A investigação levada a cabo pelo Jornal AUDIÊNCIA assumiu novos contornos, desta vez, com o testemunho de Eduardo Matos, ex presidente da Junta de Freguesia de São Pedro da Afurada. Em entrevista exclusiva, o ex autarca confessa que a sua intervenção está relacionada com três questões, nomeadamente, ajuste de contas, comparação e, a que considera como sendo principal, o direito à indignação. Eduardo Matos acusa Paulo Lopes, presidente da União de Freguesias de Santa Marinha e São Pedro da Afurada, de ser um mau líder e um péssimo gestor, enaltecendo que “as pessoas não têm conhecimento do que está a acontecer”.

No seguimento dos dados recolhidos, o AUDIÊNCIA contactou Paulo Lopes, mas este não quis prestar declarações. Não perca os próximos capítulos que serão publicados nas próximas edições deste órgão de comunicação.

 

 

No seguimento da investigação jornalística em curso, pode descrever-nos como foi a sua passagem de testemunho ao atual presidente da União de Freguesias de Santa Marinha e São Pedro da Afurada, Paulo Lopes, bem como, os anos que passou na Assembleia de Freguesia, enquanto opositor do mesmo?

Em primeiro lugar, eu gostava de fazer uma declaração de interesses. Aquilo que eu vou dizer não tem a ver com nenhuma intervenção, neste momento, e provavelmente assim continuará, a não ser que aconteça alguma alteração de fundo, com alguma ligação ou possível regresso à política ativa local, nas próximas eleições autárquicas. Portanto, eu, neste momento, estou completamente fora, desligado e, como tal, não tenho sequer qualquer tipo de militância partidária e estou desprendido totalmente. Logo, esta era a primeira declaração de interesses, para que não haja, aqui, aproveitamentos daquilo que eu vou dizer. Esta minha intervenção neste vosso trabalho tem a ver, essencialmente, com duas coisas, nomeadamente, ao que podemos chamar de ajuste de contas. Um ajuste de contas, sob o ponto de vista político, como é óbvio, e também sob o ponto de vista da gestão. E porquê? Porque eu também já estou fora, nomeadamente, da vertente executiva autárquica, há oito anos, o que considero um período já relativamente interessante. Isto é, o que não se sabia já se soube, porventura se houvesse alguma coisa que pudesse, de facto, estar, ou ter feito, menos bem, já se teria sabido. Portanto, eu mantive sempre a minha consciência tranquila daquilo que fiz e considero que oito anos é um período suficiente para fazer este tal ajuste e até alguma comparação a nível político, a nível de gestão e a nível do executivo. Sim, porque ao nível da Assembleia de Freguesia, eu, no primeiro mandato, já na oposição, ao contrário daquilo que era o meu interesse na altura e a minha vontade, acabei por ficar e acabei por cumprir o mandato na íntegra a fazer a oposição a este presidente [Paulo Lopes], se é assim que o podemos chamar, porque, de facto, foi eleito. Fiz uma oposição, de 2013 a 2017, muito férrea, onde travei um combate muito duro, me desgastei imenso, mas tinha de o fazer, por imperativo de consciência. Mas cedo percebi para o que vinha, no que diz respeito à questão da gestão da Afurada, em que eu tinha o dever de assumir aquilo que de bom fiz e aquilo que de menos bom fiz, mas sempre de consciência tranquila. Eu travei esse combate durante quatro anos, muito duro. Foram quatro anos, para além desta questão da Afurada ou das dívidas da Afurada, marcados, claramente, por muitas outras situações. Depois, dar outra nota importante. Quando recebi o doutor Paulo Lopes, ainda doutor Paulo Lopes, recebi-o num gesto de cortesia. Eu, então, presidente da Junta da Afurada, na chamada passagem de testemunho. Portanto, recebi-o na Junta de Freguesia da Afurada um dia antes da sua tomada de posse e, nesse dia, eu já conhecia o doutor Paulo Lopes há alguns anos da política, embora não tivesse grande relacionamento com ele. Na altura, no Gabinete do presidente da Junta de Freguesia da Afurada, tive a oportunidade de lhe dizer e, inclusivamente, tinha pessoas administrativas comigo presentes, não estava nenhum colega do executivo comigo, porque a Afurada, infelizmente, não tinha dinheiro sequer para fazer a sua atividade corrente, tinha grandes dificuldades, fora todos os problemas que tinha e mais alguns, fará ter dinheiro para pagar a meios tempos. Era eu o único que tinha meio tempo e ganhava metade do que o que ganha um destes meios tempos, destes quatro meios tempos, da atual União de Freguesias, agora já são três. O presidente da então Junta de Freguesia da Afurada ganhava metade, com o seu meio tempo, do que o que ganha um vogal destes três meios tempos.

