Se me tivesse inclinado para advocacia decerto acabaria sendo um mau defensor, porque sou número um em matéria de sustento de acusações. Porém, não estou aqui para tirar partidos ou dar razões de defesa. No entanto, sou digno de reconhecer valores pessoais, e costumo pagar com a mesma moeda os benefícios e as amizades que se misturam no recheio do nosso cotidiano.

Vem isto a propósito de um movimento de glorificação ao nome de um indivíduo que divulgou a sua terra por várias partes do mundo durante mais de meio século, e que segundo algumas opiniões, a “sua” Ribeira Grande nunca o reconheceu, nem lhe deu o devido valor. Pessoalmente, e em conjunto com um nome de uma organização da diáspora açoriana, chegámos mesmo a transmitir a ideia de se criar na Ribeira Grande uma rua com o nome de Ferreira Moreno. A coisa não foi em frente, e nem sei se foi considerada. Mas não importa. Já passou! A decisão do juíz, reforçada com a opinião do júri não deixaria que a ideia se tornasse realidade. As acusações públicas feitas ao Father Joe, na Califórnia, pela viragem do século, reforçadas em 2006 e acumuladas em 2009, levariam abaixo o prato esquerdo da balança.

Segundo o que nos disse um dia ele prório, José Augusto Ferreira nasceu na habitação seguinte à Casa do Outeiro (que ainda é conhecida pelos mais velhos como do Senhor Plínio), aos 31 de Dezembro de 1935. Era filho de Benjamim Ferreira, que ao tempo era o regedor da freguesia (Matriz). Quando recordava a infância, dos seus cabelos aos caracóis, lembrava-se perfeitamente da Loja do Mestre António Fona, e de um tal de José Polícia, que lá trabalhava, sem saber a razão deste apelido.

Em 1946, com apenas onze anos de idade, ingressou no seminário de Angra do Heroísmo, onde estudou durante nove anos. Em tempo de férias voltava sempre à “sua” Ribeira Grande, e destas visitas ao berço ficaram lindas recordações que jamais esqueceu. Entretanto, enquanto seminarista, despertou em si o jornalismo, e cedo começou a rabiscar alguns artigos para os jornais da Ilha Terceira, nomeadamente o Diário Insular e o União. Sendo informado das regras do seminário para com as normas de acesso aos meios de comunicação social, interrompeu por algumas semanas a sua colaboração na imprensa, mas voltou com toda a força em 1952, não só na Terceira, como também em São Miguel e Faial, usando o pseudónimo de Ferreira Moreno, nome este que, a partir de então, ostentou para o resto da vida no mundo do jornalismo.

Em 1955 veio para a América com os pais e irmãos, e a família foi viver para a Califórnia. Ingressou de imediato no seminário de São Patrício, em Menlo Park, onde concluiu a sua formação religiosa em 1958. Por ainda não ter atingido a idade para ser ordenado, teve de esperar algum tempo, e no Dia de Reis do ano seguinte a sua ordenação foi efectuada na Igreja das Cinco Chagas, na cidade de San José. Prestou serviço em várias igrejas da diocese de Oakland, tendo sido pároco em algumas, como St. Leander e St. Alphonsus, na cidade de San Leandro, onde foi muito dinâmico e querido pelos paroquianos. Nesta mesma cidade recebeu alguns prémios e menções honrosas.

Ao longo de todo este trajecto, tendo tomado o jornalismo como vício, desde os tempos de Angra, nunca deixou de colaborar na imprensa escrita em língua portuguesa, acentuando-se ainda mais nos jornais dos Estados Unidos e Canadá, onde a saudade era a musa das suas inspirações, dando origem a maravilhosos artigos de índole cultural nas suas mais variadas vertentes, relacionadas com as Ilhas dos Açores e suas gentes. O jornal Portuguese Times, que em Fevereiro do ano corrente celebrou os seus cinquenta anos de existência, contou com a sua colaboração semanal desde a sua primeira edição, que saiu à rua aos 8 de Fevereiro de 1971.

