Vanessa e João Pinheiro são dois jovens empreendedores que escolherem a cidade da Ribeira Grande como local de investimento na área do alojamento local.

Ambos estudaram em Lisboa: Vanessa estudou arquitetura e João economia. As áreas complementavam-se e o sonho e a vontade de querer fazer mais e melhor na Ribeira Grande aliaram-se, surgindo assim As Casas da Ribeira Grande.

Em entrevista ao Audiência contam que a oportunidade do negócio começou em 2014 com a reabilitação de uma casa de familiares em alojamento local, a Casa do Chafariz. No ano seguinte adquiriram uma propriedade e transformaram-na na Casa da Cascata, sendo que a Casa da Ponte (uma vivenda da família) também foi aberta no mesmo ano.

Com a vinda das ‘lowcost’, logo se aperceberam da afluência de turistas que procurava a Ribeira Grande. Surgiu a oportunidade de gerir a Casa do Outeiro (a única que não pertence aos empresários) em 2016 e logo de seguida a Casa D’El Rei.

Atualmente gerem estes cinco alojamentos, sendo que o sexto investimento ainda não se encontra aberto ao público, a Volcanic Charming House.
Sempre atentos às necessidades dos clientes, João e Vanessa procuram dar tudo o que o turista precisa. Têm parcerias com a restauração local, empresas de ‘whale watching’, taxistas e também com as rent-a-car.
Seis empreendimentos com conceitos diferentes, que procuram satisfazer as necessidades e os gostos do turista que procura a Ribeira Grande para se hospedar.

Em primeiro lugar, por quê investir nesta área na Ribeira Grande?
Vanessa: Chegámos ao ponto em que acabámos o curso e tínhamos de decidir se continuávamos em Lisboa ou se voltávamos.
João: Sempre foi um sonho voltar cá e tentar desenvolver alguma coisa. Tivemos a oportunidade de reabilitar casas. Começámos com uma casa de familiares para fazer a experiência.
Vanessa: Exatamente. Nunca foi nossa intenção dedicarmo-nos a isto da forma que nos dedicámos neste momento.
João: Começámos com a Casa do Chafariz em 2014.
Vanessa: Exato, antes das ‘lowcost’ chegarem cá. Na altura foi uma experiência que resultou e sentimo-nos bastante concretizados. Quando criámos o nome da empresa em 2015, chamamos-lhe “As Casas da Ribeira Grande”, por serem casas de alojamento local. Além disso, temos sempre o cuidado de todas elas serem na cidade por uma questão de logística e organização. No logótipo podemos ver os ícones da Ribeira Grande: os arcos da ponte, a Câmara Municipal, a Igreja do Senhor dos Passos…

Tiveram sucesso logo no primeiro ano. E a partir daí?
João: A partir daí tivemos uma oportunidade de negócio com a Casa da Cascata. Fica mesmo no Largo Gaspar Frutuoso, em frente da Igreja Matriz. A casa estava fechada e em mau estado. Comprámos e fizemos a reconstrução da casa, mantendo as características mais antigas. Nesta casa temos vários tipos de quartos: suítes e também quartos com casa de banho partilhada.
Vanessa: Nesta casa tentamos ter diferentes situações para diferentes tipos de público.
João: Há uma convivência entre os hóspedes que estão na casa. Têm de partilhar o quarto, a casa de banho, a cozinha, a sala…