 

Ou seja, seriam cerca de 7000 euros anuais?

Eram quinhentos e poucos euros por mês, vezes 14, é fácil fazer as contas, mais a segurança social e isso, por aí. E ainda mais uma agravante, todo esse valor do meio tempo do presidente da Junta da Afurada teria de sair, devido à lei da altura, do orçamento da Junta, coisa que hoje, nomeadamente o tempo inteiro do presidente da Junta, mais os meios tempos, decorrem do Governo Central. Eu disse isto ao doutor Paulo Lopes, na altura, e ele nunca mais se vai esquecer, tanto que o lembrei disso em Assembleias, do mandato em que estive na oposição. Mostrei tudo, mas tudo mesmo. Na altura a Câmara exigiu às Juntas uma auditoria e é certo que as Juntas é que a pagaram, mas foi por iniciativa da Câmara e bem, são decisões políticas que temos de respeitar. Tudo o que eu referi e mostrei, na dita conversa, veio a confirmar-se na auditoria. Não deixei nada debaixo do tapete, fosse bom ou mau. Disse o que tinha ao momento e, para além disso, no final dessa reunião eu disse: «olha Paulo, isto caiu-te na sopa. Estavas a comer uma sopa (isto em 2013) e de repente cai-te tipo um sapo na sopa e assustaste-te. Ganhei a União de Freguesias de Santa Marinha e São Pedro da Afurada». Sim, porque, em bom rigor, nessa eleição de 2013, houve uma ligeira vantagem, de trezentos e poucos votos, para o então Joaquim Leite, que protagonizou essa candidatura. O senhor Joaquim Leite perdeu essa eleição, por trezentos e tal votos. Ele saberá porquê, eu também sei, mas isso já faz parte do passado e, em bom rigor, não se esperavam resultados que vieram a acontecer nesse ciclo eleitoral e este foi um deles. Por isso, disse-lhe [Paulo Lopes] desta forma: «isto caiu-te na sopa. Tu assustaste-te é normal. O sapo caiu-te na sopa e, de repente, puseste as mãos à cabeça e porquê? Porque, verdadeiramente, no que diz respeito à Afurada, (porque não sabia em relação a Santa Marinha), aos problemas que vais herdar da Afurada, tens aqui uma nau tremenda. Tens aqui, de facto, um trabalho muito ingrato». Havia muito trabalho que era preciso resolver. Alguns processos ainda estavam em Tribunal e decorriam de resultados de sentenças, outros já não, já estavam concluídos. Depois houve negociações sob o ponto de vista de gestão, que eu não direi danosa, porque, obviamente, não tenho provas que me permitam dizer isso, mas direi desastrosa e até direi mais, desastrosa e má demais para os contribuintes. Mas quem tinha de resolver era ele [Paulo Lopes] e eu disse-lhe isso: «tens aqui um trabalho árduo, tremendo. Mas foi com isto, Paulo, que durante seis ou sete anos tivemos de viver, aqui, na Afurada, com grandes dificuldades. Mas, conseguimos chegar até aqui». E depois disse-lhe o seguinte: «por isso, a partir de agora, a partir de amanhã, das duas uma, ou tu és um grande líder, e como tal tens uma liderança forte, algo que já nasce com cada um de nós, que não se aprende, que se é, ou não se é, ou então, tens uma grande equipa que, efetivamente, te vai poder ajudar, a nível de executivo, nesta tua árdua tarefa».

 

Sendo que considerava a liderança um ponto fulcral para assumir os destinos da União de Freguesias de Santa Marinha e São Pedro da Afurada, acredita que Paulo Lopes tem desempenhado bem esse papel?

