Guilherme Baldaia cresceu a fugir de casa para ir ver o Futebol Clube de Avintes a jogar. Foi jogador, treinador e hoje ocupa o lugar de presidente daquele que apelida de “seu” clube. Lembra com saudade os tempos de bancadas cheias e as grandes festas que se fazia no futebol, tanto que apela a uma maior participação por parte da população avintense no clube da terra.

Os sonhos e objetivos são muitos, mas há um que se destaca: uma nova bancada no Complexo Desportivo do FC Avintes. Com uma bancada pouco confortável, nada prática e apenas uma estrutura improvisada para receber as equipas visitantes, isto quando as mesmas não têm de ficar de pé numa das laterais do campo, Guilherme Baldaia vê o projeto da nova bancada como uma prioridade e necessidade, por isso mesmo já existe uma equipa de trabalho a tratar do assunto para que esta seja uma realidade o mais brevemente possível. Outros sonhos passam pelo ressurgimento da modalidade de atletismo bem como a construção de uma sede para o clube, fator que o presidente acha fundamental para o maior envolvimento da comunidade.

A equipa sénior joga na Divisão de Elite da Associação de Futebol do Porto, mas Guilherme Baldaia também acredita que está pronta para o passo seguinte, ou seja, a chegada a um Campeonato de Portugal será mais um ponto na lista de sonhos e objetivos a cumprir. O presidente vai mais longe dizendo que na época passada, interrompida pela pandemia do Covid19, poderia ser o ano em que esse sonho se concretizaria, uma vez que faltavam apenas três pontos ao Avintes para atingir o segundo lugar e participar, assim, no playoff final.

O mandato de Guilherme Baldaia está quase no final, apesar disso, o dirigente do Avintes ainda não decidiu se continuará ou não a liderar o clube..

 

 

 

Conte-me um pouco do seu percurso no Avintes, desde que chegou aqui pela primeira vez, até ao posto de presidente que ocupa agora…

