Estimadas compadres, compadres, meus Amigos.

Na esperança de que estejam todos bem e em segurança, é com uma saudade imensa que relembro todos os momentos que já partilhei ao longo de 32 anos nossa “tripeira” e mui nobre Academia do Bacalhau o Porto, muitos dos quais na vossa grata companhia, quer nos habituais Jantares-Tertúlia, quer nos mais diversos eventos culturais que tive a honra de organizar no nosso e noutros países.

 

Apaixonantes convívios que se partilhavam com alegria e prazer, tão distantes dos tempos actuais face à triste realidade imposta pelo este dramático momento que vivemos, vivências essas onde se forjaram boas amizades entre pessoas que não se conheciam de lado nenhum e hoje prevalecem e onde juntos concretizámos com humildade a nossa principal e honrosa missão: acções de solidariedade.

 

Neste sentido, renovo o meu veemente apelo de nos mantermos em contacto, quer pela importância de relembrar memórias, quer pela necessidade de continuarmos a conviver como mais uma saudável maneira de ajudar a combater a solidão enquanto civicamente “aprisionados” em casa não nos permitindo uma vida normal e que segundo especialistas até pode afectar a saúde mental.

 

Expresso, pois o meu profundo agradecimento a todos os que assim também pensam e pelas muitas e encorajadoras mensagens que me enviam. Muito e muito obrigado.

E porque às vezes a memória é curta, hoje “com o pensamento ao sabor do vento” vou relembrar uma das histórias que orgulhosamente mais me honram, entre muitas outras que vivi dedicada e apaixonantemente na nossa Academia, que fazem parte da sua História e Cultura, razões pelas quais não se podem perder no tempo.

 

E pelo mesmo pedagógico motivo outras se seguirão enquanto a saúde me ajudar.

 

OPERAÇÃO AMÍLCAR − 2007

 

Um dos momentos mais afectivamente marcantes e honrosos da minha vida como compadre fundador e Presidente da Academiado Bacalhau do Porto, foi sem dúvida uma extrordinária acção de solidariedade que concretizei e baptizei de “Operação Amílcar”, tal como é habitual designar operações militares.

 

Esta história remonta a Setembro de 2007, quando o Compadre Presidente Honorário, Durval Marques, recebeu um e-mail dum compadre da Academia do Rio de Janeiro a solicitar a sua ajuda. De seu nome Amílcar Rodrigues, este nosso compadre luso-brasileiro explicou que precisava urgentemente de uma melindrosa operação cirúrgica aos olhos, caso contrário cegaria, e não tinha meios financeiros para a fazer.

 

Conhecendo bem a minha personalidade e forma de estar na vida, o meu amigo Durval Marques solicitou-me a responsabilidade de concretizar este desesperante apelo, pois tinha a certeza de que a ela me entregaria de “alma e coração”.

 

Sem hesitar, de imediato aceitei tal missão, consciente que era impensável angariar fundos financeiros necessários para tal cirúrgia sómente com o apoio das seis Academias do Bacalhau, na altura existentes em Portugal por muito boa vontade que tivessem em participar nesta acção de solidariedade para com um nosso compadre no Brasil.

 

E face a esta realidade comecei a pensar numa estratégia eficaz para a “Operação Amílcar”, tal como no passado na minha vida militar algumas vezes tive de planear.

Assim, e como no mês seguinte, em Outubro tinha lugar em Joanesburgo o importante XLX Congresso Mundial das Academias, organizado pela Academia-Mãe, no qual estariam Presidentes e compadres de muitas outras Academias espalhadas pelo mundo e onde, como era meu hábito, eu também estaria em representação da nossa Academia decidi expôr tal problema no referido Congresso na convicção que nele seria possivel angariar fundos financeiros necessários para a urgente cirúrgia do Compadre Amilcar.

 

E foi perante cerca de 400 congressistas, que emotivamente apresentei o drama do compadre Amílcar, mostrando o seu e-mail e documentos medicos comprovativos.

 

Não foi fácil pois há sempre alguns que na ânsia dalgum protagonismo pessoal, levantam por tudo e por nada as mais diversas questões e problemas de “lanacaprina”, aos quais respondi com toda a minha paixão, lembrando a todos que a solidariedade sempre fora a principal missão das Academias do Bacalhau e a sua real razão de ser quando os seus mentores a fundadaram, concluindo. “É para isso que servimos”.

 

E passando das palavras às acções, aproveitando a hora de almoço no Hotel Hilton, onde decorreu o Congresso, muni-me me dum frappé e, com a ajuda do meu querido amigo e compadre João Catita da Academia da Costa do Estoril, andei de mesa em mesa, conseguindo com este gesto angariar milhares de dólares, que pessoalmente entreguei ao Presidente da Academia de Niterói, o compadre João Peixe, para que no seu regresso ao Brasil, depositasse tal importância na conta bancária do Amílcar, permitindo-lhe assim a tão ansiada cirúrgia no Hospital da Vista no Rio de Janeiro.

 

Tempos depois, já em Portugal, ansioso por notícias, recebi um e-mail da esposa do compadre Amílcar Rodrigues a agradecer tudo o que tinha feito, infor-mando de que ainda não tinha notícias definitivas, mas estavam esperançados de que a cirurgia tivesse corrido bem. Mas, nesse e-mail, vinha também uma curiosa pergunta:

Seria o Presidente da Academia do Bacalhau do Porto, César Gomes de Pina, mentor da angariaçãodos fundos financeiros que permitiram,tal cirúrgia, o mesmo César Gomes de Pina, Capitão Miliciano, que em 1965 tinha comandado uma companhia no norte de Moçambique?

Surpreso com a pergunta respondi que sim e até lhe enviei uma foto.

