“DESDE PEQUENINAS QUE SEMPRE NOS FORAM INCUTIDOS VÁRIOS VALORES QUE PRETENDEMOS LEVAR PARA A VIDA”

O Audiência Grande Porto, a convite das professoras da EB1 Balteiro, esteve presente em mais uma festa anual de fim de ano. Tivemos o prazer de ver a entrega e interajuda de duas antigas alunas desta escola, que dedicam este dia para dar apoio aos alunos, na concretização dos seus sonhos. O repórter não ficou indiferente ao gesto nobre destas jovens, e achou interessante fazer-lhes uma entrevista.

 

Olá prezadas jovens Letícia e Cristiana. Gostaria que se apresentassem aos leitores do Jornal Audiência?

Cristiana – Olá, é um prazer participar numa entrevista da D. Áurea Bastos! Eu sou a Cristiana, tenho 21 anos, sou de Vilar de Andorinho, em Vila Nova de Gaia e, neste momento, sou aluna do último ano de Enfermagem na Escola Superior de enfermagem da Universidade do Porto (ESEP).

Letícia – Sou a Letícia, tenho 17 anos, sou aluna do Colégio Internato dos Carvalhos e sou natural e Vila Nova de Gaia.

 

A Cristiana já está na universidade e a Letícia, falta pouco para entrar. Várias vezes voltam à escola onde fizeram o primeiro ciclo para colaborar nas festas de fim de ano. O que vos motiva?

Cristiana – Antes de mais, dizer que as nossas respostas não foram combinadas. Acho que o primeiro ponto, é mesmo o facto de a nossa mãe ser lá professora. Mas, no meu caso, adoro fazê-lo pela interação com as crianças e fazer algo por elas. Quando era pequena, adorava ver os mais velhos voltar onde tinham sido crianças, agora gosto de ser eu a visitar e a ajudar no que posso. Para além de que, é sempre um bom momento de descontração e voltar a brincar como uma criança.

Letícia – Desde bem pequeninas que sempre nos foram incutidos vários valores que pretendemos levar para a vida e um deles é o de ajudar quando mais precisam de nós. Todos os anos voltamos à escola em que mais nos divertimos e desfrutámos, por estarmos naquela idade em que a única preocupação que temos é ser feliz, para ajudar nas festas e fazer outros meninos felizes da mesma maneira que nós fomos. E claro, é sempre reconfortante ver caras que já não víamos há muito tempo e aliviar um pouco o stresse da minha mãe e das restantes professoras para que tudo corra bem.

 

Vocês, provavelmente, passam os mesmos valores que aprenderam, quando tinham a mesma idade?

Cristiana – Sim, acaba por acontecer também. Muitas vezes, quando a parte da organização do espaço fica pronta, ainda passamos bastante tempo no meio das crianças. É possível perceber que muitas brincadeiras já mudaram, mas, no meu caso, ensino as minhas e aprendo as delas, e danço bastante com elas. A nível de valores, quando estou com as crianças, tento que cada um tenha a sua vez de se mostrar. Tomando o exemplo de dançar no meio delas, cada um escolhe uma música e é necessário garantir que há respeito pela música do amigo e só depois é que eu posso escolher outra.

Letícia- Sim, sem dúvida. Como já referi anteriormente, desde pequenas que sempre nos educaram sobre determinados valores, sendo estes, posteriormente, incrementados através da escola. Neste momento só espero poder passar tudo aquilo que aprendi da melhor forma e poder continuar a fazer sorrir os novos pequeninos.

 

 O que vos transmite a escola, a sala e o recreio?

Cristiana – Para mim, a escola transmite uma nostalgia do tempo em que lá fui criança e feliz, daí gostar tanto de lá voltar. A sala, é um misto de emoções, porque atualmente, as salas onde andei, agora são da pré e biblioteca escolar, então acaba por mostrar a passagem do tempo, mas de uma forma boa. E o recreio, saudades especialmente. Saudades porque já não brinco lá, mas quando lá estou, sinto que a minha menina interior é mais feliz.

Letícia- Penso que a escola, especialmente a escola primária, é o sítio onde mais crescemos a nível psicológico sem nos apercebermos disso. É lá que aprendemos a escrever, a ler, a brincar e, também, onde nos tentam ensinar as melhores ferramentas para levarmos para a nossa vida. Para mim, foi como uma segunda casa. A sala transmite sempre aquela sensação de responsabilidade, de tentar fazer tudo bem feito e orgulhar, não só quem está à nossa frente, mas também quem está em casa à espera de saber como correu o dia. Já o recreio, penso que é o local onde esquecemos as nossas preocupações, onde brincamos e rimos mais alto do que alguma vez fizemos. Sem dúvida de que este transmite muita felicidade, calma e uma leveza e magia ao resto da escola.

 

Será que ainda podem contar como foi entrar na escola pela 1ª vez com a vossa mochila carregada de cadernos, livros e sonhos?

Cristiana- Já lá vai um tempinho… Mas, para mim, foi sentir que ia para a “escola dos grandes”, que iria aprender muita coisa, mas que ia brincar com os mais velhos também. E muito nervosismo ao mesmo tempo. Acho que, sempre que tenho uma nova etapa na minha vida, volto a sentir-me como a menina tímida do primeiro dia de aulas.

Letícia- Foi uma sensação de ir pela primeira vez numa aventura ao desconhecido. É certo que a transição foi mais fácil por termos a nossa mãe a trabalhar na mesma escola, mas o facto de só nos vermos à hora do almoço ou quando era para ir embora, também criou aquele sentimento de “agora é que é, vais começar a fazer as coisas sozinha”. Entrar na escola foi começar a imaginar as 1001 profissões que queria seguir, sendo elas imaginárias ou não, e também, criar as mais diversas histórias e perspetivas que só me fizeram crescer, embora eu ainda não soubesse o que é que tudo iria significar no futuro, não sabendo que aqueles seriam os melhores anos da minha vida, e o melhor primeiro dia de aulas de sempre.