Para começar, eu sou descendente de um dos fundadores do FC Avintes, por isso a minha paixão pelo Avintes começou desde muito jovem, em criança mesmo. Eu lembro-me de vir a pé de casa dos meus pais, com quatro ou cinco anos, o que naquela altura era normal, e eu vinha muitas vezes ver o Avintes, os seniores principalmente. Aos doze anos ingressei como jogador do Avintes, que era o escalão mais baixo que havia na altura, que eram os iniciados, eu ingressei, pronto, e fiz todas as camadas até aos seniores. Joguei nos seniores e aos 25 anos, a última época que joguei já com muitas dificuldades porque tinha uma hérnia discal, mas joguei. Nessa altura fui convidado, aos 25 anos, a fazer parte da equipa técnica, já que ia deixar de jogar porque não conseguia mesmo jogar mais por causa da hérnia discal, fui convidado pelo presidente da altura, o  senhor Joaquim Magalhães, que foi um grande presidente do Avintes, a fazer parte da equipa técnica. Na altura nem me passava pela cabeça mas lá aceitei para ficar ligado ao futebol, era muito novo para ser dirigente. Fiquei nessa época, era adjunto da casa, as coisas não correram bem para o treinador da altura, ele pediu a demissão e eu, como era o adjunto da casa, fiquei como treinador principal. Na altura, a maior parte dos jogadores eram mais velhos que eu. Entretanto tive de ser operado de urgência, na mesma, e acabei a época, novamente, como adjunto, pronto, não terminei a época como treinador principal porque fui operado e quando regressei já cá estava um treinador, que já faleceu, era o Francisco Nóbrega. No ano seguinte fui treinar uma equipa de juniores, ou seja, eu queria ser principal, não queria ser adjunto, não era não querer, achei interessante e aprendi muito com os treinadores com quem estive, mas fazia parte do meu desafio pessoal ser treinador principal. Peguei então numa equipa de juniores e logo no primeiro ano começou muito bem, subimos uma equipa que estava no distrital ao nacional de juniores, no ano seguinte fui convidado pelo Pedroso para ir para lá treinar e fui. Gostei muito de lá estar, estamos a falar quase da altura em que o Pedroso nasceu, vinha dos amadores, eu estive lá dois ou três meses, mas segundo as pessoas lá na altura, ajudei bastante a criar algumas estruturas. Em outubro, as coisas não corriam bem no Avintes, e eu fui convidado pela direção, a regressar a casa e pronto, falei com as pessoas do Pedroso e eles perceberam muito bem que era o meu clube, eles sabiam isso, aceitaram e em outubro então ingressei no Avintes, e tive nesse ano a minha primeira subida de divisão como treinador de seniores. A partir daí, foi um percurso natural. Eu nunca tive, se calhar fiz mal, ou não, não sei, mas nunca tive a ambição de ser treinador profissional, nos anos seguintes surgiram convites de equipas seniores que eram profissionais, porque na altura uma equipa da segunda e da terceira eram equipas, praticamente profissionais, eram outros tempos, havia muito mais dinheiro, melhores orçamentos, os jogadores podiam ser profissionais porque os clubes podiam pagar bem, e o futebol distrital era muito mais bairrista, os jogos eram muito mais intensos, vinha muito mais gente ver os jogos, não tem sequer comparação possível. Eu lembro-me de ter no campo antigo, no Parque Joaquim Lopes, lembro-me de ter quase tanta gente a ver os treinos, como agora temos a ver os jogos. Depois havia aqueles jogos aqui de Gaia, com campos onde a assistência estava praticamente em cima dos treinadores e dos jogadores. Isto até me está a fazer lembrar, agora um aparte, os jogadores agora comentam “ei presidente, vai ser um jogo quentinho, Avintes vs Oliveiro do Douro ou Avintes vs Vilanovense”, eles estão longe de imaginar o que era antigamente. Eles ficam todos stressados porque, às vezes, estão 500 pessoas a ver o jogo, eles não imaginam o que eram esses jogos antigamente, em que era uma rivalidade tremenda nesses jogos, eram muito intensos, bairristas, eram jogos mesmo muito quentinhos, eu gostava desses jogos. Depois, pronto, eu nunca pensei treinar outra equipa sem ser o Avintes, nunca imaginei…tinha convites mas não ia porque nem pensava nisso. Na altura já tinha duas empresas e prejudicava a minha vida profissional porque àquela hora nós temos de desligar de tudo e ir ao treino, e eu fazia questão de ser quase o primeiro a chegar e era o último a sair, aquilo era um compromisso tão grande que eu não podia continuar sempre assim, então, volta e meia, fazia um interregno, parava um bocadinho. As coisas corriam bem aqui em Avintes, tive cinco subidas de divisão, sempre da principal da distrital para a terceira divisão, que existia na altura. Depois, surgiram tantos convites, felizmente, ou não, não sei, que eu aceitei o desafio. Apareceu um clube, que foi o Rebordosa e eu aceitei, decidi fazer essa experiência de treinar outra equipa que não o Avintes e gostei, as coisas também correram bem. Depois seguiram-se o Coimbrões, o Candal, o Sousense e o Grijó, foram esses os clubes que treinei além do Avintes. Fiz amigos nesses clubes e gostei muito de lá estar.

 

Mas um bom filho à casa torna?

Exatamente. Era o meu clube. Aliás, eu estava nos outros clubes e mal acabava o jogo, os outros diretores vinham-me dizer como é que tinha ficado o Avintes. Eles sabiam que eu gostava do Avintes. Mas enquanto lá estive, gostei de estar em todos os clubes por onde passei, todos eles.

 

E nesses clubes aconteceu jogar contra o Avintes?

Aconteceu só uma vez. Foi com o Coimbrões, aliás, até vim a este estádio jogar (Complexo Desportivo do FC Avintes), foi logo no início, e por acaso vim cá ganhar. Sempre que joguei contra o Avintes ganhei, que no caso foram dois jogos, aqui e lá, mas foi uma sensação estranha na altura. É muito complicado, foi uma sensação muito estranha estar a jogar contra o meu clube, contra aquela camisola que eu tanto gosto, mas pronto, eu tinha de fazer o meu papel, e tanto é que ganhamos esses jogos contra o Avintes, mas foi a única vez que joguei contra o Avintes.

