Natural de Vila Seca de Poiares, Vila Real, Cláudia Madeira perseguiu o sonho de se tornar fadista. O AUDIÊNCIA esteve à conversa com a artista da Régua na Casa do Bacalhau, em Ponta Delgada, onde atuou pela terceira vez.

A última vez que nos encontrámos foi em 2008. De 2008 até hoje, o que é que andou a fazer?

De 2008 até hoje já trabalhei na Praça da Alegria, no programa da RTP1, como uma das vocalistas da banda da Praça; gravei dos trabalhos de fado: o primeiro “Fado fora de Portas” em 2012 e o segundo “Caminho” em 2019; já tive três filhos e já corri muitos sítios como os Estados Unidos da América, Canadá, China, Suíça, França… o fado deu-me uma oportunidade fantástica e tem-me levado a sítios fantásticos.

Em 2008 o fado andava um pouco escondido.

Não. O fado andava escondido no sentido de que tinha concorrido ao programa Operação Triunfo e os castings que fiz foi como fadista, mas a partir do momento em que entro no programa como concorrente, quem escolhe os temas é a produção. Só numa gala é que pude cantar fado e depois foram-me atribuídos outros estilos musicais. Mas sempre fiz questão de dizer que o meu caminho era o fado. Aceitei a proposta para estar como cantora de uma peça de Revista à Portuguesa, em que também só havia um fado, e havia músicas populares, baladas, e aquilo que se pode ver numa peça de revista portuguesa.

Mas o seu “Caminho” só aparece em 2019.

Eu gravo primeiro o “Fado fora de Portas” porque era e é uma expressão que se usava e ainda se usa em Lisboa quando perguntam “onde vais cantar hoje?” e a resposta é “hoje vou para fora de portas”, ou seja, para fora de Lisboa. Eu sendo transmontana, os músicos que gravaram para mim de Lisboa e o poeta que escreveu os poemas do Algarve, pensei “não há nada mais fora de portas do que este disco”. Em 2019 gravo “Caminho” porque decidi passar para um álbum todos os fados que fizeram o meu caminho desde que comecei até agora. Todos têm uma história. Canto-os porque há um porquê, há uma história ligada a cada um dos 12 temas. Ou são dedicados a alguém ou explicam uma história e uma parte da minha vida, inclusive “Olhos negros”, que faz parte do cancioneiro dos Açores. Foi um tema que sempre quis gravar. Foi aqui na Casa do Bacalhau que me disseram que a Amália Rodrigues queria ter gravado esse tema mas faleceu antes e eu disse “vou gravar «Olhos negros»”, até porque tenho três filhos e os três têm magníficos olhos negros.

Será que “Caminho” acontece numa altura em que está segura do seu caminho?

Também. Nós (músicos, cantores, fadistas…) quando gravamos um trabalho, passado meio ano já não o conseguimos ouvir. Eu sou igual. Costumo dizer que era muito “verdinha” em 2012. Não fui eu quem escolheu os temas todos, não me sentia confortável a cantar alguns temas… aliás, houve temas que nunca cantei ao vivo porque não me identificava. Em 2019 pensei “não, tenho que gravar um álbum de fados tradicionais”. Gosto de fados tradicionais e de fados tristes. Costumo dizer que aprendi muito com a minha tristeza. Mas sim, senti-me segura e senti que eram aqueles temas que queria gravar.

Os “Olhos negros” que também gravou, foram olhos que se tornaram encantados, porque foi aqui que algo aconteceu…

É verdade. Conheci o meu marido na Casa do Bacalhau, onde estamos hoje. Não estava à espera de me apaixonar. Aliás, tinha estado aqui em novembro de 2017 com outro guitarrista de Lisboa, que é o Zé Duarte, casado com a fadista Clara Picado. Na altura o Carlos Almeida, aqui da Casa do Bacalhau, tinha-me dito para agendarmos já uma data para 2018, mas nunca pensei que fosse janeiro. Passa o Natal, passa o Ano Novo, e o Carlos liga-me a dizer que precisava que eu substituísse a fadista que lá ia porque estava rouca e não conseguia cantar. Tinha que estar nos Açores no dia seguinte. Não havia outra hipótese e disse que sim. Perguntei quem era o guitarrista e ele disse-me que era de Lisboa, o Sandro Costa. Nós éramos amigos há anos no Facebook, mas eu nem sonhava que havia um Sandro Costa guitarrista no meu Facebook..