Como tem corrido este tipo de alojamento?
Vanessa: Esta casa é das que as pessoas gostam mais. Primeiro por causa da arquitetura, é uma casa de 1907 com características muito particulares. Em segundo lugar, os hóspedes que procuram este tipo de alojamento, procuram essa convivência. Os hóspedes gostam bastante. Interagem, fazem churrascos no exterior… A terceira casa foi a Casa da Ponte, que também é uma casa da família. Portanto, na altura fazia-se aluguer a longo prazo nessa casa e experimentámos fazer essa experiência, já que estávamos a experimentar. As ‘lowcost’ tinham vindo nesse ano e notámos a afluência. Além disso estávamos sempre a tentar ter várias casas para abranger vários públicos. Abrimos à experiência e também correu bem.
João: De seguida foi a Casa do Outeiro, em 2016. Fica ao lado da ponte e é a única que não é nossa. Fizeram-nos uma proposta para a gerir e aceitámos. Fica muito perto da Casa da Ponte e é uma mais-valia para grupos ainda maiores.
Vanessa: A ribeira divide as duas casas, portanto os hóspedes em grupos grandes podem ser albergados nas duas casas. Atravessam a ponte e estão juntos, as casas complementam-se.
João: De seguida foi a Casa D’El Rei. Convertemo-la em habitação. São estúdios em ‘open space’.

A última casa é a ‘Volcanic Charming House’, que acaba por ser um pequeno hotel.
Vanessa: Sim. Ainda não está aberta. Foi concluída em 2018, e estamos à espera do licenciamento.
João: Queremos ter uma casa com mais requinte. Todos os quartos têm casa de banho, temos também pequeno-almoço, limpeza diária, acesso à piscina… algumas características que não temos nas outras casas e que queríamos implementar nesta.

O espaço exterior serve também para pessoas de fora.
João: Sim, temos um espaço preparado para eventos caso queiram alugar, junto à piscina. Está preparado para 100 pessoas.

Quem não for hóspede poderá também frequentar a ‘Volcanic Charming House’?
João: Estamos a pensar nisso. Vamos tentar abrir ao público. O pequeno-almoço, por exemplo, será buffet. É uma falha de mercado que temos cá na Ribeira Grande e vamos tentar tirar proveito.
Vanessa: Já que vamos estar com as “mãos na massa”, por que não aproveitar? Isso é outra coisa que tentamos fazer sempre: fazer o que ainda não existe e também com quem não tem. Tentamos fazer parcerias com empresas de cá. Por exemplo, não temos pequenos-almoços neste momento mas não é por isso que deixamos de o servir aos nossos hóspedes. Então fazemos parceria com uma pastelaria, e também temos almoços e jantares com a restauração da Ribeira Grande.
João: Nas casas atuais, se os hóspedes quiserem tomar o pequeno-almoço, por exemplo, nós temos uma senha e eles podem escolher onde tomar o pequeno-almoço.
Vanessa: Esses locais têm um menu próprio para os nossos hóspedes.
João: Nós queremos envolver as empresas aqui da zona e tentamos fazer sempre isto. A nossa parceria envolve três estabelecimentos: a Merenda, a Casa de Pasto Flor e o Café com Sopas. Todos os anos tentamos gratificar os nossos parceiros. Damos uma pequena lembrança ou reconhecimento. Este ano, para além dos parceiros d’As Casas, também gratificámos os que trabalharam connosco na ‘Charming House’. Foi uma obra grande e todos deram o máximo. Praticamente todos são da Ribeira Grande, portanto, tentamos sempre que a comunidade esteja em primeiro lugar.

O vosso objetivo ao envolver a comunidade é fixar os hóspedes cá na Ribeira Grande.
Vanessa: Sim. Também temos outras parcerias com associações de cultura.
João: Às vezes está mau tempo e perguntam-nos “o que é que vamos fazer agora?” Tentamos encaminhar para os museus, por exemplo. O turista não vem só para dormir, convém ter algo para fazer.
Estamos também a trabalhar para alterar o nosso portfólio. Vamos fazer uma coisa diferente. Vamos fazer um mapa da Ribeira Grande.
Vanessa: Nós fazemos um ‘check in’ envolvente, ou seja, não damos apenas a chave da casa. Explicamos o mapa da Ribeira Grande e da ilha, o que podem visitar, o que gostariam de saber… e então pensámos “por que não fazer o nosso próprio mapa com as nossas sugestões?”.

