«Eles não sabem que o sonho é uma constante da vida, que sempre que um homem sonha o mundo pula e avança», e como demonstração prática do conteúdo destes versos um desses sonhos foi convertido em realidade com os militares de Abril que, após quarenta e oito longos e penosos anos de bestialidade fascista, interpretaram bem a vontade dos portugueses de liberdade e democracia.

O percurso foi penoso, cheio de escolhos, perseguições, prisões e assassinatos, mas a resistência acabou por vencer, não sem o sacrifício da própria vida de muitos militantes que organizadamente no PCP fizeram frente à repressão com vontade férrea, mas também com o contributo de muitos homens e mulheres, cidadãos comuns, que dedicaram a sua vida em prol duma sociedade mais justa.

Os militares tinham a noção das consequências se a Revolução não vencesse, mas um deles, Vasco Gonçalves, entretanto proclamado chefe de estado durante quatro governos provisórios, demonstrou bem o seu espírito revolucionário, pois foi nos seus mandatos que se registaram as maiores transformações na sociedade portuguesa, decorrentes da aliança entre o movimento operário e popular e os militares revolucionários do MFA, que deram lugar à liberdade e à paz, aos direitos laborais, sociais e culturais, às nacionalizações, à reforma agrária, à descolonização e à independência nacional, temas consagrados posteriormente na nova Constituição da República Portuguesa de 1976.

Vasco Gonçalves ilustrou, aliás, convictamente o seu espírito progressista e transformador da sociedade portuguesa ao ter afirmado que «O futuro com que sonhei não é cada vez mais saudade, é, sim, cada vez mais, necessidade imperiosa. Assim o povo o compreenda».

Outra figura ímpar da resistência ao fascismo e actor coerente da nossa vida política, Álvaro Cunhal, afirmou que «Nem todos quantos estão dispostos a lutar pela liberdade estão dispostos a lutar pelo socialismo, mas todos quantos estão dispostos a lutar pelo socialismo estão prontos a lutar pela liberdade».

A Revolução de Abril contempla dois períodos legislativos, o revolucionário e o contra-revolucionário, pela diferença da interacção entre a autoridade governativa e Estado, e o povo, sendo que no primeiro período é o povo que faz a revolução e os decretos-lei seguem atrás do povo e no segundo período é a contra-revolução, também activa nos governos e no Estado, que pretende vergar o povo pela lei, recorrendo à repressão mais violenta sempre que necessário, caso por exemplo dos assassínios de defensores da Reforma Agrária no Alentejo e de sindicalistas durante o 1º de Maio de 1982 no Porto, ou seja, assistimos a um retrocesso na vida social, política e laboral dos portugueses bem patente nas posteriores revisões constitucionais, cujos mentores procuraram alterar substancialmente o conteúdo da Constituição, retirando-lhe a criatividade progressista e deixando para as calendas a construção integral de uma democracia, nas suas vertentes política, económica, social e cultural, amplamente participada e por essa razão a luta dos trabalhadores e do povo contra as políticas de direita foi e tem sido uma constante nos anos que se seguiram ao 25 de Novembro de 1975 e mesmo a Associação Conquistas da Revolução, entretanto criada em 2011 por militares, tendo por conceito Defender Abril, Construir o Futuro, apresenta como objectivo preservar, divulgar e promover o apoio dos cidadãos aos valores e ideais da Revolução iniciada em 25 de Abril de 1974, cultivando-os e criando a consciência social contida nesse que foi o momento mais belo e brilhante da História recente de Portugal.

As forças do retrocesso não abandonaram os seus objectivos, pois ainda existe uma injusta distribuição da riqueza no nosso País, a precariedade no trabalho continua a ser uma realidade, os serviços públicos essenciais e de proximidade são destruidos, a corrupção mostra ainda focos de existência activa, as assimetrias regionais continuam a dividir o País, enfim, há muito para fazer e cumprir Abril em plenitude e daí decorre naturalmente que nos actos eleitorais à vista tenhamos a consciência de que como o povo é quem mais ordena, assim devemos escolher criteriosamente para nos representar aqueles que sempre estiveram ao lado dos trabalhadores e do povo, defendendo os seus direitos e interesses, mas também têm lutado pelo harmonioso desenvolvimento económico do País.

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