Depois, eu tinha prometido a mim mesmo e aqui a algumas pessoas de Avintes que me pressionavam “Guilherme tens de vir para dirigente, deixa de ser treinador, tu não precisas daquilo para nada”, mas eu gostava, eu gostava de ser treinador, aliás e ainda agora gosto. É muito melhor ser treinador do que ser dirigente, há muito mais entusiasmo. A parte técnica, é o nosso trabalho que está ali, correndo bem ou correndo mal, é uma coisa que sai de nós. Sendo dirigente, também, claro que sim, tentamos dar as melhores condições, e muitas vezes os resultados fazem parte do nosso trabalho como dirigentes, muitas vezes são os dirigentes que estão por detrás dos bons resultados, ou não, mas a parte técnica é mais direta e dava mais entusiasmo, eu gostava muito de treinar, do treino, até que cheguei a um ponto que já não me sentia muito motivado, sinceramente. Depois, o Avintes, há quatro anos, teve um problema de não ter sucessão, portanto, a direção que cá estava ia sair, acabou o mandato e fez-se várias assembleias e não aparecia ninguém. Eu ainda estava a treinar o Grijó na altura e pronto, as pessoas fizeram-me ver que era importante eu vir, não havia mais ninguém e eu não pude dizer que não, e como tinha decidido e tinha prometido a mim mesmo e a algumas pessoas, até em algumas assembleias do Avintes, que quando deixasse de ser treinador, tinha dado a minha palavra que ia assumir como dirigente, pronto, vim como dirigente, vim servir o meu clube e estou satisfeito de cá estar. É uma coisa que me ocupa muito tempo, exige muita dedicação, mas faço-o com todo o gosto e sentia-me, sinceramente, na obrigação de ser dirigente, porque o Avintes não me deve nada, eu é que devo ao Avintes. Foi a minha escola, fiz aqui grandes amigos e gosto demasiado deste clube para sentir que me deve algo, eu é que devo a ele e enquanto puder, vou sempre ajudar o Avintes.

 

Como é que se vive essa transição de treinador para presidente? Não sente aquela necessidade de se meter na estratégia de jogo?

Não. Eu acho que é exatamente ao contrário. Quem foi treinador e passa para dirigente, compreende muito melhor e sabe até onde pode ir. Eu sei que há alguns dirigentes que até percebem pouco de futebol, que nunca foi o meu caso, por todos os clubes por onde passei, nunca tive dirigentes a meterem-se no meu trabalho, aliás, foram e ainda hoje são amigos, mas se calhar é mais fácil para alguém que já foi treinador perceber até onde é que pode ir. Já tive aqui alguns treinadores, desde que sou dirigente, e todos eles acho que podem comprovar isso, nunca interferi rigorosamente em nada, aliás, alguns deles tinham, por vezes, a preocupação de saber a minha opinião e aí eu dava, mas nunca interferi. Agora, claro que há coisas em que eu tenho as minhas ideias e ainda não desaprendi de ser treinador, acho eu, mas não me meto em nada. Tenho o trabalho de dirigente e enquanto os treinadores cá estiverem tenho de dar o meu máximo para os apoiar e defendê-los, se for o caso disso, sempre com a ideia do que é melhor para o Avintes.

 

Numa perspetiva de dirigente, quais são as maiores dificuldades que os clubes da distrital passam neste momento?

Tirando, neste momento, o problema Covid19, os clubes da distrital, e acho que até são todos porque é transversal, é a parte económica que é terrível. Os clubes têm muitas despesas, o Avintes não foge à regra, se calhar até ainda tem mais despesas que os outros porque nós temos dois campos, três funcionários permanentes, temos duas contas da luz, duas contas da água, temos este relvado natural que nos dá uma despesa brutal, brutal mesmo, as pessoas não imaginam o que é ter um relvado natural…depois, ou avaria o sistema de rega, ou avaria a máquina de cortar a relva. Agora, por exemplo, o sistema de rega está avariado, já metemos um motor novo, já metemos um quadro novo já metemos uma bobina nova no quadro do motor, ou seja, estamos sempre em permanente manutenção, tanto aqui como no Parque Joaquim Oliveira, dá uma despesa brutal. Em contrapartida, só tenho a agradecer porque o Avintes tem muitas pessoas amigas que ajudam o clube, mas muitas mesmo. Os sócios, pessoas até simples e modesta, e que financeiramente nem estão muito bem, mas podendo, contribuem para o Avintes mas, essencialmente, o Avintes vive de patrocínios, que muitas vezes, nós direção, é que temos de arranjar isso, às vezes, esses patrocinadores ajudam, ou porque são amigos do presidente ou algo assim. Há patrocinadores que nos ajudam muitos e que se sentem quase obrigados a ajudar, porque o retorno não é muito. Lá em cima (no Parque Joaquim Oliveira) tínhamos doze patrocinadores para todas as equipas de miúdos. O retorno não é muito, é mais na perspetiva de fazermos ver às pessoas que a imagem de ajudar o clube da terra também é importante, o retorno é mais esse, a imagem que dão, porque o retorno financeiro, estou convencido que as empresas não têm muito. Nós vivemos disso, de um trabalho diário de rigor financeiro, que também é preciso ter, e em busca de receitas para o clube. Por isso é que, neste momento, o Avintes é um clube sólido, um clube sem dívidas, é um clube que está estruturado de uma maneira, financeiramente, que nos garante que nos próximos anos o Avintes não terá problemas financeiros, de certeza absoluta.