 

 Se pudessem voltar no tempo, o que mudariam na escola?

Cristiana- Obviamente, é mais fácil dizer que não mudava nada, porque é o facto de a escola ainda ser assim, que a faz especial… Mas, se pudesse voltar atrás, gostaria que ao cortarem as árvores as tivessem substituído por outras porque faziam sempre parte das nossas brincadeiras, e talvez, ter um pequeno parque infantil, que era algo que muitas outras escolas já tinham, e ali, só tínhamos o recreio pintado como um campo para futebol, que acabava por ser mais usado por quem queria só jogar futebol.

Letícia- Relativamente ao ensino e às pessoas com que me cruzei, não mudaria nada porque foi tudo isso que marcou a minha vida e me fez crescer até à pessoa que sou hoje. Acho mesmo que a única coisa que mudaria era passar mais tempo na biblioteca, pois desde sempre que sou apaixonada pela leitura, mas também as condições do campo para não estar sempre a escorregar nas pedras e a rasgar não só a roupa toda, como os meus joelhos.

 

A vossa mãe é professora nesta escola. Podem definir a vossa mãe, como professora?

Cristiana- É um pouco complicado, porque enquanto para toda a gente, ela é a “Professora Carla”, para nós ela é mãe. É certo que foi a nossa primeira professora, mas ela equilibra bem a parte de ensinar, com a parte de ser mãe em casa. Mas quando estou lá na escola, noto que ela tem gosto em ser professora. Afinal, ela é um marco na vida das crianças, é ela que ensina a ler e a escrever, coisas que nos acompanham até ao fim dos nossos dias. Acho que foi mais a carreira que a escolheu a ela: falamos muitas vezes disso, porque ela sempre frisou que nunca seria professora, e quando entrou na faculdade, foi com o intuito de pedir transferência, mas como teve logo um estágio observacional no 1º ano, apaixonou-se e ficou! E na minha opinião, ela fez muito bem, porque tem o carisma e as características que não se aprendem, já nascem com as pessoas, destinadas a essas profissões.

Letícia- É a mulher mais dedicada à sua profissão que eu alguma vez conheci. Durante o seu tempo de escola, a nossa mãe disse sempre que nunca iria para professora. No entanto, o destino tinha outros planos e acredito mesmo que foi a melhor coisa que lhe aconteceu. A forma como ela luta todos os dias para o melhor de todos, mas especialmente para tornar a vida daqueles miúdos no melhor possível, como chega a casa exausta, mas mesmo assim passa horas em frente ao computador a trabalhar para eles e como atende o telemóvel seja a que hora do dia for, só mostra o quão profissional e o quão devota é a esta casa. Orgulho-me dela todos os dias por ser uma mulher de armas e mover mundos e fundos por aquelas crianças e só espero que o resto das pessoas veja isso com os mesmos olhos que eu a vejo.

 

 

Cristiana, já estás na universidade, tens memória da tua frequência no primeiro ciclo? Que diferença vês nos alunos de agora e do teu tempo?

Cristiana- Tenho algumas memórias que guardo com muito carinho, sim, especialmente da minha turma da altura, e como mantemos contacto entre alguns até hoje, após nos separamos no fim do 1º ciclo. Acho que a maior diferença está na forma de como se vê os mais velhos. Na minha altura, qualquer adulto, era uma entidade à qual devíamos respeito, e obediência, quando nos mandava fazer algo. Agora noto que há muito menos este sentido de mostrar respeito, e que é necessário repetir ordens várias vezes (não quero, contudo, dizer, que as crianças são mal-educadas, nada disso), apenas que têm mais a necessidade de questionar e fazer frente quando alguém lhes dá uma ordem, o que nem sempre é bom, e por isso há castigos, quando se recusam a fazer algo. Para além disso, quando era pequena, levávamos puxões de orelhas se não fizéssemos algo que nos mandaram, ou fôssemos avisados para estar quietos (agora as crianças também são muito irrequietas em sala de aula), e isso fez-nos crescer de uma forma a vermos limites no nosso papel, mas são coisas que agora não se podem fazer (mesmo que fosse uma aprendizagem para alguns). Apesar de tudo, também noto que são mais sonhadores do que nós, com isto quero dizer que, não têm medo de sonhar mais alto, como “ser astronauta” ou “uma atriz de sucesso em Hollywood”, e são mais despertos para tudo o que é tecnologia também.

 

Que mensagens podem transmitir aos jovens que ainda carregam mochilas cheias de sonhos?

Cristiana- Que mantenham sempre essa criança cheia de sonhos perto deles, é isso que nos dá mais força quando crescemos… fazer as coisas pela criança que um dia sonhou aquilo que nós estamos a viver. E, pegando nas palavras de Walt Disney “If you can dream it, you can do it”, “Se o podes sonhar, então consegues fazê-lo”, vivendo os dias a construir o futuro que imaginámos quando éramos crianças com as mochilas carregadas de livros e sonhos.

Letícia- Que nunca deixem de sonhar e de lutar por aquilo que querem. Nem sempre vai ser fácil e ainda vão passar por muitos obstáculos e sacrifícios que terão de fazer ao longo do caminho para atingir aquilo que querem, mas no fim, vai tudo recompensar. Continuem com essa magia que é característica de cada um de vós e não se esqueçam de sorrir e ser feliz.