Na resposta, a surpresa foi ainda maior:

“O meu marido foi seu recruta e furriel na sua companhia”.

 

Era sem dúvida o mesmo Amílcar Rodrigues a quem dera instrução na Escola Militar de Boane. Emocionado, lembrei-me imediatamente do Amílcar que até mandara ser observado numa Junta Médica em Lourenço Marques, pois já lhe tinha detectado uma deficiência visual que aquela Junta confirmou, o que o impossibilitava de ir com a Companhia para uma situação de guerra, tendo então ficado como furriel amanuense numa unidade militar na cidade de Lourenço-Marques.

 

Mas a vida oferece-nos surpresas inesperadas e volvidos mais de quarenta anos os destinos dos veteranos “César e Amílcar” voltaram a cruzar-se na “Operação Amilcar”.

 

Infelizmente, a referida cirurgia não tão correu bem como se desejsava e o Amílcar necessitava de uma segunda intervenção, pelo que o compadre João Peixe, Presidente da Academia de Nitrerói, que deste o início acompanhava esta dramática situação, telefonou- -me solicitando de novo a minha melhor ajuda e sugerindo até que me deslocasse ao Brasil, pois em seu entender só eu conseguiria angariar pela segunda vez os fundos necessarios, junto das Academias brasileiras.

 

E por minha conta e risco, de imediato rumei para o Rio de Janeiro, tendo no Hotel Othon, onde fiquei hospedado, montado o meu “quartel-general”, contando com a preciosa ajuda do compadre João Peixe, para contactar e juntar todas as Academias brasileiras num mega-almoço de solidariedade na Casa de Portugal em Niterói.

 

Foi assim que nós, “os dois veteranos de Moçambique”, nos reencontramos e chegado esse emocionante momento, as palavras deram lugar às lágrimas que não podiamos conter, quando no hall do Hotel Hilton nos abraçámos e o Amílcar com a voz embargada me disse: “Ó meu capitão, ainda usa barba?”.

 

Enfim uma alegria indescritível, tendo o mega-almoço reunido numerosos compadres e comadres e no qual, à boa maneira brasileira,o samba também marcou presença.

 

Na mesa principal juntamente com outros Presidentes e o Amílcar a meu lado, desisti de ler o discurso que tão cuidadosamente preparara no sentido de sensibilizar os presentes para a missão que me levou ao Brasil, tal era a barulheira que se ouvia na sala com conversas animadas ao ritmo dum contagiante samba…

 

Perante tal situação tive de mudar de estratégia e depois de muito dar ao “badalo”, rasguei com violência diante de todos as folhas do meu discurso, conseguindo assim chamar a atenção da plateia que de imediato se silenciou, tendo então afirmado que em vez de discursar iria declamar um soneto “Os Amigos” de Camilo Castelo Branco.

E assim fiz o melhor que pude e o momento exigia, pois de declamador nada tenho.

 

OS AMIGOS

 

Amigos, cento e dez ou talvez mais

Eu já contei. Vaidades que sentia

Supus que sobre a terra não havia

Mais ditoso mortal, entre os mortais!

 

Amigos, cento e dez, tão serviçais,

Tão zelosos das leis da cortesia

Que já farto de os ver me escapulia

Às suas curvaturas vertebrais!

 

Um dia adoeci profundamente:

Ceguei. Dos cento e dez houve um somente

Que não desfez os laços quase rotos.

Que vamos nós (diziam) lá fazer

Se ele está cego, não nos pode ver…

Que cento e nove impávidos marotos

 

Logo após esta minha improvisada declamação referi que, tanto quanto sabia, este foi o único soneto de Camilo, que quando cegara e na hora incerta que vivia em que mais precisara dos verdadeiros amigos que julgava ter cultivado ao longo da sua vivida vida, os mesmos tinham desaparecido como névoas de fumo.

E o desespero foi tal que o levou ao suicídio na sua casa em Famalicão.

No final do almoço mas agora já com toda a “plateia na mão”, levantei o Amilcar e com ele a meu lado emociona e convictamente afirmei:

“Aqui não, Amílcar…

Aqui, não terás um só amigo que veio proposiadamente do Porto para estar contigo.

Aqui, Amílcar, tens todos estes compadres amigos que te vão ajudar no momento difícil que estás a atravessar”.

E de facto, o dinheiro necessário foi conseguido naquela mesma hora e tempos depois o Amílcar Rodrigues voltou ao bloco de operatório, para uma segunda intervenção que teve relativo sucesso devolvendo-lhe a visão quase por completo.

Tenho ido várias vezes ao Brasil, para visitar amigos e outras Academias do Bacalhau, nomeadamente no Rio de Janeiro, Niteroi, Brasília, Fortaleza na oficialização da Academia e depois no Recife onde estive presente em 2011 no XL Congresso Mundial, acompanhado dum grupo de comadres e compadres meus amigos, a maioria dos quais da nossa Academia, bem como outros de Aveiro, Estremoz e Costa do Estoril, numa excursão que para o efeito organizei e também aproveitámos para umas inesquecíveis férias.

Bons e saudosos tempos… enquando a saúde tudo permitiu realizar…

Mas em as todas as minhas viagens a estas encantadoras “Terras de Santa Cruz” nunca me esqueci de visitar no Rio de Janeiro o meu amigo e compadre Amilcar.

E aqui vos deixo, meus amigos, mais uma curiosa e interessante história que igualmente inseri nas duas Edições do meu Livro de Prestígio mas que talvez alguns desconhecessem.

E vamos continuar a manter-nos em contacto com as minhas e vossas reconfortantes mensagens neste nosso “aprisionamento”. Muito obrigado.

Que Deus nos ajude e sejam felizes com votos de boa saúde, um forte abraço de amizade e como sempre com o nosso e académico “Gavião de Penacho”,

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