A multinacional Fromageries Bel Portugal S.A. é a responsável pelo programa “Leite de Vacas Felizes”, lançado em 2016, que pretende oferecer um produto diferenciado e de qualidade superior.

O AUDIÊNCIA esteve à conversa com Eduardo Vasconcelos, diretor de compras do grupo, que nos fez o resumo destes três anos de “Leite de Vacas Felizes”.

Como surgiu este projeto do leite de vacas felizes?
Este projeto surgiu em 2013. Na altura falava-se no final das quotas, ou seja, iria haver mais produção. O mercado em Portugal continental, provavelmente, teria alguns problemas, e nós aqui nos Açores, como temos um grande potencial para produzir um leite de excelente qualidade e diferenciado, começou por aí.
Depois de bastante trabalho a desenvolver o programa, conseguimos lançá-lo em janeiro de 2015: a apresentação aos produtores, ao Governo, às autoridades, e outros ‘takeholders’, já com o programa todo definido em termos de caderno de encargos que os produtores têm de cumprir para a produção do leite de vacas felizes. Em março começámos a certificação dos primeiros produtores, juntamente com a SGS, que é a nossa entidade que certifica os produtores com base no referencial do programa que foi criado. Tivemos praticamente um ano a trabalhar com os nossos produtores, para irem evoluindo e para cumprirem o caderno de encargos.
Em maio de 2016 foi lançado o primeiro produto com base nesse leite, o leite de pastagem Terra Nostra e desde essa altura tem vindo a crescer e temos continuado a trabalhar com os nossos produtores porque o programa foi desenhado para todos os produtores, e todos são classificados consoante o seu estado de evolução no caderno de encargos. Existem os certificados que cumprem 90% das boas práticas e 100% dos requisitos (esses são certificados pela SGS), existem produtores que têm o mínimo de boas práticas garantidas, ou seja, se não cumprirem pelo menos aquele mínimo não poderão entregar o leite, e existe ainda os produtores responsáveis que cumprem 60% de boas práticas e 60% dos requisitos e continuamos a trabalhar com esses produtores para irem evoluindo.
Neste momento já temos 44 produtores certificados. Este programa é um programa de melhoria contínua, ou seja, não para aqui. O programa está dividido em pilares, nomeadamente pastagem, bem-estar animal, qualidade e segurança alimentar, produção sustentável e eficiência. Em cada um dos pilares procuramos estabelecer parcerias com as outras entidades de maneira a melhorarmos o programa e irmos melhorando continuamente.
No caso das pastagens temos um consórcio com as várias entidades, nomeadamente o Governo Regional, a FertiPrado, a Finançor e a Associação Agrícola de São Miguel, de maneira a tentarmos desenvolver mais as nossas pastagens no sentido nutricional, ou seja, ter um maior porte nutricional com base na erva para alimentar os animais. No bem-estar animal desenvolvemos um protocolo com a Universidade de Medicina Veterinária de Lisboa, em que é aplicado aos produtores certificados. O animal é analisado nos vários pontos de exploração, que nos dão indicações do nível de bem-estar. Neste momento já evoluímos para uma questão de uma certificação internacional em bem-estar com uma entidade norte-americana e estamos a trabalhar neste momento para obtermos essa certificação. Pelo caminho, tivemos um prémio de uma entidade não-governamental, que é a “Compension World Farming”, pelo nosso programa em bem-estar. Portanto, tem sido uma aposta forte no bem-estar e, realmente, esperamos em 2019-2020 termos essa certificação.

O objetivo é certificar todos os produtores para que o queijo também possa ser de pastagem, já que já têm o leite e a manteiga?
Isso é um projeto futuro, de ir crescendo à medida que o mercado vai pedindo. Temos o leite e a manteiga, e o queijo, provavelmente, será o próximo passo. Ainda não consigo dar uma data exata de quando será essa conversão, porque o queijo vai obrigar a um maior número de produtores serem certificados.
Neste momento, podemos considerar o leite que vai para o queijo como leite de pastagem, mas esses produtores ainda não cumprem os requisitos a 100%. É com esses produtores que estamos a trabalhar para que possamos ter um produto de superior qualidade.

