Desde 1978 que a Yoçor tem procurado desafiar e conquistar o mercado açoriano na indústria dos iogurtes, um produto pouco vulgar na altura em que os três sócios fundaram a empresa familiar “Garcez & Santos, Lda.”. Para melhor compreender o percurso da Yoçor, bem como para desvendar os objetivos da marca, falámos com Hugo Garcez Coelho, diretor da empresa e neto de um dos sócios-fundadores.

Vamos começar por falar um pouco sobre a história da empresa. Já estão no mercado há mais de 40 anos.

Estamos cá há mais de 40 anos. Fomos os primeiros a produzir este tipo de laticínio nos Açores. Na altura não foi fácil… não havia o hábito de consumir iogurtes. A fábrica foi fundada pelo meu avô. Lembro-me de ele dizer várias vezes que foi uma grande dificuldade no início, as pessoas não tinham este hábito e ele praticamente teve de o criar. Ou se o hábito existia, os iogurtes eram feitos em casa, nas iogurteiras.

A Região Autónoma da Madeira acabou por ser o mercado que fez o escoamento dos produtos da Yoçor numa primeira fase da sua história, o que é engraçado, porque lá já havia o hábito da aquisição de iogurtes nos supermercados. Aqui nos Açores esse hábito foi surgindo, um pouco por imposição da marca e dos hábitos que se foram criando.

Tendo em conta que, naturalmente, nós aqui nos Açores sentimos essa influência, não só com a Yoçor, uma empresa que representava os seus próprios concorrentes numa determinada altura dos anos 80, acabámos por introduzir esse produto no mercado.

Nessa altura, a fábrica termina a sua construção em 1980, já aqui. Era um edifício mais pequeno e era apenas uma máquina a fazer iogurtes à unidade. Fazia um a um. Mas já era uma máquina com grande desenvolvimento para a altura. Teve e tem uma produção bastante grande por ter sido a primeira, mas a realidade é que não só por ser a primeira, mas também pela qualidade que tinha.

A qualidade nem sempre foi a mesma, houve uma evolução, apesar de termos todas as condições pelo leite das nossas vacas ao ar livre. Sempre o tivemos, mas nem sempre houve as preocupações que hoje em dia já se têm.

Na altura aproveitou-se esta qualidade intrínseca e já reconhecida do leite dos Açores. Mas a qualidade não se baseou só na matéria-prima, mas também no método que foi utilizado. Houve bastante “beber” de ‘know-how’ que os próprios sócios e colaboradores da empresa acabaram por ir recolher a vários mercados, nomeadamente Itália, África do Sul, Nova Zelândia e França, que são dos maiores produtores mundiais de iogurte e há grande tradição nesses países. Nessa altura houve algumas formações dadas aos colaboradores e sócios da empresa e esses métodos ainda hoje se aplicam, apesar de, naturalmente, utilizarmos as máquinas para nos ajudarem. Orgulhamo-nos dessa produção quase artesanal.

Apesar do iogurte ter origem nas Balcãs, a realidade é que essa merma forma de o fazer é aquele que tentamos manter. Não criámos nada de completamente inovador, mas mantemo-nos fiéis à forma como sempre fizemos. Isto para não descurar da qualidade do produto nem do sabor característico.

Poderíamos fazer inúmeras coisas a nível tecnológico para nos ajudar a tentar ter processos mais rápidos e mais rentáveis, mas também achamos que devemos manter aquilo que somos.

E o Hugo? Conte-nos um pouco do seu percurso.

Da minha parte, eu nasço já no meio disto. Vinha sempre cá visitar a fábrica, era cobaia de degustação de alguns produtos para crianças (e isso sempre foi um dos princípios da marca: ter a capacidade do iogurte ser consumido por todos os tipos de cliente). Recordo-me de provar imensos sabores que hoje em dia não existem, mas atenção que podem voltar a existir! Sempre vivi muito dentro da marca e destas filosofias. Ao longo dos anos fui-me formando, até ao dia em que me lançaram o desafio de vir para cá. Na altura não era bem a minha ideia… não significa que não viesse, mas queria ganhar experiência noutras empresas e noutras formas de trabalhar.

O facto de não ter tido essa experiência prejudicou-o?

