De uma vida de desafios na terra, à procura de um sonho no céu, Sílvia Azevedo nunca baixou os braços. Perdeu os pais jovem, frequentou dois cursos do ensino superior, não tendo terminado nenhum, trabalhou em diversas áreas, mas chegou a uma certa altura da sua vida em que sentiu necessidade de emigrar e ir conhecer o mundo. Concorreu à Ryanair sem nunca ter viajado de avião, fez toda a formação, mas apareceu uma melhor proposta da Qatar Airways e, sem medo, mudou. Um ano depois, nova oportunidade, e mudou para outra companhia de luxo do Médio Oriente, na qual opera atualmente. Com a pandemia a despoletar poucos meses depois da nova aventura, Sílvia teve de se reajustar, passar meses sem voar, sem poder ir a casa, sem receber o salário completo. Quando os voos voltaram, normalidade era tudo o que não existia, desde as batas, máscaras e viseiras, à falta de interação com os passageiros, tudo tinha mudado e, ainda hoje, nada é como antes. De experiências e destinos de sonho, a mortes a bordo, a jovem gaiense já viveu de tudo ao longo de cerca de três anos e meio de aviação, mas não desistiu dos seus outros sonhos, tendo apostado, recentemente, numa formação na área do desporto. Uma vida apaixonante e uma mulher incrível, Sílvia tem ainda muitos sonhos, mas garante que ser emigrante e ter uma vida nos céus a ensinou a ser mais calma, mais agradecida à vida e a acreditar que o que é bom e seu, há-de chegar, de preferência, de avião!

 

 

Quem é a Sílvia? Fala-nos um pouco de ti, da tua formação e do teu percurso até entrares na aviação.

O meu nome é Silvia Azevedo, tenho 28 anos e sou hospedeira de bordo. Estou no mundo da aviação há três anos e meio e vivo no Dubai há dois e meio. Cresci em Vila Nova de Gaia, mais concretamente entre Seixo Alvo (Olival) e Crestuma e frequentei duas licenciaturas: Ciências do Desporto, na FADEUP, e Ciências da Comunicação, na FLUP, sendo que, infelizmente, não terminei nenhuma. Vivo sozinha desde os 20 anos e sempre trabalhei, o que acabou, também, por condicionar a concretização de uma licenciatura, entre tantos outros motivos. Infelizmente, perdi a minha mãe quando tinha 11 anos e o meu pai quando tinha 19 e fui criada por familiares próximos. É algo que faz parte da minha história e que, acredito, me trouxe até onde estou hoje. Não cresci a sonhar ser hospedeira de bordo, mas sempre falei inglês muito bem e, aliado a um perfil comunicativo e sociável, as pessoas à minha volta sempre viram potencial em mim para tal. Apesar de não ser algo muito consciente, a ideia sempre esteve enraizada em mim.  No final do secundário descobri a minha imensa paixão por desporto levando-me, então, à FADEUP, mas com a perda do meu pai no final do primeiro ano e algumas pressões externas, acabei por trocar de curso. Tentei Ciências da Comunicação, por também adorar jornalismo, mas não me consegui identificar com o curso e acabei por trocar a faculdade pelo mundo do trabalho, num ginásio como secretária comercial.

 

Como e quando aparece este sonho de ser hospedeira de bordo e de que forma começaste a perseguir esse sonho?

O sonho aparece no final de 2017 quando começo a querer emigrar por não ter nada que me prenda a Portugal, por ter então o perfil adequado à profissão e para poder, também, conquistar mais qualidade de vida. No início de 2018 concorri à Ryanair, na qual entrei, fiz toda a formação, mas acabei por não me juntar à empresa. Durante a formação soube que a Qatar Airways estaria em Portugal a recrutar e, sendo que era algo que se encaixava mais naquilo que eu queria, fui ao dia aberto da mesma e fui aceite. No entanto, terminei toda a formação da Ryanair e só tomei a decisão de esperar pela Qatar Airways no fim da mesma. Isto foi em março de 2018 e eu apenas me juntei à Qatar Airways em outubro de 2018. Já me tinha despedido do meu anterior trabalho e esperei ainda seis meses que todo o processo de recrutamento fosse feito.

 

Como foi a experiência na Qatar Airways?

Tornei-me hospedeira de bordo sem nunca ter andado de avião e estive com a Qatar Airways durante um ano. Um ano ótimo, em que trouxe mais de 30 países no bolso, uma diferente perspetiva sobre o mundo e muito mais conhecimento no que toca a diferentes culturas e nacionalidades. Desmistifiquei muitos estereótipos e fiz amigos que levo para a vida. A comunidade portuguesa no Qatar é relativamente pequena, então, os poucos que existem são muito unidos. No que toca ao trabalho em si, aprendi a lidar com todo o tipo de situações e a funcionar sobre pressão. Tudo pode acontecer a bordo de um avião e não importa hora ou cansaço, o nosso trabalho exige que estejamos sempre alertas e em cima do acontecimento. No que toca à experiência como um todo, estar constantemente em contacto com pessoas diferentes e de todo o mundo, todos os dias, fez-me crescer enquanto pessoa e, arrisco-me a dizer, a tornar-me mulher. Aprendi a valorizar as pequenas coisas e a não reclamar tanto desta grande oportunidade que é a vida.