 

Os clubes vão queixando-se do prejuízo domingo após domingo, resultante duma bancada que, normalmente, não dá lucro suficiente para cobrir os gastos. O Avintes, tem sempre uma bancada composta e inclusivé uma claque. As pessoas da terra gostam de vir ao futebol?

Quando eu comecei como treinador, digamos que agora o Avintes tem 30% da assistência do que tinha na altura, o que quer dizer que baixou cerca de 70%, só para ter uma ideia do que era o Avintes antigamente, e quando digo antigamente, refiro-me há dez, quinze, vinte anos atrás, mas mesmo assim, em relação aos outros, ainda consegue ter tanto como o que tem mais, não tenho dúvida disso. Nós vamos muitas vezes fora e o Avintes, às vezes, tem mais gente do que tem a equipa da casa. Ainda assim, a despesa…um jogo em casa custa 500 euros a qualquer clube da Divisão de Elite, desde a taxa de jogo ao policiamento são 500 euros, e muitas vezes, na maior parte das vezes, aliás 90% das vezes, isto para não dizer noventa e muitos, 90% das vezes, a receita não cobre a despesa da realização do jogo em casa e os clubes vivem permanentemente com esse problema. Pagamos uma taxa de jogo brutal à associação e depois ainda temos de pagar o policiamento.

 

O que se poderia fazer para melhorar isso? Algo que fosse um chamariz para trazer mais pessoas ao jogo, ou algum tipo de diminuição dos custos semanais?

As duas coisas. Para os clubes serem mais sustentáveis, teria de ser as duas coisas. Eu acho que a associação leva dinheiro a mais pela taxa de jogo que são 300 e alguns euros, obriga-nos a seis polícias, o que dá uma média de 200 euros, mas pronto, em média dá cerca de 500 euros. O Avintes, tenho a certeza, que com uma bancada com melhores condições, mais conforto, tenho a certeza absoluta que teria muito mais gente. Nós temos uma bancada desconfortável, se tiver a chover as pessoas apanham com a chuva de frente, apanham com sol de frente. Neste momento era importante, e já está criado um grupo de trabalho, com a junta de freguesia e a direção, para apresentarmos à câmara uma proposta, um projeto de uma bancada, por isso eu estou convencido que a câmara nos vai ajudar, brevemente, na construção de uma bancada poente. Essa bancada poente, eu penso que vai trazer muito mais gente ao futebol, não tenho dúvidas nenhumas. E além das pessoas do Avintes virem mais, porque vai ser uma bancada muito mais confortável, com condições que esta não tem, vamos receber mais dignamente o visitante, que nós aqui não temos condições para os receber. Os visitantes assistem aos jogos numa estrutura de ferro que existe ao lado da bancada atual, e quando vem muito mais gente, em jogos com o Oliveira do Douro e Vilanovense, por exemplo, somos obrigados a pô-los do outro lado do campo para não haver confronto ali com a nossa assistência, e aqui as pessoas não têm condições para ver o jogo. Nesses dias eu sinto-me mesmo triste e até envergonhado de os receber assim, eu e todos os avintenses. Aqui a freguesia tem muito orgulho no Avintes, no futebol e na sua equipa de futebol, e então, se o Avintes der boas condições para as pessoas virem ver os jogos, eu tenho a certeza que o Avintes vai ter mais gente no futuro, num futuro próximo, vai ter mais gente a assistir aos jogos. Isto, pela qualidade, pela divisão em que o Avintes está, que é uma divisão competitiva e pelo bairrismo que existe, também porque há muitas equipas aqui de Gaia na Divisão de Elite, isso ajuda, quase 50% dos jogos são feitos em Gaia; além de tudo isso, vamos ter, brevemente, melhores condições, com essa bancada, para proporcionar melhores condições às pessoas para que estas venham ver os jogos.

 

Pode-se dizer que este projeto de uma nova bancada é o sonho mais atual do Avintes?

É um sonho e uma necessidade muito grande porque este estádio é um estádio inacabado. Fez-se asneiras no passado, que para o caso não interessa, por parte de várias entidades mas acho que a bancada vai ajudar a resolver. É o nosso principal objetivo no momento, a construção dessa bancada. Para isso contamos com o apoio, fundamental, da Câmara Municipal de Gaia, sei que o nosso presidente da câmara está receptivo a ajudar o Avintes ele reconhece a necessidade dessa mesma bancada. Nós estamos a preparar um projeto para apresentar para que num futuro muito, muito próximo, a bancada possa estar pronta.