Cedo percebi que este homem, esta personagem, este presidente atual, ainda desta União de Freguesias, doutor Paulo Lopes, não é líder. Cedo percebi que nunca soube o que é liderar e que é algo que não nasceu com ele. Também me sinto indignado pelo resultado da gestão destes oito anos. Podemos comparar, porque, se nos primeiros quatro anos vivemos com o fantasma das dívidas da Afurada, nos segundos quatro anos, esse assunto já foi muito menos falado, por uma simples razão, o peso da dívida da Afurada, neste segundo mandato, foi completamente diferente do peso que teve no primeiro. Ele [Paulo Lopes] começou sem maioria absoluta e com uma coligação com a CDU, que, salvo erro, durou um ano. As pessoas esquecem-se muito rapidamente das coisas, é o mal que a política tem. Por isso é que eu digo que, um dia, há de se fazer história disso tudo. A história sim, não se apaga. A política apaga muita coisa e esquece-se muito rapidamente das coisas. Mas, o povo é soberano e se ele [Paulo Lopes] está lá é porque o povo assim quis. Nesses quatro anos, o executivo que ele arranjou é desastroso. Ele faz um acordo com a CDU que, ao fim de um ano, o abandona.  De uma assentada só, saem três elementos do executivo. Alguma vez se viu isso? Saiu o seu tesoureiro, porque foi apanhado em casos menos próprios na Junta de Freguesia e saíram duas senhoras, uma até era da Afurada e a outra de Santa Marinha, por razões políticas, por isso, a meio do mandato, ele [Paulo Lopes] teve de reformular o executivo. Sob o ponto de vista político, eu nunca mais perdoo ao Paulo Lopes. À época, aquilo que a liderança do meu partido, neste caso o senhor Joaquim Leite, que era o líder, queria fazer, não me parecia correto, que era deitar, uma Junta de Freguesia legitimamente eleita, ainda que sem maioria, abaixo. É aí que eu começo a divergir com o senhor Joaquim Leite e que ele propõe a minha expulsão do PSD. É ao que eu suspendo a minha militância do PSD e dou o benefício da dúvida ao doutor Paulo Lopes. Aquilo que eu estou a dizer pode ser confirmado nas atas da Assembleia de Freguesia. Apesar de tudo, dele [Paulo Lopes] ter passado dois anos a achincalhar-me com as dívidas, eu dei-lhe o benefício da dúvida. Isto foi quando ele [Paulo Lopes] fez essa remodelação do executivo, desses três elementos, e eu dei o meu apoio, votei favoravelmente a essa remodelação e a esses nomes. O que é que, depois, veio a acontecer? Dei o benefício da dúvida e, politicamente, dei um “abanão”: «tens aqui uma prova para te afirmares, porque reconheço que governar em minoria é difícil, mas vamos lá ver se a gente se entende. Está clarificada a nossa situação?», porque, já no momento, eu não queria nada com a política, queria era paz. Pensando eu que isto ia dar a volta, mas continuaram as trapalhadas. Enquanto membro já independente, porque o benefício da dúvida que dei, na altura, resultou na minha expulsão do partido, neste caso o PSD, e tornei-me independente, não saí da Assembleia de Freguesia, foi-me negado, mais do que uma vez, o acesso a documentos que eu gostaria de ver, para poder responder àquilo que me constava, já à época. Eu, membro de uma Assembleia de Freguesia, requeri, ao presidente da Junta, uma consulta, por exemplo, de um contrato de avença, que nunca tive. O acesso aos documentos era-me negado, exceto na presença do advogado da Junta. O contrato de avença que eu queria consultar era o do próprio advogado, porque já se constavam algumas irregularidades, quando nasce o processo do doutor Cardoso, ex advogado da Junta. Havia um processo, que vinha da Junta da Afurada onde esta estaria condenada a pagar uma dívida na ordem dos 80 mil euros, se a memória não me falha. Nesse momento, houve falha do Dr. Cardoso, mas só não erra quem nada faz e qualquer advogado tem seguro. A Junta acionou o seguro pela falha e ganhou o processo. O Tribunal decidiu que a Junta de Freguesia tinha direito a uma indeminização cível no valor de nove mil euros. Quando soube disto pensei que, assim, a Junta tinha ali nove mil euros para abater à dívida, o que era uma boa notícia. Mas o advogado atual da Junta, mestre em direito, que quando entrou era estagiário, amigo pessoal do doutor Paulo Lopes, meteu uma fatura, do processo do Dr. Cardoso, no valor de seis mil e tal euros. Isto é um escândalo. Qualquer cidadão tem o direito de saber e de se escandalizar, mesmo que, no fim, decida votar no Paulo Lopes na mesma. E, portanto, sempre que eu ia rebater estes escândalos, no local onde eu o podia fazer, na Assembleia de Freguesia, lá vinha outra vez a resposta das dívidas e mais dívidas: «você nem deixou dinheiro para pagar o último mês de salários aos seus funcionários». Mentira, eu deixei a Junta no dia 20, no dia 21 de outubro Paulo Lopes tomou posse e, sim, nesse dia nós não tínhamos saldo para pagar, porque estávamos sempre até ao final do mês à espera do duodécimo da Câmara. A Afurada era assim. Quando o duodécimo entrava é que a gente pagava. No dia não tinha, mas havia uma previsão. Agora se a Câmara depois não cumpriu, que pelos vistos não cumpriu, ou atrasou-se a pagar, devido à transição, mas, com essa previsão, havia um saldo de 13 mil euros, que era mais do que suficiente para pagar os salários desse mês. Até disso ele me acusou, constantemente, até ao fim do mandato. Portanto, isto tudo é um ajuste, uma comparação e um constatar de factos. Para concluir esta primeira fase, verifico que aquilo que eu tinha dito, que ele ou era ou não era, não é, nunca foi. Verifico que o primeiro executivo que ele montou foi um desastre. Houve um benefício da dúvida, melhorou no que diz respeito ao cemitério, por exemplo, mas continuou sempre a ser mais do mesmo. Trapalhada, atrás de trapalhada.