Treze anos depois, em Junho de 1984, acabadinho de chegar aos Estados Unidos, foi quando pela primeira vez abri o jornal Portuguese Times. Metendo-me na secção das crónicas e opiniões, deparei com uma fotografia em miniatura da igreja Matriz da Ribeira Grande, que servia de identificação ao cronista Ferreira Moreno, que para mim era um total desconhecido. Não foi necessário ser espertalhão para perceber que o jornalista se declarava ribeiragrandense, fazendo despertar em mim uma certa curiosidade. Por isso, na semana seguinte lá fui eu, outra vez, às crónicas; e lá estava, novamente, o tal Ferreira Moreno, usando como foto de perfil a minha igreja. Dirigi-me, então, a gente mais ou menos ligada à comunicação social por estas bandas, de quem obtive uma resposta, dizendo que era um padre da Califórnia, e que sim, era da Ribeira Grande. Como eu me sentia dominado com o seu estilo de escrita, corrente e compreensível a todos os níveis, deu-me uma vontade intensa de o conhecer pessoalmente. Por intermédio de fulano, fui remetido a sicrano, que me fez contactar com beltrano, e arranjei o número do telefone do sô padre da Califórnia! No sábado daquela semana, à noitinha, liguei para aquele número e fui atentido com o repique dos sinos da Matriz; e no meio daquela formosa melodia surgiu uma voz mais ou menos rouca com estas palavras: “Thanks for calling Saint Alfonsus. Please, give-me your name, and phone number, and I will return your call as soon as I can. Thank You, and God Bless!” Fiquei maravilhado porque, realmente, o homem identificava-se fuseiro de uma forma espectacular: as suas crónicas no jornal tinham por nome “Repiques da Saudade”, traziam a fotografia da igreja matriz, e a gravadora de mensagens telefónicas repicava os sinos da nossa igreja, com aquela melodia que era por todos nós conhecida, referindo-me às gerações dos anos cinquenta e sessenta do século passado.

Os sinos da Matriz

Tocam: delim, delão.

Logo as crianças todas

À igreja se vão.

Delim, delim, delim,

Delim, delim, delão.

 

Não há em parte alguma

Um melhor delim-delão

Como o dos nossos sinos

Quando toca o corrilhão:

Delim, delim, delim,

Delim, delim delão!…

 

Apresentei-me, em gravação; justifiquei a chamada; e antes de baixar o auscultador, ouvi do outro lado uma voz activa, disposta a conversar um pouco com um conterrâneo recé-chegado à pátria do Tio Samuel. Assim foi. Tanto que, após uma hora e tal de conversa nos tornámos grandes amigos; e esta amizade foi aumentando de tal forma que, em menos de seis meses já nos tratávamos por “padrinho” e “afilhado”. Quando lhe disse de quem era filho, senti sonóricamente um suspiro do outro lado, e apercebi-me que o meu novo amigo havia recuado aos anos cinquenta. Sim, belos vizinhos! – comentou Father Joe. Quando estava de férias, na Ribeira Grande, ao passar pela loja, com os cabelos cheios de canudos, diziam: “Olha, o Padre Zézinho! Lá vai o Padre Zézinho!…”  Numa carta que escrevi a meu pai, contei-lhe que era amigo do “Padre Zézinho”. A resposta do sr. José da Ponte foi esta:

 

Como um homem da ribeira

Diz ao Padre Zé Ferreira

Que eu não o perdi de vista.

Ainda tenho na lembrança

O seu jeito de criança

E o rapaz seminarista.

 

É génio que se comprova,

Que da Rua Ponte Nova

Foi lavrar outro terreno.

Conheci bem os seus pais,

E sei que assina nos jornais

É por Ferreira Moreno.

 

Passei a receber em minha casa, todas as semanas, o boletim paroquial da sua igreja, onde ele fazia questão de colocar uma ou duas anedotas no meio das coisas sérias, sem intenções de fugir da linha dos bons costumes, nem de ofender ninguém. Além disso, também me enviava algumas cópias dos textos originais das crónicas que eram mandadas para os jornais todas as semanas. A sua máquina de escrever era velha, do tempo da guerra. Mas era a única ferramenta que tinha para escrever. Até me admirava o facto de ter uma foto-copiadora electrónica no seu escritório. A máquina era tão velha que o barulho do teclado se fazia ouvir na casa inteira; e depois do texto escrito, lá ele fazia a revisão, com uma esferográfica, metendo os acentos em cima das letras que deles necessitavam, e acrescentando alguma vírgula esquecida. Nunca deu descaminho à máquina. Podiam tirar-lhe tudo, menos aquela bendita máquina. A meados da década de noventa alguém quis oferecer-lhe um computador usado, fazendo-o ver que poderia corrigir os textos antes de os imprimír, e depois mandá-los para os jornais electronicamente, facilitando assim o trabalho da redação. Mas ele não quis saber de estórias. Nunca trocaria a sua máquina por nada deste mundo. Coitado do amigo Francisco Resendes, actual director do Portuguese Times, que copiava tudo do papel, letra por letra. Se fossem omitidas algumas letras ou palavras, father Joe não tinha peneira nenhuma em contactar o jornal; e logo na semana seguinte, pedindo desculpas pelo lapso, Portuguese Times fazia a respectiva correção. Por curiosidade perguntei ao Francisco Resendes se Ferreira Moreno alguma vez enviou para o jornal algum texto via e-mail. A resposta foi negativa. Os textos de Father Joe sempre vieram por correio convencional. Se era assim com o Portuguese Times, assim era também com todos os outros jornais. Aqui entre nós: imagino a ruindade dos copiadores, nas ilhas açorianas, quando recebiam um texto do senhor padre da Califórnia. Mas Ferreira Moreno era muito querido e respeitado por toda a imprensa escrita em língua portuguesa.