Venho para os Açores num voo do Porto, que chega atrasado. Só tive tempo de cumprimentar as pessoas, mudar de roupa, conhecer os músicos com quem ia tocar e começarmos a noite de fados.

Houve logo uma empatia muito grande. Para já porque é muito bem disposto e também porque (não é por ser meu marido) é um dos melhores guitarristas, está no top três de guitarristas de fado, e depois porque ele também era divorciado e acho que posso contar o “clique”. Acabámos a noite de fados, que foi um sucesso. O Carlos até me disse que não compreendia como é que quando vinha cá cantar em vez de as pessoas irem embora às 11 da noite, ficavam até uma da manhã à espera que eu cante. Eu disse “não compreendes porquê? Não canto mal!” e ele disse que com outros artistas acontece que os clientes vão indo embora e a casa vai ficando vazia.

Acabámos a noite de fados e estivemos aqui um pouco. Há aqui um fadista de Lisboa que saiu connosco e acompanhou-nos até ao hotel, o Marco Costa. Ele estava a contar que também estava divorciado e o problema é os filhos… ou seja, estavam três divorciados a falar. O Sandro virou-se para ele e disse “eu não posso escolher gostar da minha ex-mulher ou não, mas se Deus me dissesse «tens aqui a oportunidade de carregar num botão vermelho e se fores lá carregar, o tempo volta para trás e eu prometo que vais ser sempre feliz com a mãe da tua filha», eu carregaria nesse botão vermelho e voltava atrás. Eu achei isso bonito porque era mãe de dois filhos, divorciada, e achei que isso vindo de um homem era bonito. Portanto, só podia ser boa pessoa. Foi assim que me apaixonei. Entre fados e coisas sérias.

Já lançou dois trabalhos. Quanto tempo mais precisa para construir um novo reportório para gravar?

Nós já estamos a tratar disso. Eu resolvi que “Caminho” iam ser 12 temas que contassem partes da história da minha vida, os 12 temas são fados tradicionais tirando “Olhos negros”, mas são tristes. Então decidi que durante o inverno há que trabalhar “Caminho” porque há viagens marcadas para fora, e entre esse espaço de tempo, vou escolher um reportório de fados alegres para começarmos a gravar em 2020.

Mas não se identifica tanto com fados alegres.

Não. Mas eu tenho que me convencer que se aprendi muito com a minha tristeza, a minha vida também tem muitos momentos alegres. Também há pessoas que não gostam de fados tristes e outras não gostam de fados alegres. No fundo é agradar “gregos e troianos”.

O que é que hoje vai presentear o público?

Vou presenteá-los com temas do “Fado fora de portas” e do “Caminho”. Por norma não sigo um reportório. Sou incapaz de ir para o palco com uma folha e seguir aquilo. Gosto de ler o público durante o espetáculo e perceber se tenho de cantar um fado menor ou se tenho que cantar “A Casa Portuguesa”. Isso é uma coisa que vou trabalhando durante a noite. No início eu fazia isso e dizia “vamos cantar 17 temas” e quando íamos a meio já tinha trocado tudo… quando se está com músicos que estão habituados a tocar fado todos os dias é fácil fazer isso. Não há ensaios nem nada.

O gosto pelo fado cresceu com o seu pai.

Sim. Sem dúvida. A paixão que ganhei pelo fado, devo-lhe a ele.

Quando é a primeira vez que entra num projeto mais ou menos a sério?

Andei sempre a cantarolar, mas a primeira vez que entrei num projeto a sério foi na Operação Triunfo em 2007, ou seja, a terceira edição do programa.

A sua vida foi sempre música?

Vendi colchões durante 10 anos numa loja de revenda de colchões. Não tanto ligada para o cliente final, mas para a revenda.

Para alguém que pretende seguir a via artística, sabendo que tudo ou quase tudo ocorre em Lisboa, é quase não ter esperança de vir a conseguir aquilo que se sonha.

Eu sempre tive essa esperança. Aliás, conto muita vez esta história: lembro-me de ter cerca de 10 anos e estar na sala a ver televisão. Os filmes que davam ao domingo à tarde eram todos passados em Nova Iorque. Eu sempre disse “um dia vou ali”.

Quando pergunto isto, que é difícil, é porque estou a lembrar-me de uma Gala Audiência em que participou. Estava alguém na primeira fila que ficou impressionadíssimo com a sua voz e disse-me “tenho pena de não poder levá-la para Lisboa porque o que pagamos aos artistas não é recompensador para quem tem de se deslocar de armas e bagagens”. Só por isso é que nesse dia não recebeu um convite para estar no Parque Mayer.

