Distando 4.000 km de Nova Iorque e 1.500 km de Lisboa, a ilha Terceira foi o ponto de reabastecimento perfeito para a aviação aliada que atravessava o Atlântico, durante a segunda guerra mundial, sendo a base aérea das Lajes, oficialmente inaugurada em 1943 e usada pelas forças britânicas e americanas, um ponto crucial.

Após a formação da NATO, as Lajes tornaram-se uma posição chave e um centro de comando dos EUA para as suas unidades aéreas e navais, desempenhando um papel importante em vários conflitos, incluindo a guerra de Yom Kippur entre Israel e os Estados Árabes e a Guerra do Golfo.

O fim da guerra fria e o desenvolvimento da técnica de reabastecimento de aeronaves no ar, tornaram as Lajes dispensáveis e, em Janeiro de 2015, o Pentágono anunciou que o pessoal estrangeiro na base seria reduzido para 165 elementos, muito abaixo dos 3.000 militares e apoiantes existentes em décadas anteriores.

Esta mudança terá reduzido o PIB da Ilha Terceira em 6%, levando à emigração de 10 mil pessoas da referida ilha e a própria base apresenta hoje um estado de abandono crescente, com pistas desertas e zonas residenciais vedadas e vazias.

Depois de ter sido utilizada durante 75 anos e posteriormente abandonada, os habitantes locais pretendem agora que os EUA limpem a zona da poluição tóxica que cientistas afirmam ser cancerígena, pretensão com a qual Washington não concorda, recusando-se a limpar os resíduos tóxicos.

Na sequência do anúncio de 2015, os Açores delinearam um plano de revitalização para a Terceira, pelo qual os EUA pagariam 167 milhões de euros, anualmente e durante 15 anos, para facilitar a transição da sua partida e, desse montante, 100 milhões de euros seriam gastos anualmente para combater o legado ambiental, o que até agora não se concretizou.

Quando questionados pela agência noticiosa RT sobre a situação na Ilha Terceira, funcionários dos EUA recusaram-se a comentar directamente e remeteram para os resultados de uma reunião da Comissão Bilateral Permanente-SBC, a qual informou que «A SBC foi informada sobre a situação actual das questões ambientais na ilha Terceira, no que diz respeito às actividades dos EUA na base das Lajes, incluindo o que diz respeito a dois locais prioritários, Portão Principal e área Tanque do Sul. Os Estados Unidos e Portugal pretendem acompanhar as questões e incentivar os técnicos especialistas a chegarem a uma conclusão sobre a melhor forma de proceder.

Em vez de compensação, os funcionários norte-americanos propõem agora aumentar os voos civis dos EUA e discutiram formas de incrementar o turismo através do Atlântico e criar condições de mercado para atrair hotéis dos EUA para entrarem no mercado dos Açores».

Madaíl Ávila, uma residente da ilha Terceira, afirma: «Ambos os meus pais morreram de cancro. Minha mãe de cancro de mama e o meu pai com um tipo diferente de cancro. Quando eu tinha 33 anos fui diagnosticada com cancro de mama. É uma coincidência muito grande que haja tantos casos de cancro no seio da mesma família, bem como todos estes casos estarem geograficamente localizados na mesma área».

«O que temos é um conjunto de locais com níveis extremamente elevados de poluição provocada por metais pesados, hidrocarbonetos e PCB», diz Félix Rodrigues, professor de física da Universidade dos Açores. «Em determinadas concentrações podem causar esterilidade, cancro, arritmia. Estes materiais entram na cadeia alimentar e acumulam-se nos corpos. Estamos diante de venenos que estão a ser escondidos debaixo do tapete».

Norberto Messias, professor de saúde da Universidade dos Açores, diz que os moradores do município adjacente à base sofrem incidências várias vezes maiores, de certos tipos de cancros, como por exemplo tumores dos olhos, do que a restante população dos Açores.

Orlando Lima, um trabalhador português de apoio à base, afirmou que «o pessoal dos EUA também estava preocupado com o impacto da base na sua saúde» e testemunhou uma Comissão a chegar às Lajes para investigar uma queixa de saúde feita por um dos seus ex-agentes, que disse ter contraído cancro terminal.

Os terceirenses, sem solução à vista, começaram a sua própria campanha pública para encorajar o governo português a colocar mais pressão sobre seus aliados da NATO ou assumir os custos.

«O problema existe, não há dúvida que isso foi causado pela força aérea americana e os responsáveis são quem tem de pagar por isso», diz Marcos Fagundes, membro activo da campanha.

«Isto é um inferno. É quase uma política de terra queimada, onde os problemas se acumulam, o governo local não reage e a população não tem capacidade para assumir uma posição», afirma Félix Rodrigues.

Entretanto para Madaíl Ávila, qualquer decisão é de sobrevivência, para si e sua família.
«Posso garantir aos meus filhos uma vida boa aqui? Quero criar os meus filhos num lugar onde tenha a garantia de que serei capaz de lhes dar uma boa qualidade de vida. E esta é uma dúvida que eu tenho: Estarei a fazer a coisa certa para a geração futura?”

E perguntarão ainda os mais avisados: os possíveis turistas também estarão a salvo?

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