 

Falou de trapalhadas, do ponto de vista político. Neste contexto, como vê a gestão de Paulo Lopes, enquanto presidente de Junta?

Sob o ponto de vista da gestão eu diria o seguinte: se eu tivesse dinheiro, que não tenho, para investir em alguma coisa e, de repente, me ocorresse que precisava de um gestor para o meu investimento, no mundo global, a última pessoa em quem eu pensaria seria o doutor Paulo Lopes. Vejam só, no mundo, era a última pessoa que eu escolheria, tendo em conta o pântano em que, efetivamente, se encontra esta União de Freguesias, devido ao acumular da gestão desta criatura. Eu tenho legitimidade, passados oito anos, para dizer que muitas das vezes o carma é a coisa pior que nos pode acontecer e este presidente, este Paulo Lopes, já está a pagar com o carma. Reparem bem, dívidas. Eu gostava de saber, hoje, quanto é que esta União de Freguesias deve a fornecedores. Eu sei que a da ADSE tem a ver com as cativações da Junta, porque à época, a deixou 47 mil euros, salvo erro, que está na auditoria. Hoje deve 100 mil, mais que duplicou. Porém, o doutor Paulo Lopes disse, em mais do que uma ocasião do primeiro mandato, que: «ponto de honra. esta União de Freguesias, no que diz respeito às dívidas da Afurada, até ao final do primeiro mandato, (do primeiro e já estamos no fim do segundo) pagará na íntegra». Não pagou, aliás, até mais que duplicou. «Esta Junta honra a lei dos compromissos», ouvi isto tantas vezes, inclusive do atual tesoureiro. E eu pergunto: estará esta União de Freguesias: estará a cumprir? Eu tenho muitas dúvidas. Gostaria de saber o porquê, qual a razão, que justificação tem, para que a Junta pague, num contrato que já devia ter sido revisto há vários anos, 650 euros, salvo erro, de avença a um advogado e que, extra avença, já tenha pago mais de 23 mil euros, em quatro processos. Alguns deles caricatos, como o da sucata, no qual nem uma intervenção fez no julgamento e faturou mais de seis mil euros. Ele, o amigo pessoal, há que assumir isso, porque isto já foi dito pelo presidente da Junta inclusive, numa Assembleia de Freguesia. Não é nenhum crime ser amigo pessoal seja de quem for, agora há coisas que quando se é amigo pessoal, têm de ser mais requintadas. Se um amigo pessoal meu tivesse estudado comigo e eu pudesse abrir-lhe uma porta para poder trabalhar comigo, eu teria atenção e cuidado em algumas matérias. Mais uma vez, o cidadão e eleitor pode achar que é normal, num processo em que a Junta é absolvida e em que há um advogado, à época estagiário, não pode ter intervenção no julgamento, está lá o advogado da Câmara, e, ainda assim, fatura cinco mil e tal euros. Pode achar normal, mas não sabe, mas não tem conhecimento disto. Portanto, há um direito à indignação de quem foi julgado, criticado, maltratado, às vezes, porque eu acho que houve coisas que, seguramente, eu não merecia ouvir. O tal carma é extraordinário e faz com que as coisas estejam a cair em catapulta. Vejam, processos de demissões, quantos ele não teve de lidar de elementos do executivo? Processos de gestão pura e dura. É normal uma União de Freguesias como esta, antes da pandemia, pedir um empréstimo, no valor de 25 mil euros, para pagar os salários? A pandemia não serve para justificar tudo e, por acaso, em Gaia não serviu. Eu tenho acompanhado e tenho de ser justo, a Câmara teve um papel muito notório e, portanto, o que as Juntas de Freguesia deram foi residual, porque, inclusivamente, muitas empresas privadas disponibilizaram-se para ajudar. A nível de gestão, há quem saiba gerir com pouco e há quem não