JORGE RITA AFIRMA: “CONFIAMOS NA EXCELÊNCIA DOS NOSSOS PRODUTOS”

Em primeiro lugar, que rescaldo faz da participação da Associação Agrícola na Feira Nacional da Agricultura em Santarém?

 Mais uma vez foi uma feira em que nós projetámos a Região Autónoma dos Açores para um patamar bastante elevado em termos de notoriedade, e era esse o objetivo. Foi uma feira da qual nós nunca abdicámos, ainda que muitos não acreditassem, nós acreditávamos e acreditamos que esta era a melhor montra para nós promovermos os produtos dos Açores. Temos a confiança de que temos produtos de qualidade extraordinária, e podemos competir com os outros e com as outras regiões. Só agora alguns deram notoriedade do mesmo, mas já há muitos anos que os Açores se distinguem a nível dos queijos como os melhores queijos nacionais, e também na doçaria com as Queijadas de Vila Franca no caso concreto (e outras que irão ser promovidas da mesma forma). Portanto, tínhamos consciência e confiança de que os nossos produtos naquele certame elevariam os Açores para o patamar acima. Tem sido um trabalho que tem sido feito. Foi um dos espaços que as pessoas mais visitam a nível de ‘stands’. Foram mais de 200 mil pessoas a visitar a feira, o que não significa que as 200 mil tenham passado pelo nosso ‘stand’. No entanto, há uma grande visitação e aceitação por parte do público. Há muitas perguntas feitas em relação aos Açores, mas também já há um grande conhecimento sobre a Região Autónoma dos Açores.

Este ano, sendo o tema da feira o vinho e a vinha, também fazia sentido (e até porque o que estava em demonstração no espaço principal era as vinhas do Douro e de outras regiões, mas sendo o Douro Património Mundial da UNESCO, e tendo os Açores uma vinha Património da Humanidade pela UNESCO) a região estar representada pela vinha do Pico. Sendo eu vice-presidente da CAP (Confederação dos Agricultores de Portugal) entendi que os Açores deveriam fazer-se representar pela ilha do Pico. Fiz o contacto com o Secretário [Regional da Agricultura e Florestas] e com o Presidente do Governo dos Açores no sentido de termos essa possibilidade, que acabou por ser um sucesso. Fizemos uma demonstração de como se produz vinho na ilha do Pico, o que teve muito sucesso por várias razões: uma porque toda a gente que tem que entrar na feira passa naquele espaço, e outra porque o Presidente da Repúblico e o Primeiro-Ministro deram um ênfase muito grande a esta situação da vinha e também aos produtos da Região Autónoma dos Açores no nosso ‘stand’.

O sucesso foi evidente. Era isso que se esperava. O sucesso tem vindo a crescer de tal forma que a expectativa que nós temos é que no próximo ano dê-se ainda mais destaque aos Açores nesta feira. É um trabalho que está a ser feito. Vamos ver nos próximos tempos o desenvolvimento do assunto, sabendo do impacto que a Feira Nacional da Agricultura de Santarém tem. Sendo a agricultura o principal pilar da nossa economia, faz todo o sentido eventos desta natureza serem acarinhados pela Região. Eu como vice-presidente da CAP também tenho essa missão de tentar levar o nome dos Açores o mais longe possível. É isso que a Associação Agrícola tem feito ao longo destes anos sem qualquer tipo de reservas, porque nós confiamos na excelência dos nossos produtos e esperamos que todos o façam da mesma forma e que todos posicionem os produtos dos Açores num patamar acima daquele que está colocado nos mercados, para que a sua valorização tenha retorno.

 O Governo Regional assumiu em plena feira, através do Secretário Regional da Agricultura e Florestas, que a aposta é para intensificar e para o ano, prometeu, o espaço seria mais amplo e dar-se-ia um maior destaque aos Açores. Acredita nesta realidade ou faz parte de uma estratégia eleitoral para o próximo ano de eleições?

O próprio presidente do Governo Regional já esteve em Santarém, já se apercebeu da dimensão da feira, e os secretários também a têm visitado. A nossa expectativa é que, não por o próximo ano ser um ano eleitoral, seja a oportunidade de afirmarmos mais a nível nacional aquilo que é os Açores. Os Açores estão na moda, são uma marca extraordinária que toda a gente conhece e reconhece. Esperamos é que com esta marca, haja também valor acrescentado para a própria Região.

Não podemos continuar a fazer eventos, a dar a notoriedade dos eventos, e que quem esteja por trás, que tem a obrigação de valorizar esses eventos, não faça a sua parte: a parte do mercado, a parte de venda e a parte de valorização.

Muita gente não promoveu os Açores durante muitos anos e nós tentámos fazê-lo, sempre com poucos gastos e pouco exibicionismo. Precisamos é que os produtos tenham uma grande aceitação e que cheguemos ao final a acreditar que a feira teve um sucesso enorme e que a Região esteve bem evidenciada a todos os níveis, num patamar alto de tal forma que as nossas expectativas sejam de que nos próximos tempos os Açores tenham uma afirmação nacional e consiga internacionalizar cada vez mais as nossas exportações.

 O mercado do leite está calmo?

O mercado do leite está estável. A nossa preocupação é a nossa indústria. Não temos conseguido valorização dos nossos produtos a nível final e estamos a delapidar não só a marca Açores, mas um produto de excelência que é o nosso leite e o nosso modo de produção (que é incomparável a qualquer país na Europa). É pena que esse modo de produção só tenha alguma valorização em pequenas exceções, e que no seu todo, a nível da indústria, não se tenha dado o salto para outros mercados que valorizem mais os nossos produtos. Se isso não for feito nos próximos tempos, obviamente que algo terá que ser feito porque não podemos continuar a estar no fundo da tabela com os preços mais baixos da Europa, tendo um dos melhores leites. O nosso leite está no topo em termos de qualidade, mas no fundo em termos de valorização.

 Acha que os açorianos valorizam o setor do leite e da agricultura?

Os açorianos durante muitos anos foram formatados… vou dar um exemplo. Durante muitos anos Rabo de Peixe serviu como bode expiatório de todas as políticas que se fazem em matéria de necessidades “imperiosas”. Quando se fala de crise, fome e problemas, associa-se a Rabo de Peixe. Ficou sempre associada a ser uma freguesia a ser subsidiada por essa razão. A lavoura é um pouco isso. Deu jeito a muita gente (à política e aos políticos) a subsidiação à lavoura. Alguém já questionou os hotéis que estão a ser feitos quanto têm de apoio da Região e da União Europeia? Alguém torna isso público? Mas se nós pedimos um subsídio para a Agricultura, toda a gente sabe quanto é o subsídio. Ainda por cima com a agravante do Secretário atual anunciar o mesmo apoio várias vezes. Se as pessoas não estão atentas ou não sabem, aquilo que pode parecer um milhão, ao fim de 10 vezes anunciado em vários pontos dos Açores, muita gente faz o somatório e diz que a lavoura já tem 10 milhões. Isso incute na sociedade uma certa revolta.

Para já, o que vem para a Agricultura é do orçamento da Agricultura. Nós somos contribuintes líquidos para o orçamento da Região. Nós temos um orçamento próprio. Quando existe uma exceção derivada à seca, por exemplo, sai do orçamento da agricultura. Não sai da Saúde, da Educação, e muito menos dos transportes da SATA e de outros.