O nosso convidado de hoje para mais uma reflexão sobre o teatro profissional em Gaia é o encenador José Leitão, fundador e diretor artístico do Teatro Art’ Imagem, estrutura profissional nascida em 1981, na cidade do Porto. Nessa qualidade, dirige igualmente o festival Fazer a Festa, o terceiro mais antigo do país, desde 1982, e o Festival Internacional de Teatro Cómico da Maia desde 1994, assumindo atualmente a programação do Auditório da Quinta da Caverneira, em Águas Santas.

Assinou, até ao momento, a encenação e a dramaturgia de mais de quatro dezenas de espetáculos produzidos pelo Art’Imagem e colabora regularmente com outras estruturas profissionais e grupos amadores e escolares. A sua iniciação ao teatro aconteceu nos anos 1960, nos palcos amadores, como ator, função que desempenhou ininterruptamente até 1991 e a que muito esporadicamente ainda regressa, nalgumas produções do Art’Imagem.

Atualmente, para além dos seus trabalhos de encenação e dramaturgia, o nosso convidado percorre boa parte dos países dos cinco continentes, para assistir a espetáculos e participar em colóquios nos mais diversos festivais e feiras de teatro, para além de dirigir ações de formação em associações de portugueses em França, de jovens europeus em Bona e em centros culturais no Brasil. O seu destino de retorno é sempre a Maia, onde o Teatro Art’ Imagem tem um espaço de criação desde 2008.

 

Num concelho como Vila Nova de Gaia, com tantas e tão grandes tradições a nível amador, como se pode explicar a sua pouca oferta de teatro de profissional? 

É de facto inexplicável e pergunto-me também porquê, até porque habito há cerca de 15 anos no concelho, para as bandas de Miramar. Acompanho regularmente as sessões de bom cinema que quase semanalmente a Câmara Municipal de Gaia proporciona e bem, gratuitamente para os idosos como eu, no Auditório Municipal e no Cine Teatro Eduardo Brazão, em Valadares, e outras manifestões artísticas como as Artes Plásticas (a Bienal), Música, Festival de Novo Circo, em Arcozelo, entre outras. Depois do TEP [Teatro Experimental do Porto] ficou um vazio terrível e os gaienses só esporádicas vezes têm oportunidade de assistir a teatro profissional no concelho, e se não fosse a atividade do Armazém 22 à beira-rio nem isso teria, o que lamento muito. Soube de algumas tentativas que esbarraram no desinteresse da autarquia por esta arte maior e que, felizmente, continua bem viva nas coletividades amadoras, que com muitas dificuldades continuam a tradição.

 

Será que esse desinteresse revela apenas o gosto pessoal do presidente da Autarquia e uma pouca sensibilidade da vereadora da Cultura para as artes de palco?

Do que sei, do que ouço, receio bem que sim, o que lamento, mas na verdade nunca tive nenhum contacto direto com eles. Pena é que os outros órgãos autárquicos e forças políticas do concelho não tenham força, não queiram ou não possam inverter esta situação num dos municípios mais importantes do país.

 

Será que, mesmo para quem tenha uma visão muito economicista da cultura, o teatro não poderá ser um importante instrumento de desenvolvimento das cidades?

Viu-se o que foi o desastre cultural que varreu o Porto durante os mais de dez anos, de 2002 a 2013, quando Rui Rio foi presidente da Câmara Municipal do Porto, e que ainda hoje não foi debelado, apesar de todas as mudanças. Quem responde com a máquina de calcular e faz contas de subtrair quando se fala de cultura ou arte não pode cumprir nem o presente nem o futuro e não dignifica a herança histórica e cultural de uma cidade.

 

Esperemos que a política “cultural” desenvolvida por Rui Rio no Porto não seja mimetizada por muito mais tempo nesta margem do Douro…

O teatro, talvez a arte mais humana e coletiva que o Homem inventou, acompanha a história da nossa condição e ao vivo e em comunhão reflete e questiona o tempo que se vive. Não existindo teatro profissional em Gaia, devidamente apoiado pela autarquia, os seus habitantes estão cerceados de uma das mais importantes artes, um dos instrumentos fundamentais para o seu desenvolvimento intelectual e cívico. O teatro só existe onde há civilização, cito Garrett. Em Gaia, ela não existe, enquanto preocupação do seu presidente e executivo autárquico, o que não augura bom futuro. A capital do teatro de amadores bem merece que o teatro profissional exista e com eles coexista, para bem do teatro como arte.

 

Absolutamente de acordo. Mas uma aposta no teatro profissional pode também representar a geração de novas formas de criação de valor económico, não concorda?

Claro. A existência de espetáculos de teatro profissional, e mesmo de estruturas locais profissionalizadas, geram novas dinâmicas de desenvolvimento económico e social, de mudanças e novas necessidades, que animam negócios e geram novas centralidades. E, por outro lado, permite a descoberta de interessados e novos espectadores que terão oportunidade de, no seu próprio município, usufruírem de bons espetáculos, enriquecendo e diversificando a oferta cultural e permitindo-lhes patamares de melhor cidadania.

 

Se o investimento no teatro profissional em Gaia voltar a ser uma realidade, como deve ser gerido o Auditório Municipal? Deve integrar uma companhia residente?