 

E sonhos a nível desportivo, quais são?

Esta divisão é boa, a Divisão de Elite da Associação de Futebol do Porto é muito competitiva, há muitos derbies aqui em Gaia, há boas equipas aqui em Gaia também, há clubes muito bem estruturados aqui em Gaia, logo, esta divisão é muito boa. Aliás, é impensável o Avintes jogar noutra divisão, com o estatuto que tem, abaixo desta divisão para o Avintes, é quase morrer, mas eu acho que o Avintes tem condições, num futuro próximo também, para estar num Campeonato de Portugal, não tenho dúvidas disso. Eu não estou preocupado que tenha de ser comigo que o Avintes vá para esses campeonatos. Gostava que o Avintes fosse, porque acho que tem condições para participar nesses campeonatos, mas não estou obcecado por isso.Este ano temos uma equipa competitiva, uma equipa que eu considero que está boa, que se calhar vai andar nos lugares cimeiros, mas não estou obcecado com a ideia de ficar em primeiro e subir de divisão, mas se isso acontecer, nós cá estaremos para lutar por isso. Não estou obcecado, nem penso “só saio daqui quando o Avintes subir”, não, longe disso. Gostava como avintenses, comigo cá ou sem cá estar, que o Avintes consiga esse objetivo, e no que eu puder ajudar, cá estarei para ajudar o Avintes a conquistar esse objetivo.

 

A época passada terminou mais cedo, os jogadores estiveram muito tempo parados. Avizinha-se um início de época mais difícil e diferente?

Já está a ser difícil a nível de patrocinadores. Os patrocínios são importantes, como já falei anteriormente. É muito complicado uma pessoa patrocinar uma equipa, tanto sénior como das camadas jovens, se não há público. Felizmente, nós fizemos ver e falamos ao coração das pessoas e das empresas e muitos deles estão a continuar a ajudar-nos. O facto de não haver público é muito estranho, a adrenalina do jogo, a emoção que é transmitida das bancadas para o campo, faz parte do futebol, o futebol também é isso, não é só chutar na bola. Isso não acontecendo, vai ser muito estranho, é um jogo insosso, sem sal, parece um jogo-treino e isso tem influência no rendimento das equipas, os jogadores vão estar menos motivados, mas as condições são para ambas as equipas que estarão em campo. Eu acredito que isso, brevemente, será ultrapassado, aliás, tem de ser, ou com menos gente, com limitação de lugares ou não, estou convencido que isso vai acontecer. Já acontece noutros países, acho estranho que cá em Portugal isso ainda não tenha acontecido, mas as pessoas lá terão as suas razões e temos de respeitar, mas acho que brevemente vamos ter gente e vamos ultrapassar isto.

A nível do rendimento dos jogadores, realmente, nota-se. Alguns jogadores chegaram com excesso de peso, foram quase seis meses parados, já tinham falta de rotina, de treino até, falta de rotina de jogo, mas é igual para todos, portanto, estamos todos nas mesmas circunstâncias, partimos todos da mesma linha de partida, por isso, agora é trabalhar para a frente.

Eu ainda acreditava que íamos subir de divisão o ano passado, a equipa estava bem, estávamos muito fortes, confiantes e estávamos a três pontos do segundo lugar, faltavam ainda cinco jornadas. Portanto, se chegássemos ao segundo lugar iríamos a uma pull final, onde poderíamos não subir, mas também poderíamos subir. Eu acredito que o ano passado a equipa iria a essa pull final e tinha condições para subir de divisão. Essa parte, aliada à parte de fechar as portas aos nossos meninos foi a parte pior. Foi todo um trabalho que foi feito ao longo de meses, com o início de preparação de época, que foi muito bem preparado, e depois toda a gente fez um esforço, desde massa associativa, direção, treinadores, jogadores, para conseguirmos o tal objetivo de irmos à pull final e depois foi cortado assim drasticamente, isso deixa uma má sensação.

 

Mas isso poderá ser um entusiasmo extra neste início de época? Os jogadores terem essa ideia de que o ano passado estavam tão próximos e então quererem-no esta época com ainda mais força?