saiba gerir com muito. Este senhor [Paulo Lopes], nem soube gerir com muito e continua a não saber gerir com pouco. Agora, tem menos do que tinha quando entrou. Apesar de tudo, quando entrou, tinha a almofada, os tais 170 e tal mil euros, do exercício anterior de Santa Marinha. Tinha as dívidas da Afurada, certo, todas elas passíveis de ser negociadas. Aliás, foram negociadas e pagas a prestações, porque não me consta nenhuma dívida que tenha sido paga à cabeça. Porém, umas foram pessimamente negociadas e com prejuízo, do meu ponto de vista, para o contribuinte. Esta é a razão da tal indignação. Eu acho que o balanço destes oito anos, é altamente negativo, e devo dizer mais, há aqui situações que não estão ao nível daquela que é a segunda maior União de Freguesias que Gaia tem. Há coisas graves demais que, efetivamente, não estão ao nível desta grande instituição que é a União de Santa Marinha e São Pedro da Afurada. Na gestão, esta Junta, atualmente, mesmo eu não tendo acesso aos orçamentos e relatórios e contas, há uma leitura que é muito fácil de se fazer. Não fosse a pandemia, que é uma coisa tão má para todos, infelizmente, esta União de Freguesias, sob o ponto de vista financeiro, já tinha colapsado, totalmente. Quando falo em má gestão, não quero dizer que não seja dentro da legalidade. A Junta tem direito a três tempos inteiros, quer dizer que é o tempo inteiro do presidente, mais dois, que podem ser inteiros ou não. Isto representa um custo pesadíssimo para a Junta, na ordem dos 16 ou 17 mil euros. Conclusão: como é que é possível? Há meios tempos que se dão por caridade nesta União de Freguesia. Eu dar meio tempo por caridade a um vogal? Há Juntas de Freguesia, e a nível de população idênticas a esta, com capacidade financeira invejável, que tem dois meios tempos, que é o normal. O que era normal nesta situação? O presidente da Junta a tempo inteiro e depois dois meios tempos: um meio tempo para a galinha dos ovos de ouro, que é o Cemitério porque quem lida com o cemitério tem de se aplicar, tem muito trabalho para desenvolver; e, no limite, porque é uma União, admito um meio tempo à dita representante da Afurada. Isto sob o ponto de vista de gestão não faz absolutamente sentido nenhum. A forma de fazer política deste senhor [Paulo Lopes], e que talvez é o que dá mais resultado, mas isso mais uma vez deixo ao povo, que é soberano, é dar à pazada subsídios às coletividades. Podia dar, podia dar menos, podia não dar, dependendo das circunstâncias. E obras, investimento? Há coisas que as pessoas não merecem, as freguesias não merecem. Este homem [Paulo Lopes] é parecido com um colecionador de cromos, mas não coleciona cromos, coleciona casos, trapalhadas, algumas não têm qualquer tipo de justificação. Porém, como ele [Paulo Lopes] tem comunicação e imagem, as pessoas não sabem. Mas, também, as pessoas que vão às Assembleias são sempre as mesmas e a oposição é o que é, não se compara, aos últimos quatro anos, em relação a isso. As pessoas não têm conhecimento do que está a acontecer, há processos, ainda que internos, porque ele [Paulo Lopes] é um colecionar e sobrevive a tudo. Eu acho que ele [Paulo Lopes] até alimenta alguns processos, não sei se me estou a fazer entender. Eu julgo que ele, em alguns, até pode chegar a ser um pouco maquiavélico. Alguém que não é líder faz muito isto: dividir para reinar. Alguém que, como ele, não tem capacidade de liderança, faz isto muitas vezes. Dei o exemplo do cemitério, um caso que podia terminar logo à nascença e o tipo prefere alimentá-lo, lá está, dividir para reinar.