Eu soube disso. É assim, mudei-me para Lisboa há muito pouco tempo e continuo entre Lisboa e Porto. Primeiro porque tenho uma paixão muito grande pela cidade do Porto. Costumo de dizer que se já tive outras vidas, se isso existe, eu já fui do Porto. Não é que Lisboa seja melhor ou pior, é que consigo ver um encanto diferente na cidade do Porto e nas pessoas do Porto, embora esteja cheia de turismo. As pessoas de lá, as pessoas que fizeram a cidade do Porto, são pessoas (quero lá saber se dizem asneiras!) puras e genuínas. Gosto de lidar com gente assim. Ainda hoje estava a maquilhar-me e o meu marido olhou para o espelho e disse “cá está a verdadeira”. Eu respondi “não, não, a verdadeira é aquela com quem tu andaste hoje todo o dia de calções e de t-shirt, sem maquilhagem e toda despenteada, esta é a artista e são as duas verdadeiras!”.

A artista sonha com os coliseus?

Não, de todo. O meu sonho vai mais além. Gostava que as pessoas se lembrassem da minha voz e do meu nome depois de morrer. Gostava de ter um nome numa rua da minha aldeia. São os meus dois desejos.

Quando regressa à sua aldeia, o que é que dizem?

Vêm todos dar-me um beijinho. “Olha a nossa fadista, a nossa artista!”. Hoje toda a gente me diz “tu bem dizias que ia ser fadista”. Pois é… e orgulham-se porque eu nunca escondi de onde sou. Posso morar no Japão, mas as minhas raízes são dali. Fiz-me menina e mulher ali, mas tive de sair para me concretizar e para ir atrás daquilo que queria.

O fado hoje é a sua vida?

Completamente. Gosto de cantar para os meus filhos. Tenho a sensação de que não seria boa mãe se não fosse fadista. Quero transmitir-lhes a mensagem que eles podem ser aquilo que quiserem, só têm que lutar por isso.

A sua mãe ficou desiludida porque pensava que ia tirar um curso superior. Foi apoiada pela sua família?

A minha mãe foi o meu cavalo de batalha! É verdade. Eu fui apoiada pelo meu pai. Aliás, quando disse ao meu pai que se calhar ia para a faculdade tirar o curso de Direito, ele olhou para mim e disse “com o feitio que tens, não tires curso nenhum, Cláudia”. Agora sou mais calma, mais ponderada… mas eu era daquelas pessoas que o meu pai dizia que deveria ter nascido homem. Não sei porquê, mas ele dizia isso muitas vezes. Mesmo os meus irmãos, tirando o meu irmão rapaz que também gosta de tocar viola e que me vai ver sempre que pode, as minhas irmãs nunca aceitaram muito bem haver uma artista na família. Para algumas pessoas isso não é profissão.

Depois admiram-se: “olha, eu vou dar um churrasco lá em casa, não queres ir cantar uns fadinhos?” e a resposta é “não”. O meu trabalho é ser fadista, não posso oferecer aquilo que tenho para vender.

A minha mãe foi o meu maior cavalo de batalha até há muito pouco tempo. Ela não aceitava que a vida de fadista tenha que me fazer viver de noite. Isso ainda é muito mal visto… ela tem quase 80 anos, nasceu na aldeia, e saiu dali porque a levei a França. Fui fazer um espetáculo a Marselha, e levei-a de avião. Ela ficou deliciada. Aliás, se não houvesse a vindima em breve, teria vindo comigo aos Açores porque já confessou que gostava de vir cá. Mas a nível de fado, há cerca de três anos levei-a a ver um espetáculo meu. Ela gosta e chora… mas depois volta à sua realidade. Eu no palco disse “olha, Mãe, eu vou dedicar-te o próximo fado e ouve bem o que vou cantar porque se tu não entenderes com este fado porque é que vou ser sempre fadista, então nunca vais entender”. Então cantei o fado menor: “minha mãe eu canto a noite/porque o dia me castiga/e é no silêncio da noite/ que eu encontro a voz amiga”. Acho que a partir daí alguma coisa mudou. Houve um clique. Se calhar porque nunca lhe tinha dedicado um fado, dedicava sempre ao meu pai, curiosamente. Em jeito de homenagem e em jeito de lhe agradecer porque eu não sou nada, mas o que sou devo-lhe a ele.

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