Numa altura crítica para todo o país, e para o mundo, a autarquia de Gaia esteve, literalmente, na linha da frente ao combate ao Covid-19, ao assumir funções que o governo central não tomou. Numa entrevista ao AUDIÊNCIA, Eduardo Vítor Rodrigues, presente da Câmara Municipal de Vila Nova de Gaia, acredita que o facto de Gaia ser um dos concelhos do país mais afetados, em termos de infetados, está diretamente ligado ao facto de terem sido feitos testes em todos os lares por parte da autarquia. “Não me inquieta tanto o número de positivos que encontramos, mas se os encontramos a tempo de serem tratados e salvos”, acrescenta.

 

 

 Como está Vila Nova de Gaia a lidar com toda a situação desta pandemia que veio afetar Portugal e o mundo?

Gaia é um pequeno país! Temos a obrigação de criar as melhores condições no combate a esta pandemia, num quadro em que as medidas nacionais que têm sido muito positivas, mas em que sentimos que podemos ajudar com políticas municipais mais adequadas ao contexto local. As pessoas e as instituições perceberam o papel dos municípios e a importância que tem o poder local, sobretudo quando falharam os elos com o poder central, por claro centralismo das instituições. Antecipamos muitas medidas, assumimos muitas responsabilidades, muitas delas bem além das competências legais, mas fundamentais para manter a capacidade de resposta. A questão que se coloca tem que ver com a escala. Por exemplo, quando decidimos atribuir as máscaras para o arranque das atividades comerciais e escolares, falamos de 320 mil máscaras, por isso mais de 700 mil euros e um tempo de produção longo, porque o mercado está escasso e a concorrência é enorme. Ou quando decidimos apoiar as escolas com computadores; temos uma população escolar de 31.000 alunos, é uma escala incomportável para que o município substitua integralmente o Estado. As dificuldades são grandes, mas o meu entusiasmo e o amor à causa autárquica ultrapassa todos os problemas.

 

 

Vila Nova de Gaia é um dos concelhos mais afetados. Porque acha que isso acontece?

A verdade é que temos o segundo valor absoluto, porque somos um dos maiores concelhos do país. Mas, em termos relativos, estamos abaixo da média da AMP e com valores por mil habitantes inferiores a muitos concelhos do país. E isto acontece quando se sabe que lançamos uma campanha ambiciosa de testes nos lares. Ora, quanto mais se testa, maior é a probabilidade de encontrarmos casos positivos. Não me inquieta tanto o número de positivos que encontramos, mas se os encontramos a tempo de serem tratados e salvos. Isso sim.

 

 

Que medidas tomou a autarquia, desde início, para travar a propagação do vírus no concelho?

A nossa principal medida foi trabalhar em rede. Coisa que, aliás, era prática no trabalho municipal. Ninguém imagina que esta situação se resolva com o protagonismo ou o individualismo institucional. Trabalhamos em rede com o Hospital, com a ARS, com as IPSS, com as escolas. E foi nessa conciliação entre o conhecimento científico e as medidas políticas que conseguimos antecipar muitos problemas e enfrentá-los com maior sucesso. Assumimos apoios diretos às IPSS, às famílias, mesmo à atividade económica. Participamos no esforço nacional de apoio ao arranque do terceiro período letivo, assumimos apoio ao Hospital e o pagamento de testes, mas também o reforço do programa municipal de apoio ao arrendamento ou de apoio a idosos isolados. Assumimos responsabilidades, reafetamos rubricas orçamentais, adaptamos o funcionamento, não saímos da rua e da beira das pessoas. Mesmo quando era para as retirar das praias! E vi cidadãos extraordinários; gente empenhada, motivada, voluntários de todas as idades, empresas a doar bens por iniciativa própria, um sentido de comunidade nunca visto.

 

 

Que medidas continuarão a ser “obrigatórias” ou necessárias em Gaia mesmo após a retirada do estado de emergência nacional?

A principal componente do tempo posterior ao Estado de Emergência é, seguramente, a responsabilidade individual. O comportamento preventivo e o respeito pelas regras de comportamento social serão decisivos para não retrocedermos nas conquistas feitas. Em Gaia e em qualquer local do país. Claro que teremos toda a nossa estrutura nas ruas, polícia, bombeiros, ações de sensibilização, mas nunca conseguiremos ter polícia em todas as esquinas. E eu conto muito com o sentido de cidadania e de responsabilidade das pessoas e confio que todos remaremos no mesmo sentido. E nisso Gaia vai ser, de novo, um exemplo. Estaremos constantemente no terreno para tudo o que for necessário. Faço-o por responsabilidade e porque adoro o que faço e quero corresponder à confiança que as pessoas têm em mim e no meu Executivo.

 

 

Além da situação no lar em Oliveira do Douro, houve outro ou outros casos idênticos em algum lar ou instituição do concelho?

A situação de contaminação generalizada num lar apenas aconteceu num dos lares de Oliveira do Douro, o lar do Centro Social Paroquial de Oliveira do Douro. Tivemos todos os testes negativos na Quinta dos Avós, também em Oliveira do Douro. E todas as IPSS têm tido testes negativos, com exceções parciais no Lar de Santa Isabel e em 2 lares privados. Isto em 59 lares no concelho. Competirá a cada instituição fazer a avaliação interna do que aconteceu, aprender com as boas práticas e melhorar para o futuro. Generalizadamente, só posso dizer que tenho muito orgulho nas direções, nas direções técnicas e nos profissionais que evitaram uma situação complexa nos lares de Gaia. O município estava e estará sempre disponível, mas não tutela as IPSS, nem interfere nas suas decisões ou planos internos.

