Com 27 anos, Rodrigo Pacheco é o mais jovem Presidente de Junta de Freguesia da Ribeira Grande. Em conversa com o AUDIÊNCIA, o autarca fala sobre o seu percurso político, as dificuldades e os desafios para o futuro.

 

É o mais jovem Presidente de Junta de Freguesia concelho da Ribeira Grande. Como é ser presidente aos 27 anos?

Em primeiro lugar, é um orgulho e, em segundo, uma grande responsabilidade. Ser um Presidente mais novo dá-me, de certa forma, alguma motivação para demonstrar que a juventude vale alguma coisa e que pode trabalhar em prol do desenvolvimento e bem comum de “qualquer” terra.

 

Há 27 anos a viver em Fenais da Ajuda, como compara a freguesia da sua infância com a de hoje?
A nível de infraestruturas, posso dizer que não houve grandes modificações. Isto porque, segundo o que se diz e pensa-se, deveu-se às diferentes cores politicas no poder, as cores partidárias não eram as mesmas. Posso afirmar que Fenais da Ajuda assistiu a algum desenvolvimento nos últimos quatro anos, isto porque quer a Câmara quer a Junta de Freguesia, eram do mesmo partido político. A nível de forças vivas, ao longo de vinte e sete anos, assisti a um decréscimo de movimentos religiosos, grupos de jovens menos unidos como há uns anos, há menos interesse em trabalhar nestas forças vivas.

 

Estamos a falar de uma freguesia com quantos habitantes?

1 138 segundo os censos de 2011 e 958 eleitores.

Ter um Presidente de Junta jovem, juntamente com um Presidente da Câmara jovem, é promessa que Fenais da Ajuda vai ter águas menos mortas e mais vivas, por exemplo, a nível do turismo, cultura, e juventude?

Em relação à cultura e juventude, a Câmara não nos tem deixado mal. Tem cooperado e apoiado tudo quanto é solicitado. Neste mandato, temos algumas reivindicações a pedir para o Turismo, mas será feito, também, à Direção Regional do Turismo. Temos um projeto ambicioso, o qual terá de ser apoiado, maioritariamente com apoio da Direção regional.

 

Em termos sociais, como define a sua freguesia…

Fenais da Ajuda, ao contrário do estereótipo que tem sido publicitado pela comunicação social, tem problemas sociais como todas as outras mas não em demasia, como é muitas vezes divulgado. Temos muita pobreza. Temos alguns problemas sociais esporádicos e muito desemprego. Mas, também há o reverso da medalha. Há gente boa e trabalhadora que todos os dias luta para manter a sua qualidade de vida.

 

Explique-me porque existe desemprego, em Fenais da Ajuda, quando não se encontra ninguém disponível para trabalhar.

Um dos principais motivos é, a meu ver, a falta de escolaridade e a falta de transportes compatíveis com os mais diversos horários de trabalho, impedindo que muita gente se desloque para outros pontos da ilha para trabalhar.

 

Portanto, é uma das grandes carências que a freguesia tem… Como é que podia, eventualmente, ser superada essa situação?

Ainda não começamos a trabalhar neste sentido.

 

Há pessoas que se sentem mal na sua freguesia por não haver um grande movimento ou ligação com o centro. As pessoas sentem-se mal em Fenais da Ajuda?

Eu, pessoalmente, gosto de lá estar. Não tenho dúvidas que todos os habitantes e emigrantes, gostam da nossa terra. Pode haver, digo eu, alguma frustração por não se conseguir trabalho na nossa área de residência. No entanto, creio que as pessoas não se sentem mal.

 

O desemprego deve-se pela falta de mobilidade e de analfabetismo…Quer dizer que afeta as pessoas com mais idade?

Este problema afeta as várias faixas etárias, incluindo os mais jovens, o que é mais preocupante. Há muitos jovens que não procuram trabalho e que estão na esperança de serem acolhidos nos programas ocupacionais. E, neste sentido, não conseguimos dar resposta a este problema. O governo regional podia conceder algum apoio aos empresários e à indústria que se pretenda instalar aqui nesta zona, de forma a colmatar este problema existente na costa norte. Sei que é difícil, do ponto de vista dos investidores, todos eles preferem a preferira dos grandes centros urbanos, por uma questão de comodidade e outras….

 

E o governo regional tem terrenos disponíveis?

Não tem, mas pode adquirir e ajudar as empresas que queiram a investir fora dos grandes centros urbanos.

 

 

Falando em turismo, o que é que um turista pode fazer, quando chega a Fenais da Ajuda?

Primeiro temos dois trilhos magníficos. Em segundo, temos uma brilhante vista para a costa nascente e poente. Temos as típicas tascas. E temos uma freguesia lindíssima.

