Há quantos anos dá aulas e onde começou a sua carreira docente?

Ui… temos que fazer as contas… o meu 1º dia, como professora de Português, remonta ao ano de 1981, precisamente dois meses após ter terminado o curso. Como sou natural da Guarda, a pedido da minha mãezinha concorri para algumas escolas do concelho e tive a sorte de ser logo colocada na Secundária de Celorico da Beira (perto da Serra da Estrela, a terra do bom queijo)! Guardo muito boas recordações desse meu 1º ano de estreia! A gente beirã é muito acolhedora!

 

E depois, passou por muitas escolas?

Nem por isso! Nos dois anos seguintes, candidatei-me ao concurso plurianual e tive vaga na Escola Secundária de Vale de Cambra. Nunca mais vou esquecer que, para além das 4 turmas de 10.º ano, calhou-me uma de Mecânica de 11.º, com 31 rapazes e 2 meninas… No biénio 1984/ 86 entrei em estágio (então designado Profissionalização em Exercício), na Secundária de Carolina Michaellis, Porto. Fui efetivar em 86/87, à Escola C+S do Olival (Carvalhos), onde permaneci durante 3 anos – um, como professora do 7.º e 9.º anos, responsável pela nova Biblioteca e fui eleita Delegada de Português. Nos dois anos seguintes, continuei com três turmas do 9.º ano e fui nomeada para o cargo de vice-presidente do Conselho Diretivo, onde o presidente Adriano e a professora Quieta, sua esposa, me acolheram como membro da grande família…

 

Há quanto tempo está nesta escola?

Pois… do Olival não teria saído, se não tivesse engravidado do meu 2.º filho, o João Pedro! Mas, com dois filhos pequeninos e, na altura, a morar em Coimbrões, achei por bem concorrer para mais perto de casa e, desde o ano letivo de 1989/90 que estou aqui, na Escola Secundária de Almeida Garrett, mais conhecida por antigo Liceu de Gaia. Portanto, fez este ano 32 anos que entrei aqui, onde nos conhecemos, não foi?

 

Sim. Lembro-me bem! Foi em 2015, através de um telefonema, a propósito do nosso projeto dos sem-abrigo em que o meu marido convidou a sua escola, através do seu projeto GARRETT Voluntário e Solidário a associar-se ao Konta Komigo!

E fizemos um grande trabalho de parcerias solidárias!!

 

Ser professora foi um sonho de criança?

Sim, desde pequenina que quis ser professora! Como sempre gostei muito de crianças, fascinava-me a ideia de lidar todos os dias com bebés… e pensei ser educadora infantil, embora mais tarde equacionasse ser antes professora do ensino básico! Mas quando fiz o meu 5.º ano (agora equivalente ao 9.º) deu-se a revolução do 25 de Abril e entrou tudo em euforia!! Eu frequentava, então, o Liceu Nacional da Guarda e como sempre fui muito boa aluna, a conselho dos meus pais, resolvi continuar os estudos e candidatei-me às universidades de Coimbra, Lisboa e Porto. Em 1977, ingressei no curso de Línguas e Literaturas Modernas, na Faculdade de Letras do Porto.

 

Quando entrou na escola para dar aulas pela primeira vez, como foi a receção?

AH!! (risos) Quando me lembro desse dia, sinto cá umas saudades!! Como referi no início da nossa conversa, fui inicialmente colocada em Celorico da Beira, com horário completo e calhou-me logo na 1.ª aula uma turma de repetentes e birrepetentes do 9.º ano! Recordo-me bem de que, mal me apresentei, um grandalhão, lá ao fundo da sala me dispara a pergunta:

‘Ó Professora, podemos saber há quantos anos dá aulas?’ E, de imediato, toda a turma começa a rir às gargalhadas!! Eu era muito magrinha, tinha então 22 aninhos…quase a idade de alguns deles, mas respondi sem hesitar:

– Há vários, porquê?

Ecoaram uns risinhos abafados… Sentei-me para escrever o sumário e, de imediato, fiz a chamada! Dei-lhes 5 minutos para escreverem um breve texto de apresentação pessoal e, de seguida, convidei-os a apresentarem-se um por um, de pé, em frente ao quadro. Silêncio absoluto! A aula passou num instante, assim como aquele ano letivo! Segundo me revelaram mais tarde, já no final do ano…  naquela primeira aula, eu tremia como varas verdes!! Ainda hoje, quando passo em Celorico, encontro geralmente um ou outro antigo aluno/a, que, radiantes, contam aos filhos que “esta senhora foi professora da mamã /do papá”…

Que saudades desse tempinho!!

 

Tem filhos?

Sim.

 

Se eles quisessem seguir esta profissão, que palavras usaria para os inspirar ou desmotivar!?