Não creio, porque não houve facilitismos. Creio que o crescimento que houve aqui, da parte da empresa, também foi por via da experiência que foi transmitida, e do ‘know-how’ teórico que, posto em prática, complementou estas novas formas de fazer negócio: algumas inovações na imagem ou na própria forma de embalar.

Tudo isto que eu trouxe na altura, acho que trouxe algum contributo. Obviamente que fui crescendo como profissional e nas relações que tenho com outras entidades. Em 2011 venho para cá e faço algumas reformulações no negócio. Houve sempre alguns entraves a novas ideias, o que é normal. Mas creio que chegou-se a bom porto.

Quando cheguei, a marca Yoçor já estava presente em Portugal Continental mas de outra forma. Neste momento temos por objetivo atuar nos mercados de forma direta e temos escritórios, distribuição e armazéns em Lisboa e no Porto. É essa a estratégia: uma atuação mais próxima, e chegar ao maior número possível de consumidores, obviamente sem descurar a nossa forma de trabalhar, mas levar a marca e as suas características específicas.

Neste momento o mercado é Portugal.

Portugal inteiro, sim.

Há o objetivo de chegar mais longe?

Sim, mas sem grandes nervosismos. Ainda temos muito que conquistar em Portugal, há muito por explorar e é essa a nossa prioridade no dia-a-dia: é que Portugal Continental e mesmo as ilhas tenham mais presença da Yoçor. É para isso que trabalhamos todos os dias.

O mercado que nos valoriza mais não é os Estados Unidos nem o Brasil… não é nenhum sem ser Portugal, mas às vezes esquecemo-nos que existem 10 milhões de pessoas em Portugal Continental, que reconhecem os Açores como sendo uma origem de qualidade de produto. Nós vimos isso e quisemos atuar de forma direta, por isso é que desde 2015 temos a nossa equipa em Lisboa e desde o início deste ano no Porto.

O facto de serem associados à Marca Açores tem ajudado?

Tem ajudado, sim. Há aqui uma estratégia conjunta que tem ajudado. Nós [Açores] somos muito pequenos, apesar de termos muitas empresas e muitos produtos com as suas especificidades e características únicas, mas a realidade é que só vamos longe se formos juntos. Não nos podemos considerar uns aos outros como concorrência. Acho que temos de olhar para o mercado como algo mais vasto (e é) do que as nossas nove ilhas, e olharmos uns para os outros como parceiros.

A Marca Açores tem ajudado na divulgação, tem criado uma espécie de ‘umbrella’: consegue juntar os vários produtos e produtores numa comunicação conjunta. Existe uma certa comunicação na abordagem conjunta dos mercados. Há uma estratégia na entrada nos mercados e de expansão dos mercados.

Estava a dizer que tinha sido cobaia de degustação de alguns produtos que existiram e que poderão voltar a existir. A Yoçor tem iogurtes, iogurtes líquidos, gregos, gelatinas… o que é que falta neste rol?

Nós tentamos também seguir as tendências. O mais difícil é criá-las, mas não implica que não possa ser feito. Existem algumas investigações da nossa parte. Estamos a desenvolver algumas tipologias de produtos inéditos no mercado, que não existem em lado nenhum. Vamos ver como é que sai.

Existe sempre uma investigação interna, estamos sempre em desenvolvimento de alguns produtos. Dentro do iogurte em si, com certeza que estamos atentos àquilo que são as tendências, os iogurtes gregos foram atrás disso. Atrás, mas com uma diferenciação. Apesar de o chamarmos “grego”, não é exatamente grego. É o “grego dos Açores”, uma marca registada nossa, que foi uma vertente de tentar puxar o nosso produto como sendo um produto diferente. E é. Optámos por não fazer a adição da nata… demorámos cerca de um ano a desenvolver este produto. Primeiro porque queríamos a consistência certa sem a utilização da nata, e depois tentámos fazer a fermentação correta com todos os ‘timings’ de produção muito bem pensados, de forma a que a consistência fosse o mais aproximada possível à consistência típica do iogurte grego, mas sem a utilização dos 12-16% de gordura que têm os iogurtes gregos normais.

Nós, com o leite que nos chega, apenas o fermentamos, fazemos uma adição de leite em pó para dar consistência, mas isso é normal. O que fazemos de facto é a fermentação, os ‘timings’ em que a fazemos e as temperaturas que utilizamos. Fomos atrás do mercado mas quisemos ser inovadores.

