“ESTA VIAGEM ENSINOU-ME A SER UMA PESSOA MELHOR”

Depois de um AVC e ter ficado com uma paralisia facial do lado esquerdo, Henrique Pereira, mais conhecido nas redes sociais como Riicky Odissey, decidiu deixar o emprego nos CTT, o conforto e a rotina para trás, e partir rumo a uma experiência única. Saiu de Guimarães a 5 de outubro de 2023, e, a pé, já percorreu mais de 11 mil km até à Ucrânia, onde se encontra atualmente. Ao todo, já percorreu 24 dos 42 países previstos, tornando-se assim um exemplo ao ser o primeiro português a percorrer a Europa a pé. Apesar de admitir que esta é uma experiência única e que o está a tornar uma pessoa melhor, Henrique Pereira também dá conta das dificuldades durante a aventura, desde o cansaço e frio, até assaltos e um atropelamento.

 

Quem é Henrique Pereira?

Sou um jovem de Guimarães, conhecido como Riicky Odissey nas redes sociais, que decidiu trocar a rotina pela estrada. Sou um aventureiro e criado de conteúdos focado em mostrar que os limites físicos e mentais podem ser superados com resiliência.

O que o levou a fazer esta aventura?

Além do desafio de ser o primeiro português a percorrer a Europa a pé, move-me uma vontade profunda de aprender sobre novas culturas, provar gastronomias diferentes e viver o dia a dia de cada povo de uma forma que só o caminho a pé permite.

Quando começou e por quantos países já passou?

Saí de Portugal a 5 de outubro de 2023. Atualmente, encontro-me na região de Kiev, na Ucrânia, tendo já percorrido 24 dos 42 países previstos no meu roteiro e 11.300km atualmente.

Quantos países ainda faltam percorrer?

Faltam percorrer 19 países do plano inicial. No entanto, devido ao contexto de guerra, a passagem pela Finlândia, Suécia e Noruega está condicionada ao estado das fronteiras. Se não conseguir passar agora, esses países tornar-se-ão o foco de uma nova odisseia pela Escandinávia no futuro.

Quais as maiores dificuldades que tem experienciado?

O isolamento e o frio são constantes, mas a segurança tem sido o maior teste. Já enfrentei situações de perigo real, desde o cansaço extremo até momentos de confronto físico e insegurança em zonas de conflito ou de maior criminalidade.

Tem algum apoio?

O meu suporte principal é a comunidade que me acompanha nas redes sociais, os meus pais já me ajudaram assim como os meus seguidores com doações, mas de momento apoio oficial não tenho nenhum.

Quais os momentos ou experiências que já leva desta viagem?

Levo comigo um conhecimento muito mais profundo sobre o meu próprio corpo e os meus limites. Esta viagem ensinou-me a ser uma pessoa melhor e a dar um valor imenso às pequenas coisas da vida que antes passavam despercebidas.

Como tem sido recebido nos diferentes países?

Tem sido uma experiência de contrastes. Enquanto em muitos sítios ou quase todos a hospitalidade foi incrível, noutros vivi momentos muito duros: fui atropelado em França, assaltado na Hungria e enfrentei a frieza de pessoas na Eslováquia. Na Macedónia do Norte, cheguei a sofrer seis tentativas de assalto. Apesar disso, o balanço geral é de uma aprendizagem valiosa.

Do que sente mais falta?

Honestamente, não sinto falta de nada. Sinto-me plenamente livre. Estou a conhecer países, culturas e a aprender constantemente. Apesar de não ter o conforto de uma casa, a estrada dá-me tudo o que preciso. Na verdade, sinto é um certo receio de que a aventure acabe aos poucos, porque esta vida de descoberta é algo que não quero deixar. Enquanto a família falo com ela basicamente a diário.

Voltando para Portugal sente que será um homem diferente? Em que sentido?

Com certeza. Regressarei com uma resiliência inabalável e uma gratidão renovada. A estrada obriga-nos a crescer e a ver o mundo sem filtros, tornando-nos mais humanos.

Se tivesse de escolher um momento até agora que mais o marcou, qual seria?

É difícil escolher, mas guardo com muito carinho um momento recente na Ucrânia: passei a noite em casa de um casal de 66 anos que passei a considerar os meus “avós ucranianos”. É impressionante como se criou uma ligação tão forte e genuína em poucas horas. A despedida, em lágrimas, foi um dos momentos mais marcantes de toda a viagem.

Após esta aventura terminar, o que pretende fazer?

O objetivo é concluir este desafio europeu. Se a situação geopolítica não permitir completar a Escandinávia agora, essa será a minha próxima grande missão. Quero continuar a inspirar outros através da minha jornada e continuar aprendendo e descobrindo.

Que mensagem gostaria de deixar a quem o segue e lê esta entrevista?

Não esperem pelo momento certo para realizar os vossos sonhos. O caminho é difícil e nem sempre somos bem recebidos, mas a evolução pessoal que ganhamos compensa cada quilómetro percorrido.

Como reagiu ao saber que será reconhecido pelo AUDIÊNCIA após o seu regresso que está previsto para 2028?

É uma motivação extra saber que a minha história está a chegar a Portugal. Esse reconhecimento dá-me força para continuar a caminhar, mesmo quando os obstáculos parecem intransponíveis.