«Dificílimo acto é o de escrever, responsabilidade das maiores.(…) Basta pensar no extenuante trabalho que será dispor por ordem temporal os acontecimentos, primeiro este, depois aquele, ou, se tal mais convém às necessidades do efeito, o sucesso de hoje posto antes do episódio de ontem e outras não menos arriscadas acrobacias(…)».
— Saramago, A Jangada de Pedra, 1986

José Saramago nasceu na Vila de Azinhaga, no concelho da Golegã, de uma família de pais e avós agricultores, sendo a sua vida passada em grande parte em Lisboa, para onde a família se mudou em 1924 quando tinha apenas dois anos de idade. Demonstrava desde cedo interesse pelos estudos e pela cultura, sendo que essa curiosidade perante o Mundo o acompanhou até à morte.

Dificuldades económicas impediram José Saramago de fazer os estudos liceais, que o levariam a frequentar a universidade, tendo obtido formatura numa escola técnica e conseguido o seu primeiro emprego como serralheiro mecânico.

Fascinado pelos livros, visitava à noite com grande frequência, a Biblioteca Municipal Central/Palácio Galveias, o que constituiu, talvez, a pedra de toque para o seu lançamento como escritor, o primeiro português a ser galardoado com o Nobel da Literatura em 1998. Também ganhou, em 1995, o Prémio Camões, o mais importante prémio literário da língua portuguesa, sendo considerado o responsável pelo efetivo reconhecimento internacional da prosa em língua portuguesa.

Após ter enfrentado fortes críticas com o lançamento do livro O Evangelho Segundo Jesus Cristo em 1991, mudou-se de Portugal para a Espanha e pouco depois o lançamento de Caim em 2009 voltou a render-lhe mais críticas e até o repúdio de Sousa Lara, sub-secretário de Estado adjunto da Cultura de Portugal em 1991, que então vetou o livro O Evangelho Segundo Jesus Cristo de uma lista de romances portugueses candidatos a um prémio literário europeu, em Outubro de 2009.

Um caso que tem tido alguma repercussão relacionou-se com a posição crítica do autor em relação à posição de Israel no conflito contra os palestinianos, pois em 13 de Outubro de 2003, numa visita a São Paulo e em entrevista ao jornal O Globo, afirmou que «os sionistas não merecem a simpatia pelo sofrimento por que passaram durante o Holocausto… Vivendo sob as trevas do Holocausto e esperando ser perdoados por tudo o que fazem em nome do que eles sofreram parece-me ser abusivo. Eles não aprenderam nada com o sofrimento dos seus pais e avós».

José Saramago foi conhecido por utilizar um estilo oral, coevo dos contos de tradição oral populares em que a vivacidade da comunicação é mais importante do que a correcção ortográfica de uma linguagem escrita. Todas as características de uma linguagem oral, predominantemente usada na oratória, na dialéctica, na retórica e que servem sobremaneira o seu estilo interventivo e persuasivo estão presentes. Assim, utiliza frases e períodos compridos, usando a pontuação de uma maneira não convencional; os diálogos das personagens são inseridos nos próprios parágrafos que os antecedem, de forma que não existem travessões nos seus livros. Este tipo de marcação das falas propicia uma forte sensação de fluxo de consciência, a ponto do leitor chegar a confundir se um certo diálogo foi real ou apenas um pensamento. Muitas das suas frases ocupam mais de uma página, usando vírgulas onde a maioria dos escritores usaria pontos finais e da mesma forma muitos dos seus parágrafos ocupariam capítulos inteiros de outros autores.

Estas características tornam o estilo de Saramago único na literatura contemporânea, sendo considerado por muitos críticos um mestre no tratamento da língua portuguesa. Em 2003, o crítico norte-americano Harold Bloom, no seu livro Genius-A Mosaic of One Hundred Exemplary Creative Minds, considerou José Saramago «o mais talentoso romancista vivo nos dias de hoje», referindo-se a ele como «o Mestre» e tendo declarado ainda que Saramago é «um dos últimos titãs de um género literário que se está a desvanecer».

Em homenagem recente e recordando o sentimento de orgulho com que os comunistas portugueses festejaram há 20 anos a atribuição do Prémio Nobel da Literatura, Jerónimo de Sousa declarou «aqui regressamos» para evocar Saramago, «desta vez sem a sua presença física, mas connosco, porque foi essa sempre a sua vontade e decisão até ao dia em que nos deixou por imperativo da lei da vida que nos faz mortais e fazendo jus às suas palavras nesse inesquecível Outubro de 1998 que ecoam ainda na nossa memória de companheiros de combate por um mundo melhor: «Eu hoje com o prémio posso dizer que, para ganhar o prémio, não precisei de deixar de ser comunista».