O Movimento da Mensagem de Fátima, entidade que coordena a assistência aos peregrinos a pé, estima que 40 mil pessoas caminhem até ao Santuário de Fátima para a peregrinação de 12 e 13 de maio, presidida pelo papa Francisco, disse o padre Manuel Antunes, assistente espiritual do movimento.

Questionado sobre as motivações que levam as pessoas a peregrinar a pé, Manuel Antunes informou que, «num questionário feito há três anos, 60% dos inquiridos apontava o cumprimento de promessas, sendo que mais de 30% indicava outras razões, como pedir uma graça ou fazer penitência, havendo uma percentagem mínima que vem com espírito de turista, não são muitos, contudo, alguns vêm por curiosidade, para ver, para passear e para fazer desporto e até aparecem outros sendo descrentes».

Já o padre Anselmo Borges, professor de filosofia, afirma «deve ficar claro, desde o princípio, que Fátima não é dogma de fé. Que é que isto significa? Que se pode ser bom católico e não acreditar em Fátima. Fátima não faz parte do Credo. Outro esclarecimento mais urgente ainda: Fátima não ocupa nem pode ocupar o centro do cristianismo, o centro é Jesus de Nazaré, confessado como o Cristo. Eu trouxe a Portugal grandes teólogos, para congressos e colóquios e não manifestaram interesse em ir a Fátima. De facto, Fátima não é propriamente uma questão teológica, é sobretudo uma questão de religiosidade popular, para surpresa de alguns, confesso que não me custa admitir que as três crianças, os pastorinhos, tenham feito uma verdadeira experiência religiosa em Fátima e escusado será dizer que essa experiência e essa resposta confiada de fé surgem sempre interpretadas num determinado contexto existencial, pessoal, social, histórico, no quadro de pressupostos e expectativas. Assim, tratou-se de uma experiência religiosa à maneira de crianças e segundo esquemas e uma imagética hermenêutico-interpretativa situada no seu contexto. Não se pode esquecer que a experiência religiosa se dá sempre dentro de uma interpretação, de tal modo que há experiências religiosas melhores e piores ou menos boas. A daquelas crianças não foi das melhores, pois pode-se, por exemplo, perguntar: que mãe mostraria o inferno a crianças de 10, 9 e 7 anos? Os pastorinhos ficaram marcados negativamente e, de algum modo, com a vida tolhida».

Descendo à terra e cumprindo a deontologia histórica, para o ditador cá do burgo, Fátima foi um instrumento útil à propaganda fascista da unidade nacional transcontinental, tal como qualquer outro dos «efes» da trilogia. Ao que se sabe, Salazar pouco ia à missa, detestava fado e não se lhe conhece qualquer espécie de simpatia futebolística, mas, ao contrário de Afonso Costa, conhecia o país que governava.

Em 1949, no Porto, afirmava na sessão inaugural da II Conferência da União Nacional que «Portugal nasceu à sombra da Igreja e a religião católica foi desde o começo elemento formativo da alma da Nação e traço dominante do carácter do povo português. Nas suas andanças pelo Mundo, a descobrir, a mercadejar, a propagar a fé, impôs-se sem hesitações a conclusão: português, logo católico».

Entretanto, foi promovida uma petição, na qual, entre outras razões, se declara que «queremos chamar a atenção do papa Francisco, já que tanto insiste em vir a Fátima: venha mas traga o chicote, como fez Jesus Cristo para expulsar os vendilhões do templo, porque isto está convertido num circo de oportunismos variados, já não estamos a falar dos religiosos, mas sobretudo dos comerciais».

Ainda na petição, os subscritores referem «o chamado milagre dos três pastorinhos não passa de um autêntico embuste, algo que mereceu até hoje a atenção de estudiosos sobre o que realmente aconteceu em Maio de 1917 e sobre o processo contínuo e imparável de exploração religiosa montado sobre tão ingénua encenação, quem se informar sobre este caso, fica a conhecer facilmente a forma como os acontecimentos na época foram urdidos, planeados e tramados, entre a dúvida inicial e a posterior complacência da Igreja Católica, numa era de grande obscurantismo cultural e com evidente aproveitamento dessa rústica ignorância».

Sem pretender criticar os honestos seguidores da fé religiosa, permitam-me afirmar que, os não crentes, entendem bem as circunstâncias do mundo actual, está feito o diagnóstico, com os povos separados pelo erro, pela discórdia, pela injustiça social e pela acumulação ignóbil da riqueza, cumpre-nos meter pés ao caminho e transformar esta situação.

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