A fotografia da igreja de Nossa Senhora da Estrela que estampava os seus Repiques da Saudade manteve-se até 1992, altura em que foi substituída pelo busto do Padre Zézinho, vestido de camisa havaiana, que, aliás, era o seu único estilo, fora das vestimentas sacerdotais. A mudança de fotografia, segundo ele, deveu-se às numerosas solicitações por parte dos jornais e leitores.

Ferreira Moreno falando do mesmo assunto dezenas de vezes dispersas por intervalos de tempo, nunca repetia o que antes dissera. As milhares de crónicas publicadas dariam formosas colectâneas em livro. Era o que os seus fiés leitores pensavam vir a acontecer. Mas, na verdade, Father Joe era modesto demais e nunca teve ambições desta natureza. Uma admiradora que tinha em São Miguel, de nome famoso em Vila Franca do Campo e conhecido em toda a Ilha, uma vez teve a ideia de recolher alguns textos deste jornalista, e resolveu enviá-los à Câmara Municipal da Ribeira Grande, a ver se os seus dirigentes os tranformavam em livro. É que se fosse em Vila Franca, viria à luz, de certeza absoluta. Mas aqui, nada. Se calhar fingiram que não os receberam; “e mais não digo..”, como ele dizia. Para espanto de muita gente, de acordo com informação publicada no jornal Portuguese Times, edição de 31 de Dezembro de 2014, father Joe em 2013 assinou, de “parceria com Joe Machado e José Rodrigues Couto, o livro Power of the Spirit, publicado pela Portuguese Heritage Publications of California. Trata-se de uma obra que nos oferece uma viagem pelos templos portugueses na Califórnia ao longo de 150 anos, e que recebeu o segundo lugar no 15º International Latino Book Awards (ILBA), na categoria de não ficção, em cerimónia realizada no Instituto Cervantes, na cidade de New York.”

Na manhã de domingo, 21 de Dezembro de 2014, dez dias antes do seu 79º aniversário natalício, Padre Zézinho foi encontrado na berma de uma auto-estrada, dentro do seu carro, sem vida, levando as autoridades a crer que foi vítima de um ataque cardíaco fulminante. O seu funeral realizou-se em Dia de Reis de 2015, quando Padre Ferreira celebraria o seu quinquagésimo sexto aniversário da sua ordenação sacerdotal.

Uma semana, ou duas, depois do funeral, recebo uma chamada da Califórnia, do saudoso amigo Álvaro da Silva, a pedir-me algumas fotografias do Father Joe, porque na Califórnia ninguém tinha; e que um tal Nelson Ponta Garça estava armando uma peça sobre o Padre José Ferreira. Uma mini-biografia, por assim dizer, a ser apresentada no programa Atlântida, da RTP-Açores, dali a dois ou três dias. Para tal, necessitava algumas fotografias que, pelos vistos ninguém tinha, mas ainda existia a última esperança: o afilhado do Father Joe, de Fall River. Claro que as tinha! Cedi-as; e fiz questão de ver o programa de Sidónio Betencourt, que teve como convidado para falar de Ferreira Moreno o senhor (Dr.?) Carlos Carreiro, que um dia foi apresentado ao Father Joe através do seu afilhado de Fall River. O programa apresentou umas seis fotografias do homenageado, e em quatro das quais estava em companhia do afilhado, que não foi mencionado nenhuma vez, nem precisava ser. Mas a boa-educação e a gratidão cabem em toda a parte. E mais não digo… (como dizia Father Joe)

O seu espólio literário foi doado à Ribeira Grande – terra que ele tanto louvava e glorificava nas suas crónicas. Mas por aquilo que nos pareceu, não foi recebido com aquele entusiasmo que era de se esperar. À custa do mesmo grande ribeiragrandense Álvaro Soares Pereira da Silva (15/03/1940 – 05/10/2017) foi carregado um contentor da Califórnia com destino a São Miguel, em 2015. Três anos depois tivemos oportunidade de visitar a Biblioteca Daniel de Sá, e perguntámos aos responsáveis o paradeiro dos livros e papéis da Califórnia. Foi-nos dito que tudo ainda estava em caixotes, à espera de classificação. Em 2019, sem nada perguntar, alguém nos disse que já existia uma secção na biblioteca com o espólio de Ferreira Moreno.

Por hoje é tudo. Podem atirar a primeira pedra. Mas antes, por favor, verifiquem se têm telhados de vidro. Haja saúde!

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