Claro que sim, começou por nós direção, que não podemos desanimar nem baixar os braços, tivemos de voltar a arregaçar mangas e a acreditar, voltarmos a prepararmo-nos. Fizemos um trabalho agora no defeso que acho que foi bom de preparação desta nova época e acho que estão reunidas, novamente, as condições para nós tentarmos, sem estarmos obcecados, atingirmos a pull final nesta nova época.

 

Apesar de estar para breve o início da competição, paira no ar a preocupação de que, a qualquer momento, pode parar tudo novamente?

Esse fantasma paira sempre, sobre todos os dirigentes, treinadores, jogadores. Eu estou convencido, no entanto, que vai ter um efeito ao contrário, eu acredito que isto vai passar brevemente, aliás, tem de passar, as pessoas têm de voltar à vida delas, à que tinham antes e as pessoas têm necessidade disso. Eu também confio nisso, confio na ciência, nas pessoas que gerem essas coisas e brevemente vamos ter a nossa vida normal.

 

Fale-me um pouco dos reforços para esta nova época.

Por azar, ou por contingências do futebol, os jogadores que saíram, muitos deles, nós queríamos que continuassem, mas foram, alguns deles, para outros campeonatos, outras condições, outros, por opção do treinador, que conhecia bem a equipa, acabaram por não continuar, por isso tivemos de ir buscar, novamente, muitos jogadores, mas isto no futebol é normal, eles integram-se rapidamente, já se conhecem uns aos outros e muitos deles vieram desta divisão, foram nossos adversários o ano passado, por isso, isso não é um problema.

 

Quem pode atrapalhar o Avintes para a possibilidade de subida? Quem são os verdadeiros adversários?

Há vários, esta divisão é bastante competitiva, claro que há sempre meia dúzia de equipas que andarão pelos lugares cimeiros, não tenho dúvidas nenhumas, mas há várias equipas que estão muito fortes, que se reforçaram muito bem, mas isso é bom, só vem dar qualidade ao campeonato. Mesmo num ano tão difícil houve clubes que fizeram grandes investimentos, agora o importante é cumprir, e quanto a isso o Avintes vai cumprir, com ou sem patrocínios, os jogadores podem estar tranquilos que o Avintes vai cumprir até ao fim, até ao último dia que estiverem aqui. Os jogadores têm um subsídio fixo mensal e depois têm um prémio de jogo, mediante as vitórias.

 

Esta situação pandémica fez-se então sentir nos seniores, mas poderá ser mais evidente nas camadas jovens? Têm crianças que desistiram ou que ainda não comparecem por medo, até dos pais, desta situação?

Sim, poderá haver alguns. Essa foi a parte que mais triste me deixou no meio disto tudo, foi fechar as portas e deixar de lá ter os nossos miúdos. Assistir aos treinos e aos jogos dos miúdos, a alegria é tanta da parte deles que nos contagia também e o facto de fecharmos as portas e deixarmos de ter lá os nossos miúdos diariamente, foi a parte que mais me custou desta pandemia, foi quase como expulsar os miúdos de lá. Além da alegria contagiante diariamente, é toda a envolvência dos jogos, dos treinos, dos pais, a festa dos pais nos jogos e nós temos sorte de ter, em todas as equipas, um grupo excelente de pais, que ajudam muito o clube. Essa é a parte má disto tudo, além da saúde. Neste momento, não estamos com grandes problemas de falta de miúdos, nota-se naquela faixa etária em que os miúdos iniciam, os pequeninos mesmo com quatro, cinco e seis anos, esses é que não estão a vir, ou vieram muito pouquinhos, enquanto antes vinham muitos, agora vêm pouquinhos porque ainda não estão ligados ao futebol, não têm o bichinho do futebol. Os outros como já têm o vício, esses apareceram. Nós criamos um esquema de segurança e higiene muito rigoroso lá em cima no campo, em que os pais e os miúdos podem estar à vontade. O único problema que estamos mesmo a ter é com os miúdos que iniciam agora, a partir dos três anos, que já tínhamos meninos lá de três anos, dos três aos seis anos, essa faixa é que está a aparecer pouco, os pais também pensam “é mais um ano, menos um ano, entram no próximo”.