Outro facto que nos fez não ser tão céleres no lançamento do produto foi a tentativa exaustiva (e a realidade é que foi um pouco em vão porque não teve resultados práticos) de quando adicionarmos a fruta, não colocarmos qualquer tipo de conservante. Isto para quê? Para mantermos a nossa imagem natural. A realidade é que o tivemos de fazer, não no iogurte, mas na fruta. Tentámos ao máximo, mas não dá, por causa da validade. Outros produtos que podemos lançar, poderão ser ligados à saúde e ao estilo de vida saudável.

E quanto a produtos vegan e vegetarianos?

Não queremos ir por esse caminho e muito sinceramente não acreditamos nele. O Homem sempre teve na sua alimentação produtos à base animal, ou derivados da caça… faz parte da nossa alimentação, da nossa forma de ser e da nossa forma de sermos saudáveis, porque na realidade precisamos.

A gelatina veio por via complementar. Era um produto interessante… conseguimos ter um produto competitivo dentro dos nossos sabores, mas numa outra vertente. A gelatina é de origem animal e creio que foi o culminar de um novo produto com o mesmo tipo de sabor que já temos no mercado.

Cada vez mais se fala em ecologia e ambiente.

Nós, em parceria com a Universidade dos Açores (e vale o que vale), tentamos ver o que se pode fazer. Naturalmente que é uma preocupação para nós, mas alguns tipos de embalagens que as pessoas pensam como sendo ecológicas, não vemos como tal.

Apesar de tudo o que se diz, o plástico é um tipo de embalagem brilhante em termos de peso, maleabilidade, adaptação… é de origem fóssil e isso é que tem de ser mudado. É preciso criar um tipo de material idêntico. Tem de ser por aí, não pode ser outra coisa, mas de origem renovável. Apesar de tudo, este trabalho não é fácil e não tem havido uma alternativa viável.

O papel não é uma alternativa viável… poderá ser uma alternativa renovável, mas não creio, porque para o nosso consumo, a capacidade de regeneração teria de ser maior. Se será pela reciclagem? Acredito. O plástico que existe neste momento, que já foi produzido, pode perfeitamente ser reciclado várias vezes. Acho que essa seria uma medida imediata, enquanto não se descobre uma alternativa viável. O vidro nem pensar… não é viável nem ecológico. O custo que implica é brutal… é extremamente pesado e volumétrico. O gasto, no final das contas, não é económico também para o planeta. As pessoas olham para o vidro como uma alternativa. Aparecem os produtos no supermercado, em vidro, e o custo que esse produto teve para o planeta (não estou a falar só a nível monetário) não significa uma alternativa ao plástico.

O plástico é um material muito bem conseguido, é pena que seja da origem que é. Estamos exaustivamente à procura de uma solução porque também nos preocupamos com isso. Nesta empresa faz-se reciclagem e faço reciclagem desde que me lembro. Naturalmente que nós próprios produzimos o lixo e pagamos caro por isso, por isso mesmo interessa-nos quando existir uma alternativa viável. Neste momento ainda não existe. Há algumas ideias a ser investigadas.

As próprias indústrias que produzem o plástico estão preocupadas com isso e estão a tentar arranjar uma alternativa. Nós também com os nossos parceiros e fornecedores abordámos esta situação, e eles também já têm vindo a sugerir algumas alternativas… mas não existe ainda nenhuma alternativa final.

Sobre os produtos que utilizam, desde o leite até à fruta. Tudo 100% açoriano?

Tudo, sim.

Cada vez mais os Açores estão na moda. Qual a importância de terem esta “marca” do leite açoriano?

Ser leite dos Açores é bastante reconhecido e tem as suas razões. Nós temos estas características únicas, bastante favoráveis para a produção do leite: a alimentação do animal é a parte mais importante no meio disto tudo, também o ambiente e a forma como estão ao ar livre. Tudo isto é importante para o bem-estar animal e os Açores conseguem ter todas estas vantagens em relação aos demais. Mas temos de ir ainda mais à procura de as aproveitar e de colocar o leite final com todas essas valências.

Está-se a trabalhar nisso. O próprio Governo Regional tem feito um excelente trabalho nesse aspeto, vai-se apostar num leite biológico… acho que o caminho é por aí. Nós, como produtores na indústria, temos muito interesse nisso. Não podemos fazer nada ainda porque não existe matéria-prima certificada para isso, mas está-se a trabalhar nesse aspeto. Obviamente que a nossa produção já é muito próxima disso.