Já passei por essa fase… o conselho que dei ao meu filho, na altura de transitar para o 10.º ano (ele queria seguir Letras como a mãe), foi o seguinte: se quiseres ser professor, tens que ter muita paciência e amor pelo ensino às crianças, qualquer que seja o nível de ensino, porque se não estiveres disposto a abraçar esta profissão como uma missão de vida, vais sentir-te muito frustrado! E a realização pessoal e profissional são fatores determinantes para toda uma vida com sucesso! Sem alegria, nem amor à camisola…qualquer profissão será um fracasso! E as crianças são muito sensíveis, sentem quando o professor ama aquilo que faz ou lhes ensina!

 

Está sempre com a porta aberta, para quando precisem de si. Já aconteceu, algum aluno pedir-lhe ajuda fora do horário da escola?

Neste momento, por razões de saúde, já não estou com a carga letiva, mas com alguns dos projetos da escola! E o projeto de Voluntariado e Solidariedade tem-me aproximado de muitas famílias carenciadas!

Mas aconteceu tantas vezes, as meninas, principalmente, no fim da aula virem ter comigo com os olhos marejados, a pedir um conselho, porque sentiam que eu as compreendia melhor que os pais … outras a confidenciarem problemas para justificarem a falta dos TPC…  porque lá em casa não conseguiam estudar, ou porque o irmão mais novo chorava muito de noite, ou porque tinham de ajudar na lida da casa…

Em suma: viam na Professora de Português e Diretora de Turma mais uma confidente e boa amiga!

 

Um professor deveria dar aulas até que tempo ou idade?

Ser professor é cada vez mais desgastante! A avaliar pela minha experiência, 40 anos de trabalho seria o ideal para o términus da carreira. Portanto, no máximo aos 63 anos devíamos dar o lugar à gente nova, que sai das faculdades já com os estágios e mestrados incluídos…, mas que não têm emprego, ou efetivam muito tarde, porque nos obrigam, a nós os mais velhos, a dar aulas até aos 66 anos e 7 meses!

 

Algum momento marcante bom e mau: Pode contar?

Os bons momentos foram muitos, ao longo destas quatro décadas de serviço! Tenho muito boas recordações de todas as escolas por onde passei! Os maus marcam muitíssimo mais, como foi o caso de um aluno em Vale de Cambra que, no final do ano letivo, sofreu um acidente de viação e acabou por falecer, precisamente na semana das reuniões de avaliação! Foi um choque tremendo para toda a escola, principalmente para os professores do conselho de turma que, perante o óbito do jovem, entrámos em discordância relativamente à decisão de publicarmos as respetivas notas ou se deveria figurar na pauta final apenas a referência ” Transitou”!

 

 

Já se emocionou com alguma dedicação de um seu aluno?

Um/ uma/ dois/ três…sim, tenho muitos ex alunos e alunas (principalmente meninas) hoje já senhoras – algumas minhas colegas de profissão – com quem sempre mantive relações de amizade muito profundas! São muitos os pedidos de amizade, pelas redes sociais – Facebook, Instagram e bastantes também pelo WhatsApp! Tenho um grande grupo dos meus alunos, que são a minha família do coração!!

 

Guarda alguma recordação, poema ou objeto?

Sim, muitos postais, marcadores de livros, fotografias de grupo de muitas turmas, pois fazíamos muitos passeios e visitas de estudo! Conservo igualmente uma pequena salva de prata de uma turma de Desporto – com a gravação “Recordação 11.º Guê”. Tenho ainda guardados livros, brinquedos de bebé...e alguns até puseram aos filhos o nome dos meus …

 

Já encontrou alunos seus que agora estão formados e com família?

Sim, para além destes mais chegados, é muito frequente encontrar outros, principalmente no Porto e cá em Gaia, que são os primeiros a reconhecer-me e com muito carinho me dizem: ‘a professora está igual, não mudou nada…’. Muita cortesia da parte deles!! Há tempos, encontrei um casal com dois filhos e qual a minha surpresa quando eles disseram aos miúdos – ‘olhem, esta senhora foi professora da mamã e do papá!’  Muitos já namoravam, na turma, e casaram mais tarde! Ao longo de 40 anos passaram milhares de alunos pelas minhas mãos, corrigi muitas composições e é muito gratificante ver e saber que fui uma das pessoas que os marcou pela positiva, num período muito importante da construção das suas personalidades!

 

E filhos de seus antigos alunos, conhece alguns?

Sim, já me têm aparecido muitos… Curiosamente, ainda no final deste ano letivo, no âmbito das comemorações do Dia do Patrono, numa atividade organizada pelo SPO (Serviço de Psicologia e Orientação), que tinha o duplo objetivo de envolver os Pais/EE nas atividades da Escola e promover  uma partilha de experiências sobre os seus percursos académicos, conheci um aluno do 9.º ano, filho de uma professora de Educação Especial,  que foi minha aluna no primeiro ano em que fiquei colocada na ESAG!