 

O que te fez querer trocar para a atual companhia aérea e quais as principais diferenças que sentiste?

Na altura, estava a ver todos os meus amigos a mudar e isso fez-me não querer ficar mais. Quando mudamos, mudamos para melhor e foi exatamente isso que aconteceu. O Dubai é um sítio com uma mentalidade muito mais aberta e com muito mais coisas para fazer e eu queria ganhar qualidade de vida nesse aspeto, não sentir que tinha emigrado simplesmente para trabalhar. As melhores condições de trabalho e o facto da minha empresa atual ser considerada o “sonho” no mundo da aviação tiveram grande influência e eu acabei por fazer a mudança sem pensar duas vezes. Tenho melhores condições de trabalho e sinto-me muito mais integrada no país em questão. A principal diferença é que sou mais feliz.

 

Na tua opinião, quais são as maiores vantagens e desvantagens desta profissão?

Claramente, a falta de horários certos, o jet lag e os voos longos que nos deixam dias sem dormir são as maiores desvantagens. Não só o facto de estar longe me faz faltar a eventos importantes em casa, mas também o horário mês a mês que não me permite fazer grandes planos e simplesmente estar presente. Este trabalho tem também um efeito tremendo na nossa saúde a curto e longo prazo e é imperativo que cuidemos de nós. A imposição de rotinas e bons hábitos o mais que der é extremamente necessário. A fast food torna-se muitas vezes a nossa melhor amiga, assim como a falta de energia para nos exercitarmos. A profissão em si é o sonho de muita gente, viajar pelo mundo e, obviamente, isso é a maior vantagem. Já passei por 44 países e nunca na vida, num trabalho dito normal, eu conseguia trazer na bagagem tanta experiência e tantos momentos únicos. Agradeço todos os dias por isso.

 

Chegaste a esta nova companhia aérea numa época um pouco complicada, uma vez que, logo depois, a Covid-19 apareceu. O que mudou durante a pandemia e como está a situação atualmente?

Fiz a troca em outubro de 2019 e, logo de seguida, tive dois meses de formação, algo que a empresa exige inicialmente, ou seja, só comecei, efetivamente, a voar em dezembro de 2019. Costumo dizer que tenho sempre duas estrelinhas a olhar por mim porque, no meio de tudo que temos vivenciado, eu fiz a troca na altura certa. Se tivesse ficado na Qatar Airways, teria, muito provavelmente, sido despedida porque era nova na empresa, face aos demais, e muitos dos meus colegas, na mesma situação, foram despedidos. Se tivesse tentado fazer a troca mais tarde, talvez não tivesse entrado na atual empresa ou, se tivesse entrado, talvez fosse despedida, como tantos dos meus colegas foram, exatamente pela mesma razão, serem novos na empresa. O meu último voo pré-covid foi a 17 de março e foi quando os meus primeiros seis meses de casa acabaram, o nosso chamado “probation time”, em que estaria mais vulnerável, então, para ser dispensada. Durante uns dois ou três meses deixamos de voar, de todo, acabando por fazer, muito esporadicamente, um voo ou outro de repatriação. Cheguei a fazer um e o sentimento era horrível: feliz por voltar a estar dentro de um avião cheio, mas triste por saber que todas aquelas pessoas tinham sido despedidas e estavam a voltar para casa por força de circunstâncias, completamente fora do controlo delas. Deparamo-nos com uma nova realidade, com as batas, máscaras, viseiras, os turnos de 24 horas, porque não podíamos pernoitar em determinados destinos, ou quando o podíamos fazer, éramos obrigados a ficar confinados aos quartos de hotel.  Atualmente, já só usamos a máscara a bordo e o uso de luvas fica ao critério de cada tripulante. Durante muito tempo, pouco ou nada voei, por motivos óbvios, e a nossa capacidade de adaptação foi testada ao máximo. Muitos de nós vimos os postos de trabalho em risco e começamos, também, a procurar criar planos B, para não sermos apanhados tão desprevenidos. O que sinto que mudou mais, foram mesmo as pessoas. Tanto apanho pessoas com imenso receio de toda esta situação e que apenas viajam por motivos de força maior, mas também vejo o oposto, pessoas cansadas de estarem presas em casa e que simplesmente querem ir, e esta é já a situação mais recorrente dos voos atuais. A interação a bordo também mudou imenso, tive de me reajustar àquilo com que cada um está confortável, e para mim isso foi muito difícil, não poder interagir com crianças, principalmente. O ser humano é um ser social e, para mim, isso foi, talvez, a parte mais difícil: ter de me conter no que me é natural.

 

Dos locais que já tiveste a oportunidade de visitar, quais os que mais te cativaram e porquê? E, pelo contrário, quais os que menos gostaste e porquê?