Qual é o processo desde o momento em que o leite chega à fábrica, até aos iogurtes estarem nos frigoríficos?

Nós trabalhamos maioritariamente com um produtor que tem uma qualidade de leite brutal. Os níveis de gordura são enormes (que chegam a 4,7 de gordura), a proteína também ronda os 4%, o que é ótimo para o nosso projeto, e isso significa que houve muito cuidado na produção. Nós valorizamos imenso isso e pagamos acima da média para manter este tipo de produtor.

Estamos agora numa fase de transição da nossa fábrica, vamos expandir e automatizar algumas coisas que não fazem sentido serem de manuseamento humano, mas não vamos reduzir a mão-de-obra.

Vamos fazer uma expansão tecnológica na parte da rotulagem e nesse tipo de procedimento que não se quer que seja tão manual, e vamos fazer uma expansão a nível de espaço. Estamos, de facto, muito apertados e queremos abordar muito mais o mercado e ir ao encontro das expectativas e exigências dos consumidores: desde os sem lactose, expandir a nossa gama de magros, também os proteicos… por isso vamos expandir a fábrica. Com toda esta estratégia conjunta, há também todo um contexto que queremos criar: o produtor Yoçor, que acho que neste momento faz todo o sentido, e que as pessoas também possam ver desde a parte inicial à final da produção. Esta é uma estratégia que queremos implementar, e assim tornamos a fábrica mais visitável. Neste momento, tendo em conta o constrangimento de espaço, não nos é favorável ter visitas. Por isso queremos introduzir esta moção.

Nós rececionamos o leite diretamente do produtor. É entregue nas nossas instalações. No tanque é feito um tratamento técnico, a pasteurização, para limpar as impurezas do leite. Este tratamento atinge perto dos 80 graus e depois há uma regularização da temperatura para uma temperatura frequente, metade da temperatura [40 graus]. Atingida essa temperatura, há duas formas de fazer o iogurte. As receitas são praticamente as mesmas. A nossa estratégia sempre foi essa. A fermentação do iogurte sólido acontece depois do enchimento do copo. Vai para uma estufa que é aquecida a uma temperatura constante durante cinco horas. Após isso, leva o choque térmico. No iogurte líquido mantemos a temperatura constante durante as cinco horas dentro de uma cuba em agitação, por isso fica líquido, pela fermentação e agitação antes de encher a garrafa.

Já o processo dos gregos é parecido ao iogurte líquido, como é tão espesso, acaba por ficar cremoso. A agitação é menor do que a do iogurte líquido. Está feito o processo. O resto são os nossos pequenos segredos.

Quantos funcionários são?

13 funcionários. Somos muito poucos. Na fábrica são apenas quatro.

Quantos litros de leite recebem por dia?

Atualmente cerca de 2.000. Dá cerca de 15 a 20 mil unidades por dia. Neste momento é esta a média. Após a reformulação da empresa, o nosso objetivo é que chegue aos 5.000 litros por dia.

Temos três máquinas: uma produz 2.500 a 3.000 unidades por hora, outra cerca de 4.000 e outra 8.000. A nossa capacidade instalada ronda as 15 mil unidades por hora. Nós só estamos a produzir oito horas por dia. A nossa capacidade instalada é bastante significativa e o que queremos é realmente utilizá-la ao máximo.

A Yoçor veio para ficar?

Veio para ficar. Desde 2016 temos registado crescimento a rondar os 20 a 25% por ano. O ano passado duplicou os números em relação a 2015. Temos vindo a aumentar muito a nossa atividade. Continuamos a corresponder a todos, mas podemos fazer um esforço bastante maior naquilo que é a expansão da marca a nível nacional. Obviamente que já estamos em algumas grandes insígnias como ‘Auchan’, ‘El Corte Inglês’, alguns ‘Intermarchés’… o nosso mercado já tem algumas insígnias de renome, na nossa Região estamos em tudo, obviamente, mas no Continente ainda podemos chegar a muito mais sítios que ainda não chegámos, e vou ser sincero, não fazemos tanta força nesta fase, enquanto não fazemos a expansão da fábrica, porque isto poderá causar alguns constrangimentos. Queremos chegar mais longe não para banalizar o produto, mas sim para que cada vez mais pessoas possam de facto saborear um iogurte a sério.

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