 

É uma freguesia que dentro de si e por si, em princípio, não está a ver conseguir criar mais economia local…

Infelizmente, não. Para além do que já há, não.

No campo social, o problema da pobreza e os problemas mais dramáticos em termos sociais, como estão a ser resolvidos?

Em relação à ação social na freguesia, o que nós temos feito é o encaminhamento das pessoas para as devidas entidades.

 

E as instituições da sua freguesia?

Nós temos o Centro do Cais do remar, que tem desenvolvido muitas atividades na freguesia, e temos apoiado dentro do possível. Também temos a Comissão Fabriqueira, que nos costuma solicitar algum apoio e temos a nossa Casa do Povo. Não temos apoiado esta última porque não nos tem solicitado apoio. Quando surgir oportunidade, a Junta de freguesia está sempre pronta a ajudar.

Mas essas instituições que não pedem apoio, no caso da Casa do Povo, desenvolvem algum papel importante na comunidade?

A Casa do Povo tem servido a freguesia com o CATL, centro de convívio para idosos e transporte escolar. No campo da Acção social, fica aquém das expectativas…

 

E o papel da Câmara Municipal na freguesia no âmbito social, como tem sido?

Tem-se feito sentir através do Fundo de Emergência Social, principalmente, na cedência de bens materiais e realização de obras pequenas nas casas necessárias.

Existe alguma parceria com Câmara Municipal e a Junta de Freguesia no sentido de criar alguns postos de interesse na freguesia?

Parcerias, neste sentido, até agora não. Nós, Junta de Freguesia, estamos, atualmente, a fazer um diagnóstico à freguesia para ter números em concreto e, posteriormente, então pensar numa solução e apresentar um plano que nos possa ajudar.

 

O município da Ribeira Grande tem apostado fortemente em resolver o problema e até é um dos municípios na liderança de apoio aos animais. Isto quer dizer que as pessoas já estão confortáveis?

Nem todas. A Câmara tem apostado através da cedência de bens materiais. Mas não está a decorrer nenhum plano de cooperação nem reabilitação, de momento.

Normalmente, no campo social quem sofre mais são as pessoas mais idosas e até as crianças e mais jovens. Como é em Fenais da Ajuda?

Normal como a generalidade das freguesias do concelho.

A nível de coletividades e instituições, o que há na freguesia?

Temos o Cais do Remar; Grupo de jovens ligado à paróquia e temos os escuteiros. Vamos apoiar a abertura de uma associação ligada ao desporto, uma maneira de cativar os jovens e de os motivar para a prática desportiva. A modalidade principal será o futsal para iniciar. Temos o pavilhão, mas ainda nos faltam as condições para receber uma associação,como por exemplo, os balneários. Já falamos com a Câmara e esperamos que num curto espaço de tempo teremos os balneários.

Uma das matreirices que alguns executivos usam para conseguir mais obras na freguesia é concorrer ao orçamento participativo como cidadãos. Ou seja, já que a Junta tem um orçamento baixíssimo metem-se como cidadãos comuns e apresentam candidatura ao orçamento participativo. Isso também acontece em Fenais da Ajuda?

Sim. Nós temos uma obra fruto deste orçamento participativo, que é um parque de merendas, sito no caminho da ponte.

Mas como Presidente de Junta não se sente um bocadinho desmotivado porque, para conseguir uma obra na freguesia, tem que concorrer ao orçamento participativo?

Evidentemente que sim, não faz muito sentido para nós, junta de freguesia, termos de apresentar um projeto como qualquer cidadão comum.

Está na juventude a força para mudar…

Está nas mãos da juventude como está nas mãos de quem está no poder.

 

Qual o orçamento o aprovado para Fenais da Ajuda?

Nós temos um orçamento para o ano económico de 2018 a rondar os 74.901€.

E quais são os projetos para o mandato?

Temos vários projetos para executar. Nos próximos 2 anos, penso que já estará tudo concluído, nomeadamente, a zona de lazer da Ribeira Funda, que terá início previsto para meados do mês de maio. Temos a zona envolvente ao pavilhão polidesportivo que é uma zona ampla que vamos aproveitar também para requalificar e o espaço da antiga fábrica da Chicória que tem uma vista privilegiada para a freguesia. Só depois destas obras, é que iremos apostar fortemente na promoção da freguesia, uma vez que ficaremos com um cartaz mais enriquecido para a sua promoção.

 

A cultura é um aspeto importante na vida de uma comunidade.Que atividades culturais tem a freguesia ao longo do ano?

Temos as festas do Espírito Santo (Santíssima Trindade, São João, São Pedro e Império da Ribeira Funda), a festa da Nossa Senhora da Ajuda a 15 de agosto, a festa em honra da Senhora da Aflição no primeiro fim-de-semana de Setembro. Temos, também, a semana cultural em inícios de Agosto e a festa da vindima em meados de Setembro.

