POLÍTICA “FAST FOOD”: A REPÚBLICA DOS “BÜRGERS”

Num país onde se leem títulos em vez de notícias completas e onde as opiniões são formuladas a partir de vídeos de 15 segundos, a verdade deixou de ser um valor: tornou-se num mero detalhe descartável.

Vivemos num tempo em que a velocidade da informação supera a sua profundidade e onde a política transformou-se num produto de consumo rápido. Tal como num restaurante de fast food, muitos portugueses formam as suas opiniões com base em títulos apelativos, vídeos curtos e conteúdos virais, muitos deles despidos de qualquer tipo de substância. Esta tendência representa um sério risco, colocando a matriz da democracia em perigo.

A proliferação de conteúdos em plataformas como o “TikTok”, aliada à crescente utilização de ferramentas como a inteligência artificial para criar conteúdos manipulados, contribui para a disseminação da desinformação e das fake news (notícias falsas).

A superficialidade tornou-se norma e verdade, sendo cada vez mais difícil distinguir entre ficção e realidade. A política, nesse contexto, deixa de ser um espaço de reflexão e torna-se um palco de espetáculo e manipulação.

Um exemplo recente ilustra bem este fenómeno. André Ventura, líder da oposição e presidente do CHEGA, insinuou que o Presidente da República teria viajado à Alemanha para participar num “festival de hambúrgueres”. A acusação, além de infundada, revela uma tentativa deliberada de distorcer os factos. O evento em questão (o Bürgerfest) é, na verdade, um Festival de Cidadãos, onde Portugal foi homenageado pelo seu contributo para a cidadania europeia.

A confusão entre bürger (cidadão) e burger (hambúrguer) não é inocente: é uma estratégia populista para alimentar o descrédito institucional e fomentar a indignação pública.

Este tipo de discurso, característico de movimentos populistas, representa uma ameaça real à democracia. Ao recorrer à demagogia, à simplificação extrema e à exploração emocional, estas forças políticas instigam o ódio, dividem a sociedade e promovem narrativas falsas, desprovidas de qualquer tipo de conteúdo e responsabilidade.

É urgente que os portugueses possam adotar uma postura mais crítica e exigente perante a informação que consomem. A democracia não se sustenta com slogans nem com vídeos virais, mas sim de cidadãos informados, atentos e comprometidos com a verdade. Só assim poderemos travar a ascensão da desinformação, da disseminação de intolerâncias, dos conteúdos não verificados, da demagogia e do sensacionalismo exacerbado.

 

André Pontes

Presidente da JSD/São Miguel

Vice-Presidente Coordenador da JSD/Açores