 

O Eduardo Matos referiu, anteriormente, a existência de inúmeros processos de demissões de elementos do executivo. Falava também do mais recente, que envolveu Agostinho da Silva Viana, ex-membro do executivo e responsável pelo Pelouro do Cemitério?

Já falamos aqui processos que têm a ver com pura gestão financeira. Desastre. Processos que têm a ver com pura gestão política. Desastre. Quanto ao pedido de demissão do Agostinho da Silva Viana, houve uma situação que foi reportada ao presidente da Junta e ele tinha duas hipóteses: ou fazia o desastre que fez e se calhar desta vez interessou-lhe aceitar, de imediato, a demissão do Agostinho Viana, coisa que, no passado, não interessou; ou então fazia o que, no senso comum, qualquer um faria, aliás, o que eu faria no lugar do dr. Paulo Lopes, se tivesse boa fé. Conversava com o ser. Viana e explicava-lhe que na fase em que estamos, qualquer coisa serviria para pegar, logo, era melhor evitar situações destas. Mas, este homem [Paulo Lopes] é tão desastroso e tão fraco, do ponto de vista político, por isso é que eu acho que houve aqui segundas intenções. Vejam lá, duma maioria absolutíssima que teve na última eleição, está com medo de a perder, por emprestar uma carrinha a um funcionário para levar os placas de pladur para casa. Se eu tivesse um colega do executivo a dizer, claramente, que assumia as suas responsabilidades e que até, como consequência política, pedia a sua demissão, qualquer pessoa, qualquer líder, coisa que ele não é, nunca foi e nunca vai ser, o que faria era o seguinte: ponto final e parágrafo. Acabava ali o problema, morria ali o problema. Não. O que é que esta personagem, este homem, este fraco líder, este fraco político decidiu fazer foi aceitar a demissão de imediato e, depois, seguiram-se processos disciplinares, que afinal passam a processos de inquérito interno. Pior ainda, inicialmente processos com intenção de despedimento que passaram a ser processos sem intenção de despedimento. Este serviço vai ser pago a um terceiro advogado, que eu não conheço de lado nenhum, mas não sabe o que está a fazer, seguramente. Não há figura jurídica, mas pronto, foi um lapso, que possa despedir um vogal no executivo. Isto é trapalhada, atrás de trapalhada. Não é possível uma instituição como esta, estar a nível disto. Tudo bem, há eleições daqui a três meses, o povo é soberano e continua a eleger Paulo Lopes, mas tem de ser dito às pessoas, que não é possível uma instituição como esta, tão grande, tão valiosa, ser dirigida assim. Eu tenho um ajuste, eu tenho comparação e tenho o pior de tudo, que é a minha própria indignação, como alguém que nasceu numa freguesia, que faz parte desta União, alguém que teve responsabilidades políticas e executivas e alguém que, neste momento, está totalmente desprovido da política, alguém que não está ligado a nenhuma candidatura, ou possível candidatura. Em nome desta minha indignação, eu tenho de dizer isto: não é possível, as pessoas têm de saber isto. Além disso, há outro assunto que eu não posso deixar de referir. Este presidente, este senhor Paulo Lopes, este doutor Paulo Lopes, chamem-lhe lá aquilo que quiserem, tem uma coisa, que é talvez o combate mais difícil de travar com este indivíduo. Normalmente, só os tiranos é que têm isto. Este é um tirano refinado, para além de intolerante e incompetente, porque faz censura. E o 25 de Abril já foi em 1974. Faz censura em fóruns oficiais da Junta de Freguesia, como por exemplo, no Facebook. A Junta de Freguesia tem uma página oficial, institucional, que toda a gente tem o direito de acompanhar, e faz censura, pelo menos, comigo. Eu, Eduardo Matos, que represento, neste momento, zero, mas que tenho direito de acompanhar algo que é institucional. Se formos ao Facebook da Junta, verificamos que é o que este senhor tem de