 

 

A autarquia decidiu cancelar os eventos, mas o Marés Vivas continua sem qualquer tipo de informação. Vai realizar-se ou estão à espera de ver a progressão da situação para tomar uma decisão?

O que cancelamos foram os eventos municipais. O festival Marés Vivas terá comunicação própria, por ser um evento privado com apoio municipal, mas não um evento camarário. Mas acho que se percebe que a coerência levará a ter critérios iguais para o São João e para o Marés Vivas…

 

 

Que impacto terá, a nível financeiro, para a autarquia, esta pandemia?

Neste momento, não é possível concretizar com todo o rigor. O processo ainda está no início, temos muito caminho pela frente, muita incerteza ainda. Mas a questão fundamental não é o impacto. É saber se conseguimos aguentar o impacto… E vamos conseguir. Vamos conseguir aguentar este impacto financeiro e logístico, porque temos uma gestão equilibrada e temos uma Câmara com boas contas e com capacidade de resposta. Os nossos Bombeiros, Sapadores e Voluntários, a nossa Polícia Municipal, os nossos funcionários em geral foram extraordinários e têm mostrado estarem à altura dos enormes desafios com que temos sido confrontados. Acho que esta pandemia ajudou a perceber que faz diferença ter um município com boas contas, ao invés de um município desequilibrado. Pudemos dizer “sim” a muita coisa, porque temos a estrutura económico-financeira equilibrada. “Sim” às escolas, às IPSS, às famílias. Devo mesmo dizer que, independentemente da incerteza, estou confiante que nenhum a dos nossos investimentos estratégicos vai ser posto em causa, apenas será feita uma reorganização temporal e de modelo de gestão.

 

 

Como vê, de forma nacional, a atitude dos governantes? Considera que se atuou a tempo em Portugal?

Dou nota muito elevada ao comportamento das instituições em geral. O Primeiro-Ministro e o Presidente da República têm estado em grande nível, o governo e o Parlamento também, as autarquias têm sido parceiros fantásticos e nunca como hoje foi evidente a importância do nosso Sistema Nacional de Saúde ou da nossa estrutura pública de educação. Foi evidente o papel das lideranças locais, o papel dos políticos, tantas vezes pouco valorizados, mas que se demonstraram fundamentais no apoio às populações e às organizações. O nível de confiança nas pessoas e nas instituições aumentou a as pessoas sentem-se hoje mais próximas umas das outras e mais próximas das instituições. E, com a mesma frontalidade com que critico quando tenho que criticar, devo elogiar o papel construtivo de toda a oposição, consciente do seu papel neste contexto e assumindo uma postura construtiva e responsável.

 

 

Relativamente à situação no Norte, que tem, desde início, a maior taxa de infetados, como vê a atuação de todos os autarcas?

Os autarcas têm sido um dos pilares fundamentais da coesão nacional, numa articulação entre as políticas nacionais e as políticas municipais. No Norte ainda mais, até porque o problema foi bem mais intenso. Temos hoje uma noção forte do papel do Estado e do papel das autarquias, mesmo quando faltam estruturas intermédias, regionais ou distritais.

 

 

O Porto entrou “em guerra” com Lisboa por causa de algumas decisões tomadas pelo governo e por alguma falta de entendimento. Considera que esta situação veio demonstrar ou acentuar algumas diferenças ou, quem sabe, retomar certos desejos de regionalização?

Esta pandemia tem sido muito exigente para todos e há momentos de maior intensidade do debate. Acho que tem ficado demonstrado o centralismo do país, que só é atenuado pelo papel maior das autarquias. O resto deverá ser aprofundado no tempo próprio.

 

 

O autarca de Espinho acusou recentemente o governo de “lei da rolha” relativamente aos dados de infetados nos concelhos. Concorda com essa afirmação? Considera que os dados de Gaia estão corretos ou que também há desfasamento?

Os dados são os resultados dos diagnósticos e dos rastreios. Em Gaia fizemos o nosso trabalho, sem estarmos obcecados com os dados. Estou, sim, obcecado pela saúde das pessoas e pelo diagnóstico precoce, para ter também intervenção precoce e, desta forma, salvar vidas. O resto são debates desinteressantes.

 

 

De que forma esta pandemia veio “atrapalhar” os seus planos para este ano e, quem sabe, para os próximos, enquanto presidente da Câmara de Gaia?

Atrapalhou a vida das pessoas, das empresas, das instituições. Claro que foi um dado novo e imprevisto, que trouxe novos desafios. Tivemos capacidade de adaptação rápida. E teremos capacidade de manter as principais prioridades e continuar o trabalho de reforço de Gaia como Cidade inteligente e sustentável. Gaia é hoje olhada como modelo de desenvolvimento cá dentro e lá fora. Somos uma cidade de grande escala, que se articula com a região e que testa um modelo moderno e sustentável de desenvolvimento. E esta pandemia foi e continuará a ser um grande teste.

 

 

Que mensagem gostaria de deixar aos gaienses neste momento?

 A principal mensagem é de esperança. Se é verdade que não nos podemos abraçar por prevenção, também é verdade que nunca senti que estivéssemos tão próximos e tão unidos como atualmente. Vamos sair disto com mais força, valorizando mais as nossas identidades locais, os nossos recursos endógenos. Vamos sair disto mais unidos, mais confiantes uns nos outros e mais confiantes no futuro.

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