O que é que diferencia as Casas da Ribeira Grande dos outros alojamentos locais?
João: Acho que é o gostar de fazer o que fazemos. Tentamos sempre dar mais.
Vanessa: A dedicação, a envolvência… Também já estamos nisto a 100% e levamos também as nossas famílias connosco, fazem parte de toda a envolvência.
João: É algo familiar. Trabalhamos com muito gosto e somos diferenciadores por causa disso.

Sustentam a valência dos transportes?
João: Nós temos o serviço de ‘transfers’. Quando não somos nós a fazer, temos os nossos parceiros. Os serviços públicos de transporte não são os melhores. Quando é necessário ir à Caldeira Velha, à plantação de chá… temos resposta a dar.

Qual o turista que mais vos procura?
João: Ao longo dos anos varia, mas no top três temos a Alemanha, França e Espanha. De 2014 a 2018 recebemos 4500 turistas.

Como é que lidam com a concorrência?
Vanessa: De forma saudável.
João: A concorrência é boa, faz-nos dar mais de nós e faz-nos manter o que somos.
Vanessa: Mesmo quando temos hóspedes a mais e não temos espaço, ou eles também, encaminhamos os clientes uns para os outros.

Com esta ‘Charming House’, a nova grande aposta, quem esperam trazer para cá?
Vanessa: O público que procura mais comodidade.
João: Sim, aqueles que querem ficar mais tempo na casa. Temos a piscina, as zonas verdes…
Vanessa: Que não seja só um espaço de vir repousar e de ir fazer o turismo, mas que aqui também possam passar tempo de qualidade.
João: Até temos uma parceria com uma empresa de ‘reiki’ e yoga, e a casa é perfeita para esse tipo de turismo, o turismo espiritual. Os Açores pedem isso: o turismo termal, espiritual e de terapia.
Vanessa: A casa é muito silenciosa, tanto no interior como no exterior.
João: E embora não esteja no centro, fica muito perto.

A nível de empreendedorismo. Começaram com um pequeno passo e foram aumentando. O que é que vos levou a apostar desta forma nesta área?
Vanessa: Julgo que foi sempre a gratificação que fomos tirando a partir da experiência. Quando fazíamos as receções vínhamos sempre com um sorriso na cara e foi isso que nos foi levando a agarrar as oportunidades.
João: E para tentar criar algum valor na terra. Queríamos criar uma empresa nova, criar emprego e criar valor para as empresas locais. Foi isso que nos deu força. Costumo dizer que “empreendedor” acaba em “dor”. É doloroso mas recompensante.

Quantos funcionários têm agora?
Vanessa: Temos três, para além da nossa família e de nós. Três são fixos e na época alta temos reforços.
João: Com a ‘Charming House’ teremos mais quatro.
Vanessa: Os novos funcionários também serão da Ribeira Grande.

A parte das refeições funcionará com parcerias?
João: Sim. Por exemplo, para fazer um evento, teremos ‘catering’, não serviço de cozinha. Vamos ter o pequeno-almoço com pão fresco, produtos regionais…
Vanessa: Sim, a intenção é também mostrar produtos regionais aos hóspedes.
João: E a própria casa tem muitos produtos de cá: a piscina foi restituída em pedra regional, o chão, a madeira de criptoméria… tentámos fazer o máximo, claro que há coisas que não conseguimos.

Na ‘Charming House’ há uma garrafeira. Como surgiu a ideia?
João: Foi pela ideia do ‘charming’. Acho que a garrafeira puxa pelo requinte. O turista que vem a Portugal e aos Açores gosta muito de provar os vinhos, principalmente os regionais. Temos uma seleção de produtos regionais e também os principais vinhos nacionais. Além disso, quisemos manter a cozinha na casa. Se vier um grande grupo, pode alugar a casa toda. Também há sempre um ou outro turista que prefere fazer a sua refeição.
Vanessa: Faz parte das opções que queremos ter, de todas as formas.
João: Os hotéis não costumam ter cozinha, e quisemos não descaracterizar a casa. Também estamos a pensar em fazer noites temáticas na época alta. O vinho será o tema numa das noites. Imaginação não falta.