Há cada vez mais interesse e opções em bebidas vegetais. Esta é uma forma de tentar concorrer com esse mercado?
Há alguma concorrência das bebidas vegetais, que ainda representam muito pouco no mercado nacional, mas realmente fazem alguma campanha, um pouco “desinformadora”. Todos os produtos têm benefícios e algo que pode não fazer tão bem. No caso do leite, geralmente se aponta a gordura, o que para nós é um mal-entendido porque a gordura do leite de pastagem tem um rácio ómega 3 e ómega 6 muito mais adaptado à nossa dieta mediterrânica, portanto, com benefícios para a saúde, enquanto que as bebidas vegetais têm a questão dos aditivos e dos açúcares incorporados. Quer se queira quer não, o leite é dos alimentos mais completos.
Claro que a nossa mensagem de que o leite de pastagem é muito mais rico em termos de cálcio e ómega 3 e muito mais rico nutricionalmente, também procura inverter essa tendência das pessoas (que para nós é uma tendência de pessoas desinformadas) em procurar bebidas vegetais por causa da gordura.
Existem as questões relacionadas com a produção animal, mas por isso o nosso programa procura ter atenção ao bem-estar animal e à produção sustentável, para a qual temos uma parceria com uma empresa com a qual fizemos o cálculo do nosso impacto ambiental dos produtores certificados, o qual está 32% abaixo da média linear. Além disso estamos a lançar um programa com o Instituto Agrário de Lisboa, com o objetivo de reduzirmos ainda mais o impacto ambiental das nossas explorações.

Há esse cuidado da vossa parte.
Sim, temos esse cuidado. Não só porque queremos ter produtos mais ricos nutricionalmente e mais saudáveis, mas também porque temos a preocupação com os animais e com o impacto ambiental.

Este produto é um pouco mais caro do que o da concorrência. Tem sido difícil chegar ao consumidor? Também têm feito uma grande aposta na publicidade.
A concorrência é sempre difícil e é sempre preciso trabalhar. O que interessa é que o consumidor reveja as mais-valias que o nosso produto lhe traz. Isso tem acontecido e temos sido capazes de demonstrar que o nosso produto realmente tem algo de diferenciador e o leite de pastagem Terra Nostra é, realmente, um produto mais rico nutricionalmente e mais saudável.

Quais são os números a nível de produção do leite?
Neste momento vendemos acima dos 20 milhões de litros e somos a 5.ª maior marca no mercado português.

A Bel também é uma das maiores empregadoras do concelho da Ribeira Grande. Quantos trabalhadores são?
São cerca de 230 trabalhadores e 400 produtores.

A Bel já consegue atingir algum mercado internacional. Para onde exportam mais?
A exportação ainda tem um significado muito pequeno, ainda que esteja a crescer. Temos batalhado bastante com o mercado. A marca Terra Nostra não é conhecido internacionalmente, mas temos estado a trabalhar em mercados como a França, Luxemburgo e Bélgica. A Angola era um mercado já bastante trabalhado por nós, mas infelizmente com a questão da descida do preço do petróleo a situação inverteu-se. Estes são os mercados com que trabalhamos, e andamos a investigar outros mercados com a China e o Médio Oriente. São processos lentos e demorosos e há que fazer muitos esforços até se conseguir resultados. Como o projeto do leite de vacas felizes é recente e para atingir esses mercados precisamos de volume e capacidade de produção, temos de ir trabalhando devagar nesses mercados e tentar arranjar oportunidades para crescermos lentamente.

Os Açores estão cada vez mais na moda e há sempre a imagem das “vacas felizes” nos pastos. O facto de haver esta imagem, é uma ajuda para este projeto?
Sim. O facto de estarmos enquadrados numa área vista como saudável, pura e pouco poluída é benéfico. Há aqui uma ligação ao turismo, ao nosso leite e à nossa agricultura. Claro que o turismo é atraído porque temos condições para a agricultura, as coisas estão interligadas. Temos ótimas condições para a produção de leite.

Quais são as maiores dificuldades do grupo Bel neste momento?
A nível de Portugal, a maior dificuldade é conseguir tornar a marca Terra Nostra internacional, ou seja, com acesso a mercados externos. Não é só uma questão de termos um produto de excelente qualidade, mas também uma questão de promoção e de poder chegar aos consumidores. Este é o maior desafio que temos.

O que têm em mãos para o futuro próximo?
A marca Terra Nostra é uma marca que quer estar presente nos produtos lácteos, portanto, temos um plano para termos uma forma mais alargada de produtos lácteos de maneira a oferecer ao consumidor mais variedade, sempre baseado no conceito de saudável e natural.

O diretor do Jornal AUDIÊNCIA lançou o desafio à Câmara Municipal da Ribeira Grande e também ao Governo Regional para se fazer, na Ribeira Grande, uma feira do queijo e do licor para se promover estes produtos do concelho. O que lhe parece esta ideia, tendo em conta o contexto em que trabalha?
Tudo o que ajude a promover os produtos lácteos é positivo. Pela nossa experiência, a questão das feiras acaba por não ter grande impacto, e nós participamos em várias feiras no mundo inteiro.
Neste momento, o turista que vem cá consome os nossos produtos e gosta, mas depois é necessário que consigamos chegar ao mercado deles. A grande dificuldade está aí. É um ponto que é preciso trabalhar. Não só nós, mas também o Governo, outras indústrias e até os produtores, que têm de caminhar no sentido de fornecer ao consumidor aquilo que ele quer.
Independentemente disso, qualquer ação ou qualquer momento de produção e de divulgação dos nossos produtos lácteos é sempre positivo.

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