Acredite que foi para mim uma surpresa maravilhosa ouvir a Andreia Fiúza testemunhar ali, na turma do filho, que a professora Helena Barros fora a pessoa que mais a ajudou a ultrapassar determinados problemas da sua adolescência! E, para meu espanto, mostrou a todos um postal ilustrado que eu lhe tinha oferecido, com uma mensagem de otimismo e incentivo a acreditar nas suas potencialidades, que foi determinante para a escolha da sua profissão… Temos também muitos outros alunos, do 7.º ao 12.º ano, cujos pais foram meus alunos na ESAG e matriculam aqui os seus filhos porque continuamos a ser uma escola de referência! Posso citar o Daniel Silva, agora no 8.º ano, mais uma vez nomeado Campeão de Xadrez, no recente Campeonato Distrital de Jovens Sub14 AX Porto 2020/2021.

Tive a honra de ter sido professora também de alguns filhos de colegas meus e, tal como os restantes, hoje distintos arquitetos, engenheiros, juristas, economistas, dentistas e contabilistas, professores, motoristas, para além de muitos outros cargos públicos e políticos…

 

 “Sou amiga, sou mãe, sou professora” nos dias de hoje estas palavras ainda são compreendidas pelos alunos?

Estou convencida de que havendo professoras a proferir este discurso, verdadeiramente interessadas e comprometidas em ajudar os seus alunos, ontem como hoje, encontraremos sempre alunos a pedir um conselho, prontos a ouvir uma opinião da professora/ do professor / ou do diretor de turma, o melhor intermediário entre o aluno e o EE e que, muitas vezes, conhece melhor o aluno do que os seus próprios progenitores!…

 

Vive-se um tempo de mudança, mudança é atitude para os jovens alunos. Como encara as atitudes dos alunos, quando vêm para a escola, com toda a tecnologia que é possível transportarem para as aulas?

O tempo é composto de mudança! Esta geração já nasceu na era das novas tecnologias e o papel da escola é adaptar-se à mudança! Em muitas escolas do país, está já em curso a transição para a digitalização da escola, que terá de ser moderada e ponderada, cabendo a cada escola e agrupamentos a decisão de bloquear ou controlar o acesso a redes sociais ou outras plataformas que, ao estarem disponíveis, interfeririam negativamente no trabalho e na concentração dos alunos. Enfim, a integração de tecnologias digitais na escola e a sua utilização no processo de ensino e da aprendizagem deverão coexistir, num futuro muito próximo, com outras metodologias igualmente eficazes para a realização de aprendizagens de qualidade. Todos sabemos que, hoje em dia, o aluno sente-se muito mais confortável ao usar um computador, um tablet ou mesmo o telemóvel, do que a folhear livros e compêndios didáticos, como era no nosso tempo de estudantes menos exigentes e reivindicativos, porventura, mais esforçados…pois não tínhamos as respostas prontas do Dr. GOOGLE

 

Quando olha para um aluno carregando a sua mochila, pensa / acredita que ele pode mudar o mundo?

 Claro que sim!! O jovem de hoje será o adulto de amanhã! Quanto mais investirmos na educação e na formação cívica dos nossos alunos, melhor será o produto social.…O futuro está nas crianças de cada infantário, o futuro está nas mãos dos nossos adolescentes e jovens! Na minha escola, todos nos preocupamos e fazemos questão de seguir o lema proposto pelo nosso Diretor, Dr. Paulo Mota: “(RE)Aprender a APRENDER” e “(RE)Aprender a SER”.

 

Nas suas aulas, se uma disciplina fosse realizar sonhos, que sonhos gostaria que eles realizassem.

Sempre fui muito otimista e acreditei nas potencialidades de cada um. Muitos dos nossos adolescentes e jovens sabem, desde pequeninos, o que querem ser e esforçam-se por realizar os seus objetivos ou sonhos. Outros há que chegam ao final do 9.º ano e, por condicionantes várias, hesitam na área que hão de seguir, duvidam das suas capacidades, têm medo do futuro… Para todos, seja qual for o curso ou via que seguirem, o meu desejo é que sigam o desejo do seu coração, se sintam realizados pessoal e profissionalmente, se sintam felizes por serem úteis à sociedade, em suma: sintam ALEGRIA de viver!

 

E o seu sonho, professora?

O meu sonho também passa pela felicidade não só dos alunos, mas de quantos continuam a lidar comigo: saber que a minha atuação e modo de ser como pessoa e professora os inspirou – e continua a inspirar – a serem pessoas boas, alegres, instruídas e satisfeitas com o modo de vida que escolheram!

 

Quer deixar uma frase ou poema, em homenagem a todos os seus colegas de profissão?

Uma frase:

“O Professor

Aprende para Ensinar,

Ensina para Viver,

Vive para Educar”.

 

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