«Chegamos à capital do país para descontar um cheque. Quando os arquitectos da nossa República escreveram as magníficas palavras da Constituição e da Declaração de Independência, assinaram uma nota promissória, que seria herdada por todos os americanos. Essa nota promissória era uma promessa de que todos os homens, sim, homens negros e brancos, teriam garantidos os direitos inalienáveis ​​da vida, da liberdade e da busca da felicidade. Hoje é claro que os Estados Unidos não cumpriram essa nota promissória em relação aos cidadãos negros. Viemos recolher esse cheque, um cheque que nos dará as riquezas da liberdade e a segurança da justiça».

Mais de meio século depois de Martin Luther King ter proferido estas palavras, não só o cheque continua por descontar como, por mais juros que sejam cobrados, nunca será possível compensar o sangue derramado, incluindo o do próprio Luther King também assassinado.

O que se passa hoje nos EUA, na sequência do assassinato de um homem negro, George Floyd, por um polícia branco, Derek Chauvin, em Minneapolis e na sequência de perseguição por motivo fútil, prova a existência  dessa imensa dívida que não pára de aumentar, ocasionando a continuação da luta dos anos sessenta do século passado pelos direitos civis dos negros.

Desta vez a imagem, que correu mundo, mostrou um joelho a pressionar a garganta de um homem prostrado no chão e algemado e que a pressão se manteve durante os minutos suficientes para lhe causar a morte por asfixia e após ter repetido várias vezes que não conseguia respirar, ou seja, estamos perante mais um crime que nos dá conta de um País ainda não conciliado com a sua questão racista e os direitos humanos.

É certo que terminou a prática regular de execuções sumárias de negros, a Ku Klux Klan deixou de estar na moda nos estados do Sul onde actuava com a conivência tácita das autoridades, há alguma presença de estudantes negros em instituições superiores de ensino, mas é claríssimo que a supressão do racismo e uma autêntica paridade racial ainda não existem.

Porém, o que explodiu em Minneapolis e outras cidades norte americanas nas posteriores manifestações de protesto contra o assassinato de George Floyd não pode ser considerado como resultado somente da questão racial, pois houve aproveitamento de forças de extrema direita organizadas para a destruição, mas também tem influência a existência de 40 milhões de novos desempregados, milhões de pessoas com fome, a pobreza a chegar a quase metade da população, o deficiente combate à pandemia e uma economia que pode contrair 40% no segundo trimestre do ano, a que podemos bem acrescentar a escolha do grande capital ao ter colocado no poder um presidente de pendor ideológico fascista e racista, com falta de cultura, ou seja, acontece hoje nos Estados Unidos uma inegável crise estrutural do capitalismo, a par do declínio norte americano como principal potência imperialista mundial que sempre se auto proclamou como paradigma da democracia.

Saibamos ler o momento que o mundo atravessa e saibamos compreender que o futuro pertence a um outro sistema socioeconómico que defenda a vida e as pessoas, respeite os estados e a sua soberania, pratique a justiça social e o bem-estar entre os povos.

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