que não há companhias de teatro no Porto e muito menos em Gaia. Podemos dizer que existem entidades que se propõem produzir espetáculos, mas não companhias. Onde é que estão os seus elencos? Mas, partindo do princípio que existem companhias ou grupos profissionais de teatro em Gaia, elas deverão tentar negociar com o Munícipio modos de colaboração na produção e apresentação dos espetáculos. Cabendo aos responsáveis municipais decidir em qual dos espaços serão apresentados os espetáculos a produzir. Eu disse que o Auditório Municipal e o Teatro Eduardo Brazão potenciavam o acolhimento das atividades amadoras, mas não excluo a possibilidade de acolher também as eventuais companhias de teatro profissional residentes em Gaia. E também quero deixar bem claro que não é pelo facto de ser uma companhia profissional de teatro residente em Gaia que vai deixar de ter acesso, ou passar a ter acesso privilegiado à Casa do Teatro e das Artes Performativas (CTAP). Caberá ao diretor artístico da CTAP avaliar se essas companhias reúnem as condições para cumprir com êxito os objetivos da CTAP. 

A inexistência de elencos residentes nas companhias não será uma consequência da falta de verdadeiras políticas públicas de apoio às artes e aos artistas, tanto a nível nacional como municipal?

A falta de verdadeiras políticas públicas de apoio às artes e aos artistas é um facto. Mas não é por isso. A inexistência de elencos residentes é uma nova forma política  de estar, ainda que inconsciente. Por isso não vemos essa reivindicação na agenda dos artistas. Já imaginou como seria, se essa, fosse a vontade? Teríamos, naturalmente, um movimento de  aproximação dos artistas em torno de projetos artísticos e estéticos, ao contrário da atual proliferação de projetos que se afastam em falsas diferenças, pela necessidade de conquistar o seu espaço. E então, estamos aqui, neste estado de fragilidade, ao dispor de todos e sem grande força para reclamar o que quer que seja. As escolas, também elas!, estão a promover este tipo de prática, talvez pelo medo, também inconsciente, de serem avaliadas. Retomar o caminho de grupos ou companhias de forte identidade iria, a meu ver, acabar com a precariedade na profissão, dar-lhe dignidade e criar condições de rentabilização dos projetos artísticos. E se nos dermos ao trabalho de fazer as contas veremos que não é por falta de dinheiro que isto não acontece.

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