Pois, eu acho que sim, através de um protocolo assinado com a Câmara Municipal de Gaia, onde se preveja que a companhia,  além de apresentar os seus espetáculos, assegura ações de formação, uma ligação forte com a comunidade e se possível com as escolas e com os grupos amadores, promovendo também um programa anual de acolhimento de outras companhias de teatro nacionais e estrangeiras. Gaia dispõe de outras salas municipais e espaços associativos que podem receber também outros espetáculos de grupos locais, tanto amadores como profissionais. Isto, claro, com apoio da respetiva autarquia. Decididamente, sou um homem de companhia, do coletivo, e apologista da existência de um maior número possível de teatros municipais ou intermunicipais a funcionar como centros dramáticos, a exemplo do preconizado por Jean Vilar [uma das figuras mais influentes no teatro francês contemporâneo, fundador do festival de Avignon e pioneiro da descentralização teatral]. As companhias têm sido a espinha dorsal do teatro português, apesar de uma certa contemporaneidade ser individualista, de projeto. E apesar também de todos os governos tentarem neutralizar e destruir as companhias, por temerem a força do trabalho continuado e de grupo, a sua história e influência, bem como os espectadores que estas têm consigo. São as companhias  bem organizadas que melhor podem fazer um verdadeiro trabalho de serviço público e melhor sabem gerir sinergias. A verdade é que se não existissem as companhias, o país só via teatro profissional com regularidade nas Grandes Lisboa e Porto e pouco mais.

 

A programação teatral em Gaia, face à proximidade do Porto, deve ser mais alternativa, isto é, mais experimental, priorizando a pesquisa, a mistura de géneros, linguagens, estéticas… ou, pelo contrário, deve ser mais popular e genérica?

Gaia não tem praticamente teatro profissional, pelo que o mais importante neste momento é que ele passe a ter, pelo menos, um apoio regular da autarquia. Para já, o concelho carece de um programa estruturado de relançamento da atividade teatral, que terá de ser pensado com os grupos e artistas locais, e eventualmente também com o envolvimento do meio teatral da região. Essencial e urgente é que o teatro profissional volte com regularidade a Gaia. Há que ter vontade de começar para se abrir um caminho e começar esse caminho. Só assim se poderá escolher o que fazer. De momento não me atrevo a ir mais longe.

 

O que se faz na Maia pode servir também de exemplo para Gaia. A propósito: quais são as principais novidades do Teatro Art’ Imagem para esta nova temporada?

Antes do protocolo que desde meados dos anos 1990 o Teatro Art’Imagem tem assinado com a Câmara Municipal da Maia (CMM), e que foi evoluindo ao longo destes anos, não havia qualquer companhia na Maia e era bastante rara a presença do teatro profissional na cidade antes da inauguração do Fórum e de outras salas de teatro. E nem o teatro de amadores alguma vez teve a força, popularidade e qualidade que alcançou em Gaia, onde uma boa parte dos grupos tinha encenadores e atores profissionais que com eles trabalhavam e entretanto o TEP muda-se para lá e tem intensa atividade e colaboração com as escolas e amadores. Na Maia, só com o [Festival Internacional de Teatro] Cómico, que este ano fez a sua 25ª. edição, e com as Oficinas que o Teatro Art’Imagem começou a organizar para o espetáculo de abertura, aproveitando também a existência já de um movimento de grupos de teatro nas escolas que a CMM apoiava, foi possível a colaboração estreita entre nós e a autarquia,  com a abertura formal da Oficina de Teatro da Maia, sendo a nossa atividade bastante intensificada no concelho, embora ainda com sala própria no Porto. A nossa ida definitiva para a Quinta da Caverneira e a colaboração estreita e colaborativa entre nós, fez com que a Maia tivesse um programa regular de teatro profissional, recebendo companhias nacionais e estrangeiras, e um dos mais importantes festivais internacionais portugueses em termos de participação de companhias estrangeiras e em número de espectadores, para além de um festival anual de teatro de amadores e meia dúzia de grupos de amadores e escolares,  a que acresce 4 oficinas de teatro de crianças, jovens e seniores, que movimentam anualmente cerca de 15.000 espectadores e dezenas de formandos e atores amadores, dinamizados pelo Teatro Art’Imagem em colaboração com a CMM. Se algum exemplo pode vir desta experiência, é o do trabalho sério e colaborativo entre o poder autárquico e agentes culturais, cada qual na sua esfera, que permitiu que até agora a parceria venha funcionando bem. Sobre a pandemia e a atualidade do Teatro Art’Imagem, estamos a preparar uma nova peça de teatro, com distanciamento Covid, para estrear em novembro, dado que a última, “O Desastre Nu”, de António Aragão, só teve um dia de representação, precisamente o da estreia, imediatamente antes de terem sido interditadas as salas de teatro, por não ser possível nas atuais condições apresentá-la. Do nosso repertório, das cinco peças que andavam em digressão, só uma, vai ser readaptada, “Armazenados”, aliás estreada em Gaia, na primeira edição do Festival de Teatro José Guimarães, em finais 2018, e que ainda está em cena. Recentemente conseguimos realizar o Fazer a Festa número 39, que tinha sido adiado, e o Festival Internacional Cómico que correu no início deste mês de outubro.

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