 

E que outros sonhos tem para o clube? Sei que gostava de reatar uma modalidade aqui no Avintes…

A modalidade que eu gostava de reativar, mas que neste momento é difícil, nem podemos sequer pensar nisso porque não temos as condições necessárias, era o atletismo. O Avintes já teve uma grande tradição no atletismo, no passado, até com campeões nacionais e eu gostava de reativar essa secção. Iria ser este ano, mas devido às circunstâncias atuais, vamos ter de adiar mais, pelo menos, uns mesinhos, mas gostava de reativar essa secção. Outra coisa que também era importante para o Avintes, mas o nosso foco agora está na bancada, era o Avintes construir uma sede, que eu acho que era importante para o clube, aliás, eu acho que o Avintes sempre devia ter tido uma sede. Uma sede é muito importante, não só no aspeto financeiro, mas no aspeto de vivência do clube, ali é que se agrega as pessoas, ali é que se discute os problemas do clube, tudo isso faz as pessoas viverem o clube e estarem ligadas ao clube, além do aspeto financeiro que também é importante, mas neste momento estamos mesmo é focados na construção da bancada.

 

Já que falamos de projetos novos…o futebol feminino algum dia foi um assunto a ser colocado em cima da mesa?

Sim, esteve. O Avintes já teve no passado, há mais de dez anos penso, aliás, o Avintes deve ter sido dos primeiros clubes aqui a ter feminino, mas na altura as pessoas decidiram acabar com o futebol feminino, eu acho que foi uma asneira, deviam ter desenvolvido. Já pensei nisso, mas neste momento nós temos duas equipas em todos os escalões de formação, dos juniores aos sub8, todos os escalões têm duas equipas, são mais de 300 atletas, portanto, teríamos de ter outras condições para reativar o futebol feminino, mas acho que num futuro, breve, o Avintes poderá pensar em criar uma estrutura, talvez até depois de termos aqui a nova bancada dá para ter aqui um balneário, e ter uma equipa feminina, até porque acho que é importante. Quanto a se há ou não matéria-prima, se calhar há, mas talvez não demonstrem, como não temos. Tínhamos primeiro de ativar a secção de futebol feminino, e só depois víamos se as pessoas aderiam ou não, mas estou convencido que sim. Tínhamos de fazer um trabalho de prospeção aqui na zona para ativar o feminino, a nível de seniores, para reativar a parte da formação eram precisas outras condições, mas isso seria o ideal.

 

Este grande número de miúdos são o futuro da equipa sénior? Nem todos chegarão lá, mas muitos deles acabam por ficar até à idade adulta?

Sim, exatamente, ficam até aos seniores, claro que depois nos seniores, havendo um rigor em termos de qualidade, nem todos são escolhidos, mas temos tido o cuidado de todos os anos termos cinco, seis jogadores da formação a fazer parte do plantel. Este ano criamos a equipa de sub23, e aí fazemos questão que só possam fazer parte dessa equipa jogadores que tenham feito parte da formação do Avintes. Esta equipa é uma resposta para esses jogadores que não entram nos seniores, e em vez de abandonarem ou até perdermos o contacto e irem para outros clubes, estão aqui próximos de nós e em qualquer altura podem fazer parte da equipa principal, assim como, os jogadores que estão na equipa principal, que estão magoados e a recuperar de alguma lesão, ou que não estão a ser opção para o treinador, em vez de estarem parados na equipa principal irão jogar pelos sub23, assim como os sub23 a qualquer altura poderão fazer parte da equipa sénior. Fazemos questão que sejam atletas da formação do Avintes para viverem o espírito avintense, sentirem o clube e esses jogadores que sentem a camisola e sentem o clube, de certa maneira, têm mais uma vantagem porque se dedicam ao clube e nós queremos ter as pessoas ligadas ao clube.

 

Apesar de existirem muitos clubes em Vila Nova de Gaia, acha que o município tem dado o apoio necessário ao desporto, às modalidades, e ao futebol em específico?

Sim, eu acho que sim. Com todas as limitações, porque realmente há muitas equipas e a câmara não pode ajudar todos por igual, de certeza absolutamente, mas acho que a câmara tem ajudado. Aliás, a nós já ajudou, fizemos obras no nosso sintético e a câmara ajudou-nos com uma comparticipação. Há o apoio nas inscrições dos atletas e há um subsídio anual que a câmara, de certeza que com algum esforço porque nós somos mesmo muitos clubes, a câmara atribui-nos um subsídio anual, que há uns anos atrás não tínhamos, foi apenas com este executivo. Portanto, eu acho que a câmara, com todas as limitações e com o número elevado de clubes, tem-nos ajudado a todos.

 

E quanto ao seu percurso pelo Avintes, ainda está para continuar?

O meu mandato acaba agora a 31 de dezembro, mas depois há sempre uma preparação em que ficamos sempre até março, é normal, marcar assembleia e não marcar, fechar contas.