melhor, mas também paga para isso. Comunicação e imagem, também há uma avença para pagar isto. Todos os dias, o Facebook da Junta é bombardeado com a atividade da mesma. Ora nasce ali um ninho de andorinhas, mete no Facebook. Ora aparece uma tainha à costa na Afurada, mete no Facebook da Junta, lá o presidente a apanhar a tainha. Tudo. Eu, enquanto cidadão, tenho o direito de, às vezes, me indignar com certas coisas, e, como sabem, as redes sociais dão a oportunidade e possibilidade de quem está a ver, ou gostar ou não gostar, dizer asneiras ou não dizer asneiras. Eu, por acaso, nunca disse asneiras no sentido de ofender, mas já disse coisas que ele [Paulo Lopes] não gostou, seguramente, é evidente, ou a página da Junta só serve para fazer likes? Houve um post, à conta da situação do cemitério, que muita gente comentou. O post referia melhoramentos no cemitério e as opiniões nos comentários iam divergindo. Houve um cidadão, que por acaso é da Afurada e eu até conheço, que comentou que aquilo era propaganda e que se deviam preocupar com outras coisas. Neste seguimento, o Mário Reis, que também é um fenómeno da natureza política nestas freguesias, não sei se foi enquanto responsável do Cemitério, se como Tesoureiro, ou como Mário Reis mesmo, não sei em que posição é que ele falou naquele momento, mas respondeu a esse freguês, dizendo qualquer coisa como isto: «olhe, eu já lhe dei a resposta, mas como não está satisfeito, tenho a solução, candidate-se às próximas eleições ou forme uma lista e venha daí». Eu acho que isto é do pior que podem fazer a qualquer cidadão. Então, aproveitei e disse: «querido amigo Mário Reis, já que demonstra tanto empenho neste post e no seu Pelouro, aproveito para fazer as seguintes perguntas, a si, enquanto Tesoureiro da Junta, se me puder ajudar. Primeiro, qual a dívida, à data de hoje, que a Junta de Freguesia tem? Segundo, está a Junta de Freguesia, neste momento, a cumprir a lei dos compromissos? Terceiro, quanto valor o advogado da Junta faturou até ao momento, extra avença? E por fim, quantos advogados tem a Junta? Agradeço que me responda com todo o empenho que respondeu a toda a gente que publicou, ainda assim, espero que não me dê uma resposta como deu aqui a um freguês, que é a dizer para concorrer às próximas eleições, porque aí já entro a perder». Sabe o que é que fizeram? Apagaram o post completo, um post com mais de 20 comentários, depois deste comentário que eu fiz. Isto é censura ou não é? Eu acho que é. Há quem não ache, deve haver alguém que não ache, mas o cidadão tem o direito de saber que a Junta de Freguesia entende que a página do Facebook só serve para publicações acerca do Presidente da Junta. Tem o direito de fazer isso? Com certeza. Da mesma forma que o cidadão tem o mesmo direito de gostar ou não gostar, de opinar, de achar que é propaganda ou não é propaganda. Isto não é de borla, é pago com os meus impostos. Outro post que achei caricato, informava que o presidente da Junta estava na Assembleia Municipal e eu pensei: até a ir à Assembleia Municipal põe no Facebook? Então fiz lá umas piadas sobre o porquê de divulgar, sendo essa uma obrigação do presidente da Junta? Depois, até fiz mais umas perguntas e a uma hora imprópria. Entretanto fui dormir e quando acordei, peguei no telemóvel e já não estava lá o comentário. Pensei “isto não é possível”. Realmente aparecia lá “1 comentário”, mas clicava-se e zero. Pronto, fiz outro comentário, para ter a certeza de que não estava a sonhar. Passado nem meia hora, apagado. Estamos, realmente, perante um presidente de Junta que não é líder, é incompetente, é intolerante, tirano, para não dizer que é um ditador. Aquilo que se faz é censura e ele, enquanto responsável político que é, tem de assumir essa responsabilidade.

 

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