 

Essas festas são um cartaz turístico para a freguesia, isso não ajuda a desenvolver a economia local?

De certa forma ajuda, até porque, sobretudo, a festa do dia 15 de Agosto, traz muitos emigrantes que aproveitam as festas para estar na sua terra. É óbvio que estes acabam por contribuir um pouco no que diz respeito à economia local. Não obstante, estamos a falar de um mês que acaba por ficar diluído no meio dos outros 11, por isso não há tanto impacto. Além disso, talvez haja falta de publicidade. A Junta de Freguesia tem ajudado na divulgação das festas, mas todos mordomos é que tem que fazer pela sua festa.

 

Não está a pensar em pedir apoio a nível promocional dos eventos que se realizam na freguesia?

Sim, vou pedir para as festas mais atrativas e o apoio para a promoção da freguesia.

 

 

 

O Governo Regional já o sondou para o que precisa?

Ainda não. Eu tenho que andar como um pedinte em relação ao Governo Regional para que a freguesia seja ajudada. Desde que fui eleito, ainda não recebi nenhum diretor regional e, portanto, acho que não estão muito preocupados com o que se passa na freguesia, como aliás, não parece muito preocupados com o estado da Região que vai de mal a pior em todas as áreas, sobretudo no que diz respeito à questão do desemprego, uma questão deveras preocupante e que o nosso governo regional está a resolver com programas ocupacionais, à “laia de remendos”…

Mas o concelho da Ribeira Grande tem pelo menos dois diretores regionais no Governo e tem 2 deputados na Assembleia Regional. Não faz menção de lhes bater à porta e pedir ajuda.

Já fui contactado pelo Deputado Jaime Vieira e, em momento oportuno, bater-lhe-ei, com certeza, à “porta”. Tive a oportunidade de falar com o Diretor Regional do Desenvolvimento Rural, após uma reunião de Câmara que ocorreu nos Fenais da Ajuda, numa conversa de café, muito breve, o qual facultou-me todos os seus contactos.

 

Quando foi eleito,a freguesia que encontrou era aquilo que pensava que ia encontrar ou ficou surpreendido com algumas situações?

Não. Não me tenho surpreendido. Já sabia o que ia encontrar.

 

Tudo o que tinha no seu programa eleitoral pelo menos 90% era tiro e queda, ou seja, estava realizado. O que tem para dizer aos seus conterrâneos?

Vai acontecer muita requalificação necessária.Tenciono deixar a freguesia em condições dignas no final dos 4 anos.

 

Toda a gente já percebeu que com um orçamento de 74 mil euros, não prega um prego em Fenais da Ajuda, mas tem a liderança e a capacidade para exigir, pedir ou pressionar que outros o façam. É isso que vai fazer?

É esse o meu papel e é isso que vou fazer.

 

Até agora, qual é o feedback?

Vai ser uma luta dura e vai ser preciso muito trabalho e muito tempo dedicado a estes assuntos.

 

Candidatou-se à Junta de Freguesia com 26 anos.O que levou a aceitar o desafio?

Foi o sentir que a minha freguesia precisava de mim e precisava de uma visão diferente e eu, então, aceitei o cargo e o desafio.

 

Mas isso não significa que tivesse um mau Presidente de Junta….

O anterior foi um grande Presidente, só que não podia candidatar-se mais, pelo facto de ter exercido os três mandatos a que a lei nos confere. Mas é uma pessoa na qual tenho total confiança e do qual tenho o apoio.

 

O seu trajeto político não começou as eleições autárquicas…

Tornei-me militante do PSD aos 18 anos porque me identificava com a matriz do partido. Em 2013, fui eleito em assembleia de freguesia para o cargo de tesoureiro, o qual exerci até setembro de 2014, tendo pedido a suspensão e posterior demissão, por ter ido viver para o continente por razões académicas.

 

E já tem sido convidado para participar em algumas estruturas do partido…

Recebi um convite para integrar a JSD da Ribeira Grande em 2014 e em 2017 fui convidado para integrar a Assembleia da JSD/RG. No entanto, não tenho qualquer ambição política. A minha ambição é o desenvolvimento da minha freguesia.

Aproximam-se as eleições para a liderança do PSD, a nível regional. Fala-se em possíveis candidatos como Eduardo Freitas e Alexandre Gaudêncio…

Gosto de ambos os líderes e terá que ser uma decisão muito bem ponderada. Só acredito nas candidaturas ou recandidaturas quando as vir. Até lá pode-se falar em muitos nomes que não me diz nada. Não obstante, devo dizer que qualquer desses dois líderes, recebem-me sempre muito bem e preocupam-se com Fenais da Ajuda.

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