Os destinos são nos dado aleatoriamente e, por tal razão, nunca temos muito poder sobre para onde vamos ou não, mas sinto-me em casa quando voo para algum país do continente africano. Adorei Seicheles, pelas ilhas paradisíacas e por tudo que isso envolve, sou uma pessoa muito mais de verão que inverno. Adorei, também, o Gana por ter sido tão bem acolhida pelas pessoas num mercado local e não me sentir uma estranha. Japão foi também uma agradável surpresa por toda a hospitalidade e civilização que este país apresenta, é um respeito nato pelo outro que não vi em qualquer outro lugar. Infelizmente, dos sítios que gostei menos foi o Brasil. Apenas visitei São Paulo, mas deparei-me com uma cidade muito suja e pobre, aquela ilusão com que crescemos das telenovelas revelou-se mesmo isso, uma ilusão. Creio que apenas nomeio o Brasil como o sítio que menos gostei exatamente por isso, ter esperado muito e me ter desiludido. Adorei conhecer Dublin e Zurique, mas também tive experiências horríveis com o serviço ao cliente em si, irei sempre associar esses dois destinos a má educação e, como tal, não tenho muita curiosidade para voltar.

 

O que a Sílvia de hoje diria à Sílvia do passado? O que aprendeste com todo este percurso?

Levando à letra diria: “Levanta a cabeça que a vida ainda te vai trazer muitas coisas boas e as fases más não duram para sempre”. A Sílvia de hoje aproveita todas as oportunidades que a vida lhe dá e sabe como algumas coisas podem ser efémeras, ou simplesmente nunca mais se repetirem. Acho que tanto o trabalho como o ato de emigrar nos ensina mais valores e nos incute mais princípios enquanto seres humanos, acho que sou uma pessoa mais paciente, que “perde” mais tempo a ouvir os outros e que não julga tanto. Nenhuma realidade é igual a outra e o que é correto para mim pode não ser para a pessoa ao lado. Culturas, religiões, o ambiente em que somos criados, tudo influencia e a minha forma de pensar não invalida a de outrem. Vejo realidades diferentes todos os dias dentro do mesmo espaço: alguém que viajou para celebrar a lua de mel e outra pessoa ao lado que aterrou e acabou de descobrir que perdeu a irmã (isto aconteceu recentemente). Entendi que temos conceções muito erradas quanto a alguns países e culturas porque é o que chega até nós e está tudo bem na mesma, é a informação que temos disponível e até realmente termos a experiência, não temos como “saber melhor”. O que cresci e aprendi enquanto ser humano e/ou mulher é algo que não se compra nem se ensina.

 

Quais as tuas perspetivas e sonhos para o futuro? Passam por fazer carreira na aviação ou apostar em outras áreas?

Eu adoro a aviação e adorava poder continuar nesta indústria durante muitos anos. Contudo, acabei de tirar a formação de personal trainer, aqui no Dubai. Um sonho que esteve adiado durante muito tempo e está, finalmente, concretizado. O desporto sempre foi uma das minhas grandes paixões e gostava imenso de poder trabalhar na área enquanto me for possível. No momento, a ideia é conciliar as duas coisas: a vida de hospedeira e de personal trainer. Seja qual for a área que, um dia, escolha a tempo inteiro, sei que serei realizada, mas sentia que me faltava qualquer coisa. Mais do que qualquer outra coisa, sentia que me faltava conhecimento numa área que me é tão querida. Estou muito entusiasmada por esta nova fase da minha vida!

 

Para terminar, conta-nos um momento marcante que já viveste no céu.

Para quem não sabe, as assistentes de bordo estão lá, primeiramente, para segurança do passageiro e, apenas depois, então, para servir o passageiro. Transporto regularmente pessoas que vão de férias, comemorar os 50 anos de casamento, comemorar a passagem do ano, rever familiares, ou que viajam por força de circunstâncias maiores e nem sempre muito felizes. Como mencionei acima, tivemos uma situação em que aterramos e uma senhora recebeu a imediata notícia que a irmã tinha falecido. Foi uma colega minha que notou que a senhora estava em lágrimas e imediatamente ficou em lágrimas também. Confesso que, nesta situação, continuei com os meus deveres porque se me aproximasse, ia chorar também. Muitos dos nossos passageiros são trabalhadores que vão a casa de dois em dois anos, ou mais até, pessoas de famílias humildes, que emigram para poderem dar uma vida melhor a quem fica em casa e, neste caso, não consegui imaginar como poderá ter sido ansiar por esta viagem para simplesmente “não chegar a tempo.” Noutras notas, duas das coisas que levo do ano que passou e que me marcaram foram ter sido “atingida” por um raio e que, automaticamente, me fizeram passar todos os procedimentos de emergência pela cabeça no espaço de dez segundos, e, ainda, com muito pesar, ter perdido uma pessoa a bordo. Servir o almoço é, literalmente, a parte mais fácil do meu trabalho e que fico feliz por, na maior parte dos dias, ser mesmo só isso.