Previsão para a abertura da casa?
João: As coisas estão a correr bem com o licenciamento. Provavelmente em março abriremos. Queremos fazer uma inauguração oficial.

Tiveram algum tipo de apoio para o restauro?
João: Tentámos ter.
Vanessa: Nem nesta nem em nenhuma das outras tivemos apoio. Por uma razão ou por outra nunca conseguimos…
João: Foi através de capitais próprios e também fomos à banca.

O que pensam fazer no futuro?
Vanessa: Temos consciência de que o futuro pode mudar. Não sabemos se daqui a 10 ou 20 anos vamos estar no mesmo sítio. Enquanto tudo estiver dentro destes parâmetros, enquanto tivermos hóspedes e enquanto estivermos a gostar, porque não? Mas temos consciência de que há coisas que podem causar impacto.
João: Vamos acalmar um pouco. Mas já vamos dizendo esta conversa há algum tempo. Vão aparecendo os projetos e agarramos.
Vanessa: Temos de consolidar a empresa e aquilo que já está feito para termos algum retorno. Em 2014, quando surgimos, só havia praticamente uma residencial como alojamento na Ribeira Grande. Atualmente não é esse o cenário e a partir de 2020 também não será. Temos consciência que as coisas vão mudar e também vamos reajustar-nos às necessidades.

Quanto aos preços. Variam conforme a época?
João: Temos vários preços. Desde 20 a 50 euros por pessoa por noite. Conseguimos ter esse alargamento de preços em época alta. Em época baixa, é mais barato. Tentamos combater a época baixa, fazendo preços mais baixos. Também vamos à BTL, fazemos publicidade digital…
Vanessa: Conseguimos também parcerias para essa época [baixa]. Por exemplo, vêm escolas de surf até cá e ficam alojados connosco.
João: A nossa época baixa é de outubro a abril, embora esteja a mudar agora para novembro a março.

O vosso sucesso também se deve às parcerias.
João: Não gostamos de dizer que não aos turistas. Precisam de carro, já temos parceria com a rent-a-car…
Vanessa: Temos parcerias com ‘whale watching’, tours… Aproveitamos a BTL, que é a ocasião em que as empresas de cá também estão lá, para trocar impressões e fazer essas parcerias. Às vezes estamos cá todos dedicados às nossas empresas que não há tempo para chegar às outras. Lá como estamos todos a dar a conhecer e promover as empresas, aproveitamos.

A BTL tem trazido benefícios?
Vanessa: Sim. Lá estamos em contacto com portugueses.
João: Nunca vemos o marketing com efeito direto, mas acredito que faça efeito e que traga benefícios.

O que é que falta no turismo da Ribeira Grande?
João: Acho que há uma falha no mercado que ainda não se aperceberam: a prestação de serviços. Desde 2014 que não vemos a abertura de novos espaços, a tendência é fechar. Acho que é importante, mesmo com todos os hotéis que irão abrir, tentar criar algo novo na restauração e no comércio.
Vanessa: A animação e a deslocação também são preocupações.
João: Temos os turistas a perguntar o que há para fazer à noite… acho que isto é uma falha de mercado. Quem quer investir, deveria estar atento.
Vanessa: Mesmo a restauração que existe não se reajustou desde que as coisas começaram a melhorar. Não há cozinhas vegetarianas, por exemplo.
João: Todos deviam aproveitar este crescimento. As previsões são para abrir imensos hotéis na Ribeira Grande.
Vanessa: A nossa preocupação é que os hotéis resolvam tudo entre si: resolvam a animação, a restauração e tudo o que o turista precisa. Portanto, funciona para si e não enriquece a Ribeira Grande. É nisso que tentamos trabalhar: para nós e para a Ribeira Grande.

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