 

Mas a grande questão é: vai voltar a candidatar-se?

Na altura decidirei, sinceramente, não digo que não nem digo que sim, na altura decidirei. Ainda falta muito tempo, isto rouba-me muito tempo e eu tenho empresas e eu perco mais tempo aqui no Avintes do que com as minhas empresas mas só na altura decidirei o que fazer.

 

Está dependente do aparecimento ou não de sucessores?

Acho que aqui em Avintes, sucessores não será um problema. O Avintes está bem financeiramente, está bem estruturado, agora é uma questão de dar continuidade e se eu, por acaso, não continuar, gostaria que isto ficasse bem entregue, a alguém que desse continuidade ao trabalho, que eu acho que esta direção tem feito um excelente trabalho. Eu gostava que aparecesse alguém que desse continuidade e acho que aqui em Avintes há pessoas com capacidade para isso e às vezes é importante haver rotatividade, as pessoas não ficarem demasiado ligadas aos clubes. Novas ideias, novos métodos, eu acho que os clubes também evoluem assim e refresca, de certa maneira, as pessoas que cá estão, portanto, também é importante, mas na altura decidirei.

 

O facto de ter o projeto da bancada em andamento fá-lo pensar em ficar um pouco mais, para o ver concluído?

Não, porque eu cá estarei para ajudar o Avintes sempre, mesmo que não esteja na direção. Já no passado, sempre que o Avintes precisou de ajuda eu estive sempre presente, ou procurei estar, e eu cá estarei para o que for preciso, dentro das minhas possibilidades. Agora, não é difícil para quem vier para cá dar continuidade, não é. As pessoas que não se assustem, que isto não é nenhum bicho papão, mas, se eu por acaso não continuar, é fácil dar continuidade e todos os projetos que estão em cima da mesa, de certeza absoluta que vão ter continuidade.

 

Disse que não via esse problema a acontecer no Avintes, mas é um facto que agora as pessoas estão menos ligadas ao associativismo?

Estão, e falando até de futebol, nós começamos à segunda-feira e acaba na outra segunda-feira, há milhares de jogos, nacionais e internacionais, de várias divisões e muitas pessoas não trocam o conforto do sofá pela vivência ao vivo. Há demasiada oferta de futebol, se calhar, e as pessoas vão-se desligando e o problema todo é desligar, eu acho que isso foi uma coisa que aconteceu aqui em Avintes, antes tinha muita gente a ver os jogos, o Avintes chegou a ter 2000 sócios, e agora somos uns 700 ou 800.

Avintes é uma terra muito pobre, é um meio muito operário, aqui há meia dúzia de pessoas muito ricas e há muito pobres, quase não há classe média e aqui em Avintes ou joga futebol ou joga futebol, não tem mais nada, não tem ginástica, não tem andebol, a nível desportivo não tem mais nada.

 

Sente que mesmo que decida sair, a missão está cumprida?

Sim, eu acho que esta minha equipa de diretores, são diretores com muita qualidade, têm feito um trabalho excelente, por isso, acho que sim. O Avintes está muito bem e estará nos próximos tempos, muito devido a este trabalho que nós temos feito. O pior está feito, agora é mesmo dar continuidade.

 

Gostaria que fizesse um apelo aos avintenses, naquilo que diz respeito ao Futebol Clube de Avintes e ao futebol…

Eu conheço o Avintes desde sempre, desde pequenino, portanto, há cinquenta e tal anos, e gostava que as pessoas se envolvessem com o Avintes, de todas as maneiras possíveis, a aparecem nos jogos ou a apoiarem o clube financeiramente, a interessarem-se pelo clube, até a questionarem o que se passa dentro do clube, gostava que as pessoas se envolvessem como se envolveram até há 10 anos atrás. Eu às vezes passo por pessoas que conheço daqui, de estarem a ver o Avintes, e que agora não vêm, e eu gostava que as pessoas se envolvessem de novo, porque eu acho que isso é a alma dos clubes. Eu gostava que as pessoas comparecessem aos jogos das camadas jovens, que agora é impossível, mas quando for possível, que viessem aos jogos para o Avintes ter maior envolvência, porque quanto maior for a envolvência, mais forte se torna. A parte humana de um clube é muito importante.

 

Para terminar…quais são as maiores recordações de infância que tem aqui no Avintes?

As vitórias, as subidas de divisão e a festa que se fazia nessas situações…e o vir a pé de casa dos meus pais para ver o futebol, muitas vezes, sem eles saberem, mas eu tinha mesmo de vir ao futebol.

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